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quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

SOLTAS


 Jorge de Sena.

Um dos mais extraordinários intelectuais portugueses.

Teve que se exilar, onde passou uma autêntica vida de cão.

A leitura de alguns diários de escritores seus contemporâneos, os seus próprios diários, a correspondência com José Augusto França e Sophia, mostram um Jorge de Sena de uma verticalidade e honestidade intelectual tão pouco existente entre os seus pares. 

Também um homem amargo.
Numa carta a José Augusto França: "eu sempre detestei o convívio de chacha to relax from work. O meu trabalho não é trabalho, é vida - não preciso to relax dele, a não ser falando das tantas coisas que me interessam."
José Gomes Ferreira, num dos seus "Dias Comuns" refere a indignação de Sena com um crítico, manda-lhe o recorte, que fora injusto para com Irene Lisboa. E comenta: "Só me espanta o seguinte: como é que o Jorge de Sena, no meio dos seus versos, das suas lições, dos seus estudos literários, dos seus contos, dos seus romances, das suas leituras, da sua correspondêcia, etc.,etc.,etc., - ainda arranja tempo para esta vigilância infatigável das pequeninas injustiças? (As injustiças, para as sentirmos nos outros, temos de senti-las primeiro em nós, no sangue do nosso espirito insultado!) Sim. Admiro sinceramente Jorge de Sena - até porque impõe como virtudes o que nos outros soaria a defeitos. E de súbito compreendo o motivo dessa autoridade. E de súbito compreendo o motivo dessa autoridadea: o afinco ao trabalho. Jorge de Sena precisa desse trabalho constante como eu preciso de preguiça. (Preguiça para coisa nenhuma)."

É uma pena que este "país de sacanas" teime em não conhecer a sua obra e o seu exemplo. 

1.

«Neste abençoado país, todos os políticos têm imenso talento. A oposição confessa sempre que os ministros, que ela cobre de injúrias, têm, à parte os disparates que fazem, um talento de primeira ordem! Por outro lado, a maioria admite que a oposição, a quem ela constantemente recrimina pelos disparates que fez, está cheia de robustíssimos talentos! De resto, todo o mundo concorda que o país é uma choldra. E resulta, portanto, este facto supracómico: um país governado com imenso talento que é de todos na Europa, segundo o consenso unânime, o mais estupidamente governado! Eu proponho isto, a ver: que, como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os imbecis!»
Eça de Queirós  em Os Maias.

2.

A lista de 37 detidos pela Polícia Judiciária no âmbito da operação que desmantelou as chefias do Grupo 1143 tem, pelo menos, três nomes de militantes do Chega que já foram candidatos pelo partido de André Ventura em eleições. Também um sargento da força aérea, um polícia do comando de Setúbal ,um profissional de saúde, três militantes ou ex-militantes e candidatos do Chega, dois candidatos pelo partido de extrema-direita Ergue-te e PNR, Participantes em mesas de voto em diversas eleições. Um condenado por furto, um jogador de rugby com processos disciplinares por agressões, um membro dos Super Dragões condenado num processo por causa de um plano de intimidação que culminou em agressões  e estão indiciados por crimes de discriminação e incitamento ao ódio e à violência.

3.

No fim de 2025 mais de 1,5 milhões de pessoas não tinham médico de família.

4.

«No autocarro, uma mulher conta a outra que perdeu o marido há pouco tempo. Silêncio. A segunda, para a encorajar, diz: «Mas a vida continua.» A primeira comenta: «A vida continua, mas continua muito mal.»

Rui Manuel Amaral em Bicho Ruim

5.

«Não há destinos adivinhados para as personagens que vivem em solidão. O seu futuro é incerto e a tragédia está sempre à espreita.»

6.

«…é a velha história, demora-se muito tempo a ver bem um filme.»

7.

Disse Ruy Belo: uma casa é a coisa mais séria da vida, e João Miguel Fernandes Jorge: a casa é onde temos o coração, ou como refere Emily Dickinson, a poesia é possibilidade, “uma casa mais justa que a prosa”.

8.

Um mundo sem música, sem livros e sem memória.

Seria o maior pesadelo que me poderia acontecer.

terça-feira, 18 de novembro de 2025

OLHAR FRIGIDEIRAS, TACHOS, PANELAS


Hoje, as panelas, as frigideiras, os tachos, fazem uma breve homenagem a José Quitério que há uns anos, por motivos de doença. Deixou de publicar as suas excelentes e únicas críticas de gastronomia que publicou no semanário Expresso.

