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sábado, 6 de dezembro de 2025

POSTAIS SEM SELO

O país tagarela que passa mais tempo ao telemóvel do que frente a um livro, o país cinzento que perde tempo a olhar para a televisão em vez de olhar para si mesmo, o país distraído que discute mais do que pensa.

Carlos Loures

quinta-feira, 23 de maio de 2024

OLHAR AS CAPAS

Contos

Hans Christian Andersen

Tradução: Carlos Loures

Colecção Livros de Bolso nº86

Publicações Europa-América, Junho de 1974

As rosas diante das mansardas haviam desabrochado. Kay e Gerda sentaram-se no banco, como noutros tempos. Tinham esquecido, como se de um pesadelo se tratasse, os frios esplendores da Rainha das Neves. A avó estava sentada ao sol e lia a Bíblia: «Se não fordes como as crianças», lia ela, «não entrareis no Reino dos Céus.»

Kay e Gerda olharam-se e compreenderam melhor que nunca o velho estribilho:

     

              As rosas passam e murcham. Mas em breve

              Voltaremos ao Natal e ao Menino Jesus.

 

Permaneceram durante muito tempo sentados, dando-se as mãos. Tinham crescido

E, apesar disso, continuavam a ser crianças, crianças nos seus corações.

terça-feira, 29 de agosto de 2023

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


Os Itinerários do Eduardo são tirados de poemas seus, mas essencialmente dos  textos de Isto Anda Tudo Ligado.

Quando apanhei o terrível susto de enfrentar que tinha perdido o livrinho de capa vermelha, andei pela internet sabendo se alguém tinha algum exemplar à venda.

Nessa andanças encontrei um texto de Carlos Loures, que é autor do 2º volume dos Cadernos Peninsulares editados pela Ulmeiro.

Carlos Loures foi amigo do Eduardo Guerra Carneiro e esgalhou um texto sobre o livro  em A Viagem dos Argonautas.

Lembrando sempre o Eduardo, reproduzo o texto do Carlos Loures, que constitui um outro dos muitos Itinerários do Eduardo, uns já feitos outros ainda por fazer:

«A frase “Isto anda tudo ligado” já é antiga, mas quem lhe deu vida nova e foros de expressão erudita foi o escritor e jornalista Eduardo Guerra Carneiro, que a usou como título num seu livro de poemas Isto Anda Tudo Ligado. E este título, como disse Jorge Listopad, numa nota publicada na «Colóquio-Letras», que aparentemente é um «slogan banal», tem sido centenas de vezes utilizado, por escritores, jornalistas, por músicos (como Sérgio Godinho) e não só. Creio que muitos que o utilizam já nem o relacionam com o grande poeta e a maravilhosa pessoa que foi o Guerra Carneiro. Não é o meu caso. Fui muito amigo e companheiro de luta do autor destas palavras. O livro em questão foi o primeiro da colecção Cadernos Peninsulares que o editor da Ulmeiro, o José Antunes Ribeiro, organizou em 1970. O meu livro A Poesia Deve Ser Feita por Todos, foi o segundo livro dessa colecção e seria apreendido pela PIDE. Ambos os títulos, o do Eduardo e o meu, são hoje livros de alfarrabista. As tiragens até nem foram pequenas, mas um incêndio no armazém da editora transformou-os em raridades. Ainda há relativamente pouco tempo comprei um exemplar do meu livro com as extremidades das páginas queimadas.»

Legenda:  pormenor de uma «hors-texte» da autoria de Carlos Ferreiro e tirado do livro do Eduardo «Como Não Quer a Coisa»

segunda-feira, 21 de junho de 2021

OLHAR AS CAPAS


Talvez um Grito

Carlos Loures

Edições Salamandra, Lisboa, Fevereiro de 1985

- Ah, é verdade, já me esquecia de lhe transmitir um recado do senhor inspector. Ele diz que o seu amigo, o padre, lhe manda cumprimentos. Está detido nas nossas instalações no Porto. Já esclareceu a situação dele, e a sua também, e está de boa saúde. Até amanhã.

Passado pouco tempo vieram-no buscar. Tiveram de o amparar na descida das escadas. Cerca do meio-dia, a carrinha chegava a Caxias. Almoçou, reprimeindo a sua natural repugnância pela comida,, e deitou-se. Só acordou na quarta-feira.

