Mostrar mensagens com a etiqueta José Luís Tinoco. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta José Luís Tinoco. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 24 de abril de 2026

RETRATOS


«Permito-me reproduzir aqui (plagiando-me a mim próprio) o prefácio que tive o gosto e a honra de escrever para um recente livro de poemas de José Luís Tinoco, editado pela Câmara Municipal de Leiria.

Para além das belíssimas letras de canções que compôs, José Luís Tinoco trazia ainda dentro de si um exigente e poderoso poeta, mais noturno talvez do que o resto da sua obra, mas mais perto também da autenticidade de quem considera, de olhos enxutos, o balanço de uma vida.

A poesia de José Luís Tinoco, de firme apuro formal e sábio desenvolvimento, isenta de quaisquer fragilidades ou facilidades, apresenta-nos um mundo distópico e carregado do seu próprio vazio, um mundo cinzento onde perseguimos em vão as brasas cintilantes das memórias. Elas apagam-se, as brasas, tão logo as alcançamos, mas conseguimos entrever, por detrás da cinza, o intenso mundo perdido para que nos chama esta poesia.

E são muitas as memórias que se deixam entrever. Mesmo no meio da mais cinzenta paisagem, é impossível perder-se o apelo da vida. Porque escrever é triunfar do vazio e afirmar as cores que resistem para além do cinzento e da perda.

"E assim nos promete o poeta:

amanhã vou encontrar-te entre as raízes

e o que sobrar da respiração da noite

junto às nascentes

onde bebem os sobreviventes do sol e dos temporais

descobrir-te nesse vago rumor de vidros e de estrelas

que se move sobre as pedras

e só agora começo a entender

nítido azul que há-de cobrir o resto dos teus dias”

E a poesia torna-se nessa intensa e concentrada procura do azul, que nos faz continuar a poder acreditar na vida.

Assim, a poesia de José Luís Tinoco só a uma primeira e menos atenta leitura nos parecerá cinzenta e disfórica. Toda a sua obra poética, ainda que filha da melancolia e da bílis negra que, segundo Aristóteles, carateriza o génio, constitui um forte apelo à vida, que faz com o seu canto regressar as cores à paisagem mais mortiça e seca que o poeta possa evocar. E esta alternância da melancolia da perda com a maravilha da criação é o motor que alimenta a poesia e é por isso que podemos aqui dizer, com o poeta Manuel Gusmão:

“Contra todas as evidências em contrário, a alegria.”

É que, se não há vertigem para quem conhece os abismos, como nos ensina o nosso poeta, ele tem presente também a advertência de Nietzsche: “Quem ama o abismo precisa de ter asas.”

E não faltaram a José Luís Tinoco as asas da poesia, como ele bem sabe. Por isso este livro de amadurecida e escorreita poesia, em que vemos emergir uma nova e original voz poética, na sua plena capacidade, nos agarra de surpresa para não mais nos largar.

Nesta dolorosa despedida, são estas as palavras que deixo à memória do arquiteto, músico, poeta e grande homem da nossa cultura José Luís Tinoco.»

Luís Filipe Castro Mendes no Diário de Notícias

sábado, 18 de abril de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ


O compositor, artista plástico e arquiteto José Luís Tinoco morreu na noite de quarta-feira, em Lisboa, aos 93 anos.

Pianista, criador de canções como No teu poema, uma lindíssima canção.

 José Luís Tinoco foi também o músico de jazz que fez parte das primeiras formações do Hot Clube de Portugal, o poeta que publicou "Perseguição dos dias", o compositor que Bernardo Sassetti, João Paulo Esteves da Silva, Mário Laginha, Ivan Lins, Carlos do Carmo abordaram vezes sem conta, e cuja música detém “a qualidade dos grandes ‘standards’”, como reconhecem os seus intérpretes, num nível equiparável a Cole Porter ou Tom Jobim.

A sua marca, porém, não se limita à música. Estende-se à arquitetura, à ilustração, ao cartoon, à fotoanimação, aos figurinos e cenários para teatro, ópera e bailado, ao design e às artes gráficas.

Em 2014, José Luís Tinoco recebeu o Prémio de Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores, e o Teatro S. Luiz, em Lisboa, abriu a temporada com o espetáculo de homenagem “Os lados do mar – José Luís Tinoco”, dirigido por Laurent Filipe, com a participação de músicos como Carlos do Carmo, Carminho, Camané, André Sarbib e Pedro Jóia.

"Evito o fácil", dizia sempre José Luís Tinoco. "Não cedo só porque é bonito", garantia. Na música, na pintura, na arquitetura, na vida toda.

 

No teu poema
Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida


No teu poema existe a dor calada lá no fundo
O passo da coragem em casa escura
E, aberta, uma varanda para o mundo.


Existe a noite
O riso e a voz refeita à luz do dia
A festa da senhora da agonia
E o cansaço
Do corpo que adormece em cama fria.


Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.


No teu poema
Existe o grito e o eco da metralha
A dor que sei de cor mas não recito
E os sonhos inquietos de quem falha.


No teu poema
Existe um cantochão alentejano
A rua e o pregão de uma varina
E um barco assoprado a todo o pano


Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.


No teu poema
Existe a esperança acesa atrás do muro
Existe tudo o mais que ainda escapa
E um verso em branco à espera de futuro.