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quarta-feira, 12 de agosto de 2026

CRONICANDO POR AÍ

 

Writer's block issues out of fear

– but of what?

Dawn Raffel,

The Truth about Writer’s Block

«Li no Público um conjunto de testemunhos de reformados que escolheram (puderam escolher) continuar ativos profissionalmente. Impressionou-me a declaração de um deles sobre o que sentia quando estava inativo: “Acordava de manhã e não via qualquer sentido em começar o dia.”

Enquanto reformado, e com um título que evoca festas e prazeres (“jubilado”), confronto-me com o meu próprio projeto ideal, que toda a vida concebi para esta situação, e com os múltiplos sentidos que se abrem ao começar o dia. E existe, felizmente desde há pouco tempo, um elo que falta nesta corrente, um propósito que me é concedido ou negado com uma arbitrariedade que nega qualquer sentido: a escrita da poesia.

Eu sempre pensei que a escrita literária viria preencher toda a minha necessidade de atividade plena e de sentido para os dias. E assim foi, no princípio. Mas, depois de oito anos passados fora de funções oficiais, e com quatro livros entretanto publicados, encontrei-me de repente com o chamado “bloqueio da escrita” e recordei a lição de Rilke (“pergunte a si próprio, no íntimo da sua noite, se conseguiria viver sem escrever poesia”) e o exemplo do meu amigo Nuno Júdice, todos os dias trabalhando na sua luta com as palavras. E interroguei-me, com algum susto, sobre o sentido de algo que preenchera tanto a minha vida e os meus projetos.

Nada há mais solitário do que escrever. Blanchot dizia que era como uma experiência da morte, mas não é preciso ser tão radical para reconhecer que este ofício implica uma solidão radical, que pode ser “jubilosa” ou hostil, conforme os acasos da nossa mente (havia uma canção chamada The Windmills of Your Mind, lembram-se?) e a nossa mente encanta-se com coisas que nos parecem absurdas e é capaz de desanimar nas mais felizes conjunturas. Um verdadeiro catavento...

Não sei que interesse poderá ter para os meus leitores esta confissão pessoal, que posso ainda enfeitar com pedantes citações, recordando que Aristóteles, na sua Metafísica, estabelece que “toda a potência é ao mesmo tempo impotência, pois supõe a potência de não passar ao ato”, o que muito bem Melville representou no seu Bartleby: podemos “preferir não fazer”. Mas essa preferência, neste caso, não vem da nossa vontade esclarecida, do nosso ego: vem de forças obscuras que trabalham o nosso inconsciente, o nosso id, e que só o dr. Freud nos saberia explicar.

O vazio do reformado é um encontro em forma simplificada com esse vazio em que ousa mover-se a escrita e a poesia. Vazio que permitiria à poesia, nos termos de Agamben, realizar “uma operação na linguagem que desativa e desliga as suas funções comunicativas e informativas para as abrir a um novo uso possível”; ou, nos termos de Espinoza, “o ponto em que a língua, ao desativar as suas funções utilitárias, repousa em si mesma e contempla a sua potência de dizer”.

Então será só a poesia que me faz esperar em silêncio, no meio de toda esta jubilação, procurando apenas o melhor momento para fazer a sua entrada.»

Luís Filipe Castro Mendes, crónica no Diário de Notícias

quarta-feira, 6 de maio de 2026

O PRIMEIRO POEMA


In my End is

my Beginning
 

T.S. Eliot
 
 

É difícil não falar aqui, no meio destas prosas soltas, a resvalar aqui e além em confissões pessoais, naquilo que senti ao confrontar-me com este livro póstumo de Nuno Júdice, primeiro poema que inaugura o seu encontro com a morte, essa margem incontornável que envolve de luz negra toda a poesia.

Como apontou certeiramente Tatiana Faia, na apresentação que fez deste livro (Primeiro Poema, Dom Quixote, 2026), aquando do seu lançamento, os últimos versos são o explícito olhar sobre a morte do poeta que maior lucidez sobre a poesia revelou em todo o seu percurso. Organizado, com cuidado atento e permanente fidelidade ao que seria desejo do autor, por Manuela Júdice e Ricardo Marques, este livro culmina nos versos que a seguir reproduzo:

o que eu queria era medir a distância a partir de um relógio

cuja corda se partiu, posso dar voltas ao ponteiro e é

sempre a mesma hora, não se assustem, o tempo não parou

nem vai parar, o que eu tenho no pulso é esse falso

relógio

de luz radioactiva que se pode ver do fundo da

carruagem,

se alguém estiver muito interessado em saber que

horas

são e, na verdade, ninguém precisa disso para nada,

como se o tempo tivesse mesmo parado e está na altura de recomeçar do zero, onde tudo recomeça.

Maurice Blanchot, em La littérature et le droit à la mort, considera a escrita literária como a palavra essencial que nasce do silêncio e da ausência e onde o autor se apaga para dar lugar a uma voz impessoal. Por isso, considera a criação literária como uma experiência de “morrer sem morte”.

Em toda a poesia de Nuno Júdice, o autor apaga-se para dar lugar a um sujeito poético irónico e mesmo, por vezes, divertido. Tornando menos grave essa ausência e dando máscaras à impessoalidade, Nuno Júdice não deixa de entrar plenamente, com a sua poesia, nessa separação das coisas e da vida que funda a palavra literária, mesmo nos belíssimos poemas de amor que põe na boca de Pedro dirigindo-se a Inês ou em múltiplos dizeres de amor desse “ser suposto” (Emily Dickinson) em que todos os grandes poetas transformam a sua subjetividade.

Mas o choque e a revelação que o último (verdadeiramente o último) poema de Nuno Júdice me trouxe foi esse olhar soberano sobre a morte, quando os relógios param e está na altura de recomeçar do zero. Do zero que é o vazio da morte, que a poesia conhece, mas em que por fim o poeta nos deixa, para que nós leitores recomecemos em cada leitura de cada poema a dar sentido às palavras da poesia.