Trata-se de um recorte (incompleto) encontrado na revista Ler do Inverno de 1989.

Fala de caldo verde e de Camilo Castelo Branco.

Gosto de caldo verde - «sábia simbiose entre um caldo de puré de batata, que não se quer em exagero, e a couve galaga finamente segada e abundante, tudo espevitado pelo azeite puro e a rodela de salpicão ou de chouriço caseiro», José Quitérito dixit

Mas os mercados de Lisboa, excepção ao de Alvalade e ao 31 de Janeiro, já não existem e aí se comprava a couve galega cortada à vista do cliente. As embalagens de caldo verde que hoje se vendem nos supermercados, são um embuste.

Quanto a Camilo, lamentavelmente, não lhe dei a mesma atenção de leitura que dei a Eça de Queiroz. 

terça-feira, 21 de outubro de 2025

O OUTRO LADO DAS CAPAS


A Cidade e as Serras

Será com certeza o livro mais conhecido, mais lido de Eça de Queiroz.

Grande parte das edições dos livros de Eça que fazem parte da Biblioteca da Casa, são os que a Lello & Irmão editaram.

Foi num desses livros que li pelos meus 13 anos, A Cidade e as Serras. 

Acontece – e aconteceu algumas vezes – que o livro desapareceu. 

Num escritório de import-export, meu primeiro emprego, os processos, volta e meia, não apareciam. O patrão alemão clamava «onde está o processo da Miele?». Silêncio gritado na pequena sala. 

Voltava o alemão,  sr. Heick de seu nome: « foi para a praia?»

Por onde anda o livro do Eça editado pela Lello & Irmão, tantas vezes lido, tantas vezes manuseado?

O exemplar que agora existe, comprei-o num alfarrabista. A edição do Círculo informa que o livro tinha uma sobrecapa de Antunes. Mas o alfarrabista garantia que o livro já o comprara sem a sobrecapa.

Razão da deselegância desta capa do livro que se publica.

Mas não sairei sem voltar a ler o pedacinho em que Eça fala do arroz de favas e dos peitos trementes da «formidável moça, de enorme peitos que lhe tremiam dentro das ramagens do lenço cruzado»

Que maravilhoso Eça de Queiroz!

«… Santo Deus! Há anos que não sinto esta fome.

Foi ele que rapou avaramente a sopeira. E já espreitava a porta, esperando a portadora dos pitéus, a rija moça de peitos trementes, que enfim surgiu, mais esbraseada, abalando o sobrado – e pousou sobre a mesa uma travessa a transbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacinto, em Paris, sempre abominava favas!... Tentou todavia uma garfada tímida – e de novo aqueles seus olhos, que o pessimismo enevoara, luziram procura os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma lentidão de frade que se regala. Depois um brado:
-Óptimo!... Ah, destas favas, sim! Ó que fava! Que delícia!

E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres palreiras que em baixo remexiam as panelas, o Melchior que presidia ao bródio…

- deste arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo!»

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

POSTAIS SEM SELO


Um silêncio ainda claro, de imenso repouso, tão doce como se descesse do Céu, cobria a largueza povoada dos campos, onde não se movia uma folha, na macia transparência do ar de Setembro. Os fumos das lareiras acesas já se escapavam, lentos e leves, de entre a telha rala.

Eça de Queiroz em A Ilustre Casa de Ramires

quarta-feira, 16 de julho de 2025

OLHAR AS CAPAS


Eça de Queiroz

Antonio Cabral

Portugal, Brasil Sociedade Editora, 1916

Eça de Queiroz é um dos escriptores portugueses sobre quem mais duramente, e nem sempre com inteira justiça, tem passado a acusação de plagiário. Algumas vezes o romancista se deixou influenciar muito de perto e em demasia por outros auctores? É certo. Mas quem há ahi – repita-se ainda -, no vastíssimo campo das letras, que possa, com verdade, gloriar-se de nunca ter pousado o se pé na «pégada que deixaram outros?» Não é verdade que a luz refulgente dos grandes astros, os máximos, da literatura de todo o mundo, nos seus variados ramos, da poesia ao romance, da tragedia ao conto, da historia à crítica, tem sido diminuída pela mais intensa luz de outros astros, por vezes da escala inferior?



sábado, 8 de março de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


Se houver eleições, existem já previsões que vão ser gastos 25 milhões de euros.

