Mostrar mensagens com a etiqueta Francisco Fanhais Discos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Francisco Fanhais Discos. Mostrar todas as mensagens

domingo, 2 de março de 2014

VEMOS OUVIMOS E LEMOS


Nos tempos da ditadura, numa televisão a preto e branco, o país sentava-se entusiasmado frente ao aparelho para assistir ao ZIP-ZIP.

Apesar de cortes da censura, um programa que conseguia passar para lá do habitual cinzentismo que nos assistia.

Por ele o país ficou a conhecer Almada Negreiros, outros mais, por ele começou a ver e a ouvir uma série de rapazes que, de viola na mão, cantavam coisas fora do circuito do então já chamado nacional- cançonetismo.

Mais espantadas ficaram as gentes quando uma noite um padre, Fanhais de seu nome, entrou casa dentro a dizer que a um rouxinol lhe tinham quebrado as asas não o deixando voar, lhe quebraram o bico não o deixando cantar.

Estava dado o mote.

Ainda com mais força passamos a acreditar-se que, um dia, talvez chegasse um tempo de surpresas.

Mas a Francisco Fanhais, também padre, também professor, também agitador cultural, não mais permitiram que desse missa, desse aulas, cantasse.

No ano de 1970 edita o álbum Canções da Cidade Nova onde inclui o poema de Sophia de Mello Breyner Andresen que será hino de uma vigília de forças progressistas na Capela do Rato, na noite de 31 de Dezembro de 1972 e brutalmente interrompida pela Pide.

Mais não era que um aviso aos tiranos, às gentes (ainda) tão distraídas.


                                         

quarta-feira, 7 de abril de 2010

CANÇÕES DA CIDADE NOVA


ZIP-ZIP – 2004/L
Violas Fernando Alvim e Pedro Caldeira Cabral
Capa Jorge Torres Vilaça
Arranjos e Direcção Thilo Krasmann

Lado 1

Meu Povo Que Jaz - César Pratas/Francisco Fernandes
Corpo Renascido - Manuel Alegre/Pdro Lobo Antunes
Os Labirintos - Garcia Lorca/Pedro Lobo Antunes
Porque - Sophia Mello Breyner Andresen/Francisco Fernandes
Canto do Ceifeiro - Eduardo Valente da Fonseca/Francisco Fernandes
Cantata da Paz - Sophia Mello Breyner Andresen/Rui Paz

Lado 2

Poema - Ilido Rocha/Francisco Fanhais
A Saída do Correio - António Cabral/Francisco Fanahis
As Pobres Solteiras - António Rebordão Navarro/Francisco Fanhais
Quadras do Poeta Aleixo - António Aleixo/Francisco Fanhais
Canção da Cidade Nova - Fernando Melro/Francisco Fernandes

Depois do EP Cantilena, o Padre Fanahis edita este LP: Canções da Cidade Nova.

O disco contém Cantata da Paz, poema de Sophia Mello Breyner Andresen e música de Rui Paz.


No dia 31 de Dezembro de 1972, um grupo de católicos, sacerdotes e leigos, reuniu-se na Capela do Rato para, em tempo da guerra colonial, celebrarem a paz.

A vigília acabou por ser interrompida pela entrada da polícia que fez diversas detenções, inclusive o sacerdote que celebrara a missa. Junto ao altar e ainda paramentado foi intimado por agentes da polícia a acompanhá-los, sendo decretado o encerramento da Capela.

Os acontecimentos da Capela do Rato marcam um dos mais significativos episódios da luta contra a ditadura. O regime via-se confrontado com mais uma frente de protesto e luta, vinda donde menos esperaria: do seio da Igreja Católica, um pecado organizado, tal como diz Sophia.

Nunca a voz da Igreja se fizera ouvir para condenar a guerra colónia, as perseguições da PIDE, a tortura e a morte. Os acontecimentos da Capela do Rato determinaram que nada seria como antes: estes católicos e não católicos, acusados pelo governo, como traidores à Pátria, diziam ao país que viam ouviam e liam e não mais poderiam continuar a ignorar.

Palavras deixadas, como dedicatória, por José Afonso na contra capa do disco:

Tu que cantas
Defronte
De faces atentas
e seguras
Faz do teu canto
uma funda.
Nesse lugar
Entre outras mãos mais fortes
e mais duras
Te estenderei
A minha mão fraterna.
Canta amigo!


Este é o poema de Cantata da Paz:

Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Relatórios da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror
A bomba de Hiroshima
Vergonha de nós todos
Reduziu a cinzas
A carne das crianças
D’África e Vietname
Sobe a lamentação
Dos povos destruídos
Dos povos destroçados
Nada pode apagar
O concerto dos gritos
O nosso tempo é
Pecado organizado.


sábado, 3 de abril de 2010

CANTILENA

ORFEU ATEP 6325
Fotografia de Augusto Cabrita.

Cantilena - Sebastião da Gama/Padre Fanhais
Juventude - João Apolinário/Padre Fanahis
Areia da Praia - Manuel Pina/Padre Fanhais
Canção do Vento - Trecho biblico/Adaptação Pedro Lobo Antunes

Em 1969, um padre, Francisco Fanahis de seu nome, apareceu no Programa Zip-Zip, a cantar a balada Cantilena, com música de sua autoria, para um poema de Sebastião da Gama.

Nesse mesmo ano publica o EP Padre Fanhais.

Vindo do sector progressista da Igreja Católica, o Padre Fanhais desenvolve trabalho político contra a ditadura. Proíbem-no de cantar, exercer o sacerdócio e dar aulas nas escolas oficiais.


Em 1971 emigra para França e, após o 25 de Abril, regressa a Portugal e passa a colaborar nas Campanhas de Dinamização Cultural do MFA.

Cantilena

Cortaram as asas
ao rouxinol !
Rouxinol sem asas
não pode voar.

Quebraram-te o bico,
rouxinol !
Rouxinol sem bico
não pode cantar.

Que ao menos a Noite
ninguém, rouxinol !
ta queira roubar.

Rouxinol sem Noite
não pode viver...