Indo agora talvez demasiado longe na confidência pessoal, tenho andado bloqueado na minha escrita poética pela tentação da prosa, como já escrevi, mas descobri, com a perda do Nuno, que a sua falta foi também uma das causas deste bloqueio.

A amizade do Nuno vem de muito longe na minha vida. O meu projeto poético tem pouco a ver com o seu, mas a palavra poética que nos deixou está sempre presente na minha consciência. Entre os muitos vazios que se me abrem nesta difícil fase da vida, a perda do Nuno avulta, e com a leitura do Primeiro Poema (todos os poemas são um primeiro poema) essa perda ganhou um relevo ainda mais nítido na minha consciência.

Mas ele diz-nos como devemos reagir à sua ausência:

Mas não te obstines: nada do que aqui está, ou

estiver para vir, precisa de mim.

Dirigindo-se a nós do próprio lugar da morte, ele insta-nos a recomeçar (recomeçar do zero, onde tudo recomeça) e recomeçar é o nosso trabalho de leitores, que em cada leitura dos seus poemas vimos recomeçar a obra infinita que ele nos deixou.

Nuno Júdice fica assim sempre connosco.t
 
 

Dedicado à Manuela e à Didas, os dois pilares da nossa amizade


Luís Filipe Castro Mendes no Diário de Notícias

sexta-feira, 24 de abril de 2026

RETRATOS


«Permito-me reproduzir aqui (plagiando-me a mim próprio) o prefácio que tive o gosto e a honra de escrever para um recente livro de poemas de José Luís Tinoco, editado pela Câmara Municipal de Leiria.

Para além das belíssimas letras de canções que compôs, José Luís Tinoco trazia ainda dentro de si um exigente e poderoso poeta, mais noturno talvez do que o resto da sua obra, mas mais perto também da autenticidade de quem considera, de olhos enxutos, o balanço de uma vida.

A poesia de José Luís Tinoco, de firme apuro formal e sábio desenvolvimento, isenta de quaisquer fragilidades ou facilidades, apresenta-nos um mundo distópico e carregado do seu próprio vazio, um mundo cinzento onde perseguimos em vão as brasas cintilantes das memórias. Elas apagam-se, as brasas, tão logo as alcançamos, mas conseguimos entrever, por detrás da cinza, o intenso mundo perdido para que nos chama esta poesia.

E são muitas as memórias que se deixam entrever. Mesmo no meio da mais cinzenta paisagem, é impossível perder-se o apelo da vida. Porque escrever é triunfar do vazio e afirmar as cores que resistem para além do cinzento e da perda.

"E assim nos promete o poeta:

amanhã vou encontrar-te entre as raízes

e o que sobrar da respiração da noite

junto às nascentes

onde bebem os sobreviventes do sol e dos temporais

descobrir-te nesse vago rumor de vidros e de estrelas

que se move sobre as pedras

e só agora começo a entender

nítido azul que há-de cobrir o resto dos teus dias”

E a poesia torna-se nessa intensa e concentrada procura do azul, que nos faz continuar a poder acreditar na vida.

Assim, a poesia de José Luís Tinoco só a uma primeira e menos atenta leitura nos parecerá cinzenta e disfórica. Toda a sua obra poética, ainda que filha da melancolia e da bílis negra que, segundo Aristóteles, carateriza o génio, constitui um forte apelo à vida, que faz com o seu canto regressar as cores à paisagem mais mortiça e seca que o poeta possa evocar. E esta alternância da melancolia da perda com a maravilha da criação é o motor que alimenta a poesia e é por isso que podemos aqui dizer, com o poeta Manuel Gusmão:

“Contra todas as evidências em contrário, a alegria.”

É que, se não há vertigem para quem conhece os abismos, como nos ensina o nosso poeta, ele tem presente também a advertência de Nietzsche: “Quem ama o abismo precisa de ter asas.”

E não faltaram a José Luís Tinoco as asas da poesia, como ele bem sabe. Por isso este livro de amadurecida e escorreita poesia, em que vemos emergir uma nova e original voz poética, na sua plena capacidade, nos agarra de surpresa para não mais nos largar.

Nesta dolorosa despedida, são estas as palavras que deixo à memória do arquiteto, músico, poeta e grande homem da nossa cultura José Luís Tinoco.»

Luís Filipe Castro Mendes no Diário de Notícias

segunda-feira, 13 de abril de 2026

terça-feira, 12 de agosto de 2025

DISTO, DAQUILO E DAQUELOUTRO


Está um calor de ananases, como diria o Eça.

Adiantamos o extracto de uma crónica do poeta Luís Filipe Castro Mendes, com alguns meses já, mas com actualidade.

«É um cruel paradoxo da História que o cinquentenário do 25 de Abril tenha coincidido com o crescimento exponencial de um movimento contra a Democracia, que vem negar tudo aquilo em que se baseia a nossa ordem política constitucional. Este cansaço da democracia vem dos que não viveram outro sistema (daí predominarem os mais velhos na oposição a esta corrente) e que se sentem, alguns justamente, outros menos, espoliados e rejeitados pelo sistema.

Um país que oferece aos mais novos perspetivas de vida mais sombrias do que aquelas que tiveram os seus pais é um país doente. Mas o remédio para as dores não são os gritos, são medicamentos que há que ministrar com urgência. Na falta desses medicamentos, é natural que ganhem terreno aqueles que ecoam o nosso grito e transformam a nossa dor em ódio, contra aqueles que poderiam dar-nos os medicamentos, que os conhecem, que os prometem, mas que depois não têm margem ou condições para os conseguir.»

1.

O primeiro-ministro, Luís Montenegro, saudou hoje “os esforços do Presidente Trump para pôr fim à guerra" na Ucrânia.

O primeiro-ministro  será umas das primeiras assinaturas para o Nobel da Paz ardentemente ansiado por Donald Trump.

2.

Receitas da Sonae e Jerónimo Martins, donas do Continente e do Pingo Doce, bateram máximos históricos no primeiro semestre do ano: 124 milhões de euros por dia, 5 milhões por hora.

