Corria o Natal de 1970 e encontrava-me na Livraria Portugal à procura de um livro para oferecer a mim mesmo.
Herberto Helder apenas o conhecia de nome, referido nos suplementos literários que, uma vez por semana, os jornais publicavam.
A capa colorida da 3ª edição de Os Passos emVolta de Herberto Helder, publicado pela Editorial Estampa, chamou-me a atenção.
Peguei-lhe e os olhos caíram logo nas palavras iniciais.
Gosto imenso de começos de livros. Nem todos ficam para a minha história.
Este ficou.
- Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade enorme de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio.
Curioso que o título que João Pedro George fez de Herberto Helder tenha o título «Se Eu Quisesse Enlouquecia».
Herberto não dava entrevistas, não se deixava fotografar, recusava prémios, tinha um imenso mau-feitio.
A biografia de João Pedro Jorge são mais de 800 páginas.
João Pedro George:
«Trabalhei cerca de oito anos, a fazer muitas
entrevistas, a fazer muito trabalho. Este não é um livro sobre a poesia de Herberto,
é a sua biografia.
Devo dizer, no entanto, que o desapego dele não era
total. Antes pelo contrário. Movia-se nos bastidores e influenciava o que os
críticos diziam dele e chegava a ajudar a escrever esses textos.
Consultei a correspondência com o Luís Amaro, da Colóquio-Letras, que é abundante e demonstra essa atenção. E também há várias cartas dele para o Jornal de Letras, a pedir que o deixassem em paz. Ora, alguém que se dá ao trabalho de escrever missivas a dizer isto, está naturalmente, a chamar a atenção sobre si e a sua obra.»
Alexandra Lucas Coelho:
«A cada ano dei por mim a começar o ano com aquele aviso que Herberto escreveu numa entrevista há quase 50 anos, o de que há que estar disponível para desiludir as expectativas porque desiludir é garantir o movimento e ninguém viverá a nossa aventura por nós.»
Tempo de dizer
que a biografia de Herberto, escrita por João Pedro George, é um livro notável,
mesmo para quem não aprecie a sua obra.
Por ali se fica
a saber que profissionalmente foi um homem de dezenas e dezenas de empregos, a
maior parte de curta duração: jornalista, editor, delegado de propaganda
médica, publicitário, meteorologista, cortador de legumes, guia de marinheiros em
busca de prostitutas, funcionário das bibliotecas da Gulbenkian.
Ou seja: a importância misteriosa de existir.
«Sou um neurótico, um egoísta. Deixei-me. Não vou amar
o mundo. Estou-me nas tintas. Apetece-me estar só. Comer aqui e ali em pequenos
restaurantes, e, no quarto, acordar à noite, fumar um cigarro à janela, folhear
um tratado de arqueologia.».
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