quinta-feira, 31 de agosto de 2023

QUOTIDIANOS


Agosto nas suas despedidas.

Nunca deixa ponta de lembranças.

Mas terá sempre de lembrar  a velha frase do pai que odiava o calor e, principalmente, o Agosto.

Chegava o mês nos seus finalmente e dizia:

- Amanhã voltamos a ser gente!

Luís Eme, leitura obrigatória do que escreve no seu Largo e sempre, sempre as maravilhosas fotografias que me encantam, também não gosta de calor e coloca hoje a extraordinária fotografia que aqui, com as devidas vénias, acima reproduzo.

Que bela maneira de receber Setembro, que bela maneira de voltar a ser gente.

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

UM DÓ RÉ MI IMORAL

«Notícia: os talibãs “acenderam este fim de semana uma fogueira no oeste do Afeganistão, e queimaram instrumentos musicais e equipamentos por considerarem a música imoral.”

Instrumentos de música numa fogueira. O som real do fogo por cima do som potencial que existia em cada instrumento.

A violência em parte é isto: impor um som sobre todos os outros. O som das fogueiras de livros, de instrumentos musicais, de roupas, de pessoas.

A invenção do fogo: invenção que aqueceu, iluminou – e também destruiu.

Música acusada de promover a “corrupção moral” e de “enganar os jovens”, segundo Aziz al Rahman al Muhajir, do Ministério para a Promoção da Virtude e Supressão do Vício.

Um dó ré mi imoral.»

De uma crónica de Gonçalo M. Tavares no Expresso

terça-feira, 29 de agosto de 2023

OLHAR AS CAPAS


O Exílio e o Reino

Albert Camus

Tradução: Cabral do Nascimento

Capa: Bernardo Marques

Colecção Miniatura nº 85

Livros do Brasil, Lisboa s/d

Pequenina mas insistente, havia já uns instantes que a mosca voava no autocarro, cujas janelas estavam todavia fechadas. Ia e vinha sem ruído, num voo fatigado. Era frio o ar, e o insecto parecia sentir arrepios a cada rajada de areia que estalava nas vidraças. O veículo, na luz débil da manhã de Inverno, rolava e avançava a custo, num estardalhaço de eixos e de latas. Janine olhou para o marido. Marcel tinha o aspecto de um fauno amuado, com o seu redemoinho de cabelos grisalhos a descer-lhe sobre a testa estreita, o seu nariz achatado, a sua boca irregular.

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


Os Itinerários do Eduardo são tirados de poemas seus, mas essencialmente dos  textos de Isto Anda Tudo Ligado.

Quando apanhei o terrível susto de enfrentar que tinha perdido o livrinho de capa vermelha, andei pela internet sabendo se alguém tinha algum exemplar à venda.

Nessa andanças encontrei um texto de Carlos Loures, que é autor do 2º volume dos Cadernos Peninsulares editados pela Ulmeiro.

Carlos Loures foi amigo do Eduardo Guerra Carneiro e esgalhou um texto sobre o livro  em A Viagem dos Argonautas.

Lembrando sempre o Eduardo, reproduzo o texto do Carlos Loures, que constitui um outro dos muitos Itinerários do Eduardo, uns já feitos outros ainda por fazer:

«A frase “Isto anda tudo ligado” já é antiga, mas quem lhe deu vida nova e foros de expressão erudita foi o escritor e jornalista Eduardo Guerra Carneiro, que a usou como título num seu livro de poemas Isto Anda Tudo Ligado. E este título, como disse Jorge Listopad, numa nota publicada na «Colóquio-Letras», que aparentemente é um «slogan banal», tem sido centenas de vezes utilizado, por escritores, jornalistas, por músicos (como Sérgio Godinho) e não só. Creio que muitos que o utilizam já nem o relacionam com o grande poeta e a maravilhosa pessoa que foi o Guerra Carneiro. Não é o meu caso. Fui muito amigo e companheiro de luta do autor destas palavras. O livro em questão foi o primeiro da colecção Cadernos Peninsulares que o editor da Ulmeiro, o José Antunes Ribeiro, organizou em 1970. O meu livro A Poesia Deve Ser Feita por Todos, foi o segundo livro dessa colecção e seria apreendido pela PIDE. Ambos os títulos, o do Eduardo e o meu, são hoje livros de alfarrabista. As tiragens até nem foram pequenas, mas um incêndio no armazém da editora transformou-os em raridades. Ainda há relativamente pouco tempo comprei um exemplar do meu livro com as extremidades das páginas queimadas.»

