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terça-feira, 18 de novembro de 2025

OLHAR FRIGIDEIRAS, TACHOS, PANELAS


Hoje, as panelas, as frigideiras, os tachos, fazem uma breve homenagem a José Quitério que há uns anos, por motivos de doença. Deixou de publicar as suas excelentes e únicas críticas de gastronomia que publicou no semanário Expresso.

Trata-se de um recorte (incompleto) encontrado na revista Ler do Inverno de 1989.

Fala de caldo verde e de Camilo Castelo Branco.

Gosto de caldo verde - «sábia simbiose entre um caldo de puré de batata, que não se quer em exagero, e a couve galaga finamente segada e abundante, tudo espevitado pelo azeite puro e a rodela de salpicão ou de chouriço caseiro», José Quitérito dixit

Mas os mercados de Lisboa, excepção ao de Alvalade e ao 31 de Janeiro, já não existem e aí se comprava a couve galega cortada à vista do cliente. As embalagens de caldo verde que hoje se vendem nos supermercados, são um embuste.

Quanto a Camilo, lamentavelmente, não lhe dei a mesma atenção de leitura que dei a Eça de Queiroz. 

domingo, 6 de abril de 2025

O OUTRO LADO DAS CAPAS


As grandes leituras também se fazem com livros baratos.

 As dificuldades económicas que naquele se viviam, obrigavam a recorrer às pequenas colecções que se iam publicando. O caso da Mosaico «pequena antologia de Obras-Primas», dirigida por Manuel do Nascimento.

Tal como escreve no prefácio de abertura da Colecção Mosaico:

«Mosaico embora modestamente, pretende representar um corte, mas um corte nítido, vincado, sobretudo na literatura de ficção, de todos os tempos. Muitos portugueses existem que desconhecem um Maupassant, que ignoram mesmo a obra dum Camilo, que nunca ouviram falar dum Carlos Malheiro Dias, dum António Patrício, dum Aquilino Ribeiro. Machado Assis continua a ser um escritor ignorado e num Silone, num Graciliano Ramos, num Pirandello, num Francisco Costa, num Graham Greene só umas escassas centenas de leitores repararam ainda.

«Mosaico» será uma antologia de iniciação cultural e foi concebida com um único intuito: o de desvendar um véu, de ensaiar os vossos primeiros passos no vasto campo da literatura mundial.»

A admirável aventura, como chamava Manuel do Nascimento à Colecção Mosaico, custava 4 escudos e já anunciava o nº2 com um conto de Erskine Caldwell.

«Nada como as artes existe para transformar em beleza a vida dos homens».

domingo, 23 de março de 2025

REOLHARES


 

Com Camilo entre mãos, tempo de comemorações do 2º centenário do nascimento, socorro-me de Reolhares para trazer um texto por aqui publicado em 16 de Janeiro de 2021.

Então tinha 76 anos.

Livio, personagem do filme de João César Monteiro, «Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço, a certo ponto do filme diz:

«O meu pai era um tipo melancólico. Caçava moscas e lia Camilo. Morreu»

Fui, e sou, um péssimo leitor de Camilo Castelo Branco.

Os livros existiam na biblioteca do meu pai, mas enamorei-me pelo Eça.

Já tarde no tempo, fiz várias incursões por alguns livros de Camilo, mas não ficaram registos.

Tristemente me espanto, como existindo neste blogue uma etiqueta Olhar as Capas, em que já passaram 1.466 livros da biblioteca da casa, não haja um livro de Camilo.

E dezenas deles estão por aqui.

Pior ainda: nem sequer existe etiqueta do autor.

Que dizer?

Camilo nasceu em Lisboa no dia 16 de Março de 1825.

Ficou órfão de mãe com 2 anos e de pai com 10 anos. Foi morar com uma tia e depois com a sua irmã mais velha.

O resto é a tragédia de uma vida.

Casamentos frustrados, seminário, escândalos vários, em que está incluída, cheia de salero, uma bailarina espanhola, que para a sustentar, Camilo recorre ao jogo no casino da Póvoa do Varzim, contraindo inúmeras dívidas de jogo, adultério, o impressionante rapto e casamento com Ana Plácido, filhos, um deles, louco.

A  3 de Julho de 1890, depois de ter perdido a esperança de recuperar a vista, suicida-se, em S. Miguel de Seide, disparando um tiro de revólver na têmpora direita. 

Camilo Castelo Branco foi um dos primeiros escritores portugueses a viver exclusivamente do que escrevia, deixando uma vastíssima e diversificada obra.

Não sendo um tipo melancólico, nem caçador de moscas, quase nos 76 anos, vou começar a ler Camilo Castelo Branco.

Deixando, por ora, os romances, vou ler esta Boémia do Espírito.

