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quarta-feira, 1 de abril de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Uma parte dos livros da Biblioteca da Casa foi comprada em alfarrabistas, feiras, sejam do livro ou de ocasião.

Duas vezes por mês o meu pai reservava as tardes de sábado para uma visita ao Fausto, alfarrabista com porta aberta, a meio da Rua Angelina Vidal, lado esquerdo de quem desce.

Mais ou menos os alfarrabistas sabiam o que vendiam, e os preços estavam de acordo com esse saber. Hoje pedem exorbitâncias por qualquer livro e que eles compraram por tuta e meia e, na maior parte das vezes, nem sabem de que tratam os livros, quem são os autores.

Hoje, no que foi a excelente Pastelaria Suprema, na Avenida de Roma, encontra-se a Re-Read, uma cadeia de livros espanhola que tem por slogan: "Livros quase novos a preços quase impossíveis".

Compram livros por um preço pífio e depois colocam, alguns, a preços bastamente acessíveis.

Passo por lá volta e meia e trago sempre um ou mais livros.

Foi o caso deste livro do Lauro António que me ficou por 4 euros e que se encontrava em falta nas as muito boas colecções das Publicações Dom Quixote que fui adquirindo quando saíam e custavam  35 escudos, ao cambio de hoje seria 1 euro e 75 cêntimos.

O que acima se vê, é o recibo do então comprador-assinante, a 15 de Fevereiro de 1970 do livro do Lauro António e, curiosamente no topo pode ler-se:

Publicações Dom Quixote- Sociedade Editora Abecassis, Lda.

Trata-se de Snu Abecassis que a Wikipédia diz quem foi:

«Ebba Merete Seidenfaden, mais conhecida como Snu Abecassis, foi uma editora dinamarquesa. Fundou as Publicações Dom Quixote, editora que se notabilizou por publicar livros considerados de esquerda, com ideias contrárias à ditadura do Estado Novo.»

Mais:

« Filha de um casal de jornalistas dinamarqueses, Erik Seidenfaden e Jytte Kaastrup-Olsen, desde pequena foi chamada de Snu, que quer dizer "esperta" na língua dinamarquesa.

Em 1961, casou-se com o português Alberto Vasco Abecassis. Mudou-se para Portugal passado um ano e aí nasceram os três filhos do casal: Mikaela Linea, Ricardo Fortunato e Rebecca Sofia. Em 1965, sob sua direção, foi fundada a editora Publicações Dom Quixote, em Lisboa.

Já em época pós-revolucionária, Ebba começou a relacionar-se com o também casado Francisco Sá Carneiro. Conseguiu divorciar-se de Abecassis, mas Sá Carneiro não conseguiu obter o divórcio. Apesar disso, começaram a viver juntos e também juntos vieram a morrer no dia 4 de dezembro de 1980, no acidente de Camarate, que para além de Snu e Sá Carneiro, vitimou Adelino Amaro da Costa. Isto quando os três se dirigiam para o encerramento da campanha presidencial de António Soares Carneiro. Snu contava então 40 anos de idade.»

Foi realmente uma excelente editora que, mercê de certas ligações ,se movimentava bem entre a clique da ditadura,  conseguindo coisas de esquerda que eram rigorosamente proibidas a outros editores.

Cada volume da Dom Quixote trazia estes postais de encomenda que outras editoras como a Seara Nova, a Portugália, as Publicações Europa-América também praticavam. 


OLHAR AS CAPAS


O Cinema Entre Nós

Lauro António

Colecção Cadernos de Cinema nº 8

Capa: Fernando Felgueiras

Publicações Dom Quixote, Lisboa, Fevereiro de 1970

Rompendo o silêncio comprometido que a envolveu nos últimos anos, a Cinemateca Nacional iniciou em 21 de Março de 1968, um ciclo de exibições semanais subordinado ao título Os Filmes da Cinemateca, durante o qual projectou (sem qualquer critério que não fosse o enunciado no próprio título, ou seja: filmes que a Cinemateca guarda postos à disposição de todo o público galardoado com a sorte de um convite) algumas obras importantes na história da cinematografia mundial.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

O QU'É VAI NO PIOLHO?


João Bénard da Costa, abria assim uma das suas crónicas:

«Nos nossos cinemas, ou no que resta dos nossos cinemas, se me quiser fazer entender.»