3.

O consumo de champanhe ou vinho branco, uma atitude positiva perante a vida, o consumo de fruta e um peso adequado fazem parte da lista de mais de 50 fatores não clínicos apontados numa investigação que foi publicada no científico "Jornal de Cardiologia do Canadá" como determinantes para prevenir o risco de sofrer um ataque cardíaco.

4.

Cristiano Ronaldo vai casar.

O anel que vai oferecer a Geogina, está avaliado em 1 milhão e 40 mil euros!

5.

Uma mulher de 28 anos entrou em trabalho de parto, esta segunda-feira, na Avenida da Associação Desportiva, no Carregado, concelho de Alenquer, e acabou por ter a bebé no meio da rua.

Foram os pais que ajudaram a neta a nascer, depois de terem rebentado as águas. Mãe e filha estão bem de saúde.

A neta mais velha assistiu a tudo.

A ministra da Saúde ainda não se dedemitiu mas já solicitou à Inspeção-Geral das Atividades em Saúde a abertura de um processo de inquérito ao caso de uma jovem grávida que teve o parto numa rua do Carregado, no concelho de Alenquer.

6.

A Segurança Social encerrou 43 creches e 307 lares por falta de condições na sequência de perto de dois mil processos de fiscalização realizados desde 2023, em que foram detetados 766 estabelecimentos ilegais.

7.

Jacinto Lucas Pires: «Estamos a perder palavras. Como pensamos por palavras, estamos a perder capacidades». 

terça-feira, 29 de julho de 2025

DISTO DAQUILO E DAQUELOUTRO


É uma interessante crónica de Luís Filipe Castro Mendes publicada no Diário de Notícias, Já tem algumas semanas mas entendeu-se que a deveríamos reproduzir nesta secção aberta a tudo e mais alguma coisa.

«Vivemos um tempo em que os partidos social democratas começaram a ter vergonha de se dizer socialistas, porque “a palavra S” evoca nacionalizações, mais impostos para os ricos e estratégia económica reguladora do Estado, o que vai contra a “doxa” económica neo-liberal vigente, que visa remeter o Estado às estritas funções de soberania, beneficiar fiscalmente os mais ricos e anular qualquer influência estatal nos domínios económico e social. Em contrapartida, a extrema-direita perdeu qualquer resquício de vergonha e advoga o racismo, a xenofobia, o conservadorismo moral e o autoritarismo político, através da abolição da Constituição que nos rege. Qual seria a reação da nossa imprensa, dominada pelos ideais da economia liberal, se, algum iluminado de extrema-esquerda viesse propor uma Quarta República?

As universidades financiadas por empréstimos bancários aos estudantes, que passarão os primeiros tempos da sua vida profissional a trabalhar para os bancos, a saúde entregue aos privados, com seguros exorbitantes a cobrir dificilmente os elevados custos dos tratamentos mais inovadores, a educação para a desigualdade e não para a cidadania, esta é a face oculta do paraíso liberal, tão hipócrita e injusto como foi o paraíso comunista.

Face a esta hegemonia cultural da direita, no que toca às áreas económica e social, o socialismo democrático retrai-se, abriga-se num vago “socialismo liberal”, que não seria mais do que um liberalismo de rosto humano, uma economia desregulada com algum assistencialismo público associado.

Quem me lê dirá que estou a forçar as tintas, a caricaturar e a desvirtuar os objetivos liberais. Eu penso do neo-liberalismo que ele constitui uma ideologia extremista a partir dos princípios do liberalismo clássico, como o marxismo-leninismo (que eu, como social democrata que sou, distingo do marxismo), e que é expressão dos interesses de um capital financeiro que veio exercer a sua dominação nociva sobre a economia real. Houve antes um liberalismo social, aquele que integrou no pós guerra a economia social de mercado e que durou até ao dia em que Margaret Thatcher descobriu que não havia sociedade, só mercado.

Esse liberalismo extremista, próximo do anarco-capitalismo, encontra-se por toda a extrema-direita mundial, salvo quando o líder da extrema-direita (por exemplo Trump) descobre que esse neo-liberalismo vai limitar a sua autoridade absoluta e prolongar a abertura ao mundo que a globalização trouxe, impedindo políticas nacionalistas extremas: volta então (sempre Trump) ao conservadorismo autoritário tradicional das extremas-direitas, rompendo com Musk, o tecno-feudalista que desfaz os Estados com um serrote .

Não durou muito o idílio entre os multimilionários das tecnologias da informação e o presidente Trump. Mas olhemos para a Europa: a extrema-direita cresce por todos os Estados e interrogamo-nos até quando a direita que se reclama da Democracia irá fazer barreira a essa torrente e manter o seu lema “não é não”. A esquerda, obviamente, deve assumir como sua missão o combate, sem reservas nem meias palavras, àqueles que querem o suicídio do regime democrático. O que pode implicar da sua parte alianças e compromissos com a direita democrática, mas nunca o esquecimento da sua identidade e da sua diferença.»

Luís Filipe Castro Mendes no Diário de Notícias

1.

Alterações no programa da disciplina de Cidadania confirmam “pendor retrógrado” do Governo, acusa a Fenprof.

2.

Dez mil milhões de euros para reconstruir a Ucrânia., conclusão da Conferência de Recuperação da Ucrânia, para planear o pós-guerra, realizada em Roma.


3.

A Infraestruturas de Portugal perdeu 995 milhões de euros de fundos europeus para o projecto de linhas ferroviárias de alta velocidade.

4.

Portugal é o país que mais depende de fundos europeus e por cada dez euros gastos pelo sector público, nove são suportados por verbas de Bruxelas. 

5.

A Comissão Europeia corta verbas para agricultura em 22%.

6

«Era um miúdo, estava a correr para ir para casa, que era relativamente perto, passou um carro da polícia e abordaram-me. A primeira coisa que disseram foi: 'Então, preto, o que é que já roubaste?»

Rapper Harold

7.

