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sábado, 24 de fevereiro de 2018

PASSOU-SE TUDO TÃO LONGE E TÃO DEPRESSA


Chegamos ao fim da viagem, iniciada em 27 de Setembro de 2017, que fomos fazendo sobre a Correspondência  entre Sophia de Mello Breyner Andresen e Jorge de Sena.
A última carta do livro é de Sophia.
Está datada de 1 de Julho de 1978, é endereçada a Mécia de Sousa, e refere a morte de Jorge De Sena, ocorrida a 4 de Junho:

Querida Mécia

Telefonei duas vezes sem a encontrar. Sentia-me angustiada demais e queria encontrar a sua voz. E não a tendo encontrado não tive coragem para as palavras abreviadas do telegrama.
Para além do desgosto e da saudade sinto um profundo acabrunhamento.
Do Jorge oiço o grande rio em cheio da sua poesia passando através do espaço e do tempo em que vivo.
Sei que dificilmente existirá alguém que seja seu igual. E não me consolo destes dezoito anos de ausência que poderiam ter sido dezoito anos de convívio, de encontros, conversas, riso comum, aflições e alegrias comunicadas.
Comecei por ser amiga do Jorge pela profunda admiração pela sua poesia. Depois descobri a sua lealdade, a sua simpatia, o seu calor humano, e uma grandeza humana que estava inscrita na grandeza da sua poesia.
Agora passou-se tudo tão longe e tão depressa. O Jorge era ainda novo e em plena força de criação e de combate. Há uma violência difícil de aceitar.

O livro termina com a transcrição do poema que Sophia escrveu sobre a sua morte.
Chamou-lhe «Carta(s) a Jorge de Sena:

I

Não és navegador mas emigrante
Legítimo português de novecentos
Levaste contigo os teus e levaste
Sonhos fúrias trabalhos e saudade;
Moraste dia por dia a tua ausência
No mais profundo fundo das profundas
Cavernas altas onde o estar se esconde

II

E agora chega a notícia que morreste
E algo se desloca em nossa vida

III

Há muito estavas longe
Mas vinham cartas poemas e notícias
E pensávamos que sempre voltarias
Enquanto amigos teus aqui te esperassem –
E assim às vezes chegavas da terra estrangeira
Não como o filho pródigo mas como irmão prudente
E ríamos e falávamos em redor da mesa
E tiniam talheres loiças e vidros
Como se tudo na chegada se alegrasse
Trazias contigo um certo ar de capitão de tempestades
– Grandioso vencedor e tão amargo vencido –
E havia avidez azáfama e pressa
No desejo de suprir anos de distância em horas de conversa
E havia uma veemente emoção em tua grave amizade
E em redor da mesa celebrávamos a festa
Do instante que brilhava entre frutos e rostos

IV

E agora chega a notícia que morreste
A morte vem como nenhuma carta


terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

UM ARTISTA DEVE INFLUENCIAR OS GOVERNANTES


Carta de Sophia, datada de Março de 1978, para Jorge de Sena:

Convidaram-me para ir para secretária de estado da Cultura mas não aceitei porque com o meu filho Xavier a pedir uma atenção constante eu não teria a disponibilidade necessária. E também porque dada a composição do resto do Ministério eu encontraria grandes incompreensões que me paralisariam. O PS tem da cultura uma noção decorativa radicalmente burguesa. Além disso detestaria ser uma espécie de ministro com o que tudo isso representa de burocracia e tarefas ocas. Graças a Deus sou mulher e por isso não sinto necessidade de triunfo de carreira. Aliás penso que um artista não deve ser governo mas sim influenciar os governantes.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

GOSTARIA QUE HOUVESSE UM NOBEL PORTUGUÊS...


