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sábado, 1 de novembro de 2025

OLHAR AS CAPAS


S. Bernardo

Graciliano Ramos

Capa: Santa Rosa

Livraria José Olympio Editora, S. Paulo 1947

Amanheci um dia pensando em casar. Foi uma ideia que me veio sem que nenhum rabo de saia a provocasse. Não me ocupo com amores, devem ter notado, e sempre me pareceu que mulher é um bicho esquisito, difícil de governar.

sábado, 24 de maio de 2025

OLHAR AS CAPAS


Caetés

Graciliano Ramos

Ensaio de Interpretação: Floriano Gonçalves

Capa: Santa Rosa

Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, Janeiro de 1947

Adrião, arrastando a perna, tinha-se recolhido ao quarto, queixando-se de uma forte dor de cabeça. E dispunha-se a sair, porque sentia acanhamento e não encontrava assunto para conversar.

Luísa quis mostrar-me uma passagem no livro que lia. Curvou-se. Não me contive e dei-lhe dois beijos no cachaço. Ela ergueu-se, indignada:

- O senhor é doido? Que ousadia é essa? Eu…

Não pôde continuar. Dos olhos que deitavam faíscas, saltaram lágrimas. Desesperadamente perturbado, gaguejei tremendo:

- Perdoe, minha senhora. Foi uma doidice.

- É bom que se vá embora, gemeu Luísa com o lenço no rosto.

- Foi uma tentação, balbuciei sufocado, agarrando o chapéu. Se a senhora soubesse…Três anos  nisto! O que tenho sofrido por sua causa…Não volto aqui. Adeus.

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

OLHAR AS CAPAS


 Memórias do Cárcere

Graciliano Ramos

Capa: Santa Rosa

Livraria José OIympio Editora, Rio de Janeiro 1954

Resolvo-me a contar, depois de muita hesitação, casos passados há dez anos – e, antes de começar, digo os motivos por que silenciei e por que me decido. Não conservo notas: algumas que tomei foram inutilizadas, e assim, com o decorrer do tempo, ia-me parecendo cada vez mais difícil, quási impossível, redigir esta narrativa. Além disso, julgando a matéria superior às minhas forças, esperei que outros mais aptos se ocupassem dela. Não vai aqui falsa modéstia, como adiante se verá. Também me afligiu a idéia de jogar no papel criaturas vivas, sem disfarces, com os nome que têm no registo civil.

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

OLHAR AS CAPAS


 Angústia

Graciliano Ramos

Capa: Santa Rosa

Livraria José Olímpio Editora, S. Paulo, 1947

Vivo agitado, cheio de terrores, uma tremura nas mãos, que emagreceram. As mãos já não são as minhas: são mãos de velho, fracas e inúteis. As escoriações das palmas cicatrizaram.

Impossível trabalhar, Dão-me um ofício, um relatório, para dactilografar, na repartição. Até dez linhas vou bem. Daí em diante a cara balofa de Julião Tavares aparece em cima do original, e os meus dedos encontram no teclado uma resistência mole de carne gorda. E lá vem o erro. Tento vencer a obsessão, capricho em não usar a borracha. Concluo o trabalho, mas resma de papel fica muito reduzida.

À noite fecho as portas, sento-me à mesa da sala de jantar, a munheca emperrada, o pensamento vadio longe do artigo que me pediram para o jornal.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS

O Director-Geral da Organização Mundial da Saúde disse, hoje, que o mundo devia ter ouvido, em 30 de Janeiro, o alerta máximo da Organização.

Nesse dia a Organização lançou o alerta sobre os riscos do coronavírus, e havia apenas 82 casos, e nenhuma morte, fora da China.

Foi então dito pela Organização o que os governos deveriam fazer para controlar o coronavírus, como decretar quarentenas, pedir que a população ficasse em casa se possível e respeitar o distanciamento social.

Porém, nem todos os países acataram as recomendações.

Hoje, no Mundo, há mais de 3 milhões de pessoas infectadas e já foi ultrapassado o número de mais de 200 mil mortes.

Quando no final do ano passado, começou a ler notícias do que estava a acontecer numa localidade da China, comentou de si para si, que isso era lá longe, muito longe mesmo, e que os chineses rapidamente resolveriam o problema.

Quando na página 21 do Público de 23 de Fevereiro, um domingo, leu a notícia, a 2 colunas, que se registaram duas mortes e seis dezenas de infectados por coronavírus, em Itália, ficou assim a olhar, meio aparvalhado, e guardou o recorte.

Porque a Itália não é tão longe como a China.