Dados da OCDE mostram que sem imigrantes, a população activa em Portugal diminuiria e aquela organização defende que é preciso continuar a atrair estrangeiros, sobretudo para áreas menos qualificadas.

8.

 Roman Arkadyevich Abramovich ocupa o 311.º lugar na lista de bilionários da Forbes. Nascido na Rússia, em 2018 tornou-se israelita, encontrou ascendência sefardita da comunidade judaica de Hamburgo e, em 2021, conseguiu ser português também. O seu nome está associado a diversos crimes, mas a direita nunca se incomodou.

 10.

A proibição de voos nocturnos entre a uma e as cinco da madrugada, anunciada há sete meses, ainda não se concretizou e o Ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, desculpa-se dizendo que a medida “ demora um tempo a ser implementada”.

11

Em Maio havia 1.644.807 utentes sem médico de família, mais 42.230 que no mesmo mês de 2024.

12

Portugal continua a atrair cada vez mais milionários estrangeiros e deverá somar mais 1400 «indivíduos com património elevado» este ano, indica o mais recente relatório da consultora britânica Henley & Partners.

quarta-feira, 25 de junho de 2025

DISTO, DAQUILO E DAQUELOUTRO


Cimeira da NATO em Haia.

Uma enorme palhaçada para adormecer camelos.

Num graxismo nunca visto em acontecimentos deste jaez, o Secretário-Geral da NATO, o incrível Mark Rutte, numa mensagem, possivelmente particular, enredou-se num bajulamento com Donald Trump, que de imediato a tornou pública.

Vergonha das vergonhas!

Mark Rute retratou Trump como o “papá”, pelo seu papel nas negociações para alcançar um cessar-fogo entre o Irão e Israel e Donald comentou que Rutte foi muito carinhoso para com ele.

«Ele gosta de mim, acho que gosta de mim. Se não gostar, eu digo-te: Volto e bato-lhe com força, está bem? Muito afetuoso", disse Trump, em resposta à pergunta de uma jornalista da Sky News, à margem da cimeira da NATO, em Haia.

"Ele fê-lo com muito carinho. Papá, tu és o meu papá", continuou.

Convém recordar que o termo surgiu  porque Trump comparou o Irão e Israel como "dois miúdos no recreio de uma escola", que tinham de ser deixados a "lutar durante dois ou três minutos" para ser "mais fácil pará-los". 

Foi nesta altura que o secretário da NATO interveio para dizer que, depois, "o papá tem de usar linguagem forte para os fazer parar".

"É preciso usar linguagem forte, de vez em quando; é preciso usar uma certa palavra", concordou Trump.

Tudo isto aconteceu mesmo?

Não será um qualquer sketch dos Monty Python?

1.

Maria João Guimarães no Público de hoje:

«Após doze dias de guerra, Israel, EUA e Irão “não cumpriram todos os seus objectivos”
Israel conseguiu uma vitória, mas no país “começam as perguntas”, o mesmo nos EUA. O Irão sofreu uma derrota humilhante, mas o programa nuclear apenas se atrasou, e o regime não caiu.

Foram dias nada menos do que extraordinários, com os primeiros ataques israelitas, a resposta iraniana, a entrada dos EUA na guerra, e ainda um cessar-fogo, anunciado, quebrado, o que fez um Presidente ordenar uma acção a um aliado através de uma rede social. Se muito mudou nesta guerra cheia de acontecimentos “sem precedentes”, houve ainda muito que se manteve. Isso provoca preocupação quanto à longevidade desta calma após a tempestade.»

2.

Marcelo Rebelo de Sousa garantiu que Portugal não teve conhecimento de ataque ao Irão.

3.

«É muito difícil escrever na manhã seguinte a uma declaração de guerra. Kafka escreveu no seu diário, no dia 2 de agosto de 1914: “Hoje a Alemanha declarou guerra à Rússia. De tarde fui nadar”. Kafka não foi indiferente aos acontecimentos e escritos posteriores seus mostram a sua angústia perante a guerra que dilacerava a Europa. Mas o que se pode dizer no início ou na viragem decisiva de uma guerra?

As declarações de guerra, apresentadas formalmente aos governos por embaixadores em trajes de cerimónia, são, porém, coisa do passado. O estado de guerra entre o Irão e Israel existia há muito tempo e o facto novo, mas tão ou mais relevante do que uma declaração de guerra à antiga maneira diplomática, foi a entrada em força dos Estados Unidos nesta guerra.

A Arábia Saudita, que se apressou a condenar o ataque dos seus amigos americanos, e os emiratos do Golfo Pérsico (insisto, Golfo Pérsico) sabem que Teerão e os seus aliados hutis no Iémen têm capacidade para bloquear as suas remessas de petróleo por algum tempo. Esta viragem fundamental (embora previsível) no curso da guerra no Médio Oriente vai obrigar os Estados árabes a mais declarações platónicas de apoio aos palestinianos, que entretanto continuarão a ser massacrados, agora com menos espetadores, porque as atenções estarão viradas para o Irão. Uma boa notícia também para Putin, que se permite declarar, contra todos os tratados que a Rússia assinou, que a Ucrânia é uma parte integrante da Rússia.

Nós não sabemos (e a declaração arrogante de Trump de que a Europa nada tinha que ver com as negociações com o Irão mostra que muitos mais não sabiam) os negócios ou, como prefere dizer Trump, as transações, que terão sido tecidas entre os poderes dominantes, de que a Europa foi excluída, isto é, entre os Estados Unidos, a Rússia e (quem sabe?) a China.