Mas o que há dias era dado como certo, poderá não acontecer.

Ninguém quer eleições.

Nem o povo nem os partidos.

Ao que se chegou!..

Nós merecemos o que está a acontecer porque há 50 anos, andamos a eleger gente  que apenas pensa em si próprios e nos amigos.

Esta é a total impreparação dos nossos actuais políticos.

O governo não é competente, mas pior de tudo é o seu chefe, um saloio-com-vista-para-o-mar-de -Espinho, um ser desprezível…

Diria o velho Eça: «O governo não há-de cair – porque não é um edifício. Tem que sair com benzina – porque é uma nódoa!».

Este é o país-do-quero-lá-saber-quem-vier-atrás-que-feche-a-porta.

Oh! Jorge Palma dá-nos aqui um ajuda para uma musiquinha pela manhã.

quarta-feira, 5 de março de 2025

OLHAR AS CAPAS


O Nosso Consul em Havana: Eça de Queiroz

Joaquim Palminha Silva

Capa: Teresa Ferrand

Editora A Regra do Jogo, Lisboa 1981

Eça de Queiroz é o espectro do romance português, da prosa revolucionária dos nossos dias, da ficção polémica, da crítica de costumes: a nossa literatura escreve com este espectro às costas, ele habita-a constantemente! Era precisos dizer, explicar, que o ídolo tinha os pés de barro, como todos os ídolos; como todos os que foram grandes ídolos! – E nem sempre por culpa destes mesmos ídolos!

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

POSTAIS SEM SELO


 Como escritor, Eça de Queiroz encheu a sua paleta das tintas mais variadas.

Criou a fonte dos efeitos mais encontrados, dos tons mais novos, mais originais, mais imprevistos.

Ramalho Ortigão

Legenda: Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz

E EÇA DE QUEIROZ REGRESSA LISBOA...


Os restos mortais de José Maria Eça de Queiroz vão finalmente ser trasladados nesta quarta-feira do cemitério da aldeia de Santa Cruz do Douro, ao pé de Baião, para o Panteão Nacional de Santa Engrácia, em Lisboa.

Durante nove meses, a Assembleia da República apoiada pela Fundação Eça de Queiroz, lutou em tribunal contra os seis bisnetos de Eça que queriam impedir a mudança.

Eça de Queiroz viveu poucos tempos em Tormes e nunca revelou onde gostaria de ser enterrado.

Mais importante que a entrada de Eça no Panteão, seria que os portugueses lessem a sua obra. Li-o aos 13/15 anos, deliciei-me, e ao longo desta minha vida nunca deixei de o reler: o fino humor, a originalidade, a fantasia de alguém sempre se considerou «um pobre homem da Póvoa do Varzim».

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

OLHAR AS CAPAS

Ensaios de Crítica

Moniz Barreto

Prefácio: Vitorino Nemésio

Colecção Pensamento

Livraria Bertrand. Lisboa, 1944

O Sr. Eça de Queiroz, todo entregue à emoção presente e, na segunda parte da sua carreira literária capaz de organizar emoções, aparece-nos como um verdadeiro artista capaz de organizar emoções, aparece-nos como um verdadeiro artista, isto é, como um espírito cuja função natural é a representação colorida da realidade. Nem filósofo, nem moralista, e ainda menos filósofo que moralista, a sua atitude natural é a visão comovida e restrita.

domingo, 28 de julho de 2024

OLHAR AS CAPAS


 História Ilustrada das Grandes Literaturas

Literatura Portuguesa

1º Volume

António José Saraiva

Capa: Manuel Correia

Ilustrações desenhadas: Fernando Azevedo

Estúdios Cor, Lisboa, Dezembro de 1963

A Cidade e as Serras de Eça de Queiroz constitui o desenvolvimento de um conto de tese. A caricatura e a descrição  realista são aí utilizados não apara a análise dos meios sociais, mas para a sua valorização. De um lado o meio parisiense caricaturado pejorativamente, do outro o meio rural minhoto idealizado elogiosamente. Neste último a paisagem sobrepõe-se às personagens, deixa de constituir uma atmosfera. As próprias personagens perdem quase totalmente a dimensão psicológica.

