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sábado, 25 de abril de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ


«Entrados nos 52 do 25 (não é uma dança de números, são os 52 anos do 25 de Abril de 1974, que hão-de completar-se no próximo sábado), o mundo continua a afundar-se em cenários de opereta que tão depressa nos lembram as distopias de Orwell como as delirantes acrobacias marxistas (de Chico, Harpo e Groucho, não as do velho Karl). Foi preciso esperar 52 anos para ouvir catalogar, em televisivo horário nobre, com bastante saliva e fanfarronice, a nossa tão celebrada “revolução dos cravos” como “revolução miserável”, coisa que Salazar, lá na tumba, terá decerto apreciado. Lembram-se daquela antiga canção que Dalida cantava com Alain Delon, Paroles, paroles? Era um caso de amor, aqui é de ressentimento e ódio. Mas, num ou noutro, são só palavras. E não há palavras, mesmo as mais infames ou violentas, que apaguem a História. Por mais que as gritem.

Abril, guerras mil – e há um ogre a querer dançar
Noutro palco, o planetário, estamos em pleno manicómio. Fixemo-nos numa criatura, a que, por economia de letras, chamaremos ogre (nada que ver com Shrek, pois este não é verde, anda mais pelos tons alaranjados; nem é muito dado a atrair simpatias, excepto de acólitos e veneradores). Pois queria o ogre ser visto como um campeão da paz. Até lhe deram dois prémios e tudo. Como falhou na paz, atirou-se à guerra, trocando a paz das pombas pelo “pás” das bombas. Nada que uma canção não tenha já dito, antes do ogre. Ouça-se Amélia Muge em E viva a paz (1991): “E viva a paz e viva a paz/ p’ra mim, p’ra ti, cá p’ró rapaz/ pás, pás, pás… pum!/ lá vai mais um!”»


Nuno Pacheco no Público






sexta-feira, 17 de abril de 2026

BALANÇA

Com pesos duvidosos me sujeito

À balança até hoje recusada.

É tempo de saber o que mais vale:

Se julgar, assistir, ou ser julgado.

Ponho no prato raso quanto sou,

Matérias, outras não, que me fizeram,

O sonho fugidiço, o desespero

De prender violento ou descuidar

A sombra que me vai medindo os dias;

Ponho a vida tão pouca, o ruim corpo,

Traições naturais e relutâncias,

Ponho o que há de amor, a sua urgência,

O gosto de passar entre as estrelas,

A certeza de ser que só teria

Se viesses pesar-me, poesia.

 

José Saramago

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

ERGO UMA ROSA...

Ergo uma rosa, e tudo se ilumina

Como a lua não faz nem o sol pode

Cobra de luz ardente e enroscada

Ou ventos de cabelos que sacode


Ergo uma rosa e grito a quantas aves

O céu pontuam de ninhos e de cantos

Bato no chão a ordem que decide

A união das trevas e dos santos.

 

Ergo uma rosa, um corpo e um destino

Contra o frio da noite que se atreve

E da seiva da rosa e do meu sangue

Construo eternidade em vida breve

 

Ergo uma rosa e deixo e abandono

Quanto me dói de mágoas e assombros

Ergo uma rosa sim e ouço a vida

Neste cantar das aves nos meus ombros.

 

José Saramago em Poemas Possíveis

terça-feira, 8 de julho de 2025

HISTÓRIA ANTIGA

Compromissos, não tinha, mas faltei;
Não prestei juramento, mas traí:
Sentir-se réu alguém, não depende
Do juízo dos outros, mas de si.
É fácil companhia a consciência
Se mansamente aceita e concilia,
Difícil é calá-la quando somos
Mais retos afinal do que se cria.
Um dia tornarei às dores do mundo,
À luta onde talvez já não me esperam,
Mas não agora, que as mãos tenho amarradas
Neste corpo de mulher aqui deitado.

José Saramago em Os Poemas Possíveis

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

COMO UM VIDRO ESTALADO...

Como um vidro estalado… A quem me ler

Não direi, já agora, se esta imagem

Vem serena dos ramos que perderam

As folhas contra o céu, ou se mastigo

Qualquer raiva escondida.

Como doendo, ou sendo, ou mastigando,

Sejam rendas aéreas, alma ferida,

Fecho, brusco, o poema onde não digo.