Legenda:  pormenor de uma «hors-texte» da autoria de Carlos Ferreiro e tirado do livro do Eduardo «Como Não Quer a Coisa»

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

OLHAR AS CAPAS


Poesia: Programa Para o Concreto

Alexandre Pinheiro Torres

Capa: Espiga Pinto

Colecção Poesia e Ensaio nº 10

Editora Ulisseia, Lisboa, Fevereiro de 1966

O desencanto de Cochofel te, todavia, os seus limites. Nos seus versos perpassa, apesar de tudo, uma vontade de continuar a resistir:

aqui definha

quem ama e crê

……………………….

soldado preso,

esta é a arma que tens.

Mas o seu optimismo surge raramente. Dir-se-ia não haver lugar para ele. E quando surge parece ser um optimismo por volição. Cochofel quer ser optimista. A poesia final é uma afirmação de crença, embora Cochofel nos demonstre que não é tão ingénuo em coisas de arte que acredite que a poesia. Mesmo a neo-realista, tenha de ser fatalmente um programa de optimismo.

COISAS TRISTES DOS PEIXES

«Recordou-se da vez em que apanhara um espadarte, de um casal de espadartes. O macho deixava sempre a fêmea alimentar-se primeiro, e a fêmea, apanhada no anzol, lutou feroz e desesperadamente, tomada de pânico, e depressa ficara exausta; e durante todo esse tempo o macho estivera junto a ela, cruzando a linha e dando voltas à superfície. Andara por tão perto, que o velho temera que ele cortasse a linha, com a cauda afiada como uma foice e quase do mesmo tamanho e forma. Quando o velho a agarrara com o croque e lhe dera uma marretada, segurando o estoque e batendo-lhe no alto da cabeça até que a cor do peixe se tornara quase igual ao estanho dos espelhos, e depois, com o auxílio do rapaz, a içara para bordo, o macho ficara ao lado do barco. E então, enquanto o velho desenredava as linhas e preparava o arpão, o macho saltara muito alto fora de água, ao pé do barco, para ver onde estava a fêmea, e mergulhara profundamente, com as suas asas cor de alfazema, que eram as barbatanas peitorais desfraldadas e todas as listras cor de alfazema a brilhar. Era belo, recordava o velho, e tinha ficado.»

Ernest Hemingway em O Velho e o Mar

Legenda: ilustração de Bernardo Marques tirada do livro.

domingo, 27 de agosto de 2023

OLHARES


 O Eduardo das Conquilhas.

Situa-se na Parede, junto à Estação de Caminho-de-Ferro.

Era um tasco à maneira, com uns pregos e umas bifanas de se lhes tirar o chapéu.

Mas transformou-se em restaurante de gente fina e possuidora de razoáveis quantidades de dinheiro, que olham a tudo menos à qualidade do que comem ou bebem. 

O artista Mário Belém, possivelmente dos clientes mais antigos do Eduardo das Conquilhas, pintou na empena do prédio, que dá para um terreno cheio de lixo e destroços de casas, esta homenagem ao tasco, agora restaurante, do Eduardo das Conquilhas.

QUOTIDIANOS

Neste domingo, o calor parece que caminha para deixar de ser o inferno dos últimos largos dias.

Por onde vive, Ana Cristina Leonardo escrevia há dias na crónica do Público:

«Em suma, como dizia, e sem querer enganar ninguém, escrever está a ser muito difícil.»

Assino por baixo.

DITOS & REDITOS


  Tire o seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor.

Mais vale cair em graça do que ser engraçado.

Deixar tudo para o Dia de São Nunca.

O riso é a raiz da amizade.

Semear amizades.

Não tem sequer dinheiro para mandar cantar um cego.

Cada caso é um caso.

A pensar na morte da bezerra.

sábado, 26 de agosto de 2023

IRONIAS

«- A maior ironia da vida é que ela nos é retirada assim que nos é cedida. Nascemos e mal nascemos começamos a morrer. Que Deus, a não ser um Deus com um sentido de humor perverso, podia ter concebido isto?

- Então e a ressurreição? – lembrava-lhe Boris, sem já ter ele próprio a certeza de acreditar em tal coisa.

