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domingo, 5 de janeiro de 2025

COMEÇOS DE LIVROS


 É domingo e tem chovido todo o dia, acompanhado por um friozinho arrepiante.

Há começos de livros que são soberbos.

O Ano da Morte de Ricardo Reis de José Saramago:

«Aqui o mar acaba e a terra principia. Chove sobre a cidade pálida, as águas do rio correm turvas de barro, há cheia nas lezírias. Um barco escuro sobe o fluxo soturno, é o Highland Brigade que vem atracar ao cais de Alcântara. O vapor é inglês, da Mala Real, usam-no para atravessar o Atlântico, entre Londres e Buenos Aires, como uma lançadeira nos caminhos do mar, para lá, para cá, escalando sempre os mesmos portos, La Plata, Montevideo, Santos, Rio de Janeiro, Pernambuco, Las Palmas, por esta ou inversa ordem, e, se não naufragar na viagem, ainda tocará em Vigo e Boilogne-sur-Mer, enfim entrará o Tamisa como agora vai entrando o Tejo, qual dos rios o maior, qual aldeia. Não é grande embarcação, desloca catorze mil toneladas, mas aguenta bem o mar, como outras vezes se provou nesta travessia, em que, apesar do mau tempo constante, só os aprendizes de viajante oceânico enjoaram, ou os que, mais veteranos, padecem de incurável delicadeza do estômago, e, por ser tão caseiro e confortável nos arranjos interiores, foi-lhe dado, carinhosamente, como ao Highland Monarch, seu irmão gémeo, o intimo apelativo de vapor de família. Ambos estão providos de tombadilhos espaçosos para sport e banhos de sol, pode-se jogar, por exemplo, o cricket, que, sendo jogo de campo, também é exercitável sobre as ondas do mar, deste modo se demonstrando que ao império britânico nada é impossível, assim seja a vontade de quem lá manda. Em dias de amena meteorologia, o Highland Brigade é jardim de crianças e paraíso de velhos, porém não hoje, que está chovendo e não iremos ter outra tarde. Por trás dos vidros embaciados de sal, os meninos espreitam a cidade cinzenta, urbe rasa sobre colinas, como se só de casas térreas construída, por acaso além de um zimbório alto, uma empresa mais esforçada, um vulto que parece ruína de castelo, salvo se tudo isto é ilusão, quimera miragem criada pela movediça cortina das águas que descem do céu fechado».

E obviamente não posso deixar de lembrar o magistral começo de O Fogo e as Cinzas de Manuel da Fonseca:

«Antigamente, o Largo era o centro do mundo.»

Todo este escrevinhar porque neste domingo de chuva, por mor de algo que precisava consultar, peguei em OsNus e os Mortos, grande livro de Norman Mailer, que tem um começo muito bem conseguido:

«Ninguém podia dormir. Mal rompesse a manhã as lanchas de assalto seriam lançadas ao mar e a primeira vaga de tropas cavalgaria a rebentação e atacaria as praias de Anopopei. Em todo o comboio, em cada um dos barcos, os homens sabiam que dentro de poucas horas muitos deles estariam mortos.»

São assim os livros, nossos companheiros de todas as horas.

Ou como escreve José Saramago em A Caverna:

«Felizmente existem os livros. Podemos esquecê-los  numa prateleira ou num baú, deixá-los entregues ao pó e às traças, abandoná-los na escuridão das caves, podemos não lhe pôr os olhos em cima nem tocar-lhes durante anos e anos, mas eles não se importam, esperam tranquilamente, fechados sobre si mesmos para que nada do que têm dentro se perca.»

domingo, 14 de julho de 2024

COMEÇOS DE LIVROS


Os Nus e os Mortos de Norman Mailer.

Um grande livro.

Um bom começo:

«Ninguém podia dormir. Mal rompesse a manhã as lanchas de assalto seriam lançadas ao mar e a primeira vaga de tropas cavalgaria a rebentação e atacaria as praias de Anopopei. Em todo o comboio, em cada um dos barcos, os homens sabiam que dentro de poucas horas muitos deles estariam mortos.»

É verdade que são 703 páginas na edição do Círculo de Leitores mas terá que ser lido.

Deste livro Raoul Walsh fez um filme em mas o livro é que vale a pena.

Tudo se desenrola em torno de uma operação militar no Pacífico, durante a 2ª Guerra Mundial, onde um pelotão é alternadamente comandado por dois homens absolutamente distintos e inconciliáveis: um jovem tenente, culto, idealista e liberal e um sargento duro, intransigente, sádico e frustrado. Um violento choque de concepções antagónicas de comandar homens num teatro de guerra que demonstra a impossibilidade da coexistência do humanismo com a sobrevivência.