E como nem nós, leitores do Diário de Notícias, nem os dirigentes da nossa Europa (o que é mais grave) estão dentro da verdadeira negociação paralela a esta batalha, encerro esta página, não, como Kafka, declarando a minha intenção de ir nadar (ainda que o tempo hoje esteja bom para essa atividade), mas ocupando os carateres que me restam com o final da crónica que tinha escrito para hoje, sobre a perda das ilusões e a corrida, no final de Os Maias, de Carlos da Maia e João da Ega atrás de um transporte público:

Atrevo-me a pensar que alguns leitores possam sentir-se identificados, lá no fundo de si mesmos, com o estado de perda de ilusões em que este cronista se encontra (ou pretende que se encontra: como o poeta, o cronista é um fingidor). Se assim for, terá valido a pena este exercício de escrita à volta da perda das ilusões. É aliás um belo título de um excelente romance de Balzac, As Ilusões Perdidas, que em muitas ocasiões parece até passar-se nos dias de hoje. Ou o final da Educação Sentimental de Flaubert ou dos Maias do Eça, onde a perda das ilusões é sintetizada numa conversa cínica entre os principais personagens (Flaubert) ou numa cómica corrida atrás de um meio de transporte, a caminho de uma capitosa ceia (Eça). Porque, afinal, perdidas as ilusões, resta-nos só o irrisório exercício da nossa sobrevivência.

A lanterna vermelha do americano, ao longe, no escuro, parara. E foi em Carlos e João da Ega uma esperança, outro esforço:

- Ainda o apanhamos!

- Ainda o apanhamos!»

Luís Filipe Castro Mendes no Diário de Notícias

quarta-feira, 28 de maio de 2025

DISTO, DAQUILO E DAQUELOUTRO


 Carta de Fernando Pessoa a Mário de Sá-Carneiro, 14 de Março de 1916 :

«Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental — uma ânsia aflita de falar consigo. Como de aqui se depreende, eu nada tenho a dizer-lhe. Só isto — que estou hoje no fundo de uma depressão sem fundo. O absurdo da frase falará por mim.

Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá; e é esta a razão íntima de todo o meu sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueça. Tudo isto aconteceu há muito tempo, mas a minha mágoa é mais antiga.

Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a minha consciência do meu corpo, que sou a criança triste em quem a vida bateu. Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos o brinquedo partido que me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia catorze de Março, às nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto.

No jardim que entrevejo pelas janelas caladas do meu sequestro, atiraram com todos os balouços para cima dos ramos de onde pendem; estão enrolados muito alto; e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha imaginação, ter balouços para esquecer a hora.

Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo, é o meu estado de alma neste momento. Como à veladora do "Marinheiro" ardem-me os olhos, de ter pensado em chorar. Dói-me a vida aos poucos, a goles, por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura a descoser-se.

Se eu não estivesse escrevendo a você, teria que lhe jurar que esta carta é sincera, e que as coisas de nexo histérico que aí vão saíram espontâneas do que sinto. Mas você sentirá bem que esta tragédia irrepresentável é de uma realidade de cabide ou de chávena — cheia de aqui e de agora, e passando-se na minha alma como o verde nas folhas.

Foi por isto que o Príncipe não reinou. Esta frase é inteiramente absurda. Mas neste momento sinto que as frases absurdas dão uma grande vontade de chorar.

Pode ser que, se não deitar hoje esta carta no correio, amanhã, relendo-a, me demore a copiá-la à máquina, para inserir frases e esgares dela no "Livro do Desassossego". Mas isso nada roubará à sinceridade com que a escrevo, nem à dolorosa inevitabilidade com que a sinto.

As últimas noticias são estas. Há também o estado de guerra com a Alemanha, mas já antes disso a dor fazia sofrer. Do outro lado da Vida, isto deve ser a legenda duma caricatura casual.

Isto não é bem a loucura, mas a loucura deve dar um abandono ao com que se sofre, um gozo astucioso dos solavancos da alma, não muito diferentes destes.

De que cor será sentir?

Milhares de abraços do seu, sempre muito seu

Fernando Pessoa

P. S. — Escrevi esta carta de um jacto. Relendo-a, vejo que, decididamente, a copiarei amanhã, antes de lha mandar. Poucas vezes tenho tão completamente escrito o meu psiquismo, com todas as suas atitudes sentimentais e intelectuais, com toda a sua histeroneurastenia fundamental, com todas aquelas intersecções e esquinas na consciência de si-próprio que dele são tão características...

Você acha-me razão, não é verdade?»

1.

Cada vez mais pessoas em situação de sem-abrigo procuram as urgências hospitalares em busca de um teto, alimentação, higiene, entre as quais imigrantes e moradores que perderam a casa ou o quarto onde viviam por dificuldades financeiras.

2.

Odeiam trabalhadores.

Greve na CP.

Tiveram todo o tempo para resolver as justas reivindicações dos trabalhadores.

Ocuparam os seus tempos em tratar dos assuntos dos homens do dinheiro.

Agora dizem que os trabalhadores são uns ingratos, uns irresponsáveis por terem marcado greves para o tempo de eleições…

Ouvir Luís Montenegro, com o seu cínico sorriso dizer: "um dia, temos de pôr cobro a isto!", é de de colocar um cidadão no limiar do vómito.

Ver/Ouvir aquele ministro da tutela, Miguel Pinto Luz, completamente histérico: «Isto é política partidária, eleitoral que o Governo fez "tudo para evitar" a paralisação.

O pretexto para, mais uma vez, se atacar o direito à greve é a paralisação de comboios provocada pela adesão a uma série de paragens convocadas por 16 organizações sindicais da CP, umas filiadas na CGTP-IN, outras na UGT, outras sem filiação em qualquer central sindical.

3.

«É o imigrante mais antigo que recusa admitir direitos aos novos imigrantes; é o trabalhador mal pago que acredita que os pobres que recebem subsídios o estão a extorquir; é o branco que não aceita ver os negros fora dos musseques; é o homem macho que não suporta que as mulheres ganhem poder.

Em 50 anos de Democracia fizemos muito, mas muito ficou por fazer. Faltou educar a sociedade na ideia de cooperação entre todos e de abertura aos outros, e de uma saudável desconfiança em pregadores fáceis que vendem ilusões com os nossos ressentimentos. Não seremos capazes de reconhecer no que falhámos?

