Mostrar mensagens com a etiqueta Marguerite Yourcenar. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Marguerite Yourcenar. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 30 de abril de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Filha de peixes sabe nadar.

É o que acontece com Cristina Carvalho, filha de Natália Nunes e António Gedeão.

Ultimamente tem-se dedicado a escrever sobre gente de que muito gosta: António Gedeão, Selma Lagerlöf, Strindberg, Ingmar Bergman, W.B.Yeats e Paula Rego e agora MargueriteYourcenar.

Conhece-lhes a obra, visita os locais onde nasceram, viveram as suas vidas, percorre as dúvidas e angústias, bem como a percepção desse mistério insondável que é o ímpeto de escrever como fuga à morte.

Correndo atrás de Marguerite Yourcenar, Cristina Carvalho elucida-nos: «Eu não devoro livros. Saboreio-os, apalpo-os, sublinho-os, dobro as pontas das páginas que me interessam e quando começo a apaixonar-me por essa leitura, leio-os ainda mais devagar. Quando acabo, muitas vezes volto ao princípio e isto pela minha eternidade fora, que é um assunto desinteressante e incompreensível: a eternidade de cada um de nós».

Liberdade e Paixão começa assim:

«Faz com que escreva ou não escreva. Pretendo invocar um qualquer tom de cinzas ou a ruga permanente desse olhar. Ou ainda sobre a aspereza ou a maciez, a rugosidade da pele das mãos. Faz com que escreva e descreva o lenço a cobrir o cabelo, a cabeça. A proteger-te de algum frio que possa existir. Ou sobre as roupas que usas, o comprimento da saia ou o desbotado da gabardine, a ausência de quase tudo. Também posso escrever sobre os passeios que vais dando ao longo do lago. Conheço os passos que dás sobre as pedrinhas e sobre as folhas caídas nos caminhos».

Marguerite Yourcenar sabe, e di-lo claramente, que os seus livros não são de leitura fácil, muito menos de compreensão fácil, tão pouco não é uma pessoa acessível.

«Não lhe interessam os aplausos literários. Esquiva-se. Foge. Não deseja milhares de leitores ávidos, ignorantes.»

«Aí está! Morrerei cheia de conhecimento antigo, daquele imutável, que os meus antepassados gregos, romanos, japoneses, orientais me ofereceram desde muito jovem. E também me ensinaram que não valho quase nada.»

Das dificuldades da escrita de Yourcenar, dos seus medos, das suas angústias, Cristina ajuda-nos a perceber algo mais.

Yourcenar conta que herdou alguma fortuna: «Derreti-a em poucos anos com passeios extravagantes, com mulheres, com homens e muita bebida. E brinquei e amei muito nas noites da Europa: não conheci os dias, pois a luz servia-me para dormir. Muitas vezes me perguntei quem era eu, afinal. Mas eu sabia que essa resposta teria o seu tempo para aparecer. Sabia perfeitamente»

Há gentes assim, repletas de loucas magias.

Lembro o futebolista George Best: «Na minha vida gastei montanhas de dinheiro em mulheres, vinhos e carros rápidos. O resto desperdicei…».

Um dia, Best sintetizou exemplarmente a sua vida:

«Na América vivia numa casa perto da praia. No caminho para lá, havia um bar, por isso nunca chegava à água.»

Tempo de fechar este O Outro Lado das Capas e voltar a Yourcenar:

«A partir de certa idade comecei a ler profundamente e, sim, amei os livros, amei-os apaixonadamente. E toda a vida viajei. E toda a vida li. E toda a vida escrevi.»

OLHAR AS CAPAS


Marguerite Yourcenar: Liberdade e Paixão

Cristina Carvalho

Capa: Carlos César Vasconcelos

Relógio D’Água Editores, Lisboa Novembro de 2025

Não. Os livros não se devoram. Os livros degustam-se.

Dá ideia de que um devorador de livros é um leitor cultíssimo, variado, presente, sempre na crista da onda; alguém com um cérebro assimilador e uma capacidade sempre esfomeada por livros.  

domingo, 30 de novembro de 2025

COMEÇOS DE LIVROS


Existem aquelas palavras de Herberto Helder: «Morrer era agora minha liberdade, e eu tinha a vida inteira para executá-la pormenorizadamente».