Não saberia, contudo, imaginar o inferno que se iria abater sobre a Europa, sobre o Mundo.

Não por acaso, foi reler páginas de Graciliano Ramos, livros vindos da biblioteca do pai, principalmente aquela frase de Vidas Secas em que Fabiano diz a Tomás da Bolandeira: “Seu Tomás, vossemecê não regula. Para quê tanto papel? Quando a desgraça chegar, seu Tomás se estrepa, igualzinho aos outros”.

Claro que sim, mas se a gente não ler, a estrepa é bem pior.

Mas como lembrava hoje, Maria do Rosário Pedreira, citando C.S. Lewis: «lemos para saber que não estamos sozinhos».

Hoje, visitamos Joann Sebastian Bach, o Prelude 1C Major  BWV 846.

1.

Alexandre Lourenço, presidente da Associação Portuguesa de Administradores de Hospitais, diz, hoje no Diário de Notícias:

«Os que aplaudem o Serviço Nacional de Saúde são os que vão querer cortar salários depois.»

A memória é curta.

No dia 28 de Junho de 1979 foi aprovada na Assembleia da República a Lei Arnaut.

Votaram a favor: PS, PCP, UDP.

Votaram contra; PSD e CDS.

A direita sempre lutou pela medicina privada e, ao longo dos anos, os sucessivos governos, foram cortando nas verbas para o Serviço Nacional de Saúde.

Hoje batem palmas à capacidade de resposta que, apesar de todas as tropelias e boicotes, o Serviço Nacional de Saúde deu no combate ao Covid-19.

2.

Tudo indica que o estado de emergência, em vigor até à meia-noite do próximo 2 de Maio, seja substituído por estado de calamidade, um patamar inferior de medidas excepcionais.

3.

Quase 60% da população activa está a sofrer redução de rendimentos devido à perda de emprego ou à diminuição do trabalho como consequência da pandemia Covid-19, segundo os resultados de um inquérito publicado pela Deco Proteste.
Segundo o inquérito da Deco - associação de defesa do consumidor, a vaga de desemprego causada pela crise relacionada com a pandemia tem atingido três vezes mais mulheres do que homens, com 13% e 4% respetivamente.
Uma em cada 10 famílias viu, pelo menos, um dos elementos perder o trabalho e até ao momento, 4% dos agregados têm os dois membros do casal sem actividade profissional.
 A vaga de desemprego tem atingido três vezes mais mulheres do que homens.

4.

A ONU pediu aos países que respeitem o Estado de direito, limitando o período de vigência das medidas excepcionais para o combate da pandemia de Covid-19, para evitar um catástrofe em relação aos direitos humanos.

«Dada a natureza excecional da crise, é claro que os Estados precisam de poderes adicionais para lhe responder. No entanto, se o Estado de direito não for respeitado, a emergência de saúde poderá tornar-se uma catástrofe de direitos humanos, cujos efeitos nocivos superam a pandemia em si».


5.

Cerca de 9,2 milhões de pessoas nos Estados Unidos da América perderam o seguro de saúde por terem ficado desempregadas.

6.

Quando ficamos a saber que o presidente de um país, como os Estados Unidos, é influenciado por um vendedor-de-banha da-cobra que, para combater o Covid-19, mandou as pessoas beber lixivia, sabemos em que mundo estamos.
Agora diz que vai deixar as conferências de imprensa pois é um mero tempo perdido e porque os jornalistas só fazem perguntas estúpidas e tendenciosas.
O mundo agradece. porque Donald Trump não é um palhaço de que se possa gostar.

7.

Os negros números:

Portugal regista 928 óbitos.

Os Estados Unidos já contam com 54.841 mortos. o mais elevado número de mortos: 53.511 pessoas.

Itália: 26.977 mortos
Espanha: 23.521 mortos
França: 23.293 mortos
Grã-Bretanha: 21.092 mortos

Em todo o mundo já morreram 210.374 pessoas.

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Vidas Sêcas

Graciliano Ramos
Capa: Santa Rosa
Livraria José Olympio Editora, S. Paulo, Janeiro de 1947

Se aprendesse qualquer coisa, necessitaria aprender mais, e nunca ficaria satisfeito.
Lembrou-se de seu Tomás da bolandeira. Dos homens do sertão o mais arrasado era seu Tomás da bolandeira. Porquê? Só se era porque lia de mais. Êle, Fabiano, muitas vezes dissera: - “Seu Tomás, vossemecê não regula. Para quê tanto papel? Quando a desgraça chegar, seu Tomás se estrepa, igualzinho aos outros”.