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quinta-feira, 5 de setembro de 2024

E NÃO VAIS DE FIM DE SEMANA

Sombras chinesas falavam aos berros, contraditórias e desmoralizantes – já não davam mais lençóis ou só havia botas das pequenas, ou não distribuíam mais fardas nessa noite e amanhã estás lixado que tens de aparecer fardado, despacha-te que o quarteleiro está a dar a roupa da cama, desenrasca-te mas não podes dormir aí que essa é minha, se perderes o quico tens de pagar e não vais de fim de semana.

Deram-me duas mantas castanhas e esburacadas, um par de lençóis duros e molhados. Quando voltei ao beliche já a minha cama estava feita e ocupada por uma feroz sombra a ressonar. A caserna ia abrigar cerca de duzentos instruendos, uma companhia de instrução dividida por muros até meia altura e um corredor lateral percorria todo o casarão até aos lavabos e às cagadeiras. Em cada compartimento duas filas de camas em beliches de ferro, assentes no ladrilho encardido, o ferro pintado a descascar-se nas camas e nos cacifos, os colchões de palha endurecidos por gerações de guerreiros que ali tinham cultivado o sono.

Filipe Leandro Martins em O Pé na Paisagem 

domingo, 18 de fevereiro de 2024

OLHAR AS CAPAS


O Pé na Paisagem

Filipe Leandro Martins

Capa: José Teófilo Duarte

Círculo de Leitores, Lisboa, Junho de 1992

O comboio deixou-nos na cidade com mais ou menos vinte anos. Saímos aos trambolhões, entre malas e saquinhos, berrando uns pelos outros com a solidariedade de bairro, de vila ou de escola. Eu vinha só com a mala pesadíssima que trazia de casa para a caserna que nos esperava, velhaca. Arrastávamo-nos com pressa, desancados pela viagem, pelas bagagens, pelo sol provinciano à uma da tarde no largo amarelo da estação e ouvi alguém gritar o meu nome uma porrada de vezes antes de me voltar Não me apetecia partilhar o que ia ser a vida dali em diante.