Até ao entardecer, depois das seis horas quando chegou o jantar, ainda não tinham vindo. Poderiam vir à noite. Ou não.

Ganhara o primeiro round.

Utilizando a mesma técnica usada pelo Travassos na sua prisão anterior, o Castanheira deferira, em tom casual, o dardo envenenado, sugerindo a prisão e a traição de vasco. Sinal de que sabiam alguma coisa. Apenas um indício, uma pista, ou tudo? Porém, fazer conjecturas era fazer o jogo do inimigo. Só tinha de aguardar a chamada de Lisboa. Tudo recomeçaria, mas não do princípio, como dissera o Castanheira; eles tinham descoberto parte do seu jogo e isso era importante. «Desta vez vou ganhar. Tenho de ganhar!».

Um paquete branco, já todo iluminado, descia o rio na direcção da barra. Cheio de sortilégio, majestoso na sua brancura que se destacava como um sinal de luz nas sombras envolventes do anoitecer.

«Como se fosse um cisne», pensou.

domingo, 5 de abril de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram publicados.

OPERAÇÃO PAPAGAIO

Os escassos atentados que foram levados a cabo para derrubar Salazar, fracassaram todos.
O ditador cairia por um mero acidente cadeiral quando, em férias no Forte de Santo António da Barra, o calista se preparava para lhe tratar das extremidades.

Os que lembram estas coisas, sabem do assalto ao Santa Maria, o assalto ao Quartel de Beja, mas poucos saberão da Operação Papagaio.

A serenidade da aleluia pascal tem dado para uma revisitação ao Mário-Henrique Leiria.

Que também mete Luiz Pacheco.

Olha que dois!

Ao Mário, conheci-o, antes do 25 de Abril, na redacção do República.

Um tipo extraordinário, vivaz, uma ternura desconcertante, de uma verticalidade assombrosa.


Perguntavam-lhe por histórias velhas: os tiros de caçadeira na noite de Carcavelos,  a Operação Papagaio.

Mário-Gin-Tonic sorria e ficava-se por aí.

Como escreveria:

… já lá vão tantos anos que talvez o que me reste na memória seja apenas aquela saudade melancólica que embeleza tudo. Sei lá.

 Fernando Correia da Silva, no já citado Surrealismo e Carbonária conta assim sobre a Operação Papagaio:

…a maioria dos frequentadores do Café A Brasileira em 1961 já sabe, regabofe colectivo: tu, e um grupo de malucos, entre os quais Virgílio Martinho e o poeta António José Forte, estão a programar, de mesa para mesa e em voz alta, a revolucionária “Operação Papagaio”. Numa das próximas noites vocês propõem-se bater à porta do Rádio Clube Português, que fica na Parede, povoação mesmo ao lado de Carcavelos. Lá dentro há apenas um contínuo enquanto roda a bobine com o programa nocturno “Companheiros da Alegria”. A porta é aberta. Vocês apontam um revólver, imobilizam, amarram e metem o contínuo num cacifo que depois fecham por fora, a cadeado. Entram no estúdio e trocam a bobine por uma outra que trazem convosco. Esta contem marchas militares, também o Hino Nacional tocado frequentemente e, a cada cinco minutos, notícias sobre movimentações militares para derrubar o Governo. Termina convidando a população a deslocar-se á Baixa de Lisboa para saudar os militares vitoriosos.
Enquanto gira a nova bobine vocês retiram-se do Rádio Clube Português. Ficarão, pelas esquinas, a aguardar a reacção dos ouvintes que, esperam, seja de entusiasmo...
Quem não aguarda é a PIDE, que vos prende mas fora d’A Brasileira, para não dar nas vistas. Durante o interrogatório os agentes, volta e meia, correm para o corredor a desrolhar as gargalhadas. Vocês ficam detidos uns quatro ou cinco dias, talvez uma semana. Depois levam uns safanões e são postos na rua. O espaço já é curto para arrecadar tantos subversivos, quanto mais uns brincalhões inofensivos...