- A ressurreição! Mais essa! – E desatava a gritar ao vento: - Lázaro! Aparece Lázaro! – Punha-se sério e concluía: - Mais depressa sobrevive aqui um ateu que um crente. Aos ateus resta-lhes sempre a esperança nos homens, noutros homens, mas que queres que faça um crente abandonado por Deus que é único?»

Ana Cristina Leonardo em O Centro do Mundo

sexta-feira, 25 de agosto de 2023

POSTAIS SEM SELO


A tristeza é um privilégio dos estúpidos.

Luiz Pacheco, epígrafe escolhida por António Cândido Franco para o seu livro O Firmamento é Negro e não Azul

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 Aqui para nós, que ninguém nos ouve, sou um leitor fatela.

Sempre gostei do Luiz Pacheco.

Aprecio gente que escreve bem o português.

Sim, o Pacheco era um tipo corrosivo, mal-educado, um obsceno provocador, mas o Armindo acentuava bem que escrevia de uma forma a roçar o génio.

Sempre que subia o Chiado, olhava para todo o lado na esperança de ele me  aparecer a pedir «vintes».

Aconteceu algumas vezes, não tantas como gostaria que tivessem acontecido,  eu que sempre fui um teso de tostões bem contados.

Volta e meia aparece alguém a escrever sobre o Pacheco. Provavelmente nem sempre o trataram bem mas agora dá jeito para ganhar uns euros.

Tenho este livro do António Cândido Franco sobre a vida do Luiz Pacheco desde Março, oferta do Alentejano («ainda bem que há amigos») e só agora o irei desbravar.

Neste Cais há diversas etiquetas Luiz Pacheco.

Não percam a etiqueta Luiz Pacheco, Editor, talvez o melhor lado do Luiz Pacheco.

A CHAMADA PERFEITA

Donald Trump entregou-se ontem às autoridades do estado da Georgia, no âmbito de um processo criminal em que é acusado de tentar reverter a sua derrota nas eleições presidenciais de 2020, tendo sido libertado minutos depois, mediante  o pagamento de uma fiança no valor de 200.000 dólares, cerca de 184 mil euros.

Trump afirmou que esta viagem a Atlanta não ia ser por ter cometido qualquer homicídio, mas por ter "feito uma chamada perfeita”.

O ex-presidente  referia-se a um dos principais trunfos da acusação: a gravação em que Trump pede ao secretário de Estado da Georgia, Brad Raffensperger, para "encontrar" votos suficientes para vencer naquele estado, com o intuito de afastar o então candidato presidencial democrata, o atual Presidente Joe Biden, da Casa Branca.

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

POSTAIS SEM SELO


Nunca percebi a preferência de Deus pelo deserto. Afinal, é o lugar da Terra mais parecido com o Inferno.

José Agostinho Baptista

OLHAR AS CAPAS


O Firmamento é Negro e Não Azul

António Cândido Franco

Capa: Rui Rodrigues

Quetzal Editores, Lisboa, Janeiro de 2023

Conheci Luiz Pacheco, Luiz Machado Gomes Guerreiro Pacheco, nomeado neste livro Luiz José, na Feira do Livro de 1972 na Avenida da Liberdade, tinha ele 47 anos e era eu imberbe e quase miúdo. Foi o ano em que pela primeira vez andei sozinho na Feira do Livro, então na ala interior da Avenida da Liberdade, do lado de quem sobe. Nos escaparates apresentava-se uma novidade, Exercícios de Estilo, com fotografia do rosto do autor em toda a extensão da capa. Foi assim que fiquei a saber de um escritor português chamado Luiz Pacheco. A sua figura real, que vi de relance a esgueirar-se para o tráfego da rua, impressionou-me. Alto e míope, embrulhava-se num farrapo branco, desmedido para o desarmado e encurvado tronco, prendia as calças na cintura com uma corda e enrolava-as nos joelhos deixando ao léu parte das pernas esqueléticas. Nos pés, uns sapatos pretos esburacados, sem meias, deixavam-lhe à mostra os tornozelos ossudos e feridos. Um colar reluzente de pústulas magoava à luz crua do Sol. Movia-se entre os carros da avenida como um animal acossado por paus e pedras; levantava os magros braços ao céu e olhava baixo e desconfiado para os lados. Rosnava – Mais receoso que feroz. 

