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quinta-feira, 26 de junho de 2025

NÃO ENTRES DOCILMENTE NESSA NOITE SERENA

Não entres docilmente nessa noite serena,
porque a velhice deveria arder e delirar no termo do dia;
odeia, odeia a luz que começa a morrer.

No fim, ainda que os sábios aceitem as trevas,
porque se esgotou o raio nas suas palavras, eles
não entram docilmente nessa noite serena.

Homens bons que clamaram, ao passar a última onda, como podia
o brilho das suas frágeis ações ter dançado na baia verde,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E os loucos que colheram e cantaram o vôo do sol
e aprenderam, muito tarde, como o feriram no seu caminho,
não entram docilmente nessa noite serena.

Junto da morte, homens graves que vedes com um olhar que cega
quanto os olhos cegos fulgiriam como meteoros e seriam alegres,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E de longe, meu pai, peço-te que nessa altura sombria
venhas beijar ou amaldiçoar-me com as tuas cruéis lágrimas.
Não entres docilmente nessa noite serena.
Odeia, odeia a luz que começa a morrer.

Dylan Thomas

Tradução: Fernando Guimarães

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

OLHAR AS CAPAS


As Palavras da Tribo

Antologia pessoal de poemas dos autores

Fernando Guimarães

Mário Cláudio

Nuno Júdice

Pedro Tamen

Desenhos de José Guimarães

Quetzal, Lisboa 1985

 

Não tenho para ti quotidiano
mais que a polpa seca ou vento grosso,
ter existido e existir ainda,
querer a mais a mola que tu sejas,
saber que te conheço e vai chegar
a mão rasa de lona para amar.

Não tenho braço livre mais que olhar
para ele, e o que faz que tu não queiras.
Tenho um tremido leito em vala aberta,
olhos maduros, cartas e certezas.

Neste comboio longo, surdo e quente,
vou lá ao fundo, marco o Ocupado.
Penso em ti, meu amor, em qualquer lado.
Batem-me à porta e digo que está gente.

 

Poema de Pedro Tamen.

domingo, 28 de janeiro de 2024

OLHAR AS CAPAS


Jorge de Sena Vinte Anos Depois

Edições Cosmos, Lisboa, Março de 2001

 A Câmara Municipal de Lisboa organizou, através das suas Bibliotecas Municipais, um Colóquio para assinalar os vinte anos da morte de Jorge de Sena. As actas deste Colóquio deram origem ao presente volume. Integrado neste encontro tiveram lugar outras manifestações como o visionamento dos filmes «Os Salteadores» de Abi Feijó, e «Sinais de Fogo», um recital de poesia dita por Luís Lucas, música tocada por Nuno Vieira de Almeida, baseado no livro «A Arte Da Música», livro de Jorge de Sena publicado em 1968 e mais tarde incluído em «Poesia II» editado em 1988.

Colaborações, entre outros:

Joaquim-Francisco Coelho, Almeida Faria, Fernando Guimarães, João Rui de Sousa, Eugénia Vasquies, Luís Francisco Rebello, Jorge Fazenda Lourenço, Eugénio Lisboa, José-Augusto França.

«À morte de Jorge de Sena, em 1979, fiz uma aula de História da Arte na minha Universidade, com a leitura deste poemas, uns atrás dos outros, e projecção das obras referidas – e foi,  assim somente, uma lição com certeza mais útil do que todas  as mais que dei na minha cadeira. Pela emoção intelectual e sensitiva que nenhum outro poeta português poderia assim provocar, em conhecimento vivido ou convivido, de obras de arte ao longo de mais de dois mil anos…»

 

Do texto de José Augusto França.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

MORTE


Sabemos que de todas as sementes
é a mais pesada. Havemos de esperar
por ela. Acolhemo-la e nada
podia ser tão nosso. Compreendemos
que no seu interior talvez exista
a última seiva, o rumor de outra
germinação para que fique
junto dela. Descai silenciosa
e devagar. A terra é o nosso corpo.


Fernando Guimarães em Resumo: a poesia em 2010