 

José Saramago em Provavelmente Alegria

sábado, 11 de novembro de 2023

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


 

No blogue A Nossa Rádio poderão encontrar os intérpretes que musicaram e os artistas que cantaram poemas de José Saramago.

O primeiro foi Luís Cília, durante o seu exílio em Paris.

Depois apareceu Manuel Freire em Eps e um LP «Devolta». Já depois do 25 de Abril, Manuel Freire, reuniu essas cancões num CD a que chamou As Canções Possíveis. São estes os poemas das canções de Manuel Freire:

Circo

Nem Sempre a mesma rima

Ouvindo Beethoven

Retrato do Poeta quando jovem

Jogo do Lenço

Tenho um Irmão Siamês

Dispostos em Cruz

Fado do Velho do Restelo ao Astronauta

A Ponte

Dia Não

É tão fundo o Silêncio.

Três são os livros de poemas de José Saramago: Os Poemas Possíveis, Provavelmente Alegria e O Ano de 1993.

Gosto do José Saramago poeta. Não é impunemente que descobri Saramago quando, no final de uma tarde de chuvoso Novembro, na Livraria Portugal, comprei os Poemas Possíveis, sem sequer conhecer o nome, quem era, donde vinha. E tudo começou logo no primeiro poema do livro:

“Até ao Sabugo”

“Outros porão em verso outras razões,
Quem sabe se mais úteis e urgentes,
Mas ninguém se refaz a natureza,
E como quem prevê acusações,
Aqui direi que busco a só maneira
De todo me encontrar numa certeza,
Leve nisso ou não leve a vida inteira.

Assim como quem rói as unhas rentes.”  

Na única vez que estive com José Saramago, Festa do Avante de 1977, lembro-me de lhe ter dito que apreciava muito os seus poemas. Com aquele seu sorriso tímido, acabou por dizer que não era mais do que um poeta mediano.

A Música pela Manhã de hoje, detém-se num poema de José Saramago cantado por Mísia no seu álbum «Garras dos Sentidos».

O fado, música de Franklin Rodrigues, chama-se Nenhuma Estrela Caiu e é uma letra adaptada do poema A Ponte que consta do livro Provavelmente Alegria.

 Estes são os versos cantados por Mísia:

Janelas que me separam 
Do vento frio da tarde
Num recanto de silêncio 
Onde os gestos do pensar
São as traves duma ponte 
Que não paro de lançar


Vem a noite e o seu recado 
Sua negra natureza 
Talvez a lua não falte 
Ou venha a chuva de estrelas 
Basta que o sono desperte 
O sonho que deixa vê-las

 
Abro as janelas por fim 
E o frio vento se esquece 
Nenhuma estrela caiu 
Nem a lua me ajudou 
Mas a ruiva madrugada
Por trás da ponte aparece.


E este  é o poema A Ponte, tirado de Provavelmente Alegria:

    
 Vidraças que me separam

Do vento fresco da tarde

Num casulo de silêncio

Onde os segredos e o ar

São as traves duma ponte

Que não paro de lançar

 

Fica-se a ponte no espaço

À espera de quem lá passe

Que o motivo de ser ponte

Se não pára a construção

Vai muito mais da vontade

De estarem onde não estão

 

 Vem a noite e o seu recado

Sua negra natureza

Talvez a lua não falte

Ou venha a chuva de estrelas

Basta que o sono consinta

A confiança de vê-las

 

Amanhã o novo dia

Se o merecer e me for dado

Um outro pilar da ponte

Cravado no fundo do mar

Torna mais breve a distância

Do que falta caminhar

 

 Há sempre um ponto de mira

O mais comum horizonte

Nunca as pontes lá chegaram

Porque acaba o construtor

Antes que a ponte se entronque

Onde se acaba o transpor

 

Sobre o vazio do mar

Desfere o traço da ponte

Vá na frente a construção

Não perguntem de que serve

Esta humana teimosia

Que sobre a ponte se atreve

 

Abro as vidraças por fim

E todo o vento se esquece

Nenhuma estrela caiu

Nem a lua me ajudou

Mas a ruiva madrugada

Por trás da ponte aparece


sexta-feira, 3 de novembro de 2023

RETRATO DO POETA ENQUANTO JOVEM

Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.

Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Leves ondas se afastam para o lado
Com um rumor da seda amarrotada.