CONVERSANDO

Ainda o texto do Rodrigues da Silva.

A felicidade nunca foi declarada como um estado permanente. 

Marguerite Yourcenar escreveu um dia em nome de Adriano: «Na vida há momentos de felicidade.».

Porque a felicidade nunca é uma entidade absoluta, apenas relativa. 

Ou então o Postal Sem Selo de ontem.

Horácio Tavares de Carvalho em Cavatina, a propósito sei lá de quê e continua o calor infernal:

 «As escravas não jantam com os deuses, só as rainhas têm esse privilégio. Outra garrafa , Hatchepsut?

- Seja feita a vossa vontade Senhor. «Sabe que virá um dia em que/para longe da Alma tu irás/E para além da cortina secreta da vida tu irás/Bebe, bebe, que nunca saberás donde vieste/Sê feliz, que nunca saberás para onde irás um dia,»

- Isso é lindo.

- Omar Kayyam. Há quase mil anos já se sentiam estes problemas.

- Você tem uma cultura danada.

- Não tenho nada. Mr. Eisenberg. Tenho boa memória para datas, para provérbios curiosos e para uma frases feitas a puxarem ao inteligente.»

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

POSTAIS SEM SELO


A felicidade não depende do que nos falta, mas do bom senso que fazemos do que temos.

Thomas Hardy

VELHOS RECORTES

Num Agosto, de que não há referência de ano, Rodrigues da Silva, nas páginas do JL, tenta saber o que é a Felicidade ou para que serve.

AS FÉRIAS VISTAS POR AGUSTINA


As férias, os livros para férias, vistos por Agustina Bessa-Luís no seu Caderno de Significados: 

1.

Desde os dez e os quinze anos, nós imitamos a despreocupação, mas não a vivemos nunca mais. As férias dos adultos são a consagração das suas neuroses. Sendo assim, escolhemos para as um livro que não lemos, traçamos um plano que nos fatiga, compramos coisas que não nos interessam, achamos admiráveis as paisagens que mais dispensamos. E por fim aborrecemos os outros dizendo-lhes como nos divertimos; porque a alegria não se transacciona, e toda a gente sabe isso. Está dito que eu não gosto de férias.

2.

Um livro para férias não deve ser escolhido. O que se escolhe serve à personalidade, e as férias são o pretexto para sermos impessoais, fazer o que muitos fazem, ir para onde muitos vão. Pegue num livro que não pese mais de 200 gramas e leve-o consigo. Leia três páginas, esqueça-o na gare ou no banco das termas, na praia ou no restaurante, e aí, sobretudo, aí tenha a certeza que é o bom livro para férias; se você não tiver pena de o ter perdido.

OLHAR AS CAPAS


Retrovisor

Nuno Galopim

Assírio & Alvim, Lisboa,  Maio de 2006

Há ainda em Campolide um tema instrumental da banda sonora de Le Soleil en Face e que representa a primeira vez que Sérgio Godinho compôs para guitarra portuguesa, sempre com a memória de Carlos Paredes a assaltá-lo: «Inspirei-me assumidamente no seu fraseado – aliás na minha memória do seu fraseado… Foi uma homenagem íntima ao seu génio e a tudo o que ele me deu. Cheguei a pensar pôr-lhe uma letra, mas não faria sentido».

terça-feira, 22 de agosto de 2023

POSTAIS SEM SELO

O neto foi despedir-se dos avós, agora que ia de férias com os pais.

- Manda-nos um postal, disse a avó.

- O que é um postal, vó?... 

CONVERSANDO

Na Parede, por onde andei estes dias, tentei encontrar postais da vila para enviar a uns amigos alemães. Percorridas umas cinco papelarias não consegui encontrar um único postal, tão pouco de Carcavelos, Estoril ou Cascais. Na Livraria da Europa-América só havia postais de Lisboa!...

Na papelaria junto à Estação do comboio, disseram-me que já ninguém usa postais, mandam-se «sms». Disse-lhe que não tenho telemóvel, a moça ficou espantada a olhar não sei para onde…

Reconheço que sou um tipo antigo, agarrado a coisas extintas ou em vias de o serem, coisas completamente desactualizdas, tudo tão de outro tempo.

Mas é bom escrever aos amigos e um postal talvez seja uma maneira de estar perto desses amigos.

Um tempo outro de coisas modernas mas que não conseguem juntar as pessoas.