AINDA O VAI E VEM DO EÇA


Bárbara Reis, no Público de 2 de Julho diz-nos que: pela quarta vez em nove meses, a justiça rejeitou os pedidos de alguns dos bisnetos de Eça de Queiroz que estão contra a trasladação dos restos mortais do escritor para o Panteão Nacional e não deu razão a nenhum dos seus argumentos.

Para além da maioria dos bisnetos — 13 dos 22 são a favor e três não se pronunciaram —, a autarquia de Baião, a FEQ e a AR são a favor da ida de Eça para o Panteão.

Os três juízes do Supremo Tribunal Administrativo de Lisboa decidiram que os bisnetos descontentes “não têm razão” e que a sua argumentação é “inaplicável”, “impensável”, “não prevista”, “inútil” e “não consubstanciada”.

Provavelmente o caso terá outras vias porque, quem não está de acordo,  podem ainda  recorrer para o pleno da secção de contencioso e administrativo do Supremo, e podem recorrer para o Tribunal Constitucional.

Quando morreu em Paris, em 1900, Eça foi trasladado para Portugal, teve um funeral com honras de Estado e foi sepultado no jazigo da família da mulher, Emília Resende, no Cemitério do Alto de São João, em Lisboa. Noventa anos depois, por iniciativa da família, o corpo foi trasladado para o Cemitério de Santa Cruz do Douro, no concelho de Baião, onde está desde 1989.


Resta-nos relembrar Eça em A Cidade e as Serras:

«Uma formidável moça, de enormes peitos que lhe tremiam dentro das ramagens do lenço cruzado, ainda suada e esbraseada do calor da lareira, entrou esmagando o soalho, com uma terrina a fumegar. E o Melchior, que seguia erguendo a infusa do vinho, esperava que Suas Incelências lhe perdoassem porque faltara tempo para o caldinho apurar... Jacinto ocupou a sede ancestral- e durante momentos ( de esgazeada ansiedade para o caseiro excelente) esfregou energicamente, com a ponta da toalha, o garfo negro, a fusca colher de estanho. Depois, desconfiado, provou o caldo, que era de galinha e rescendia. Provou- e levantou para mim, seu camarada de misérias, uns olhos que brilharam, surpreendidos. Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu, com espanto: - Está bom!

Estava preciso: tinha fígado e tinha moela: o seu perfume enternecia: três vezes, fervorosamente, ataquei aquele caldo.»

quinta-feira, 27 de junho de 2024

OLHAR AS CAPAS

Camões, Camilo, Eça, e Alguns Mais

Aquilino Ribeiro

Livraria Bertrans, Lisboa s/d

É louvada a longanimidade e tolerância de Fr. Bartolomeu Ferreira porque estando os Lusíadas à mercê do seu lápis de revedor não suprimiu a jóia erótica sem para da ilha voluptuosa e outras belezas desenvoltas do poema.

sábado, 18 de maio de 2024

CONVERSANDO


Longe do mundo, que é também o título de um livro do seu amigo Jorge Fallorca, Ana Cristina Leonardo, nas excelentes crónicas – é a minha opinião – que semanalmente publica no Público e depois coloca na Pastelaria, pode não ter assunto, como por aqui diz, o Eça lembrava que quando não se tem assunto para a crónica, há sempre um Bey que se pode matar em Tunes, manda-nos para outras paragens,  que olhemos as papoilas nos campos, mas depois, de sopetão, revela que a ex-múmia de Belém prefacia um livro de Aquilino, que não pero acaso está hoje no Olhar aa Capas.

«Quem – obrigado (mesmo se voluntariamente) a dizer coisas inteligíveis e de preferência inteligentes todas as semanas – nunca se debateu com a “falta de assunto” que atire a primeira pedra.

Lembrei-me depois de Camilo Castelo Branco e da sua copiosa produção literária, que a vida custa a todos (ou, pelo menos, à maioria).

Tomando-o por mestre – e mestre moderníssimo: que se lixem tanto os achaques românticos como os rigores do realismo! –, poderia agora, parodiando Eusébio Macário, um Macário agrário e não boticário, está bem de ver, reproduzir com minúcia a lista das distintas variedades de figueiras do Algarve – perfazem, segundo leio, oitenta e cinco –, o que decerto serviria para despachar pelo menos meia crónica, e isto no caso de poupar o leitor à caracterização morfológica das suas variedades, inventariando-lhes apenas os nomes próprios, alguns de sonoridades manifestamente pitorescas, como bilharda, colhão do mundo, sacristão da luz, cu de burro, bacorinha ou orelha de mula.