Há um nascer do sol no sítio exacto,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.

Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu dessa memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que narra do retrato a velha história.

José Saramago em Os Poemas Possíveis

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Pegamos hoje em O Ano de 1993 e retiramos este poema:

 

Nenhum lugar é suficientemente belo na terra para que doutro

        lugar nos desloquemos a ele

Mas uma razão haverá para que a todas as horas do dia venham

         andando grupos de pessoas na direcção da rua das estátuas

Estão dispensados os roteiros e os mapas uma vez que todos

          os caminhos vêm dar a esta rua e não a Roma onde ainda

          hoje não faltam as estátuas mas nenhuma que a estas se

          compare

Não é difícil chegar basta olhar o chão e seguir sempre pelos

           caminhos mais pisados também reconhecíveis pelas duas alas

           de excrementos que os ladeiam

O sol resseca-os rapidamente e se a chuva os desfaz nunca tanto

           que restitua o chão a uma qualquer virgindade

O homem aprendeu enfim a orientar-se sem bússola chega-lhe

           passar por onde outro homem passou antes

As pessoas vão conversando numerosamente e de vez em quando

           uma separa-se do grupo e vai agachar-se ao lado

Enquanto os outros se afastam devagar atrasando o passo para

           que não fique para trás aquele que assinalará o caminho

Passado o último horizonte é que está a rua das estátuas

Nenhum excremento nas imediações

E eis que cinquenta estátuas de cada lado incrivelmente brancas

       mas a que os jogos das luzes e das sombras alternadas fazem

       mover os membros e as feições

Mostram a quem passa vindo de longe como poderiam ter sido

        os homens

Pois há motivos para pensar que nunca foram assim

 

O verso «nenhum lugar é suficientemente belo na terra para que doutro lugar nos desloquemos a ele» faz-nos lembrar o livro de Saramago Viagem a Portugal publicado em Março de 1981, pelo Círculo de Leitores, um dos livros mais notáveis surgidos, nesse ano, em Portugal, e que irá constituir o grande salto para a consagração do autor.

Este belíssimo livro, profusamente ilustrado, passa a constituir um marco na literatura portuguesa e beneficia da projecção que o Circulo de Leitores tinha por todo o país. Note-se, que a 1ª edição teve uma tiragem de 30.000 exemplares.

Um Portugal visto com outros olhos, longe do guia turístico, longe dos livros de viagens, um Portugal que muitos desconheciam, também muitos ainda desconhecem, escrito com um brilho, uma força e um sentir só possíveis a quem verdadeiramente ama o seu país. Um olhar terno, humano, vigilante.

«O viajante viajou no seu país. Isto significa que viajou por dentro de si mesmo, pela cultura que o formou e está formando, significa que foi durante muitas semanas, um espelho reflector das imagens exteriores, uma vidraça transparente que luzes e sombras atravessaram, uma placa sensível que registou, em trânsito e processo, as impressões, as vozes, o murmúrio infindável de um povo.»

Do prefácio:

 «Mal vai a obra se lhe requerem prefácio que a explique, mal vai ao prefácio se presume de tanto. Acordemos, então, que não é prefácio isto, mas aviso simples ou prevenção, como aquele recado derradeiro que o viajante, já no limiar da porta, já postos os olhos no horizonte próximo, ainda deixa a quem lhe ficou a cuidar das flores. Diferença, se a há, é não ser o aviso último, mas primeiro. E não haverá outro.

Resigne-se pois o leitor a não dispor deste livro como de um guia às ordens, ou roteiro que leva pela mão, ou catálogo geral.(…) o autor não vai dar conselhos, embora sobreabunde em opiniões. (…) Sem dúvida, o autor foi aonde se vai sempre, mas foi também aonde se vai quase nunca… (…) o viajante viajou no seu país. Isto significa que viajou por dentro de si mesmo, pela cultura que o formou e está formando, significa que foi, durante muitas semanas, um espelho reflector das imagens exteriores, uma vidraça transparente que luzes e sombras atravessaram, uma placa sensível que registou, em trânsito e processo, as impressões, as vozes, o murmúrio infindável de um povo.