Também as do político e jornalista Vitor Cunha Rego, «A pessoa preparar-se para a morte é a grande finalidade da vida.»

Os mortos só sabem uma coisa: é melhor estar vivo.

Gostar de morrer sem dar por isso.

E há aquele começo de Memórias de Adriano de Marguerite Yourcenar, uma obra magnífica, lida as vezes precisas, não suficientes, para o compreender, e em cada leitura sempre algo de novo, «como é que deixai passar isto na(s) outra(s) leitura), onde tinha a cabeça?


«Meu caro Marco

 

Fui esta manhã a casa de Hermógenes, o meu médico, que acaba de regressar à Villa depois de uma viagem bastante longa pela Ásia. Devia ser observado em jejum; tínhamos marcado a consulta para as primeiras horas da manhã. Deitei‑me num leito depois de ter tirado o manto e a túnica. Poupo‑te a pormenores que te seriam tão desagradáveis como a mim próprio, e à descrição do corpo de um homem que avança na idade e se prepara para morrer de uma hidropisia do coração. Digamos apenas que tossi, respirei e retive o fôlego conforme as indicações de Hermógenes, alarmado, a seu pesar, pelos progressos tão rápidos do mal e disposto a atribuir as culpas ao jovem Iolas, que me tratou durante a sua ausência. É difícil permanecer imperador na presença de um médico e difícil também conservar a qualidade de homem. O olho do prático só via em mim um montão de humores, triste amálgama de linfa e de sangue. Veio‑me esta manhã, pela primeira vez, a ideia de que o meu corpo, este fiel companheiro, este amigo mais seguro, melhor conhecido por mim que a minha alma, não passa de um monstro dissimulado que acabará por devorar o seu dono. Basta… Amo o

meu corpo; serviu‑me bem e de todas as maneiras, e não lhe rega‑ teio os cuidados necessários. Mas já não conto, como Hermógenes pretende ainda fazer, com as virtudes maravilhosas das plantas e a dosagem exacta dos sais minerais que ele foi buscar ao Oriente. Este homem, aliás tão fino, dirigiu‑me vagas fórmulas de reconforto, excessivamente banais para enganarem alguém; ele bem sabe como eu odeio esse género de impostura, mas não é impunemente que se exerce a medicina durante mais de trinta anos. Perdoo a tão bom servidor esta tentativa de me esconder a minha morte. Hermó‑ genes é competente; é mesmo sábio; a sua probidade é muito su‑ perior à de um vulgar médico da corte. Terei a sorte de ser o mais bem tratado dos doentes. Mas ninguém pode ultrapassar os limites prescritos; as minhas pernas inchadas já me não aguentam as longas cerimónias romanas; sufoco; e tenho sessenta anos.»

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

O OUTRO LADO DAS CAPAS


De Olhos Abertos consta de uma série de conversas entre Marguerite Yuorcenar e Matthieu Galey, acontecidas ao longo de vários anos.

«Essa paz conquistada e dominada lê-se nos olhos azuis. No olhar «celta» de Marguerite Yourcenar, que nos fita com uma sabedoria que se sente vinda de muito longe.»

Gosto de livros em que os autores de quem gosto conversa com jornalistas ou um outro escritor, ou um crítico literário, como é o caso de Matthieu Galey.

Também gosto de correspondência trocada entre escritores, ou livros em que se reúnem entrevistas que os autores deram ao longo das suas vidas. Com esses livros consegue-se ter uma outra visão e ideia sobre os escritores que apenas «conhecemos» dos seus livros.

E este livro é mesmo uma bela maravilha!

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

CONVERSANDO

Ainda o texto do Rodrigues da Silva.

A felicidade nunca foi declarada como um estado permanente. 

Marguerite Yourcenar escreveu um dia em nome de Adriano: «Na vida há momentos de felicidade.».

Porque a felicidade nunca é uma entidade absoluta, apenas relativa. 

Ou então o Postal Sem Selo de ontem.