Se Cavaco Silva pode prefaciar Aquilino Ribeiro – segundo informação que me chega, o ex-Presidente da República preambula a nova edição de Geografia Sentimental, retrato aquiliano pessoalíssimo das terras da Beira Alta publicado originalmente em 1951 – porque não poderei eu, nunca tendo sido sequer presidente de junta, mas sabendo que “cidadões” é plural inexistente e que o número de cantos de Os Lusíadas são dez, aventurar-me por solos camilianos, trepando aos ombros de outro dos nossos gigantes, quando me falta assunto?

As Humanidades não humanizam, é sabido. Ainda assim, terem deslembrado os 500 anos de Luís de Camões é obra! E obra que explicará muita coisa. Por exemplo, as quinas que passaram a sete do jovem ufanista Bugalho (tratar-se-á de aritmética marciana?), ou o Atlético Norte por Atlântico Norte de Melo. Melo, o nosso mais original (até agora) ministro da Defesa Nacional que, adaptando medidas castigadoras de antanho aos novos tempos, propõe punir os jovens com a tropa no caso de assaltarem velhinhas.

Penso tudo isto, embora não necessariamente por esta ordem, enquanto me desvio, no regresso a casa, da folhagem do tronco rastejante da figueira que sombreia o alcatrão do caminho estreito que leva ao largo maior e mais adiante ao rio.

Escapando-me, porém, a coragem e a genialidade de Camilo para “desabar a pontapés de estilo” a sociedade, acobardo-me, omito a lista das oitenta e cinco espécies diferentes de figueiras algarvias e dou antes a palavra ao próprio: “… é necessário a quem reedifica a sociedade saber primeiro se ela quer ser desabada a pontapés de estilo para depois ser reedificada com adjectivos pomposos e advérbios rutilantes. Para isso, o primeiro avanço é pô-la nua, escrutar-lhe as lepras, lavrar grandes actas das chagas encontradas, esvurmar as bostelas que cicatrizaram em falso, escoriá-las, muito cautério de frases em brasa. É o que se faz nesta obra violenta, de combate, destinada a entrar pelos corações dentro e a sair pelas mercearias fora.” (“Advertência” in Eusébio Macário – História Natural e Social duma Família no Tempo dos Cabrais, Camilo Castelo Branco, 1.ª ed., 1879).

Sem abandonar a paródia, volto à vida rural, a despeito do encerro das mercearias, para dizer que a vida rural possui encantos e razões que a razão urbana desconhece.

Na grande cidade, uma frase como “Anda comigo ver os aviões” é facilmente interpretada como um metalogismo retórico em que o termo “aviões” ultrapassa o seu sentido literal – de acordo com os dicionários mais respeitáveis: “aparelho de locomoção aéreo, mais pesado do que o ar e provido de asas e motor”.

Como decifrar, porém, o convite de um pastor que nos diz “Quer vir comigo ver as ovelhas?”, desde logo de aparência mais respeitosa dada a forma interrogativa da frase e a incorporação do verbo querer e logo conjugado na terceira pessoa?»

Mas Cavaco Silva, que nem contas sabe fazer, lê livros, lê Aquilino?

Admiti estar perante uma tão em moda «falsa notícia» mas, por inacreditável que seja, é mesmo verdade!

quinta-feira, 11 de abril de 2024

VIAGENS POR ABRIL


           Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                   João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.


11 de Abril de 1974

Já são palavras de um certo estertor o que Marcelo Caetano vai dizendo aos seus ministros, aos jornalistas estrangeiros que o procuravam para cumprirem uma qualquer tarefa de propaganda.
Marcelo Caetano, em entrevista ao semanário francês Le Point, declarou que jamais concordará com o abandono das províncias ultramarinas.
«Portugal está a lutar na África em defesa de uma sociedade multirracial e contra os movimentos racistas que procuram expulsar os brancos de África.
Estamos a lutar em defesa do direito que têm todos os homens de viverem juntos na África e, acima de tudo, em defesa da sociedade multirracial que lá formámos. Pelo contrário os chamados “movimentos de libertação” são racistas. O seu objectivo é a expulsão dos brancos. Primeiro dos postos de comendo depois da própria África. Nunca negociaremos com os adversários de Portugal que, pagos por potências estrangeiras, sustentam uma luta de guerrilhas inútil e cruel.»


