Amanheci um dia
pensando em casar. Foi uma ideia que me veio sem que nenhum rabo de saia a provocasse.
Não me ocupo com amores, devem ter notado, e sempre me pareceu que mulher é um
bicho esquisito, difícil de governar.
Livraria José
Olympio Editora, Rio de Janeiro, Janeiro de 1947
Adrião, arrastando a perna, tinha-se recolhido ao
quarto, queixando-se de uma forte dor de cabeça. E dispunha-se a sair, porque
sentia acanhamento e não encontrava assunto para conversar.
Luísa quis mostrar-me uma passagem no livro que lia.
Curvou-se. Não me contive e dei-lhe dois beijos no cachaço. Ela ergueu-se,
indignada:
- O senhor é doido? Que ousadia é essa? Eu…
Não pôde continuar. Dos olhos que deitavam faíscas, saltaram
lágrimas. Desesperadamente perturbado, gaguejei tremendo:
- Perdoe, minha senhora. Foi uma doidice.
- É bom que se vá embora, gemeu Luísa com o lenço no
rosto.
- Foi
uma tentação, balbuciei sufocado, agarrando o chapéu. Se a senhora soubesse…Três
anos nisto! O que tenho sofrido por sua causa…Não volto aqui. Adeus.
Livraria José OIympio
Editora, Rio de Janeiro 1954
Resolvo-me a contar, depois de muita hesitação, casos passados há dez
anos – e, antes de começar, digo os motivos por que silenciei e por que me
decido. Não conservo notas: algumas que tomei foram inutilizadas, e assim, com
o decorrer do tempo, ia-me parecendo cada vez mais difícil, quási impossível,
redigir esta narrativa. Além disso, julgando a matéria superior às minhas
forças, esperei que outros mais aptos se ocupassem dela. Não vai aqui falsa
modéstia, como adiante se verá. Também me afligiu a idéia de jogar no papel
criaturas vivas, sem disfarces, com os nome que têm no registo civil.
Vivo agitado, cheio de terrores, uma
tremura nas mãos, que emagreceram. As mãos já não são as minhas: são mãos de velho,
fracas e inúteis. As escoriações das palmas cicatrizaram.
Impossível trabalhar, Dão-me um ofício,
um relatório, para dactilografar, na repartição. Até dez linhas vou bem. Daí em
diante a cara balofa de Julião Tavares aparece em cima do original, e os meus
dedos encontram no teclado uma resistência mole de carne gorda. E lá vem o
erro. Tento vencer a obsessão, capricho em não usar a borracha. Concluo o
trabalho, mas resma de papel fica muito reduzida.
À noite fecho as portas,
sento-me à mesa da sala de jantar, a munheca emperrada, o pensamento vadio
longe do artigo que me pediram para o jornal.
O Director-Geral da Organização Mundial da Saúde disse,
hoje, que o mundo devia ter ouvido, em 30 de Janeiro, o alerta máximo da Organização.
Nesse dia a Organização lançou o alerta sobre os riscos
do coronavírus, e havia apenas 82 casos, e nenhuma morte, fora da China.
Foi então dito pela Organização o que os governos
deveriam fazer para controlar o coronavírus, como decretar quarentenas, pedir
que a população ficasse em casa se possível e respeitar o distanciamento
social.
Porém, nem todos os países acataram as recomendações.
Hoje, no Mundo, há mais de 3 milhões de pessoas
infectadas e já foi ultrapassado o número de mais de 200 mil mortes.
Quando no final do ano passado, começou a ler notícias do
que estava a acontecer numa localidade da China, comentou de si para si, que
isso era lá longe, muito longe mesmo, e que os chineses rapidamente resolveriam
o problema.
Quando na página 21 do Público de 23 de Fevereiro, um domingo, leu a notícia, a 2 colunas,
que se registaram duas mortes e seis dezenas de infectados por coronavírus, em
Itália, ficou assim a olhar, meio aparvalhado, e guardou o recorte.
Porque a Itália não é tão longe como a China.
Não saberia, contudo, imaginar o inferno que se iria
abater sobre a Europa, sobre o Mundo.