Horácio Tavares de Carvalho em Cavatina, a propósito sei lá de quê e continua o calor infernal:

 «As escravas não jantam com os deuses, só as rainhas têm esse privilégio. Outra garrafa , Hatchepsut?

- Seja feita a vossa vontade Senhor. «Sabe que virá um dia em que/para longe da Alma tu irás/E para além da cortina secreta da vida tu irás/Bebe, bebe, que nunca saberás donde vieste/Sê feliz, que nunca saberás para onde irás um dia,»

- Isso é lindo.

- Omar Kayyam. Há quase mil anos já se sentiam estes problemas.

- Você tem uma cultura danada.

- Não tenho nada. Mr. Eisenberg. Tenho boa memória para datas, para provérbios curiosos e para uma frases feitas a puxarem ao inteligente.»

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

POSTAIS SEM SELO

O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos: minhas primeiras pátrias foram os livros.

Marguerite Yourcenar

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

POSTAIS SEM SELO


Procuremos entrar na morte de olhos abertos.

Marguerite Yourcenar em Memórias de Adriano

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

CANTILENA PARA UM TOCADOR DE FLAUTA CEGO

Flauta da noite que se cerra,

Presença líquida de um pranto,

Todos os silêncios da terra

São as pétalas do teu canto.


Espalha teu pólen na alfombra

Do catre que por fim te acoite

Mel de uma boca de sombra

Como um beijo na boca da noite


E pois que as escalas que cansas

Nos dizem que o dia acabou,

Faz-nos crer que os céus dançam

Porque um cego cantou.

Marguerite Yourcenar

(Tradução Mário Cesariny)

sábado, 3 de setembro de 2022

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 A contra capa de A Obra ao Negro é simples, mas forte e colocada.

Chamam-lhe obra-prima e repetem os nomes dos tradutores. Difícil encontrar um nível como este para a tradução da obra de Yourcenar.

No posfácio que escreveu para o livro, Yourcenar adianta o significado do título:

«A fórmula A Obra ao Negro, que dá o título a este livro, designa, nos tratados alquímicos, a fase de separação e dissolução, que era, diz-se, a parte mais difícil da Grande Obra. É ainda discutível se uma tal expressão se aplicava a audaciosas experiências sobre a própria matéria, ou se significava simbolicamente as provações do espírito ao libertar-se de rotinas e ideias feitas. Significou, sem dúvida, uma coisa e outra, distinta ou simultaneamente.»

O mote da narrativa é também dado com a autora a introduzir a epígrafe de Pico della Mirandola:

«Não te dei, ó Adão nem rosto nem lugar que te seja próprio,nem qualquer dom particular, para que teu rosto, teu lugar e teus dons os desejes, os conquistes e sejas tu mesmo a possuí-los. Mas tu, que não conheces qualquer limite, só mercê do teu arbítrio, em cuja mãos te coloquei, te defines a ti próprio. Coloquei-te no centro do mundo para que melhor pudesses contemplar o que o mundo contém. Não te fiz nem celeste nem terrestre, nem mortal nem imortal, para que tu, livremente, tal como um bom pintor ou hábil escultor, dês acabadamente a forma que te é própria.»

Em 1999 o jornal Le Monde, constituiu uma lista de 100 livros considerados como os melhores do século XX. A lista foi elaborada por livreiros e jornalistas em que 17.800 leitores responderam à pergunta: «Que livros ficaram na sua memória».

Esta obra de Marguerite Yourcenar ficou no 26º lugar.

Zenão regressa a Bruges. Não podia correr o risco de ser reconhecido mas a velha Greete conhecia-o desde miúdo.