NESTE NOSSO REINO, as colónias nunca foram uma questão pacífica. Em A Ilustre Casa de Ramires Eça de Queiroz, coloca João Gouveia a dizer à Senhora Dona Graça:
«Tenho horror à África. Só serve para nos dar desgostos. Boa para vender, minha senhora! A África é como essas quintarolas, meio a monte, que a gente herda duma tia velha, numa terra muito bruta, muito distante, onde não se conhece ninguém, onde não se encontra sequer um estanco; só habitada por cabreiros, e com sezões todo o ano. Boa para vender.
Gracinha enrolava lentamente nos dedos a fita do avental:
- O quê! Vender o que tanto custou a ganhar, com tantos trabalhos no mar, tanta perda de vida e fazenda?!
- Quais trabalhos, minha senhora?? Era desembarcar ali na areia, plantar umas cruzes de pau, atirar uns safanões aos pretos… Essas glórias de África são balelas.»

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

POSTAIS SEM SELO


 

Os filósofos afirmam que isto há-de ser sempre assim: o mais nobre de entre eles, Jesus, cujo nascimento estamos exactamente celebrando, ameaçou-nos, numa palavra imortal, que “teríamos sempre pobres entre nós”. Tem-se procurado com revoluções sucessivas fazer falhar esta sinistra profecia – mas as revoluções passam e os pobres ficam.

Eça de Queiroz em Cartas de Inglaterra

Legenda: fotografia Shorpy

sábado, 21 de outubro de 2023

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


DAS HISTÓRIAS DO MONTE

«…podia agora fazer um desvio e citar um amigo que, relatando o encontro de Nossa Senhora com os pastorinhos, imaginou o seguinte diálogo (mais coisa menos coisa).
Pergunta um pastorinho à Nossa Senhora: “Quem és tu?”. Responde a Nossa Senhora: “Eu sou a Nossa Senhora”. Insiste o segundo pastorinho: “E que vieste cá fazer?”. Responde a Nossa Senhora: “Vim trazer a verdade ao mundo!” Comenta o terceiro pastorinho (eram três): “Outra marxista!”

Ana Cristina Leonardo de uma crónica do Público

1.

A PSP deteve dois homens, com 18 e 36 anos, que esfaquearam e assaltaram três pessoas, em Lisboa. Uma das vítimas foi transportada para o hospital em estado grave. Os suspeitos foram ouvidos em tribunal e libertados.

Do Jornal de Notícias

3,

O Rock in Rio Lisboa anunciou que vai deixar o recinto no Parque da Bela Vista e passar a utilizar o Parque Tejo, onde se realizou a Jornada Mundial da Juventude.

4.

Dados de 2021 apontam para a existência de 1,7 milhões de pessoas em risco de pobreza em Portugal, ou seja, com redimentos inferiores a 551 euros mensais.

5.

Sem-abrigo aumentam 78% em quatro anos.

Marcelo Rebelo de Sousa  diz que, “num país com crescimento zero e pobreza a subir, é natural que cresça o número de sem-abrigo”

6.

Manuel Pinho explicou nesta em tribunal que criou a Fundação Tartaruga para não revelar o seu património quando foi para o Governo, uma vez que como ministro da Economia tinha de preencher a declaração no Tribunal Constitucional.
O antigo governante nega que fosse para ocultar os alegados subornos que o Ministério Público diz que recebeu do “saco azul” do GES, mas confirma que recebeu nessa sociedade offshore 15 mil euros mensais, que justifica como sendo prémios a que tinha direito pelo seu trabalho no banco liderado na altura por Ricardo Salgado.

7.

"A nossa realidade: neste agrupamento estão 800 alunos sem professor a uma ou mais disciplinas. Faltam seis assistentes operacionais".

 O alerta está patente numa faixa gigante, colocada nas grades da Escola Secundária Sebastião da Gama, em Setúbal.

8.

