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segunda-feira, 8 de junho de 2026

OLHAR AS CAPAS


As Pessoas de Minha Casa

Júlio Conrado

Capa: Antunes

Círculo de Leitores, Lisboa, Novembro de 1984

Falando de homem para homem, isto ´r, de fantasma para fantasma, a massa de que eles se fazem tem que se lhe diga. No dia em que o o professor de Moral me perguntou se habitualmente fazia em privado cócegas na gaita, tinha com certeza um programa intenso: além da obrigação de assistir às aulas, poderia ter de declamar um soneto da minha autoria ou uma estrofe de Os Lusíadas, apalpar o cu à miúda da Cruz Quebrada, dizer olá, de longe, à minha querida, ouvir ressonar em inglês, jogar à bola – integrava a equipa da Linha, rival número um da de Lisboa – ouvir uma história edificante de elogio à pobreza, espreitar a vizinha, comer em pensamento, Liberta, devorar a Beta Humana, espremer-me em conformidade.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

POSTAIS SEM SELO


Há tempos o professor Olívio perguntou-me:

- Que esperas vir a ser quando fores crescido?

- Revisor de comboios – respondi.

O professor Olívio não foi capaz de esconder a sua surpresa:

- E por quê, não me dirás?

- Para me fartar de andar de comboio. Não é maravilhosos viajar durante o dia inteiro?

 

Júlio Conrado em O Deserto Habitado 

sábado, 20 de janeiro de 2024

OLHAR AS CAPAS


A Felicidade Antes de Abril

Júlio Conrado

Capa: Armando de Melo

Parceria A.M. Pereira, Lda, Lisboa, Setembro de 1976

Na sua corrida alucinante a cento e vinte quilómetros horários rumo à fronteira, António e Sebastião passaram por uma coluna de blindados que se dirigia para Lisboa.

Passaram por ela com o coração muito apertado e respiraram fundo, aliviados, quando a deixaram bem para trás.

Não sabiam que essa era a madrugada de 25 de Abril de 1974.

terça-feira, 3 de maio de 2016

OLHAR AS CAPAS


O Deserto Habitado

Júlio Conrado
Capa: Dorindo de Carvalho
Prelo Editora, Lisboa, 1974

Há tempos, o professor Olívio perguntou-me:
- Que esperas vir a ser quando fores crescido?
- Revisor de comboios – respondi.
O professor Olívio não foi capaz de esconder a sua surpresa:
- E por quê, não me dirás?
- Para me fartar de andar de comboio. Não é maravilhosos viajar durante o dia inteiro?
Se calhar respondi assim porque só vou à capital uma ou duas vezes por ano. Esplêndida aventura, a de me deslocar no comboio eléctrico tão veloz, tão limpinho, tão diferente do correio ronceiro e carvoento da minha terra. Que sensação estupenda, quando à saída de Caxias, deslizo vertiginosamente ao lado do Tejo e quase lhe toco as águas. O comboio transforma-se num navio que corre, corre, corre, isto é, navega, serpenteia aqui, serpenteia acolá, rechaça o ímpeto das vagas que nos dias de temporal se atiram, à falsa fé, contra a muralha e depois contra ele. Admiro a força das ondas mas comparo-as um pouco à brutalidade do Artur. É por isso que nesses dias esmago o nariz e a boca contra a vidraça da janela (visto conhecer a grotesca feição que aparece ao lado de fora) para troçar delas ao Vê-las bravas. Logo que chega à Cruz Quebrada o meu barco passa de novo a ser o meu comboio.