O concreto, o real, coisas que me comovem.
É sobre os sentidos que
vivo debruçado.
Fácil o que a vista
enxerga.
O resto é-me vedado.
João
José Cochofel em 46º Aniversário
O concreto, o real, coisas que me comovem.
É sobre os sentidos que
vivo debruçado.
Fácil o que a vista
enxerga.
O resto é-me vedado.
João
José Cochofel em 46º Aniversário
46º
Aniversário é o volume nº 20 da Colecção Poetas de Hoje editada pela
Portugália.
A
Urbano Tavares Rodrigues calhou o prefácio do livro sobre a poesia de Cochofel.
«Como Roger Vailland, a
cujo ouvido a palavra patrão ressoava sempre como afronta à sua dignidade de
homem, o autor de 48º Aniversário se rebela contra os hábitos e estereótipos de
servidão, contra a imagem lôbrega de um povode negro trajado, mudo e vencido,
mas dá-se conta, ao mesmo tempo, com honrada noção dos seus limites, daquilo
que lhe assiste ou para que é fadado. Nada repugna mais ao poeta João José
Cochofel do que adornar-se com penachos faustosos, qualquer que seja a cor
dessas galas.
Homem que
sou
no cárcere
que é o nosso,
sei o que
sou,
dou o sangue
que posso.»
Cochofel,
como autógrafo escolheu, do livro, um poema de Rondó:
Canta, ó amargura,
grito fértil do tempo.
Canta sem cessar
pela noite dentro
Não fere os ouvidos,
cantiguinha mansa.
Rói na clausura
O amor do mundo
é um campo aberto.
De bem comigo,
se o tenho perto.
Gostava de tê-lo
na mão como um ovo
quente só de paz
e de um tempo novo.
Mas alheio, adverso,
teço a minha teia,
como um bicho deixa
as patas na areia.
João José Cochofel em 46ºAniversário
Minha alma não chores
baixinho,
escondida,
para
te não verem
a
lamber a ferida
de
cachorro molhado
a
tremer de frio.
Solta
antes um uivo
e
animal bravio
contra
as alcateias
que
a coberto do frio
rondam
as aldeias.
João José Cochofel de Mesto em 46º Aniversário
Meus pés moídos na calçada,
minhas tardes envenenadas de álcoois nos cafés,
e o vazio por dentro
a encher o tédio das horas sem nome.
Tudo isto
- moeda triste
que nem chega a pagar o sol da tardinha
e a poeira de feno que pontilhou de oiro
teu corpo entre trigais.
João José Cochofel
Breve
o botão que foste
e o pudor de sê-lo.
Breve
o laço vermelho
dado no cabelo.
Breve
a flor que abriu
e o sol mudou.
Breve
tanto sonho findo
que a vida pisou.
João José Cochofel em
46º Aniversário