Carta de Sophia, datada de Março de 1978, para Jorge de  Sena:

Surgiu um facto que quero que fique claro: Por alturas de Dezembro recebi uma carta da Academia Sueca a convidar-me para eu propor um candidato ao Nobel da Literatura. No ano passado propus o teu nome. Depois disso, aqui há tempos surgiu uma comissão propondo o Torga e pediram-me que me associasse à sua proposta. Associei-me pois não me podia negar. Primeiro porque admiro muito o Torga, segundo porque gostaria que houvesse um Nobel português, uma vez que seja um escritor que tenha um nível de qualidade que como pátria me honre. Isto é : eu queria que o voto em ti funcionasse a teu favor, mas não contra o Torga. Para que não fosse diminuída a possibilidade de o Nobel ser atribuído a um português. Em consequência escrevi de novo à Academia Sueca explicando que mantinha o voto em ti mas que também apoiava uma candidatura do Torga dado que ambas eram candidaturas com grande qualidade e dignidade.
Só te digo isto a ti porque a carta da Academia Sueca me pede silêncio sobre o meu voto por isso te peço que não fales disto a ninguém.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

O POVO NÃO PRECISA DE GRAMÁTICA


Carta de Sophia, datada de Abril de 1976, para Jorge de Sena:

O problema, a tragédia de toda esta revolução é a sua INCOMPETÊNCIA CULTURAL. Desde a descolonização onde tudo se fez com um despachado simplicíssimo, primário, «ad-hoc», até à reforma agrária falseada e demagógica! Passando pela constituição onde se lutou pela vitória da estupidez com o maior sucesso salvo alguns pontos que a muito custo foi possível salvar. Houve até quem  no grupo parlamentar, numa reunião de discussão, respondesse à minha crítica à má redacção de um articulado, dizendo-me que «o povo não precisa de gramática». Via dia a dia como a esquerda se suicida.

domingo, 7 de janeiro de 2018

CHRSTMAS CARDS


Carta de Sophia, datada de 26 de Novembro de 1971, para Jorge de Sena:

Queria pedir-te isto. Como sabes faço parte de uma comissão de socorro aos presos políticos. No ano passado os pintores deram quadros que se venderam para arranjar algum dinheiro que é necessário sobretudo para as muitas famílias que ficam na miséria ou quase. Este ano fiquei de pedir aos poetas que dessem poemas autografados e escritos à mão que se venderiam para esse fim. Esses poemas deverão ser escritos num cartão grosso de forma a poderem ser vendidos como Christmas Cards. Como estás longe poderias mandar uns 6 ou 7 poemas. Os poemas deverão ser curtos, não é precisos serem inéditos. «Quem a tem chama-lhe sua», seria óptimo.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

QUE DEUS NOS AJUDE!


Carta de Sophia, datada de 11 de Outubro de 1962, para Jorge de Sena:
Diz-lhe que, «depois de três meses no Algarve aqui estou de novo aparelhando para o Inverno.», adianta que estão todos bem, que a filha mais velha fez anteontem quinze anos, e passa a relatar:

A PIDE esteve ontem em nossa casa revistando e levou todas as suas cartas.
Recebeu o Livro Sexto?
Começo hoje o Concílio Ecuménico. Deus nos ajude.

Legenda: Sophia a passar férias no Algarve. Não foi possível identificar a origem da imagem.

sábado, 4 de novembro de 2017

TALVEZ MUDE DE OPINIÃO QUANDO LHE CONVIER


Carta de Sophia, datada de 28 de Junho de 1962, para Jorge de Sena.
Custa um pouco (?) ver a doce, e católica, Sophia escrever o que escreveu sobre Maria Judite de Carvalho.
É assim.
Com estes pequenos (?) episódios se perceberá, um pouco, como levámos tantos anos a ver-nos livres de Salazar e Caetano.
Invejas, vaidades, ciumeiras, ódiozinhos de estimação.
Se perceberá também quando a seguir ao 25 de Abril nos dispersámos, quando tivemos nas nossas mãos a possibilidade de construir um país e que acabou por descambar no por aí se vê.
Sophia começa por pedir desculpa a Jorge por levar tanto tempo a responder a uma sua carta. Escreveu-lhe uma longa resposta mas rasgou-a.