Pensar no que podemos e devemos fazer para contrariar esta deriva ideológica e moral em que vivemos, levar a nossa capacidade crítica ao fundo dos problemas criados, compreender que ser radical é ir à raiz dos problemas e que não o ser é colher passivamente os frutos que deixámos semear, é isto o que se pede aos responsáveis políticos. E tudo o resto será chover no molhado.»

Luís Filipe Castro Mendes no Diário de Notícias.

4.

Por fim

Alguém um dia afirmou que um canal de televisão tanto pode vender sabonetes como presidentes.

Interessante o artigo de Bárbara Reis no Público de hoje:

«João Pinhal, da Universidade Nova de Lisboa, trouxe luz para o debate sobre papel dos media na ascensão do Chega.

Pinhal, que tem 20 anos, contou, uma a uma, todas as entrevistas que as televisões públicas e privadas fizeram ao líder do Chega, André Ventura, e ao líder do PSD, Rui Rio ou Luís Montenegro, entre Outubro de 2019 e Junho de 2024 (este período inclui os primeiros meses de Montenegro como primeiro-ministro).

Os números dos 57 meses desde que Ventura foi eleito pela primeira vez mostram que o líder do Chega deu 61 entrevistas e o líder do PSD deu 42. Os números falam por si:


SIC+SIC Notícias: 15 entrevistas a Ventura; nove ao líder do PSD.

 

TVI+ TVI24+CNN: 29 a Ventura; 17 ao líder do PSD.

 

CMTV: 12 a Ventura; seis ao líder do PSD.

 

RTP e RTP3: cinco a Ventura; dez ao líder do PSD.

Estas são entrevistas a sós, em estúdio, ou com Ventura convidado para debater ou comentar algum tema da actualidade. Excluem os debates das campanhas eleitorais.
A principal responsabilidade pela ascensão do Chega é do Chega, que vende soluções fáceis embrulhadas em mentiras e ódio. Mas os media, em particular as televisões, não podem sacudir a água do capote.»

sábado, 1 de março de 2025

TRUMPALHADAS


 «A União Europeia foi criada para lixar os Estados Unidos.»

Donald Trump

Que também chamou ditador a Zelenski e disse que a Ucrânia nunca deveria ter começado a guerra, sugerindo que os ucranianos é que são responsáveis pela invasão russa.

Os Estados Unidos têm das melhores literaturas do mundo, têm das melhores músicas do mundo, têm dos melhores filmes do mundo, mas naquele enorme interior territorial, vive gente, cega de todo, de um analfabetismo sem fim que elegem um bronco, um monstro para (des)governar o país.

Ontem, esse biltre de cabelo alaranjado, na reunião pública, na sala oval, com Zelenski, o presidente da Ucrânia,  rodeado de capachos governativos e jornalistas da sua corte privada e paga a dólares, um destes idiotas chegou a perguntar a Zelenski porque não usa fato, protagonizaram a mais lamentável, a mais triste cena da diplomacia mundial.

Os Estados Unidos caminham a passos largos para uma ditadura.

Como o mundo se tonou tão perigoso!…

«Que pode a Europa? Saberá defender o seu frágil modelo democrático e social e construir novas alianças? Saberemos ir além da Taprobana?

A nossa dimensão atlântica não pode ser vista como uma mera dependência da América, antes como um trunfo que trazemos à Europa. O Atlântico orienta-nos também para o Sul que, seja ou não global, nos vem trazer parceiros e caminhos. A nossa identidade de portugueses é uma identidade europeia e, à Europa, podemos trazer perspetivas e horizontes, se não nos deixarmos limitar.

As ortodoxias do passado não podem servir de grelhas inquestionáveis para os dias de hoje. Quem poderia antever os líderes dos Estados Unidos e da Rússia a darem-se as mãos sobre o sangue vertido na Europa?»

Luís Filipe Castro Mendes, poeta e diplomata, no Diário de Notícias.

domingo, 18 de agosto de 2024

QUOTIDIANOS


«Não vemos aqui Deus a passear pela borda da praia, “com as calças arregaçadas”, como dizia Ruy Belo. Mas acreditamos, como o grande poeta, que “o verão é a única estação” e que fomos feitos para “grandes férias”.»

Luís Filipe Castro Mendes   

terça-feira, 13 de agosto de 2024

QUOTIDIANOS

«Eu estive sob escuta telefónica da PIDE e recordo-me de um telefonema romântico em que eu estava embrenhado e que foi interrompido por uma forte voz masculina que, impaciente com os meus rodeios, disse qualquer coisa delicada como “põe-te mas é na gaja”. Os polícias desse tempo, pouco preocupados com o sigilo das suas escutas e irritados com a irrelevância do que ouviam, não hesitavam em ter uma intervenção ativa no que escutavam.»

Luís Filipe Castro Mendes, na crónica de hoje no Diário de Notícias

domingo, 7 de julho de 2024

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


 O Dia seguinte.

Copio do jornal A Bola do dia 6:

«A prestação aquém das expectativas de Cristiano Ronaldo no Euro 2024 está a fazer correr muita tinta em França, país que deitou por terra as aspirações de Portugal em voltar a vencer o troféu, vencendo a Seleção nas grandes penalidades.

O único que tinha mesmo estatuto de insubstituível era Ronaldo. Mas esse Martínez sempre assumiu. Apesar de, como se viu, estar errado

Pela primeira vez na carreira, o avançado do Al Nassr terminou uma fase final de grandes torneios de seleções sem apontar um único golo e, no espaço de opinião, a RMC Sport não perdoou as exibições de CR7, que foi sempre titular nos cinco jogos de Portugal na prova. «O Cristiano Ronaldo arruinou o Euro para Portugal. Sempre disse que gosto de Portugal, é uma grande Seleção, com jogadores extraordinários e, depois do que conseguiram em 2016, é incrível que não tenham melhores resultados. Entendo que Cristiano Ronaldo é uma lenda, mas desde há vários anos impede a projeção de outros jogadores e não dá nada à equipa», lê-se no texto do jornalista Daniel Riolo.

