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segunda-feira, 6 de abril de 2026

O PASSAGEIRO DE BARBAS

Consta que vestia como um operário,

mas a camisa

imaculadamente branca. O chapéu

de abas largas guardava

o crânio do poeta da democracia.

Cantou sozinho,

percorreu léguas, foi quase vadio.

Na sua bíblia os salmos incitam

à fraternidade, à vida plena.

Cantou a saúde e a bondade,

a rebeldia. Cantou o sexo

naturalmente livre e a América

não gostou.

Acabou os seus dias na casita

em Camden, atafulhada de exemplares

de Leaves of Grass

numa rua miserável, fedorenta.

 

  Isabel de Sá

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

ESTA MANHÃ DE AGOSTO

Nesta manhã de Agosto
encontrei o papel onde tinha escrito
a idade em que Blaise Cendrars
perdeu a mão direita
e fiquei a sentir a dor
que me atormentava. Não tomei aspirina
nem esqueci a tua carta
de ontem, aquele momento
em que dizes eu querer
arrastar-te comigo “para esse universo
onde a vida é trocada por palavras”.

Tenho lido os poetas
da minha geração. Conheço
o primeiro poema, aquele que inaugurou
a vida, também em mim.
Cansada de ir à praia, à piscina,
procuro livros, uma emoção linguística,
o verso desconhecido.
Guardei uma frase de Musil, na caixa
onde tenho os selos, um minúsculo relógio
que decidi não usar.

Não posso viver sem a música de Schubert,
ou aquela peça de Brahms – tudo isto
são palavras, a vida passa-se lá fora,
o Inverno há-de vir e não poderei
totalmente fugir ao desconforto.

Falava-se de As Túlipas
e começo a entender. Esta música,
estas palavras, a morte na dobra do lençol,
meu frio corpo na penumbra, no paraíso inicial
da anestesia. Perdida a razão no inferno
da dor, a cabeça irreal, meu poema
esquecido na margem do sono. A morfina,
as enfermeiras, tudo o que pudesse
polir o tormento.

E hoje acabei
por tomar aspirina, gastar o rosto,
permanecer em casa.

 

Isabel de Sá


terça-feira, 18 de outubro de 2022

DENTRO DAS IMAGENS

Os poemas têm veneno na boca.

 

Na estrada da minha vida

plantei a árvore

sem saber quem era.

 

Em que parte do planeta

há mais ódio? A matéria

erosiva transforma o corpo

e não há regresso. Não

restará um monte de estrume.

 

Em todo o lado

parece que o mundo em desordem

pouco a pouco enlouqueceu

e os homens atam a corda

à espera de que aconteça.

 

São infelizes

mas não o suficiente.

Não sabem dizer

por que se esquecem de amar.

 

Isabel de Sá

terça-feira, 15 de setembro de 2020

MANHÃ DE AGOSTO


Nesta manhã de Agosto
encontrei o papel onde tinha escrito
a idade em que Blaise Cendrars
perdeu a mão direita
e fiquei a sentir a dor
que me atormentava. Não tomei aspirina
nem esqueci a tua carta
de ontem, aquele momento
em que dizes eu querer
arrastar-te comigo «para esse universo
onde a vida é trocada por palavras».

Tenho lido os poetas
da minha geração. Conheço
o primeiro poema, aquele que inaugurou
a vida, também em mim.
Cansada de ir à praia, à piscina,
procuro livros, uma emoção linguística,
o verso desconhecido.
Guardei uma frase de Musil, na caixa
onde tenho os selos, um minúsculo relógio
que decidi não usar.

Não posso viver sem a música de Schubert,
ou aquela peça de Brahms – tudo isto
são palavras, a vida passa-se lá fora,
o Inverno há-de vir e não poderei
totalmente fugir ao desconforto.

Falava-se de As Túlipas
e começo a entender. Esta música,
estas palavras, a morte na dobra do lençol,
meu frio corpo na penumbra, no paraíso inicial
da anestesia. Perdida a razão no inferno
da dor, a cabeça irreal, meu poema
esquecido na margem do sono. A morfina,
as enfermeiras, tudo o que pudesse
polir o tormento.


E hoje acabei
por tomar aspirina, gastar o rosto,
permanecer em casa.


Legenda: capa de «Le Voyage Magnifique» de Franz Schubert imterepretado por Maria João Pires