«Greete vinha quase todas as semanas tratar das suas mazelas de velha, sem nunca deixar de trazer um presente, manteiga embrulhada numa folha de couve, um bocado de bolo feito por ela, açúcar cristalizado ou uma mão-cheia de castanhas. Enquanto comia, ela contemplava-o com aqueles seus olhos risonhos. Havia entre eles a intimidade de um segredo bem guardado.

terça-feira, 22 de junho de 2021

OLHAR AS CAPAS



Testemunho do Sonho

Marguerite Yourcenar

Tradução: Maria Filomena Duarte

Capa: Antunes

Círculo de Leitores, Lisboa s/d

Ao quarto copo, vieram-lhe à mente ideias inusitadas; pensou; mirou o calendário, que celebrava as virtudes de uma marca de medicamentos, e perguntou a si próprio o que significava aquilo dos dias, dos meses e dos anos; achou muita graça às primeiras moscas da época suspensas da sua armadilha de papel gomado, esforçando-se fracamente por se escaparem antes de morrer; satisfeito por ter retirado tão bem o que apendera na escola, disse para com os seus botões que, em suma, é assim, de cabeça para baixo, que os homens andam de um lado para o outro nessa enorme bola que anda à roda. Precisamente, estava tudo a andar à roda: uma valsa majestosa arrastava as paredes. O calendário dos medicamentos, o cartaz das laranjas, o retrato do chefe do Estado e a sua própria mão que tentava em vão segurar uma garrafa. Mais um copo, e os olhos fecharam-se-lhe como se a noite, apesar de tudo, valesse mais do que a sala de uma taberna; o ponto de apoio da parede faltou às costas da cadeira; rolou para o chão sem se aperceber que caía e sentiu-se como um morto.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS


Quinta-feira, dita de Paixão.

O mais duro dos percursos.

De quem sabe que a morte pode estar ligada ao estupor de um vírus, que caminhou de muito longe para nos atormentar os dias, mas também as amarguras profundas,  solidões muito grandes, de quem não soube lidar com as fraquezas que minam cada um de nós.

Será que o destino é cruel?

Talvez, mas acima de tudo é um tipo sem moral nenhuma.

Somos, por isto ou por aquilo, uns meros doentes da vida.

«E só as crianças se riem durante o sono», como escreveu Jorge Listopad.

 O velho Woody Allen gostava de marcar distâncias: 

«Não é que eu esteja com medo de morrer. Apenas não quero estar lá quando isso acontecer.»

Já que te acusam de citares muito, coloca mais três citações:

Escreveu  o poeta e filósofo José Tolentino Mendonça:

«Muitas vezes Deus prefere entrar em nossa casa quando não estamos.»

O poeta transmontano A.M. Pires Cabral:

«Que de tudo se precisa nesta vida. Na outra, por enquanto não se sabe»

Marguerite Yourcenar:

«não creio como eles crêem,
não vivo como eles vivem,
não amo como eles amam…
morrerei
como eles morrem.»

A música, bom a música é o coro final da Paixão Segundo São Mateus de Johann Sebastian Bach.

De tudo se precisa nesta vida, é certo, mas esta música não poderá deixar de nos acompanhar, sejam quais forem os passos que necessitamos de percorrer.



1.

Todo o tempo desta Páscoa, vai ser molhado.

Choveu, em Lisboa, durante todo o dia.

Lembro-me do poeta José Gomes Ferreira, à janela da varanda da sua casa, no 2º Frente Esquerdo do nº 33 da Avenida Rio de Janeiro,  a ver a chuva cair e a lembrar-se que aquela chuvinha era uma bênção para os nabos e outras hortaliças, que tinha plantados na sua casa de Albarraque, num terreno herdado do seu pai, projecto do filho do poeta  Raul Hestnes Ferreira, com o patiozinho voltado para poente, a desenhar com os olhos a Serra de Sintra.

2.

Obrigo-me a que estes dias de pesadelo se tornem ligeiramente diferentes.

Meto-me com os livros, alinho na música e em filmes comprados pela Aida, alguns ainda com o celofane de compra, remexo em montes de jornais, caixas com recortes, com o desejo de os enfiar no lixo, mas há sempre uma qualquer linha, uma palavra que obriga a reguardá-los.

Lembro-me da casa do Mário Castrim, na Rua dos Lusíadas.

Livros e jornais por tudo o que era sítio, e eu a perguntar-lhe como é que ele se orientava com a livralhada espalhada pela casa?

«Quando preciso de algum, assobio e ele aparece.»

Os dias desta semana têm merecido visitas a José Gomes Ferreira.

