quinta-feira, 3 de setembro de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Corria o Natal de 1970 e encontrava-me na Livraria Portugal à procura de um livro para oferecer a mim mesmo.

Herberto Helder apenas o conhecia de nome, referido nos suplementos literários que, uma vez por semana, os jornais publicavam.

A capa colorida da 3ª edição de Os Passos emVolta de Herberto Helder, publicado pela Editorial Estampa, chamou-me a atenção.

Peguei-lhe e os olhos caíram logo nas palavras iniciais.

Gosto imenso de começos de livros. Nem todos ficam para a minha história.

Este ficou.

- Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade enorme de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio.

Curioso que o título que João Pedro George fez de Herberto Helder tenha o título   «Se Eu Quisesse Enlouquecia».

Herberto não dava entrevistas, não se deixava fotografar, recusava prémios, tinha um imenso mau-feitio.

A biografia de João Pedro Jorge são mais de 800 páginas.

João Pedro George:

«Trabalhei cerca de oito anos, a fazer muitas entrevistas, a fazer muito trabalho. Este não é um livro sobre a poesia de Herberto, é a sua biografia.

Devo dizer, no entanto, que o desapego dele não era total. Antes pelo contrário. Movia-se nos bastidores e influenciava o que os críticos diziam dele e chegava a ajudar a escrever esses textos.

Consultei a correspondência com o Luís Amaro, da Colóquio-Letras, que é abundante e demonstra essa atenção. E também há várias cartas dele para o Jornal de Letras, a pedir que o deixassem em paz. Ora, alguém que se dá ao trabalho de escrever missivas a dizer isto, está naturalmente, a chamar a atenção sobre si e a sua obra.»

Alexandra Lucas Coelho:

«A cada ano dei por mim a começar o ano com aquele aviso que Herberto escreveu numa entrevista há quase 50 anos, o de que há que estar disponível para desiludir as expectativas porque desiludir é garantir o movimento e ninguém viverá a nossa aventura por nós.»

Tempo de dizer que a biografia de Herberto, escrita por João Pedro George, é um livro notável, mesmo para quem não aprecie a sua obra.

Por ali se fica a saber que profissionalmente foi um homem de dezenas e dezenas de empregos, a maior parte de curta duração: jornalista, editor, delegado de propaganda médica, publicitário, meteorologista, cortador de legumes, guia de marinheiros em busca de prostitutas, funcionário das bibliotecas da Gulbenkian.

Ou seja: a importância misteriosa de existir.

«Sou um neurótico, um egoísta. Deixei-me. Não vou amar o mundo. Estou-me nas tintas. Apetece-me estar só. Comer aqui e ali em pequenos restaurantes, e, no quarto, acordar à noite, fumar um cigarro à janela, folhear um tratado de arqueologia.».

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