Hoje escrevo a correr.
Nós graças a Deus vamos andando bem, mas sempre com os combates que você sabe.
A minha família – pelas sabidas razões políticas – quase não me fala. Os meus amigos de juventude quase me detestam.
Por outro lado daqui também se vêem muitos bailados. A mulher do Urbano Maria Judite de Carvalho ganhou o Prémio Camilo castelo Branco com um livro perfeitamente medíocre chamado As Palavras Poupadas.
Penso que é urgente você escrever ao Murilo.
Não pode imaginar todas as massadas e desilusões que tenho tido com alguns amigos. Eles não têm a menor noção do que seja lealdade nem seriedade. Felizmente consigo dominar-me e nem me zangar com eles. Creio que são dignos de dó, Talvez sejam casos onde a miséria material acaba por provocar a miséria moral. Vendem-se por baixo preço.
Diga-me o que pensa do Livro Sexto.
Vou para o Algarve em meados de Julho e penso lá ficar até fins de Setembro.
Vocês fazem-nos a maior falta. As pessoas são raras.
O 0’Neilll disse-me que se afastara do grupo português de Florença pois o ambiente é de grande intriga e «porcaria». Disse-me que cortou relações com a «Natália» por ter «descoberto» que ela era mentirosa e sí lutava por ambições pessoais! Mas como o O’Neill é fraco talvez mude de opinião quando lhe convier!
Enfim!


Legenda: capa tirada do site da Livraria Pó dos Livros.

sábado, 28 de outubro de 2017

É SEMPRE DIFÍCIL ESCREVER TUDO O QUE SE QUER DIZER


Jorge de Sena ainda não responde à carta em que Sophia conta as peripécias do que aconteceu, em Florença, no Congresso da Comunidade Europeia de Escritores (Março de 1962) e em fins de Maio desse ano, Sophia escreve uma carta a Jorge de Sena, essencialmente para lhe dar os parabéns pelo nascimento da filha Maria José e a promessa que depois lhe escreverá uma carta mais comprida - «mas é sempre difícil escrever tudo o que se quer dizer»:

Caríssimo Jorge

A si e à Mécia mil parabéns pelo nascimento da Maria José.
Nós graças a Deus estamos bem, mas agora, no meio dos acontecimentos que se sucedem quanta falta você aqui faz!
Recebi Reino da Estupidez e A Noite que fora de Natal. Gostei com entusiasmo de
A Noite que fora de Natal. É o seu melhor conto: parece descrever uma paragem do tempo, com os seus silêncios e vazios. É extraordinária atmosfera tensa nua e trágica, cheia de «presença». E também a maneira de dizer, mais simplificada e desnudada do que nos seus outros contos e mais directa, é óptima.
O Reino da estupidez de tão magnífico título, apesar de todas as páginas óptimas que tem, parece-me demasiado cheio de questões que afinal talvez não mereçam ser postas na sua obra. Valerá a pena você gastar tanta inteligência para explicar aos parvos que são parvos?


Legenda: capa de A Noite Que Fora de Natal, Estúdios Cor), encontrada em  d’outro tempo

sábado, 21 de outubro de 2017

PEÇO-LHE A MAIOR PRUDÊNCIA QUANDO ME ESCREVER


Carta de Paris, s/d, escrita de Paris, para Jorge de Sena.
Em Março de 1962 Sophia, juntamente com outros escritores portugueses, Alexandre O’ Neill, Agustina Bessa Luís, Urbano Tavares Rodrigues, Natália Correia, José Cardoso Pires, António Pedro, Ilse Losa, esteve em Florença a assistir ao Congresso da COMES (Comunidade Europeia de Escritores).
Sophia diz a Sena que pensava ir assistir a um congresso literário mas foi mais político que literário.

O Congresso ara anti-fascista – coisa com que concordo mas os métodos usados foram fascistas, mal educados e policiais. Que haverá por trás disto tudo..Todo o ambiente do Congresso foi de nervosismo e de desconfiança e eu sem o Francisco ao meu lado e sem mesmo ter combinado com ele qual a linha a seguir senti-me verdadeiramente só num mundo de intrigas que não é o meu. Muita falta me fez ali a sua presença.
Criaram à volta da Agustina um clima de suspeita e inquisição. E isso foi-me dito por uma pessoa direita e de carácter: Disseram-me que eu a devia abandonar pois o facto de eu andar com ela me comprometia. Como você sabe eu não sou capaz de abandonar nenhuma pessoa que está só e que é injustamente acusada e perseguida na sua liberdade.
(…)
Estive com o Murillo Mendes com quem conversei mas não tão longamente como seria necessário, ele nervosíssimo, eu exausta. E sendo as minhas ideias sobre política tão próximas das do Murillo creio que el não entendeu porque razão eu acompanhei humanamente a Agustina. Aliás o clima que se respira na Europa é de violência, desequilíbrio, paixão, falta de serenidade. Penso que vão acontecer as coisas mais graves mas esta atmosfera de desconfiança é já de si gravíssima. Nada está esclarecido e o esclarecimento parece impossível. Faltou-me gravemente não ter aqui o Francisco. A nossa vida é cada vez mais engagée na luta que você sabe mas a oposição está cheia de aventureiros que sujam e confundem tudo. Está também cheia de tontos.
Há muito que não recebo notícias suas. Passaram por Lisboa uns brasileiros que vinham da sua parte mas não tiveram tempo para falar connosco.
Peço-lhe a maior prudência quando me escrever.


