O país tagarela que passa mais tempo ao telemóvel do que frente a um livro, o país cinzento que perde tempo a olhar para a televisão em vez de olhar para si mesmo, o país distraído que discute mais do que pensa.
Carlos Loures
O país tagarela que passa mais tempo ao telemóvel do que frente a um livro, o país cinzento que perde tempo a olhar para a televisão em vez de olhar para si mesmo, o país distraído que discute mais do que pensa.
Carlos Loures
Contos
Hans Christian
Andersen
Tradução: Carlos
Loures
Colecção Livros
de Bolso nº86
Publicações Europa-América, Junho de 1974
As rosas diante das mansardas haviam desabrochado. Kay
e Gerda sentaram-se no banco, como noutros tempos. Tinham esquecido, como se de
um pesadelo se tratasse, os frios esplendores da Rainha das Neves. A avó estava
sentada ao sol e lia a Bíblia: «Se não fordes como as crianças», lia ela, «não
entrareis no Reino dos Céus.»
Kay e Gerda olharam-se e compreenderam melhor que
nunca o velho estribilho:
As
rosas passam e murcham. Mas em breve
Voltaremos ao Natal e ao Menino Jesus.
Permaneceram durante muito tempo sentados, dando-se as
mãos. Tinham crescido
E, apesar disso, continuavam a ser crianças, crianças nos seus corações.
Quando
apanhei o terrível susto de enfrentar que tinha perdido o livrinho de capa
vermelha, andei pela internet sabendo se alguém tinha algum exemplar à venda.
Nessa
andanças encontrei um texto de Carlos Loures, que é autor do 2º volume dos Cadernos Peninsulares editados pela Ulmeiro.
Carlos
Loures foi amigo do Eduardo Guerra Carneiro e esgalhou um texto sobre o livro em A Viagem dos Argonautas.
Lembrando
sempre o Eduardo, reproduzo o texto do Carlos Loures, que constitui um outro
dos muitos Itinerários do Eduardo, uns já feitos outros ainda por fazer:
«A
frase “Isto anda tudo ligado” já é antiga, mas quem lhe deu vida nova e foros
de expressão erudita foi o escritor e jornalista Eduardo Guerra Carneiro,
que a usou como título num seu livro de poemas Isto Anda Tudo Ligado. E este título, como disse Jorge Listopad,
numa nota publicada na «Colóquio-Letras», que aparentemente é um «slogan banal», tem sido centenas de vezes
utilizado, por escritores, jornalistas, por músicos (como Sérgio Godinho) e não
só. Creio que muitos que o utilizam já nem o relacionam com o grande poeta e a
maravilhosa pessoa que foi o Guerra Carneiro. Não é o meu caso. Fui muito amigo
e companheiro de luta do autor destas palavras. O livro em questão foi o
primeiro da colecção Cadernos Peninsulares que o editor da Ulmeiro,
o José Antunes Ribeiro, organizou em 1970. O meu livro A Poesia Deve Ser Feita por Todos, foi o segundo livro dessa colecção e
seria apreendido pela PIDE. Ambos os títulos, o do Eduardo e o meu, são hoje
livros de alfarrabista. As tiragens até nem foram pequenas, mas um incêndio no
armazém da editora transformou-os em raridades. Ainda há relativamente pouco
tempo comprei um exemplar do meu livro com as extremidades das
páginas queimadas.»
Legenda:
pormenor de uma «hors-texte» da autoria
de Carlos Ferreiro e tirado do livro do Eduardo «Como Não Quer a Coisa»
Talvez um Grito
Carlos Loures
Edições
Salamandra, Lisboa, Fevereiro de 1985
- Ah, é verdade, já me esquecia de lhe transmitir um
recado do senhor inspector. Ele diz que o seu amigo, o padre, lhe manda
cumprimentos. Está detido nas nossas instalações no Porto. Já esclareceu a
situação dele, e a sua também, e está de boa saúde. Até amanhã.
Passado pouco tempo vieram-no buscar. Tiveram de o
amparar na descida das escadas. Cerca do meio-dia, a carrinha chegava a Caxias.
Almoçou, reprimeindo a sua natural repugnância pela comida,, e deitou-se. Só
acordou na quarta-feira.
Até ao entardecer, depois das seis horas quando chegou
o jantar, ainda não tinham vindo. Poderiam vir à noite. Ou não.
Ganhara o primeiro round.
Utilizando a mesma técnica usada pelo Travassos na sua
prisão anterior, o Castanheira deferira, em tom casual, o dardo envenenado,
sugerindo a prisão e a traição de vasco. Sinal de que sabiam alguma coisa.
Apenas um indício, uma pista, ou tudo? Porém, fazer conjecturas era fazer o
jogo do inimigo. Só tinha de aguardar a chamada de Lisboa. Tudo recomeçaria,
mas não do princípio, como dissera o Castanheira; eles tinham descoberto parte
do seu jogo e isso era importante. «Desta vez vou ganhar. Tenho de ganhar!».
Um paquete branco, já todo iluminado, descia o rio na
direcção da barra. Cheio de sortilégio, majestoso na sua brancura que se
destacava como um sinal de luz nas sombras envolventes do anoitecer.
«Como se fosse um cisne», pensou.