Avançado do Al Nassr ficou em branco nos cinco jogos de Portugal no Euro 2024

«Isso foi visível diante da França, Portugal jogou com 10. É uma lenda, pode continuar a ser adorado, mas foi ele que impediu que Portugal fosse mais longe no Europeu. Não gosto de ver jogadores consagrados como este a fazerem uma última aparição como se fosse uma volta olímpica. Chega a ser patético e é necessário virar a página», atirou o francês.»

1.

Milhares de pessoas manifestaram-se em Barcelona contra o turismo excessivo na capital catalã, que recebe anualmente milhões de visitantes, demonstração de uma revolta crescente em Espanha, segundo destino turístico no mundo.

Com palavras de ordem como "Basta! Ponham limites ao turismo", cerca de 2.800 manifestantes, de acordo com a polícia, desfilaram para exigir uma mudança de modelo económico para a cidade, a mais visitada em Espanha.

2.

O sector da construção civil tem mais de 340 mil trabalhadores, dos quais 69 mil imigrantes e precisa de mais 80 a 90 mil pessoas.

 3.

A princesa Ana teve alta hospitalar e regressou a casa. A irmã do Rei Carlos III estava internada desde domingo passado, na sequência de um acidente com um cavalo que lhe provocou um traumatismo.

4.

Zero é o número de mulheres que a Assembleia da República elegeu para o Conselho de Estado desde 1982, quando foi criado. Na verdade, a única mulher que representou o Parlamento no órgão consultivo do Presidente da República foi Assunção Esteves, que desempenhou o cargo de presidente da Assembleia da República (logo, teve assento por inerência).Mulheres no Conselho de Estado só acontece por inerência ou nomeação presidencial. Isto fica patente na atual constituição, em que há quatro conselheiras (Maria Lúcia Amaral, provedora de Justiça, a maestrina Joana Carneiro, que entrou para substituir António Damásio, a escritora Lídia Jorge e a presidente da Fundação Champalimaud e ex-ministra Leonor Beleza).

5.

«É ao mesmo tempo fácil e difícil explicar por que razão eu e o Nuno não nos afastámos, em todos estes anos. Que nos manteve juntos? A Poesia? A Poesia não é senhora que partilhe os seus afetos. A política? Tem sido algo esporádico na nossa vida: só estamos lá quando faz falta. A admiração pelo poeta? Há tantos poetas que admiramos, mas que preferimos não encontrar...»

Luís Castro Mendes na morte do poeta Nuno Júdice

6.

O presidente da Associação Portuguesa de Arte Xávega reclama, exige dos governantes mais acção e apoios para este velho sector da pesca.

 7.

Marine Le Pen diz que, sem a maioria absoluta da extrema-direita, a França será um “pântano”
Marine Le Pen rejeitou as sondagens que mostram que o seu partido de extrema-direita, a União Nacional, deverá ficar muito aquém da maioria absoluta nas eleições legislativas francesas deste domingo e alertou para o "pântano" em que ficará o país se o seu partido não obtiver um mandato para governar.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

VIAGENS POR ABRIL

Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                 João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

 As Viagens por Abril podem acontecer em qualquer tempo. 

Volta e meia trazemos textos, frases  em que os autores têm mostrado  as suas desilusões com o caminhar destes 50 anos do 25 de Abril.

Trazemos a crónica que o poeta Luís Filipe Castro Mendes fez publicar, HOJE, no Diário de Notícias:

 

                                              Acaso o nosso destino, tac!, vai mudar?
                                              (Alexandre O’Neill)

«O cinquentenário do 25 de Abril veio mostrar bem a distância que o tempo e a História puseram entre nós e aquele momento libertador. Não obstante o trabalho persistente e a competência de Maria Inácia Rezola e da sua equipa, o intenso debate político, que o extraordinário calendário eleitoral deste ano nos veio impor, passou para trás a memória, tão necessária, de Abril.

Todos os líderes políticos que assumem hoje as nossas campanhas eleitorais nasceram depois do 25 de Abril. A ideia que fazem do Antigo Regime e da Revolução chegou-lhes através da tradição oral familiar, das leituras e da sua própria formação intelectual.
E nós sentimos Abril em perigo.

É lamentável que a memória da refundação da democracia em Portugal seja hoje abafada pelo clamor das campanhas. Mas, afinal, não será a melhor homenagem ao 25 de Abril a realização de eleições como única saída para resolver todas as crises e nós górdios que estamos a enfrentar? Vontade popular e eleições sim, justiceiros populistas não!
Enquanto os nossos destinos se jogam nas campanhas eleitorais e nas denúncias anónimas ao Ministério Público, que todos os dias saem nos jornais, é difícil voltar o espírito e a atenção para qualquer coisa diferente.

Pensar que, no cinquentenário do 25 de Abril e no meio de uma grave crise de todos os equilíbrios precários da comunidade internacional, estamos a discutir o que fazer com a extrema-direita, numa reevocação sinistra dos debates dos Anos 30 enche-nos de pavor. Ou, como melhor disse Fernando Pessoa: “A minha inteligência tornou-se um coração cheio de pavor.”

A injunção aos vindouros que Bertolt Brecht no seu tempo nos dirigiu - “Que tempos são estes, em que falar de flores é quase um crime porque significa calar diante de tanta injustiça?” - continua a repercutir em nós e torna difícil até a este cronista discorrer hoje sobre outra coisa que não a atualidade política.

Os 50 anos da Revolução de Abril, tal como os 500 anos de Camões, tornaram-se longínquas evocações históricas, abafadas pelo ruído avassalador do presente, que limita o nosso espírito e, nesse sentido, coage a nossa liberdade.

Claro, há também os indiferentes, não os indecisos, essa parte do eleitorado donde se diz que saem as maiorias, mas toda essa gente que vive o seu dia a dia alheada da política, concentrada nos problemas e dificuldades da sua vida quotidiana e descrente de quaisquer mudanças.

Eu tenho vergonha, pela minha geração, de deixar aos meus netos um mundo ao qual todos os horrores do passado, sem exceção, parecem querer vir regressar.