Hoje fui apanhado a falar sozinho por essas ruas… Que o primeiro poeta que nunca falou sozinho pelas ruas se levante e me atire a primeira estrela! (Cá nós, os poetas, nunca atiramos pedras uns aos outros. Só atiramos estrelas).

3.

Quando os médicos entendem cuidar do seu quintalinho, esquecendo o resto, é provável que o cidadão comum não entenda as suas atitudes.

 O diretor do Serviço de Cirurgia Geral e Transplantação do Hospital Curry Cabral, Américo Martins, demitiu-se por ter visto impedida a proposta de reorganização do serviço na unidade.

«O Conselho de Administração não aceitou a criação de dois circuitos independentes” no Curry Cabral para manter, como propunham os médicos, os serviços destinados aos doentes oncológicos e transplantados no Curry Cabral».

Já há dias, o médico cirurgião Eduardo Barroso dizia não compreender a decisão de encerrar a unidade do Centro Hepatobiliopancreático e de Transplantação do Curry Cabral para que o hospital se possa dedicar a receber apenas doentes infetados com o novo coronavírus, considerando o encerramento demagógico e preocupante.

Como continuamos a ouvir o Bastonário da Ordem dos Médicos a pontapear as decisões do governo, esquecendo (?) tudo o resto, é normal que nos interroguemos sobre as críticas e decisões dos médicos.

Em tempo de pandemia não me parece muito correcto que se pense apenas em vaidadezinhas particulares, no quintalinho de cada médico…


4.

 A Brisa já accionou o mecanismo para ser indemnizada pelo Estado.

5.

O senador Bernie Sanders abandonou a corrida presidencial americana:

«Não posso, em consciência, manter uma campanha sem condições de vencer e que interferiria no que a todos é exigido nesta hora difícil

6.

Em abono da verdade, não li a crónica de última página do direitista-cronista-com-a-mania-que tem-graça-João-Miguel-Tavares, olhei apenas o título:

«Meter as pessoas dentro de casa foi fácil. E tirá-las?»

O Dudu chateava-se que lhe chamassem a atenção para o facto de, mesmo sem ter visto o filme, dizer que era uma merda.

Caro direitista-Tavares:

Nem uma coisa nem outra estão no capítulo das facilidades terrenas.

Não foi fácil as pessoas ficarem nas suas casas, não vai ser fácil tirá-las de lá!

Os jornais, as televisões só deviam aceitar colaboradores que apresentassem provas de que se lavam todos os dias!

7.

Os negros números:

Itália

18.279 mortes

Espanha

15.238 mortes

Estados Unidos

14.695 mortes

França

12.210 mortes

Grã-Bretanha

7.097 mortes

Irão

4.110 mortes

China

3.215 mortes

Bélgica

2.523 mortes

Alemanha

2.451 mortes

Holanda

2.396 mortes

Portugal

409 mortes

Mundo

93.425 mortes

8.

«Vivi tanto
que já não tenho outra noção
de eternidade
que não seja a duração da minha vida»

António Ramos Rosa

quinta-feira, 27 de junho de 2019

POSTAIS SEM SELO


O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que, pela primeira vez, se lança um olhar inteligente sobre si mesmo.

Marguerite Yourcenar

Legenda: Marguerite Yourcenar

segunda-feira, 27 de maio de 2019

UM INTERESSE LIMITADO


E é por isso que, no fundo, não tenho por mim mesma mais do que um interesse limitado. Tenho a impressão de ser um instrumento através do qual passaram correntes, vibrações. Isto é válido para todos os meus livros e direi mesmo que para toda a minha vida. Talvez para todas as vidas; e os melhores de nós talvez não sejam, também eles, mais que cristais trespassados. Assim, a propósito dos meus amigos, vivos ou mortos, repito-me muitas vezes a frase admirável que me disseram ser de Saint-Martin, “o filósofo desconhecido” do século XVIII, tão desconhecido de mim que nunca li uma linha dele e nunca verifiquei a citação: “Há seres através dos quais Deus me amou.” Tudo vem de mais longe e vai mais longe que nós. Por outras palavras, tudo nos ultrapassa e sentimo-nos humildes e maravilhados por termos sido assim trespassados e ultrapassados.