VOLTAR, VOLTAR...

A ideia residia nuns seis/sete dias. 

Acabaram por ser onze.

Sempre a velha ideia de que o melhor das férias é o regresso a casa.

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 Quero dizer-vos que um destes dias apanhei um enorme susto.

Fui à estante da Biblioteca da Casa para consultar o Isto Anda Tudo Ligado do Eduardo Guerra Carneiro e não o encontrei.

Fora do sítio? Emprestado?

Há livros que não empresto mesmo e se por qualquer razão isso acontece, sei bem a quem o empresto.

Comecei a suar frio.

Onde o terei deixado?

Passaram-se os dias e antes de chegar a qualquer alfarrabista, telefonei ao José Antunes Ribeiro se ainda, perdido pelo armazém, tinha algum exemplar.

Da 1ª edição nada resta, mas em 2015 reeditou o livrinho e existem alguns exemplares.

Pedi que mo enviasse pelo correio e passados uns dias, o carteiro bateu à porta.

Voltei a relê-lo num curtíssimo golpe de asa.

Um enorme livro!

Tudo isto se passou há três anos.

Ontem, a mexer numa pasta de papelada antiga, fui dar com o meu velho livrinho  de capa vermelha do Isto Anda Tudo Ligado do Eduardo Guerra Carneiro, possivelmente, a fazer de marca para qualquer coisa  que eu consultei.

Como foi possível?

Acreditam que chorei, eu que até não sou de lágrima fácil?

Se a felicidade é possível, acreditei que é o que agora sinto.

A 1ªedição custou-me, à data de saída, 25 escudos, qualquer coisa como 1,25 euros, a 2 ª edição custou-me 10 euros, mais os portes de correio.

O livro está dividido em duas partes:  «Jardim de Alguns Objectos e Coisas Reais» com 11 poemas e «Isto Anda Tudo Ligado», maravilhosos textos curtos.

Ambas as capas são vermelhas.

Dado o tempo que decorreu, já lá vão 53 anos, caramba! como estou velho, o vermelho  está um tanto ou quanto desmaiado.

Termino esta feliz nota, copiando no Nota que o Editor, José Antunes Ribeiro, entendeu deixar nesta nova edição do livro do Eduardo:

 «Em Janeiro de 1970 este ISTO ANDA TUDO LIGADO, de Eduardo Guerra Carneiro deu início às edições da Ulmeiro, livraria e editora que aparecera um mês antes.

Esta reedição, numa pequena tiragem, numerada e assinada pelo editor, é dedicada à memória do Eduardo Guerra Carneiro que partiu no dia 2 de Janeiro numa hora triste de desespero e desencanto.

O título deste livro anda por aí dito e redito ao mesmo tempo que a memória do poeta é silenciada e ignorada.

Este foi o primeiro livro da Ulmeiro. Um grande livro. Um grande poeta, um grande jornalista. A falta que me fazes , Eduardo. Tinha uns projectos para discutir contigo. “Um dia destes falamos”! Pois é…

ISTO ANDA TUDO LIGADO.

José Antunes Ribeiro»

OLHAR AS CAPAS


 Isto Anda Tudo Ligado

Eduardo Guerra Carneiro

Capa: Ana Nunes

Editor Fólio Exemplar, Lisboa, Outubro de 2015

Pedra

Pedra. Que entre as mãos seguro.

Frágil. Frágeis. Não é fraga da serra.

É pedra ligeira da beira do mar.

A cor? Não posso dizer que é verde

sem lembrar um olhar demasiado.

Pedra em que repouso. Simples

motivo de falar de um gesto.

De. Para. Se me lembro!

NOTÍCIAS DO CIRCO

Os incêndios continuam a devastar o país.

Terá de existir uma qualquer razão para que o fogo ataque em todos os anos as terras das mesmas regiões.

Terras por limpar, caminhos que não se abrem para que em determinados locais os bombeiros possam deslocar os seus carros e materiais, tanto descuido, tanta leviandade, tantas promessas governamentais e autárquicas por cumprir.

No Público de joje pode ler-se:

«Cinco anos após o último incêndio ocorrido em Monchique, ainda há madeira queimada por retirar dos terrenos e o ordenamento florestal continua por fazer. O fogo, que começou há quatro dias em Odemira, entrou no concelho algarvio que é considerado o “pulmão” da região.»

terça-feira, 8 de agosto de 2023

CONVERSANDO

De modo algum pretendo que num qualquer dia queira mudar a minha relação com igrejas, cleros, anjos, deuses. 