No Preâmbulo, Camilo explica:

«O livro é que há-de definir o título.

Se o leitor, voltada a página final, não tiver encontrado a causa que motivou semelhante rótulo, também eu não poderei esclarecê-lo.»

E termina:

«Se perguntassem a Coubert, a Mery, a Léon Gozlan, a Gautier e aos outros porque eram boémios, e não tabeliães de notas, eles não saberiam responder.»

 

(Em Reolhares vamos publicando textos publicados, nos últimos 15 anos no Cais do Olhar.)

quinta-feira, 27 de junho de 2024

OLHAR AS CAPAS

Camões, Camilo, Eça, e Alguns Mais

Aquilino Ribeiro

Livraria Bertrans, Lisboa s/d

É louvada a longanimidade e tolerância de Fr. Bartolomeu Ferreira porque estando os Lusíadas à mercê do seu lápis de revedor não suprimiu a jóia erótica sem para da ilha voluptuosa e outras belezas desenvoltas do poema.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

CONVERSANDO

Há longo tempo que procura uma frase de Camilo Castelo Branco.

Foi o pai que a citou, mas não lhe disse o nome do livro nem ele perguntou.

Num comboio antigo, lugares de pau e virados uns para os outros, a conversa ia animada. Alguém ia ouvindo e a certa altura comentou para si próprio:

«Como o sujeito era estúpido, concluiu que era do Porto.»

sábado, 16 de janeiro de 2021

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


Livio, personagem do filme de João César Monteiro, «Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço, a certo ponto do filme diz:

«O meu pai era um tipo melancólico. Caçava moscas e lia Camilo. Morreu»

Fui, e sou, um péssimo leitor de Camilo Castelo Branco.

Os livros existiam na biblioteca do meu pai, mas enamorei-me pelo Eça.

Já tarde no tempo, fiz várias incursões por alguns livros de Camilo, mas não ficaram registos.

Tristemente me espanto, como existindo neste blogue uma etiqueta Olhar as Capas, em que já passaram 1.466 livros da biblioteca da casa, não haja um livro de Camilo.

E dezenas deles estão por aqui.

Pior ainda: nem sequer existe etiqueta do autor.

Que dizer?

Camilo nasceu em Lisboa no dia 16 de Março de 1825.

Ficou órfão de mãe com 2 anos e de pai com 10 anos. Foi morar com uma tia e depois com a sua irmã mais velha.

O resto é a tragédia de uma vida.

Casamentos frustrados, seminário, escândalos vários, em que está incluída, cheia de salero, uma bailarina espanhola, que para a sustentar, Camilo recorre ao jogo no casino da Póvoa do Varzim, contraindo inúmeras dívidas de jogo, adultério, o impressionante rapto e casamento com Ana Plácido, filhos, um deles, louco.

A  3 de Julho de 1890, depois de ter perdido a esperança de recuperar a vista, suicida-se, em S. Miguel de Seide, disparando um tiro de revólver na têmpora direita. 

Camilo Castelo Branco foi um dos primeiros escritores portugueses a viver exclusivamente do que escrevia, deixando uma vastíssima e diversificada obra.

Não sendo um tipo melancólico, nem caçador de moscas, quase nos 76 anos, vou começar a ler Camilo Castelo Branco.

Deixando, por ora, os romances, vou ler esta Boémia do Espírito.

No Preâmbulo, Camilo explica:

«O livro é que há-de definir o título.

Se o leitor, voltada a página final, não tiver encontrado a causa que motivou semelhante rótulo, também eu não poderei esclarecê-lo.»

E termina:

«Se perguntassem a Coubert, a Mery, a Léon Gozlan, a Gautier e aos outros porque eram boémios, e não tabeliães de notas, eles não saberiam responder.»

 

1.

Continua o frio.

Nesta vida destrambelhada de confinamento, as notícias não nos fazem esquecer – como se fosse possível esquecer?! -  o que nos vai acontecendo:

Números alarmantes dizem-nos que, hoje, registaram-se 166 óbitos e 10.947 novos casos de infecção.

2.

Doentes esperam, ao longo dos últimos dias, dentro das ambulâncias, durante horas, à porta das urgências dos hospitais.

Alguns morrem.

É sempre tarde quando se chora, mas se a este estado chegámos, é porque utilizámos muito mal o dinheiro que, em tempo de vacas gordas, nos chegou da Europa. As auto-estradas, perdidas no interior do país, não são utilizadas, os milhares de rotundas pelo pedaço espalhadas, servem para o que ninguém sabe o quê.

3.

Manuel Lemos, presidente da União de Misericórdias Portuguesas:

«O Estado é o principal responsável pela existência de lares ilegais.»

4.

«Pouca é a distância entre a vida e a morte.»

De uma canção do folclore chileno.