Legenda: imagem obtida em PretoBranco

domingo, 8 de outubro de 2017

A SUA POESIA REUNIDA VÊ-SE MELHOR


Carta, datada de 20 de Março de 1961, de Sophia Mello Breyner Andresen, para Jorge de Sena:

Muito obrigada pela Poesia e pelas Andanças do Demónio. A sua poesia reunida vê-se melhor. O livro deu-me uma extraordinária impressão de grandeza. Uma grandeza que é estilo, precisão, exactidão, força, construção e mais ainda testemunho, olhar olhando de frente, inteireza, coragem.
Na Perseguição que você me mandou em 1943 estão sublinhados dois versos do «Andante»:

                «Soube-me sempre a destino a minha vida»
                                                  e
                «As crianças nascem com uma coragem que perdem»

Este último verso está no centro da sua poesia. Em toda ela há como que o testemunho de que o poeta é o homem que não perde a coragem com a qual nasceu.
Li o seu livro com um misto de entusiasmo e aguda tristeza: entusiasmo porque o livro é maravilhoso, tristeza porque mais ainda vejo e penso como aqui quase todos e quase tudo o não mereceram. Esteve aqui há dias a Menez que tinha comprado o seu livro e estava maravilhada. Ela pediu-me que lhe dissesse isto.
Mesmo as pessoas que como ela e como eu já conheciam bem a sua poesia o livro é surpreendente. Tudo cresceu e tomou a sua imagem completa. A sua poesia reunida aparece com uma densidade sem repetição e sem desfalecimento, numa unidade construída ponto contra ponto desde a primeira até à última palavra.
Que esta unidade tenha sido vivida e «existida» é o que me maravilha. Há no livro um espantoso «fazer face» que é o testemunho dum mundo onde a poesia foi a única liberdade e onde o poeta foi chamado a assumir todo o seu destino.
Mandei o seu livro à Maria Helena Vieira da Silva, porque ela o admira muito e é uma das pessoas que eu penso que entenderá toda a grandeza desta Poesia – I.


Legenda: capa de Poesia  I  é tirada de Frenesi Loja

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

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Chegou ao fim a viagem, iniciada a 27 de Janeiro, por algumas das cartas trocadas entre Eugénio de Andrade e Jorge de Sena.

Graças ao trabalho de sua mulher, Mécia de Sena, Jorge de Sena será o escritor português que mais livros publicados tem da correspondência que, ao longo da vida, trocou com os seus pares.

Será a Correspondência que Sena trocou com Sophia de Mello Breyner Andresen que nos acompanhará por algumas semanas.

Jorge de Sena escrevia muitas cartas, mas Sophia, numa sua carta a Sena, diz:

«Desculpe o longo silêncio: você sabe que eu tenho a maior vocação para falar ao telefone e nenhuma vocação para escrever cartas.»

Maria Andresen de Sousa Tavares, filha de Sophia, sublinha, no prefácio ao livro desta Correspondência:

«… a importância da preservação e edição deste tipo de escrita pois, como se sabe, quer o género epistolar, quer a forma de comunicação por carta morreram.»

José Saramago insistia muito que a obra completa de um escritor só estaria completa publicando-se a sua Correspondência, e «realmente completa» quando se publicar uma selecção das cartas dos seus leitores. 

quinta-feira, 13 de abril de 2017

OLHAR AS CAPAS




Correspondência
1959-1978

Sophia de Mello Breyner Andresen e Jorge de Sena
Notas Prévias de Mécia de Sousa e Maria Andresen Sousa Tavares
Capa: Ilídio J.B. Vasco
Guerra e Paz, Lisboa, Fevereiro de 2010

Desculpe o longo silêncio: você sabe que eu tenho a maior vocação para falar ao telefone e nenhuma vocação para escrever cartas.

Sophia de Mello Breyner Andresen