Luiz Pacheco, no seu Prazo de Validade, conta uma outra versão:

Que se passou na Parede? Ao chegarem ao Rádio Clube Português, os carros dos conspiradores depararam com obstáculo inesperado, imponderável: havia ali, no ringue de patinagem, um desafio de hóquei, gente a assistir, um polícia, o gratificado, a olhar. Gerou-se discussão no interior dos automóveis. Que fazer? Aquilo não fora previsto, aquilo, assim, podia dar para o torto… não estavam mentalizados para violências. Somente uma acção anarca, súbita, rápida, insólita. Sem vítima, sem derramamento de sangue nenhum. Por mim sempre pensei, que, à chegada à Parede, já haveria arrependidos, temerosos do pior. Que a presença de jogadores, entretidos na sua lida, algum público e o chui não seria inconveniente para os forçar a desistir. Mas foi o pretexto. Foram a votos e ganharam os indecisos e os pusilânimes. Voltaram para trás. Argumento de peso: vimos cá amanhã!... Amanhã também é dia!

Luiz Pacheco conta também de uma artigalhada, sem qualquer sentido pejorativo, o Pacheco gostava da frase, que Luís Filipe Costa escreveu para o semanário Extra, a falar da Operação Papagaio, mas não encontrou o recorte na Hemeroteca Municipal de Lisboa.

Teria sido mais exacto, escreveu Pacheco.

Se para aqui chamássemos o John Ford ele diria que se os factos se transformam em lenda, deve publicar-se a lenda.

Mas o poeta Carlos Loures, em Estrolabio, tenta os factos e faz um apanhado das versões que ele conhece sobre a Operação Papagaio.

Vale a pena ler!   

Texto publicado em 28 de Março de 2016          

domingo, 10 de março de 2019

OLHAR AS CAPAS



A Poesia Deve Ser Feita Por Todos

Carlos Loures
Cadernos Peninsulares nº 2
Ulmeiro, Lisboa, Fevereiro de 1970

Requiem

O monstro agoniza   o seu hálito apodrece
roubando  á primavera o claro rosto.
sua carne canceriza    a mão estremece,
mas mata   mata sempre o seu punhal,
que quer ter por sudário o próprio mundo.
esta moribundo o chacal   o grito inunda
a terra de destroços incendiando o vento,
o corpo já vacila   o olhar escurece,
mas mata mata sempre a sua lâmina
que quer amortalhar-se em nossas vidas.
A boca é uma cratera de raiva e pus
Seus pés enterra na argila e no ódio
as flores esmaga no seu mortal orgasmo
e  mata   mata ainda a sua gládio
Que quer devorar toda a luz no seu estertor
aniquilar o amor   destroçar a esperança
tudo o que é caro à vida quer matar
deixar-nos a morte como herança   Gravar
nas cinzas da paisagem a sua lápide:
Aqui jaz o capital
em sangue amanhecido   em sangue anoiteceu,
fez todo o mal que pôde,
                                        depois morreu

segunda-feira, 25 de abril de 2016

OLHAR AS CAPAS


Poemabril

Antologia Poética
Coordenação e nota prévia de Carlos Loures e Manuel Simões
Capa: Guy Ferreira
Nova Realidade, Tomar, 1984

O Dia Incomum de Um Exilado Vivendo Então em Vancouver

Era muito longe, ou seja
no Pacífico
Notícias de jornal, confusas:
tanques ocupam a praça central
de Lisboa
Digo-me: mal eles sabem que se chama
Rossio mas digo-me também: se é a revolução
daquele do monóculo
pouco tenho a esperar
Depois espanto-me: como é possível
que libertem assim
sem mais nem menos
os presos políticos
e prometam a autodeterminação
de colónias economicamente tão preciosas?
0 povo saiu à rua e foi isso
que mudou tudo, explicam-me então
pelo telefone.
No dia em que abalei
para aqui ficar
deixei sem remorsos:
a minha horta
cujos legumes tantas vezes protegi
um trabalho que tanto suspeitava amar
e os amigos que, querendo ser generosos,
me disseram:
«Vai, vais ver que não te arrependes»
Esquece-se muita coisa...
a força de ver caras novas
não sei se me lembro das antigas
embora as veja tão bonitas
e disponíveis
na memória
e por vezes em fotografia.

Sérgio Godinho

segunda-feira, 28 de março de 2016

OPERAÇÃO PAPAGAIO


Os escassos atentados que foram levados a cabo para derrubar Salazar, fracassaram todos.

O ditador cairia por um mero acidente cadeiral quando, em férias no Forte de Santo António da Barra, o calista se preparava para lhe tratar das extremidades.