São muito fortes as fontes de que me servi para conhecer a história das religiões.

Tudo o que se passa em redor do mundo que envolve a pobreza, o sofrimento de milhões de pessoas, as guerras, não pode ter a mão, do tal Deus.

Como um dia disse José Saramago, as religiões nunca serviram para aproximar os seres humanos.

Mas este Papa Francisco surpreende.

E sabemos que não consegue pôr em prática tudo aquilo que ele acha mal na igreja.

Nos dias em que por aqui esteve, dirigiu palavras que importaria que não fossem esquecidas:

Ponham-se a caminho, apressadamente, mas não ansiosamente. Sejam inconformistas, ousados e empreendedores de sonhos.

E falou dos que caem lembrando que cair não é problema, problema é permanecer no chão e lembrou um filósofo que disse que a mensagem revolucionária consiste em encontrar amável mesmo o objecto não amável.

Lembrando as ondas gigantes da Nazaré, disse : Sigam a onda, tornem-se os surfistas do amor.

E acima de tudo: Não tenhais medo!

Os números da Jornada:

1,5 milhões de pessoas.

Peregrinos de 180 países, 25 mil voluntários e cinco línguas oficiais.

Presentes 700 bispos e 10 000 sacerdotes de todo o mundo.

O Papa Francisco confessou a experiência dolorosa que foi falar com algumas das vítimas dos abusos dos padres que outros padres durante anos e anos tentaram esconder.

Este Papa tem como quase única esperança que a Igreja evolua.

Para isso tem desenvolvido um trabalho desconhecido de muitos, mas de uma profundidade que poderá mudar a igreja, torná-la digna.

Francisco é um homem culto.

A igreja não tem muita gente culta.

Olho o clero português e tenho como certo que tirando as sebentas  que lhes impingiram nos seminários, não lêem outros livros.

Cultos são José Tolentino Mendonça, o Frei Bento Domingues.

Quantos mais?

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

AH! SIM, O NEGÓCIOZINHO...


 Quiosque na Alameda.

Em outros dias, os preços escarrapachados não são os praticados.

Mas estamos na semana da Jornada da Juventude.

Vá de enfiar mais umas moedas no bolso.

Na baixa de Lisboa os restaurantes não aderiram ao Menú do Peregrino, apenas alguns pequenos restaurantes nos bairros populares o praticaram.

Aparentemente ninguém explicou a esta gananciosa raça de pseudos empresários da restauração que a malta da Jornada era jovens que não vinham à procura de lagosta ou bifes à Marrare.

Serão sempre uns reles e oportunistas chicos-espertos.

domingo, 6 de agosto de 2023

O FINDAR DA FESTA


 Podem vir pela fé, mas também vêm pela festa, pelo convívio, e isso não constitui mal algum porque ter fé, para os crentes, também é uma festa.

A organização da Festa da Juventude colocou palcos em Lisboa para que a festa se expressasse pela música, pela dança. Guy Debord, no seu livro A Sociedade do Espectáculo – onde pára o meu livrinho editado pela Afrodite do louco Fernando Ribeiro de Mello, capa cinzenta, emprestado a alguém que não mais o devolveu ao seu espaço na Biblioteca da Casa? – afirmava que as sociedades contemporâneas são sociedades do espectáculo. A igreja, se não quer ficar longe de rasgados horizontes, não pode ficar fora desse espectáculo!

Acompanhei à distância a visita do Papa e não me abalancei para grades multidões.

Este é o palco colocado na Alameda e que durante os dias e as noites manteve a zona num corrupio de alegria.

A fotografia, tirada pela minha velha maquineta comprada, ainda numa loja de 300, registou, manhã de domingo, o desmanchar do palco.

Ainda na Alameda, uma jovem descansa, olhando as fotografias destes dias tiradas pelo telemóvel, ou um outro tipo de olhar.


Linha vermelha, estação Alameda, um grupo de peregrinos enceta um qualquer caminho de regresso.

Num outro plano, uma esplanada de um pequeno café junto ao Mercado de Arroios e uma jovem,  mochilas no chão, contacta, perto ou longe, alguém.