Eis o que este livro quis ser. E o que supõe ter conseguido um pouco. Tome o leitor as páginas seguintes como desafio e convite. Viaje segundo um seu projecto próprio, dê mínimos ouvidos à facilidade dos itinerários cómodos e de rasto pisado, aceite enganar-se na estrada e voltar atrás, ou, pelo contrário, persevere até inventar saídas desacostumadas para o mundo. Não terá melhor viagem. E, se lho pedir a sensibilidade, registe por sua vez o que viu e sentiu, o que disse e ouviu dizer. Enfim, tome este livro como exemplo, nunca como modelo. A felicidade, fique o leitor sabendo, tem muitos rostos. Viajar é, provavelmente, um deles. Entregue as suas flores a quem saiba cuidar delas, e comece. Ou recomece. Nenhuma viagem é definitiva.»

Tempo ainda para rondar as palavras com que o viajante José Saramago encerra o seu livro:

«Este é o país do regresso. A viagem acabou.

Não é verdade. A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na arei da praia e disse: “Não há mais que ver”, sabia que não era assim. "O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já.»

Legenda: ilustração de Graça Morais paraAno de 1993 de José Saramago.

 

terça-feira, 29 de novembro de 2022

DEMISSÃO

Este mundo não presta, venha outro.

Já por tempo de mais aqui andamos

A fingir de razões suficientes.

Sejamos cães do cão; sabemos tudo

De morder os mais fracos, se mandamos,

E de lamber as mãos, se dependentes.

José Saramago em Os Poemas Possíveis

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

BARALHO

Lanço na mesa as cartas de jogar:

Os amores de cartão e as espadas,

Os losangos vermelhos de ouro falso,

A trilobada folia que ameaça.

Caso e descaso aas damas e os valetes,

Andam os reis pasmados nesta farsa.

E quando conto os pontos da vitória,

Sai-me de lá, a rir como perdido,

Na figura do bobo o meu retrato.

José Saramago em Os Poemas Possíveis

domingo, 27 de novembro de 2022

QUEM DIZ TEMPO DIZ LUGAR

Quem diz tempo diz lugar

Dizer hoje é o mesmo que

Dizer aqui onde estamos

Quando o porquê é porque

 

Por isso eu hoje antecipo

Mar fundo futuro monte

No ponto do amanhã

A hora do horizonte

 

Esta certeza aqui vem

Da incerteza dos passos

Dos descompassos do tempo

Dos braços noutros abraços

 

Porque o tempo e o lugar

Não eram ontem então

Eram circuitos em volta

E fusos de confusão

 

Mesmo o aqui deste agora

É por enquanto a parcela

Do lugar certo e da hora

Que no lugar se revela

 

Por isso eu hoje antecipo

Mar fundo futuro monte

O ponto da amanhã

Na hora do horizonte


José Saramago em Provàvelmente Alegria

sábado, 26 de novembro de 2022

COMO UM VIDRO ESTALADO

Como um vidro estalado… A quem me ler

Não direi, já agora, se esta imagem

Vem serena dos ramos que perderam

As folhas contra o céu, ou se mastigo

Qualquer raiva escondida.

Como doendo, ou sendo, ou mastigando,

Sejam rendas aéreas, alma ferida,

Fecho. Brusco, o poema onde não digo.


José Saramago em Provàvelmente Alegria

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

ANTES CALADOS

E se os ossos rangessem quando os gritos

Dentro no sangue negro se amordaçaram?

E se os olhos uivassem quando a lágrima

Grossa de sal amargo rasga a pele?

E se as unhas mudadas em navalhas

Abrissem dez caminhos de desforra?

E se os versos doessem mastigados

Entre os dentes que mordem o vazio?


(Mais perguntas, amor? Antes calados.)


José Saramago em Provàvelmente Alegria

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

RECEITA

Tome-se um poeta não castrado,
Uma nuvem de sonho, uma flor,
Três gotas de amargura, um tom de fado,
Uma veia sangrando de terror.
Nesta massa que ferve e se contorce
Verta-se a luz dum corpo de mulher,
Duma pitada de morte se reforce,
Que o amor do poeta assim requer.