António Neves Pedro, o tradutor, numa pequena nota, avisa-nos para a linguagem descarnada sem artifícios literários, no fundo, uma tradução dificílima

Para que conste:

«Todas as personagens e incidentes descritos neste romance são pura ficção, e qualquer semelhança com alguma pessoa, viva ou morta, é simples coincidência.» 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

OLHAR AS CAPAS


Um Sonho Americano

Norman Mailer

Tradução: H. Silva Letra

Capa: João da Câmara Leme

Colecção Contemporânea nº 107

Portugália Editora, Lisboa Setembro de 1968

Passara o último ano separando-me da minha mulher. Fôramos casados mioto ìntimamente, e com frequência muito infelizmente, durante oito anos, e nos últimos cinco procurei evacuar o meu exército expedicionário, aquela força de esperanças, necessidade total, simples desejo viril e dedicação que havia empregado nela. Era uma guerra perdida, e eu queria retirar-me, contar os mortos e buscar o amor noutra terra. Contudo, Deborah era uma grande fêmea, uma leoa de espécie. O rendimento incondicional era o seu único alimento.

terça-feira, 14 de maio de 2019

COMEÇOS DE LIVROS


Comprar livros pelos seus começos, comprar livros pelos seus finais, comprar livros por uma frase, uma página, comprar livros pelas capas, comprar livros, signo diário de quem privilegiado se constitui por ter nascido e vivido numa casa em que havia uma pequena  estante com livros.

Aqui pelo Cais estivemos para apresentar começos e finais de livros, mas depois optámos por Olhar as Capas porque englobava tudo.

Maria Gabriela Llansol, e o começo do seu livro no seu livro Na Casa de  Julho e Agosto:

«O começo de um livro é precioso. Muitos começos são preciosíssimos. Mas breve é o começo de um livro – mantém o começo prosseguindo. Quando este se prolonga, um livro seguinte se inicia. Basta esperar que a “decisão da intimidade” se pronuncie.»

Ocorrem-me, entre tantos e tantos, dois excelentes começos de livros de autores portugueses

O Ano da Morte de Ricardo Reis de José Saramago:

«Aqui o mar acaba e a terra principia. Chove sobre a cidade pálida, as águas do rio correm turvas de barro, há cheia nas lezírias. Um barco escuro sobe o fluxo soturno, é o Highland Brigade que vem atracar ao cais de Alcântara. O vapor é inglês, da Mala Real, usam-no para atravessar o Atlântico, entre Londres e Buenos Aires, como uma lançadeira nos caminhos do mar, para lá, para cá, escalando sempre os mesmos portos, La Plata, Montevideo, Santos, Rio de Janeiro, Pernambuco, Las Palmas, por esta ou inversa ordem, e, se não naufragar na viagem, ainda tocará em Vigo e Boilogne-sur-Mer, enfim entrará o Tamisa como agora vai entrando o Tejo, qual dos rios o maior, qual aldeia. Não é grande embarcação, desloca catorze mil toneladas, mas aguenta bem o mar, como outras vezes se provou nesta travessia, em que, apesar do mau tempo constante, só os aprendizes de viajante oceânico enjoaram, ou os que, mais veteranos, padecem de incurável delicadeza do estômago, e, por ser tão caseiro e confortável nos arranjos interiores, foi-lhe dado, carinhosamente, como ao Highland Monarch, seu irmão gémeo, o intimo apelativo de vapor de família. Ambos estão providos de tombadilhos espaçosos para sport e banhos de sol, pode-se jogar, por exemplo, o cricket, que, sendo jogo de campo, também é exercitável sobre as ondas do mar, deste modo se demonstrando que ao império britânico nada é impossível, assim seja a vontade de quem lá manda. Em dias de amena meteorologia, o Highland Brigade é jardim de crianças e paraíso de velhos, porém não hoje, que está chovendo e não iremos ter outra tarde. Por trás dos vidros embaciados de sal, os meninos espreitam a cidade cinzenta, urbe rasa sobre colinas, como se só de casas térreas construída, por acaso além de um zimbório alto, uma empresa mais esforçada, um vulto que parece ruína de castelo, salvo se tudo isto é ilusão, quimera miragem criada pela movediça cortina das águas que descem do céu fechado».

 Os Cus de Judas de António Lobo Antunes:

«Do que eu gostava mais no Jardim Zoológico era do ringue de patinagem sob as árvores e do professor preto muito direito a deslizar para trás no cimento em elipses vagarosas sem mover um músculo sequer, rodeado de meninas de saias curtas e botas brancas, que, se falassem, possuíam seguramente vozes tão de gaze como as que nos aeroportos anunciam a partida dos aviões, sílabas de algodão que se dissolvem nos ouvidos à maneira de fins de rebuçado na concha da língua.»

E obviamente não posso deixar de lembrar o magistral começo de O Fogo e as Cinzas de Manuel da Fonseca:

«Antigamente, o Largo era o centro do mundo.»

Todo este escrevinhar porque hoje, por mor de algo que precisava consultar, peguei em OsNus e os Mortos, grande livro de Norman Mailer que tem um começo muito bem conseguido:

«Ninguém podia dormir. Mal rompesse a manhã as lanchas de assalto seriam lançadas ao mar e a primeira vaga de tropas cavalgaria a rebentação e atacaria as praias de Anopopei. Em todo o comboio, em cada um dos barcos, os homens sabiam que dentro de poucas horas muitos deles estariam mortos.»