Ainda é manhã mas já um baforada de calor que lá para a tarde, dizem os especialistas, atingirá os 40º de temperatura.

O fim da Festa.

Sente-se alguma tristeza.

Aquela tristeza cinzenta que fica no fim das garrafas vazias de que falava o Baudelaire.

sábado, 5 de agosto de 2023

CONVERSANDO

Jorge Mario Bergolio, um homem simples, um padre de espírito aberto, que gosta de futebol, que quando se preparava para se reformar, lhe disserem que muitos católicos o queriam como futuro Papa.

Terá sorrido e seguiu o caminho.

Foi eleito Papa, Francisco, 266º papa da igreja católica, no dia 13 de Março de 2013.

Levou para o Vaticano toda a sua simplicidade, o anterior papa calçava sapatos Prada, e fez da frontalidade, da bondade, da humildade os grandes desígnios do seu papado. Nunca deixou de denunciar os erros da sua igreja. Claro que os velhos padres do Vaticano não o deixam chegar onde ele quereria chegar, mas mesmo assim caminha, avança. Olhou os escândalos de pedofilia e chamou-lhes um horror. Bem ao contrário do que a maior parte de cardeais e bispos fizeram que foi ocultar e deixaram da igreja uma imagem sem pingo de perdão.

Jornada Mundial da Juventude 2023.

Olhei os sorrisos dos cardeais e bispos portugueses perante o Papa em Lisboa, e sinalizei cinismo. São lobos escondendo perfídias várias. Sabiam dos crimes dos padres e esconderam tudo. Ainda hoje não sabem dizer uma razoável, decente palavra sobre tão lamentável drama.

Como muito bem diz Francisco: «Sei que sou uma pedra no sapato, mas não tenho medo.»

Francisco fará 87 anos em Dezembro.

Nestes dias de Jornada lisboeta, mostrou algumas fragilidades físicas que, de todo, não conseguiu evitar.

Pela maior parte deste  velho clero português, não será escolhido um outro Papa igual ou melhor que Francisco. Terá que ser alguém longe de qualquer ponta de progressismo. A igreja ainda está impregnada dos velhos e bafientos tempos, terríveis tempos das sacristias salazarentas.

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

SULINHADOS SARAMAGUIANOS

«Alguns representantes da Igreja Católica têm dito, pelo facto de eu ser ateu, marxista e comunista, não teria o direito de escrever um livro co O Evangelho Segundo Jesus Cristo. E eu suponho que tenho todos direitos do mundo de escrever sobre tudo aquilo que eu entender.»

José Saramago

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

NOTÍCIAS DO CIRCO

As desculpas esfarrapadas que a equipa autárquica, comandada pelo ex-presidiário, encontraram para a censura executada no cartaz colocado em Oeiras quedenunciava o silêncio da igreja face aos padres pedófilos, são um verdadeiro nojo.   

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

POSTAIS SEM SELO


«No que me toca, sou um cidadão republicano, ateu e socialista, e consequentemente convicto defensor da liberdade de crenças e descrenças. Por isso mesmo, não concebo que os impostos pagos por todos sirvam para financiar as espaventosas cerimónias religiosas só de alguns. Mesmo que estes se considerem religião maioritária. E precisamente por isso mesmo.»

Fernando Rosas, hoje, no Público

TRÊS CARTAZES À BEIRA DA ESTRADA


 O Papa Francisco chegou hoje a Portugal para participar na Jornada Mundial da Juventude.

Admite-se que num seu discurso abordará os abusos sexuais na Igreja.

Três cartazes, afixados em Loures, Algés e Lisboa, lembram as atrocidades sexuais dos padres pedófilos e pretendem que estes crimes, no meio da alegria das festas, não caiam no silêncio. 

Os três cartazes com as cores da JMJ – vermelho, verde e amarelo - foram afixados em Loures, Algés e em Lisboa, na Alameda, mostram o número dos que foram abusados. Cada ponto vermelho representa uma pessoa. A mensagem está em inglês para que os peregrinos a consigam perceber: "Mais de 4800 crianças foram abusadas por elementos da igreja”.

Entretanto o cartaz de Algès foi removido a mando de Isaltino ou de algum seu capacho-mor.

De momento as autoridades policiais não têm qualquer informação que permita comentar o acto censório ou de quem partiu a remoção do cartaz.