Marguerite Yourcenar

Legenda: Marguerite Yourcenar

quinta-feira, 9 de maio de 2019

POSTAIS SEM SELO


Vale mais que os que amamos partam quando ainda conseguimos chorá-los.

Marguerite Yourcenar

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

POSTAIS SEM SELO


Tudo vem de mais longe e vai para mais longe do que nós.

Marguerite Yourcenar

Legenda: pintura de Bogdan Mihai Radu

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

POSTAIS SEM SELO


O mundo é suficientemente grande para o teu maior desejo.

Marguerite Yourcenar

sábado, 28 de abril de 2018

POSTAIS SEM SELO


Apesar de tudo, a vida vale a pena ser vivida. Só que os homens a podiam tornar bem menos dura.

Marguerite Yourcenar

Legenda: imagem Shorpy

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

POSTAIS SEM SELO


Quando se gosta da vida, gosta-se do passado, porque ele é o presente tal como sobrevive na memória.

Marguerite Yourcenar

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Retratos de Sombra

António Mega Ferreira
Capa: polaroid de Ilda David
Assírio & Alvim, Lisboa, Maio de 2003

E, no entanto, Marguerite Yourcenar não se encerrara num esplêndido isolamento, que fosse indiferente ao destino dos homens: «É evidente que desejaria transformar o mundo. Sobretudo, porque gostaria que os homens fossem mais lúcidos e se preocupassem mais em tornar a vida suportável do que em complica-la». Por isso interessava-a mais a destruição das coisas, da Natureza, do ambiente, do que as reviravoltas da memória humana: «Sem dúvida, cada país, casa povo, cada Governo, tenta dar da História uma certa imagem que lhe convém. Nesse sentido, pode falar-se de uma certa falsificação da memória, mas não creio que, a não ser em casos-limite, o Poder seja necessariamente inconciliável com a necessidade de preservação do passado na memória humana».

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

DIZENDO-ME: AQUI ESTOU!


Um dos livros herdados da biblioteca do meu pai, é um calhamaço, mais de 700 páginas, da Editorial Inquérito: A História das Religiões de Chantepie de la Saussaye.

Tinha os meus 17 anos, passei os olhos, apanhei o que consegui entender e, passados uns tempos, não lembro quanto tempo, comecei a ler o Albert Camus.

Quanto a religiões fiquei vacinado.

Respeito a fé, as crenças, tudo, de quem entenda a isso dedicar-se.

Gostaria que respeitassem o facto de não frequentar deuses, mas não acontece facilmente.

Só Deus sabe da tranquilidade do meu ateísmo e do respeito que tenho pela fé dos outros.

Sobre Deus há um poema dramático de António Rego Chaves:

Olhava o mar
As ondas
O último esgar
Dos afogados.

Dizia: não salvo.
Vejo e contemplo.
Como se fosse Deus.

Parto para outras citações:

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

Alberto Caeiro

Como será possível acreditar num Deus criador do Universo, se o mesmo Deus criou a espécie humana? Por outras palavras, a existência do homem, precisamente, é o que prova a inexistência de Deus.

José Saramago, Cadernos de Lanzarote

Muitos não o perceberam: a grande acusação que José Saramago faz a Deus é Ele não existir, a não ser criado pelos homens.

José Manuel dos Santos

Alguns fundamentalistas católicos citam:

Deus não é silencioso. Nós é que somos surdos.

O que censuro ao cristianismo, é ser uma doutrina de injustiça.

Albert Camus

Um milhão de velas ardendo pela ajuda que nunca veio.

Leonard Cohen

não creio como eles creem,
não vivo como eles vivem,
não amo como eles amam…
morrerei
como eles morrem.

Marguerite Yourcenar

A Bíblia refere a pergunta de Jesus:

Meu Deus, meu Deus por que me abandonaste?

No livro Três Vezes Deus, de Ana Marques Gastão, António Rego Chaves, Armando da Silva Carvalho, a vez de António Rego Chaves chama-se A Morte de Deus.

São 24 poemas.

O primeiro foi atrás transcrito, os restantes irão surgindo.