São assim os livros, nossos companheiros de todas as horas.

Ou como escreve José Saramago em A Caverna:

«Felizmente existem os livros. Podemos esquecê-los  numa prateleira ou num baú, deixá-los entregues ao pó e às traças, abandoná-los na escuridão das caves, podemos não lhe pôr os olhos em cima nem tocar-lhes durante anos e anos, mas eles não se importam, esperam tranquilamente, fechados sobre si mesmos para que nada do que têm dentro se perca.»

Foi o que aconteceu com o livro do Norman Mailer.

E, de repente, saltou o começo.

domingo, 19 de janeiro de 2014

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Era de treino que ele gostava, não havia dúvida alguma. Mesmo a organização dos horários de cada companhia originava problemas, mas bons problemas. Era, mal comparado, como resolver problemas de palavras cruzadas. O major acendeu um charuto e olhou pela abertura da barraca, através dos cem metros de selva para o oceano, que lambia delicadamente a areia. Respirou fundo, saboreando o cheiro a peixe que vinha do mar. Esforçava-se o mais que podia, ninguém o podia negar. Uma satisfação cor-de-rosa percorreu-o todo.
Nesse momento teve uma ideia. Podia tornar mais agradáveis as aulas de leitura de mapas com uma fotografia, a cores, de tamanho natural, da Betty Grable em fato de banho, com um sistema de coordenadas desenhado em cima. O instrutor poderia apontar para as várias partes do corpo e pedir:
«Dê-me as coordenadas.»
Mas onde é que iria arranjar uma fotografia de tamanho natural? Podia perguntar ao quartel-mestre, mas diabos o levassem se ia fazer figura de parvo a fazer uma requisição desse género. Talvez o capelão Daves, que era um gajo fixe – mas não, era melhor não lhe perguntar.
Dalleson coçou a cabeça. Podia escrever uma carta ao quartel-general do exército (serviços especiais). Talvez eles não tivessem a Grable, mas qualquer pin-up daria o mesmo resultado.
Era isso. Escreveria ao quartel-general. E entretanto podia comunicar também o facto à secção de Auxiliares de Treino do Ministério da Guerra. Era de ideias como essa que eles andavam à procura. O major estava ali a ver a sua ideia posta em execução em todas as unidades do exército. Esfregou as mãos com entusiasmo.
Podre de chique.

Norman Mailer em Os Nus e os Mortos

Legenda: Betty Grable em fato de banho mas não a cores, como queria o major.

domingo, 10 de novembro de 2013

OLHAR AS CAPAS


Os Nus e os Mortos

Nornam Mailer
Tradução: António Neves Pedro
Círculo de Leitores, Lisboa s/d

SOBRE AQUILO QUE FAREMOS QUANDO SAIRMOS

RED – Levar a mês a mesma chatice de vida que sempre levei. Pois que outra coisa há?
BROWN – Quando chegarmos a Frisco vou receber as massas e apanhar a maior bebedeira que se viu naquela cidade, e depois junto os trapos com uma tipa qualquer, e nada mais faço se não beber durante duas semanas inteirinhas, e depois vou andando devagarinho até Kansas, parando onde me der na gana, e vou à procura da minha mulher, sem ela saber que estou a chegar e faço-lhe uma grande surpresa, trazendo testemunhas comigo, e vou mostrar àquela gente como se trata uma cabra quando um homem anda para aqui desterrado sabe Deus quanto tempo, sem saber quando é que vai apanhar uma ameixa, sempre à espera a suar e a chegar  a conclusões a respeito de si próprio que, palavra de honra, era melhor que um homem ignorasse.
GALLAGHER – Tudo o que sei é que esta espiga tem de ser paga, alguém há-de pagar isto tudo, hei-de arrombar a pinha dos chibatos dos civis.
GLDSTEIN – Oh, estou mesmo a ver, quando chegar a casa. Chego lá de manhã cedo, apanho um táxia na estação central e vou direitinho a nossa casa, em Flatbush, depois subo as escadas, toco à campainha, e a Natalie vai ficar a pensar quem será a essa hora, e vem até à porta. E abre a porta… Não sei, ainda falta tanto tempo.
MARTINEZ – San Antonio, ver a família talvez. Passear um bocado, bonitas  moças mexicanas em San Antonio, grande maço de notas, fitas das condecorações, ir até à igreja, matei muitos estupores de japoneses. Não sei, voltar a listar-me, a tropa é uma trampa mas a tropa é okey. Pagam bem.
MINETTA – Vou ter com todos os safardanas dos oficiais que encontrar fardados e chamar-lhe bilontras a todos mesmo ali na Broadway, e vou pôr a limpo o que é a trampa da tropa.
CROFT – Pensar nisso é perder tempo. Esta guerra ainda vai durar.