Depois de uma decisão provisória de 25 de Setembro autorizando a trasladação, o Supremo Tribunal Administrativo pronunciou-se agora definitivamente no mesmo sentido. Ou seja: indeferiu a providência cautelar contra a trasladação que tinha sido apresentada por um grupo de seis bisnetos do escritor. Mais uma vez, foi decisivo o facto de a maioria dos bisnetos ser a

A ideia das honras de Panteão para Eça, e correspondente trasladação dos restos mortais, partiu da Fundação Eça de Queiroz, presidida pelo escritor Afonso Reis Cabral, trineto do autor de "Os Maias".

A Assembleia da República marcará a data para a entrada de Eça de Queiroz no Panteão nacional.

sábado, 30 de setembro de 2023

POSTAIS SEM SELO


«Li que querem transladar Eça de Queiroz para o Panteão Nacional e que parte da família é contra. Dado o estado das artes e não sendo nada comigo, só posso reproduzir a frase de um vizinho a propósito de um outro que tinha a estranha mania de se trancar em casa: “Deixem o homem sossegado!”»

Ana Cristina Leonardo de uma crónica no Público

CONVERSANDO


Ninguém me perguntou mas se o fizessem responderia que não concordo com a trasladação dos restos mortais de Eça de Queiroz para o Panteão Nacional.

Eça, numa carta a Pinheiro Chagas, afirmou-se que era «apenas um pobre homem da Póvoa do Varzim.»

E um tal dito «pobre homem», gostará mais de continuar na tranquilidade de uma serra que ele proclamou tranquila.

Eça de Queiroz morreu em 16 de agosto de 1900 em Neuilly-sur-Seine. A 16 de Setembro chegaram a Lisboa os seus restos mortais que ficaram depositados em jazigo que pertencia à família Resendes. Aí ficaram até Setembro de 1989 quando foram transportados para um jazigo de família, em Tormes, Baião, no cemitério de Santa Cruz do Douro.

«Sacudi violentamente Jacinto:

— Acorda, homem, que estás na tua terra!

Ele desembrulhou os pés do meu paletó, cofiou o bigode, e veio sem pressa, á vidraça que eu abrira, conhecer a sua terra.

— Então é Portugal, hein?... Cheira bem.

— Está claro que cheira bem, animal!

A sineta tilintou languidamente. E o comboio deslisou, com descanso, como se passeasse para seu regalo sobre as duas fitas de aço, assobiando e gozando a beleza da terra e do céu.

O meu Príncipe alargava os braços, desolado:

— E nem uma camisa, nem uma escova, nem uma gota de água-de-colónia!... Entro em Portugal, imundo!

— Na Régua há uma demora, temos tempo de chamar o Grilo, reaver os nossos confortos... Olha para o rio!

Rolvamos na vertente de uma serra, sobre penhascos que desabavam até largos socalcos cultivados de vinhedo. Em baixo, numa esplanada, branquejava uma casa nobre, de opulento repouso, com a capelinha muito caiada entre um laranjal maduro. Pelo rio, onde a água turva e tarda nem se quebrava contra as rochas, descia, com a vela cheia, um barco lento carregado de pipas. Para além, outros socalcos, d’um verde pálido de reseda, com oliveiras apoucadas pela amplidão dos montes, subiam até outras penedias que se embebiam, todas brancas e assoalhadas, na fina abundancia do azul. Jacinto acariciava os pêlos corredios do bigode:

— O Douro, hem?... É interessante, tem grandeza. Mas agora é que eu estou com uma fome, Zé Fernandes!»

A Cidade e as Serras, página 118, edição do Círculo de Leitores, Setembro 1984

E faltava um tempinho para…

«Uma formidável moça, de enormes peitos que lhe tremiam dentro das ramagens do lenço cruzado, ainda suada e esbraseada do calor da lareira, entrou esmagando o soalho, com uma terrina a fumegar. E o Melchior, que seguia erguendo a infusa do vinho, esperava que Suas Incelências lhe perdoassem porque faltara tempo para o caldinho apurar... Jacinto ocupou a sede ancestral- e durante momentos ( de esgazeada ansiedade para o caseiro excelente) esfregou energicamente, com a ponta da toalha, o garfo negro, a fusca colher de estanho. Depois, desconfiado, provou o caldo, que era de galinha e rescendia. Provou- e levantou para mim, seu camarada de misérias, uns olhos que brilharam, surpreendidos. Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu, com espanto: - Está bom!