Os que lembram estas coisas, sabem do assalto ao Santa Maria, o assalto ao Quartel de Beja,mas poucos saberão da Operação Papagaio.

A serenidade da aleluia pascal tem dado para uma revisitação ao Mário-Henrique Leiria.

Que também mete Luiz Pacheco.

Olha que dois!

Ao Mário, conheci-o, antes do 25 de Abril, na redacção do República.

Um tipo extraordinário, vivaz, uma ternura desconcertante, de uma verticalidade assombrosa.

Perguntavam-lhe por histórias velhas: os tiros de caçadeira na noite de Carcavelos,  a Operação Papagaio.

Mário-Gin-Tonic sorria e ficava-se por aí.

Como escreveria:

… já lá vão tantos anos que talvez o que me reste na memória seja apenas aquela saudade melancólica que embeleza tudo. Sei lá.

 Fernando Correia da Silva, no já citado Surrealismo e Carbonária conta assim sobre a Operação Papagaio:

…a maioria dos frequentadores do Café A Brasileira em 1961 já sabe, regabofe colectivo: tu, e um grupo de malucos, entre os quais Virgílio Martinho e o poeta António José Forte, estão a programar, de mesa para mesa e em voz alta, a revolucionária “Operação Papagaio”. Numa das próximas noites vocês propõem-se bater à porta do Rádio Clube Português, que fica na Parede, povoação mesmo ao lado de Carcavelos. Lá dentro há apenas um contínuo enquanto roda a bobine com o programa nocturno “Companheiros da Alegria”. A porta é aberta. Vocês apontam um revólver, imobilizam, amarram e metem o contínuo num cacifo que depois fecham por fora, a cadeado. Entram no estúdio e trocam a bobine por uma outra que trazem convosco. Esta contem marchas militares, também o Hino Nacional tocado frequentemente e, a cada cinco minutos, notícias sobre movimentações militares para derrubar o Governo. Termina convidando a população a deslocar-se á Baixa de Lisboa para saudar os militares vitoriosos.
Enquanto gira a nova bobine vocês retiram-se do Rádio Clube Português. Ficarão, pelas esquinas, a aguardar a reacção dos ouvintes que, esperam, seja de entusiasmo...
Quem não aguarda é a PIDE, que vos prende mas fora d’A Brasileira, para não dar nas vistas. Durante o interrogatório os agentes, volta e meia, correm para o corredor a desrolhar as gargalhadas. Vocês ficam detidos uns quatro ou cinco dias, talvez uma semana. Depois levam uns safanões e são postos na rua. O espaço já é curto para arrecadar tantos subversivos, quanto mais uns brincalhões inofensivos...

Luiz Pacheco, no seu Prazo de Validade, conta uma outra versão:

Que se passou na Parede? Ao chegarem ao Rádio Clube Português, os carros dos conspiradores depararam com obstáculo inesperado, imponderável: havia ali, no ringue de patinagem, um desafio de hóquei, gente a assistir, um polícia, o gratificado, a olhar. Gerou-se discussão no interior dos automóveis. Que fazer? Aquilo não fora previsto, aquilo, assim, podia dar para o torto… não estavam mentalizados para violências. Somente uma acção anarca, súbita, rápida, insólita. Sem vítima, sem derramamento de sangue nenhum. Por mim sempre pensei, que, à chegada à Parede, já haveria arrependidos, temerosos do pior. Que a presença de jogadores, entretidos na sua lida, algum público e o chui não seria inconveniente para os forçar a desistir. Mas foi o pretexto. Foram a votos e ganharam os indecisos e os pusilânimes. Voltaram para trás. Argumento de peso: vimos cá a manhã!... Amanhã também é dia!

Luiz Pacheco conta também de uma artigalhada, sem qualquer sentido pejorativo, o Pacheco gostava da frase, que Luís Filipe Costa escreveu para o semanário Extra, a falar da Operação Papagaio, mas não encontrou o recorte na Hemeroteca Municipal de Lisboa.

Teria sido mais exacto, escreveu Pacheco.

Se para aqui chamássemos o John Ford ele diria que se os factos se transformam em lenda, deve publicar-se a lenda.

Mas o poeta Carlos Loures, em Estrolabio, tenta os factos e faz um apanhado das versões que ele conhece sobre a Operação Papagaio.

Vale a pena ler!