DESCOBRIR AS CORES


 Estes cadernos para colorir, já são muitos os cadernos, fizeram-me companhia enquanto acompanhei a minha mãe acamada, também após a sua morte e nos terríveis tempos da pandemia.

E ficaram como a a minha distracção predileta.

O João e a Francisca, os meus dois netos mais novos, quando aparecem aqui por casa, também já aderiram a estes relaxamentos.

Colaboração de Aida Santos

terça-feira, 1 de agosto de 2023

VELHAS CANÇÕES


os meus verões são tão diversos como diversa tem sido toda a minha vida arroz de pimentos e pasteis de bacalhau aos domingos até algés ou cruz quebrada, o mar da infância ficava longe castelos na areia anos mais tarde dois meses na trafaria em casa alugada a pescadores, quando as férias eram grandes uma juke box na esplanada do marques o lucho gatica a cantar o moliendo café o marino marini a cantar honeymoon também um barrote espetado no meio do areal, um alti-falante no topo a ouvir-se o armando marques ferreira a apresentar o programa da manhã do rádio clube português as canções das praias de todos os anos uma kanimambo pelo joão maria tudela a lenda da conchinha da celly campelo o ouro negro setembro chegou vamo-nos separar os golfinhos a percorrer o tejo a caminho da barra os bailes de despedida dos banhistas no salão de festas dos bombeiros e agora senhoras minhas meus senhores o conjunto faz um pequeno intervalo damas ao bufete um enorme alguidar de zinco cheio de gelo e garrafas de vinho branco camilo alves, cada taça vinte e cinco tostões dois para esquerda um para a direita directrizes para o pezudo que sempre fui as férias da infância não se repetem o ruy belo que esperava pelo verão como por outra vida depois passei a odiar, o verão dou-me muito mal com o calor longe muito longe da sophia que dizia que metade da vida dela era maresia e eu a acreditar baixinho que o verão é um território do pecado, todos os pecados se confundem e de pecados fujo a sete pés e gozar que nem um perdido com a marilyn monroe num filme do billy wilder a dizer ao vizinho de baixo que se vai vestir à cozinha, o vizinho na cozinha porquê e ela a dizer que no verão anda nua pela casa e põe as cuecas no congelador o verão prestes a chegar o meu pai a dizer-me que em setembro voltamos a ser gente e sempre sempre os gatos selvagens e o verão a chegar sur la plage por fim mas não como última coisa há longos anos que deixei de passar férias e apenas sinto que as férias é que passam por mim a uma velocidade tão louca e muito longe da calma e serenidade das férias do sr. hulot ou brigitte bardot em 1955 de biquíni em saint-tropez, aquele grande sorriso e o resto que poderá ser um refresco de limão, muito gelo um dedal de gin e lembrar-me ainda que nunca usei óculos de sol

CONVERSANDO

Já não lembro o que almoço ontem, mas não esqueço as histórias, as anedotas que o meu avô materno, contava em todos os jantares de família:

«O homem entra pela drogaria do bairro. Pede uma esmola para o ceguinho. Uma mulher pergunta:

-Mas onde está o cego?

-Está a ver a montra, responde-lhe o homem.

MAIS CITAÇÕES

Citas muito, dizem. Sempre foi assim. Como explicar? Não se trata nem do uso de argumentos de autoridade nem de exibicionismo cultural. Mas incomoda, eu sei, e permite que se insinue que se não pensa pela própria cabeça, ou que se vive alimentado pelas modas «que vêm do estrangeiro».

Gostaria de tornar bem claro como o gosto da citação tem a ver com um amor intenso das palavras. Por vezes, citação que excita pela convicção de que alguém encontrou um dia as palavras certas – isto é, os nomes próprios – para dizer algo que em nós foi expressão confusa e enrodilhada. Aqui a citação tem um efeito de evidência. Que é sempre, acreditem, motivo de júbilo.

Por outro lado, a citação é um incitamento. Porque retirar as palavras de um contexto (a citação faz um desvio) é criar em torno delas um halo de silêncio, um anel de referências implícitas, que abre o espaço para dizer mais. O espaço off de uma citação é um convite para se pensar. A citação condensa, mas ao mesmo tempo indecide – efeito de descontextualização.

Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi, Volume I

CITAÇÔES

Quando não sei o que dizer, cito. Posso citar sem que se note que uma citação, como a frase «sou um homem honesto», que vem no Otelo.

João César Monteiro