Estava preciso: tinha fígado e tinha moela: o seu perfume enternecia: três vezes, fervorosamente, ataquei aquele caldo

- Também lá volto! – exclamava Jacinto com uma convicção imensa. ~É que estou com uma fome… Santo Deus! Há anos que não sinto esta fome.

Foi ele que rapou avaramente a sopeira. E já espreitava a porta, esperando a portadora dos pitéus, a rija moça de peitos trementes, que enfim surgiu, mais esbraseada, abalando o sobrado – e pousou sobre a mesa uma travessa a transbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacinto, em Paris, sempre abominava favas!... Tentou todavia uma garfada tímida – e de novo aqueles seus olhos, que o pessimismo enevoara, luziram procura os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma lentidão de frade que se regala. Depois um brado:
-Óptimo!... Ah, destas favas, sim! Ó que fava! Que delícia!

E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres palreiras que em baixo remexiam as panelas, o Melchior que presidia ao bródio…

- Deste arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo!

O homem óptimo sorria, inteiramente desanuviado:

— Pois é cá a comidinha dos moços da quinta! E cada pratada, que até suas Incelências se riam... Mas agora, aqui, o Sr. D. Jacinto, também vai engordar e enrijar!»

A Cidade e as Serras, página 131, edição do Círculo de Leitores, Setembro 1984

Tormes.

Deixar Tormes para a frieza das paredes de um Panteão?

Ninguém me perguntou mas…

«Em fila começámos a subir para a serra. A tarde adoçava o seu esplendor de Estio. Uma aragem trazia, como ofertados, perfumes de flores silvestres. As ramagens moviam, com um aceno de doce acolhimento, as suas folhas vivas e reluzentes. Toda a passarinhada cantava, num alvoroço de alegria e de louvor. As águas correntes, saltantes, luzidias, despediam um brilho mais vivo. Numa pressa mais animada. Janelas distantes de casas amáveis flamejavam com um fulgor de ouro. A serra toda se ofertava, na sua beleza eterna e verdadeira.»

A Cidade e as Serras, página 230, edição do Círculo de Leitores, Setembro 1984.

Legenda: Casa de Tormes, fotografia da Fundação Eça de Queiroz.

A TRASLADAÇÃO DE EÇA PARA O PANTEÃO NACIONAL


Câmara Reys, num livrinho sobre Eça de Queiroz, escreve:

«Eu vi o enterro de Eça de Queirós, ao passar sob o Arco da Rua Augusta, e soube depois que Fialho saíra no Rossio, da porta da Mónaco, a comer um pãozinho de sanduiche, e rir, para ver desfilar o magro, modestíssimo cortejo, tendo forjado, com felinas delícias, o artigo publicado no Portugal-Brasil, o célebre artigo que começa por um verdadeiro uivo de chacal: “Último duma irmandade de tuberculosos, que se foi mais ou menos elegantemente para as borolências do túmulo…”».

Sobre a trasladação de Eça para o Panteão, sirvo-me de um artigo, assinado por Bárbara Reis, e publicado no Público de 25 de Setembro:

«Após um impasse de quatro dias, o Supremo Tribunal Administrativo decidiu esta segunda-feira que não há razão para travar a trasladação dos restos mortais do escritor José Maria Eça de Queiroz para o Panteão Nacional, mas a decisão ainda não é definitiva e por isso será marcada nova data para a cerimónia.


No despacho, o juiz Adriano Cunha não dá razão aos seis bisnetos que apresentaram uma providência cautelar para travar a trasladação, dizendo que eles são a minoria e que a maioria dos bisnetos é favorável. O juiz disse também que não é possível apurar nada escrito de Eça de Queiroz sobre a sua vontade quanto ao lugar onde queria ficar sepultado.


Há 22 bisnetos de Eça de Queiroz vivos: seis estão contra, 13 estão a favor e três não tomaram posição. Os seis contra entregaram, na semana passada, uma providência cautelar para impedir a trasladação. No requerimento, pediram também o “decretamento provisório”, uma urgência dentro da urgência. A decisão desta segunda-feira não é a final, é apenas a resposta ao pedido de urgência, que tem um prazo de 48 horas.»

Legenda: Estátua de Eça de Queiroz, da autoria de Teixeira Lopes, no Largo Barão de Quintela, em Lisboa.