 Mas alguma vez na História houve épocas livres de sofrimento, violência e opressão? O oásis de paz que Stefan Zweig descreve idilicamente no seu O Mundo de Ontem, não foi atravessado por miséria, guerras balcânicas, perseguições aos judeus, lutas sociais e atentados? E o genocídio dos africanos na Namíbia pelos colonizadores alemães e o antissemitismo militante de Lueger em Viena não prenunciavam já qualquer coisa? 

Como Jorge de Sena disse (e mais uma vez passo a palavra aos poetas) na sua Ode ao Futuro:

Falareis de nós como de um sonho
(...)
E as tempestades, as desordens, gritos,
violência, escárnio, confusão odienta,
(...) as prisões,
as mortes, o amor vendido,
as lágrimas e as lutas,
o desespero da vida que nos roubam
- apenas uma angústia melancólica,
sobre a qual sonhareis a idade de ouro.

Só espero que os meus netos vivam num mundo suficientemente decente para nunca poderem pensar na nossa época como uma “idade de ouro”.

terça-feira, 21 de novembro de 2023

UMA OUTRA MANEIRA DE IRMOS FICANDO MAIS POBRES...

 

Ainda a morte do poeta Manuel Gusmão ocorrida no dia 9 de Novembro.

Um outro poeta, Luís Filipe Castro Mendes: lamentando, nos dias que correm, a não presença física de Manuel Gusmão:

«Grande poeta, com poemas que iluminarão sempre os nossos caminhos, ele foi também um crítico e ensaísta de primeira água, um professor que marcou gerações de jovens com o seu saber e o seu estímulo e uma voz culta e serena, sem nunca deixar de estar aliada às forças de progresso e emancipação.

Perdemos um dos maiores da nossa geração!»

E mais um poema de Manuel Gusmão:

Revolução orbital: vai-se a rosa transformando
na coisa múltipla, amante e amada, na acção
que assim a faz e nos acidentes mínimos – paisagens,
estações dos dias e das noites, dos anos da história.
Ondula no cérebro a fronteira que as margens da luz
desenham. E a rosa é uma hélice que vibra
no ar que a respirar obriga(s): torção dos pulmões,
do tronco e do sexo, dos nomes e dos vocativos
que se respondem: como um coração que deflagra
a rosa faz do ar que te falta a terra de onde nasces
e o chão sobre que danças.

 

Legenda: fotografia de Luís Eme

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

ERA O ÙLTIMO AMOR

Era o último amor. A casa fria,

os pés molhados no escuro chão.

Era o último amor e não sabia

esconder o rosto em tanta solidão.

 

Era o último amor. Quem adivinha

o sabor breve pela escuridão?

Quem oferece frutos nessa neve?

Quem rasga com ternura o que foi verão?

 

Era o último amor, o mais perfeito

fulgor do que viveu sem as palavras.

Era o último amor, perfil desfeito

entre lumes e vozes e passadas.

 

Era o último amor e não sabia

que os pés à terra nua oferecia.

 

Luís Filipe Castro Mendes

segunda-feira, 3 de julho de 2023

CIDADES

Nunca será esta a cidade que amaste

no segredo da tua infância,

com livros e mapas junto do peito e os sonhos

de mares distantes e mulheres  debruçadas

na amurada dos navios piratas.

 

Qualquer cidade é pouco para o que traz um sonho.

No entanto, ah, no entanto,

alguns lugares na terra pensaste

que podiam tornar-se uma morada. Mas logo partias

e o encanto de mudar de abrigo se te fazia destino,

destino de adivinhar a linha da costa

a desenhar-se pouco a pouco no horizonte.

 

Entretanto olhavas as mulheres debruçadas

nas amuradas dos navios.

A nada podemos em verdade chamar nosso.

Tudo é partir e o próprio amor

não passa de um incerto percurso na terra.

Qualquer cidade é aquela mesma cidade

que amaste no segredo da infância,

enquanto os olhos das mulheres

desenham o teu perfil no horizonte de uma perdida costa.

 

Luís Filipe Castro Mendes

quarta-feira, 22 de março de 2023

COM QUE VOZ?

 Essa voz que deixei perder

 já não me procura;

 e nada será jamais

 tão simples e singular

 como aquela voz modulada

 e firme na sua insegurança,

 tão indefesa como estar vivo.

 Porque falo nisto agora?

 Desista de me ler

 quem busca um fio coerente,

 uma afirmação rotunda

 e concisa. Não tenho loja

 com essa mercadoria.

 Nem com mais nenhuma.

 Procuro apenas o som nítido de uma voz,

 entre todas as coisas que deixei perder.

 Procuro.

 Luís Filipe Castro Mendes



terça-feira, 12 de dezembro de 2017

NATAL... NA PROVÍNCIA NEVA


Recordação de neve na cidade:
às vezes os meus dedos procuravam
um conforto de infância ameaçada.

Nos bolsos esgarçados o cotão,
os restos de ternura nunca dada:
sempre se me fez longe o coração.

E o consolo perfeito, sem idade,
das coisas que há por dentro da lembrança;
recordação de neve na cidade:
foi antes do terror, da esperança.

Seja sempre quem sou esta distância
que muda em mim as coisas conseguidas
em dedos que procuram da infância
cotão, ternura, restos de outras vidas.

Luís Filipe Castro Mendes. Poema tirado da Antologia Natal… Natais

terça-feira, 6 de setembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Nunca o vento da indiferença
me abrirá as mãos. 

Luís Filipe Castro Mendes

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

POSTAIS SEM SELO


Para a solidão nascemos. Outras vozes
nos chamam e invocam, outros corpos
se perfilam radiosos contra a noite.
Nós não somos daqui. Num intervalo
de campanhas esquecidas nos dizemos,
abrindo o coração aos de passagem.
Mas quando a manhã chega nós partimos,
mais livre o coração, longa a viagem.

Luís Filipe Castro Mendes

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia