Sombras chinesas
falavam aos berros, contraditórias e desmoralizantes – já não davam mais
lençóis ou só havia botas das pequenas, ou não distribuíam mais fardas nessa
noite e amanhã estás lixado que tens de aparecer fardado, despacha-te que o
quarteleiro está a dar a roupa da cama, desenrasca-te mas não podes dormir aí
que essa é minha, se perderes o quico tens de pagar e não vais de fim de
semana.
Deram-me duas mantas
castanhas e esburacadas, um par de lençóis duros e molhados. Quando voltei ao
beliche já a minha cama estava feita e ocupada por uma feroz sombra a ressonar.
A caserna ia abrigar cerca de duzentos instruendos, uma companhia de instrução
dividida por muros até meia altura e um corredor lateral percorria todo o
casarão até aos lavabos e às cagadeiras. Em cada compartimento duas filas de
camas em beliches de ferro, assentes no ladrilho encardido, o ferro pintado a
descascar-se nas camas e nos cacifos, os colchões de palha endurecidos por
gerações de guerreiros que ali tinham cultivado o sono.
Filipe Leandro Martins em O Pé na Paisagem