Não por acaso, foi reler páginas de Graciliano Ramos, livros
vindos da biblioteca do pai, principalmente aquela frase de Vidas Secas em que Fabiano diz a Tomás
da Bolandeira: “Seu Tomás, vossemecê não regula. Para quê tanto papel?
Quando a desgraça chegar, seu Tomás se estrepa, igualzinho aos outros”.
Claro que sim,
mas se a gente não ler, a estrepa é bem pior.
Mas como lembrava
hoje, Maria do Rosário Pedreira, citando C.S. Lewis: «lemos para saber que
não estamos sozinhos».
Hoje, visitamos Joann Sebastian Bach, o Prelude 1C
Major BWV 846.
1.
Alexandre Lourenço, presidente da Associação Portuguesa
de Administradores de Hospitais, diz, hoje no Diário de Notícias:
«Os que aplaudem o
Serviço Nacional de Saúde são os que vão querer cortar salários depois.»
A memória é curta.
No dia 28 de Junho de 1979 foi aprovada na Assembleia da
República a Lei Arnaut.
Votaram a favor: PS, PCP, UDP.
Votaram contra; PSD e CDS.
A direita sempre lutou pela medicina privada e, ao longo
dos anos, os sucessivos governos, foram cortando nas verbas para o Serviço Nacional
de Saúde.
Hoje batem palmas à capacidade de resposta que, apesar de todas as tropelias e boicotes, o Serviço Nacional de Saúde deu no combate ao Covid-19.
2.
Tudo indica que o estado de emergência, em vigor até à
meia-noite do próximo 2 de Maio, seja substituído por estado de calamidade, um
patamar inferior de medidas excepcionais.
3.
Quase 60% da população activa está a sofrer redução de
rendimentos devido à perda de emprego ou à diminuição do trabalho como
consequência da pandemia Covid-19, segundo os resultados de um inquérito
publicado pela Deco Proteste. Segundo o inquérito da Deco - associação de defesa do consumidor, a vaga de
desemprego causada pela crise relacionada com a pandemia tem atingido três
vezes mais mulheres do que homens, com 13% e 4% respetivamente. Uma em cada 10 famílias viu, pelo menos, um dos elementos perder o trabalho e até
ao momento, 4% dos agregados têm os dois membros do casal sem actividade
profissional.
A vaga de desemprego tem atingido três vezes mais
mulheres do que homens.
4.
A ONU pediu aos países que respeitem o Estado de direito,
limitando o período de vigência das medidas excepcionais para o combate da
pandemia de Covid-19, para evitar um catástrofe em relação aos direitos humanos.
«Dada a natureza excecional da crise, é claro que os Estados precisam de
poderes adicionais para lhe responder. No entanto, se o Estado de direito não
for respeitado, a emergência de saúde poderá tornar-se uma catástrofe de
direitos humanos, cujos efeitos nocivos superam a pandemia em si».
5.
Cerca de 9,2 milhões de pessoas nos Estados Unidos da
América perderam o seguro de saúde por terem ficado desempregadas.
6.
Quando ficamos a saber que o presidente de um país, como
os Estados Unidos, é influenciado por um vendedor-de-banha da-cobra que, para
combater o Covid-19, mandou as pessoas beber lixivia, sabemos em que mundo estamos.
Agora diz que vai deixar as conferências de imprensa pois
é um mero tempo perdido e porque os jornalistas só fazem perguntas estúpidas e
tendenciosas.
O mundo agradece. porque Donald Trump não é um palhaço de
que se possa gostar.
7.
Os negros números:
Portugal regista 928 óbitos.
Os Estados Unidos já contam com 54.841 mortos. o mais
elevado número de mortos: 53.511 pessoas.
Livraria José Olympio Editora, S. Paulo,
Janeiro de 1947
Se aprendesse qualquer coisa,
necessitaria aprender mais, e nunca ficaria satisfeito.
Lembrou-se de seu Tomás da bolandeira. Dos homens
do sertão o mais arrasado era seu Tomás da bolandeira. Porquê? Só se era porque
lia de mais. Êle, Fabiano, muitas vezes dissera: - “Seu Tomás, vossemecê não
regula. Para quê tanto papel? Quando a desgraça chegar, seu Tomás se estrepa,
igualzinho aos outros”.