José Saramago em Os Poemas Possíveis

terça-feira, 22 de novembro de 2022

INVENTÁRIO

De que sedas se fizeram os teus dedos,

De que marfim as tuas coxas lisas,

De que montanha chegou ao teu andar

A graça de camurça com que pisas

De que amoras maduras se espremeu

O gosto acidulado do teu seio,

De que Índia o bambu da tua cinta,

O oiro dos teus olhos donde veio

A que balanço de onda vais buscar

A linha sinuosa dos quadris

Onde nasce a frescura dessa fonte

Que sai da tua boca quando ris

De que bosques marinhos se soltou

A rosa de coral das tuas portas

Que perfume te anuncia quando vens

Cercar-me de desejo a horas mortas

 

José Saramago em Os Poemas Possíveis

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

DE PAZ E DE GUERRA

Na mão serena que num gesto de onda

Em estátua musical o ar modela.

Na mão crispada que num frio de gelo

Na parede dos dias fundos gritos traça

Na mão de febre que num suor de chama

Em cinzas vai mudando quanto toca.

 Na mão de seda que num afago de asa

Faz que os sonhos nasçam como fontes de água.

Na tua mão de paz na tua mão de guerra,

Abre a flor do amor e faz o ninho a mágoa.

 

José Saramago em Os Poemas Possíveis

domingo, 20 de novembro de 2022

JOGO DO LENÇO

Trago no bolso do peito 

Um lenço de seda fina, 

Dobrado de certo jeito. 

Não sei quem tanto lhe ensina 

Que quanto faz é bem feito.

 

Acena nas despedidas, 

Quando a voz já lá não chega 

Por distâncias desmedidas. 

Depois, no bolso aconchega 

As saudades permitidas.

 

Também o suor salgado, 

Às vezes, enxugo a medo, 

Que o lenço é mal empregado. 

E quando me feri um dedo, 

Com ele o trouxe ligado.

 

Nunca mais chegava ao fim 

Se as graças todas dissesse 

Deste meu lenço e de mim, 

Mas uma coisa acontece 

De que não sei porque sim:

 

Quando os meus olhos molhados 

Pedem auxílio do lenço, 

São pedidos escusados. 

E é bem por isso que penso 

Que os meus olhos, se molhados, 

Só se enxugam no teu lenço."


José Saramago em Os Poemas Possíveis

sábado, 19 de novembro de 2022

EU LUMINOSO NÃO SOU

Eu luminoso não sou. Nem sei que haja
Um poço mais remoto, e habitado
De cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se, no fundo poço, que é o mundo
Intratável e secreto das águas interiores,
Uma roda de céu ondulando se alarga,
Digamos que é o mar: como o rápido canto
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
O movimento de asas. O musgo é um silêncio,
E as cobras de água dobram rugas no céu,
Enquanto, devagar, as aves se recolhem.

José Saramago em Provàvelmente Alegria

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

NA ILHA POR VEZES HABITADA

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra em nós uma grande serenidade,
e dizem-se as palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres,
com a paz e o sorriso de quem se reconhece
e viajou à roda do mundo infatigável,
porque mordeu a alma até aos ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de
nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.

José Saramago em Provàvelmente Alegria

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

POEMA PARA LUÍS DE CAMÕES

Meu amigo, meu espanto, meu convívio,
Quem pudera dizer-te estas grandezas,
Que eu não falo do mar, e o céu é nada
Se nos olhos me cabe.
A terra basta onde o caminho pára,
Na figura do corpo está a escala do mundo.
Olho cansado as mãos, o meu trabalho,
E sei, se tanto um homem sabe,
As veredas mais fundas da palavra
E do espaço maior que, por trás dela,
São as terras da alma.
E também sei da luz e da memória,
Das correntes do sangue o desafio
Por cima da fronteira e da diferença.
E a ardência das pedras, a dura combustão
Dos corpos percutidos como sílex,
E as grutas do pavor, onde as sombras
De peixes irreais entram as portas
Da última razão, que se esconde
Sob a névoa confusa do discurso.
E depois o silêncio, e a gravidade
Das estátuas jazentes, repousando,
Não mortas, não geladas, devolvidas
À vida inesperada, descoberta,
E depois, verticais, as labaredas
Ateadas nas frontes como espadas,
E os corpos levantados, as mãos presas,
E o instante dos olhos que se fundem
Na lágrima comum. Assim o caos
Devagar se ordenou entre as estrelas.

Eram estas as grandezas que dizia
Ou diria o meu espanto, se dizê-las
Já não fosse este canto.

José Saramago em Provàvelmente Alegria