Os velhos cinemas estão quase todos liquidados, ou em vias de…

Por aqueles tempos, nascia-se em casa.

Na rua onde nasci, não havia qualquer sala de cinema mas, em redor, havia uma enormidade de cinemas.

Mentalmente percorro essas ruas, sigo em direcção à Graça e encontro o Cine-Oriente, o Royal, junto à Morais Soares o Max, o Imperial, na Almirante Reis o Cinema Império, o Lys, o Rex, mais abaixo o Salão Lisboa, e se subir até à Duque de Ávila encontro o Avis.

Desapareceram quase todos, outros mantêm o espaço, mas viraram diversos, quiçá estranhos, locais de consumo.

O cinema é um mundo de afectos que provoca uma grande e inolvidável memória e a cada um o seu Cinema Paraíso, a sua última sessão.

Maria do Rosário Pedreira escreveu no jornal digital «Mensagem de Lisboa», uma bonita e nostálgica,  crónica «O Filme de Lisboa» sobre os velhos cinemas de Lisboa, a maior para já desaparecidos.

E dedicou a crónica a Lauro António «que escreveu neste mesmo jornal sobre cinema».

                                      Aqui era o Cinema Lys, agora é um edifício de salas de escritórios abandonadas.

«Pertenço a  geração que perdeu amigos e irmãos para as drogas duras e os acidentes de moto; mas, no meu caso, a droga de juventude era o cinema.

Não só não perdia um ciclo na Cinemateca ou na Gulbenkian – onde papei todo o Visconti, o Bresson, o Hitchcock, o Jacques Demy… e vi filmes que nunca mais esqueci (como Freaks, de Tod Browning) –, mas também frequentava as salas de cinema nunca menos de três vezes por semana.

Acho que comecei, levada pela mão da minha mãe, pelo Bambi e a Música no Coração, ambos no Tivoli que, apesar de tudo, se mantém como sala de espectáculos e onde a programação foi oscilando entre as grandes produções, como E Tudo o Vento Levou ou A Torre do Inferno, e o cinema de autor, como Profissão Repórter, de Antonioni.

Mas nem todas as grandes salas tiveram a mesma sorte: o Monumental, onde me deliciei com My Fair Lady ou O Grande Ditador e me impressionei mais tarde com Apocalipse Now (e onde frequentava, com o meu irmão, o Satélite para me maravilhar com o Bergman a preto e branco), foi deitado abaixo; o Eden, onde comi a pastelada d’O Exorcista maquilhada e de saltos porque o filme era para maiores de 18 anos e eu só tinha catorze, é hoje um hotel; o Condes, que passava as comédias de Louis de Funès, deu lugar ao Hard Rock Café; e – pior do que tudo – o Império (que tinha uma sala estúdio onde conheci Polanski através de A Semente do Diabo) tornou-se templo da Igreja Universal do Reino de Deus!

Sobrou-nos, vá lá, o São Jorge, no qual assisti a muitas obras-primas inesquecíveis – Doutor JivagoA Amante do Tenente FrancêsA Escolha de SofiaA Laranja MecânicaÁfrica Minha… – e me lembro de ter visto a primeira parte de 1900, após o que jantei um combinado no Galeto para apanhar, na sessão da noite do Mundial, a segunda parte.

Já não temos, infelizmente, o Mundial e, só na zona das Avenidas Novas, quase todos os cinemas que desapareceram, a começar pelo Avis, onde, aos treze anos, fui com a escola ver o dramalhão Simplesmente Maria, que era a maneira que as freiras tinham de nos alertar para os perigos de uma gravidez não desejada.

Salvou-se o Nimas de Chove em Santiago ou Oficial e Cavalheiro, mas evaporaram-se o Berna, de Jesus Cristo Superstar ou ET; o Apolo 70 de Barry Lindon, O Homem Elefante ou Os Marginais; o Sétima Arte, debaixo da ponte do comboio, onde vi Starman; o Estúdio 222, que passava cinema português e onde ouvi Victoria Abril falar com a voz de Manuela Maria em Silvestre; o Estúdio 444, onde recordo sobretudo Doutor Estranhoamor; a sala do Centro Comercial City, perto do Imaviz, onde me estreei no cinema erótico com O Império dos Sentidos numa sessão da meia-noite; e, já no Campo Grande, o Caleidoscópio, do qual recordarei para sempre Chinatown e, claro, Peter Bogdanovich e a sua Última Sessão.

                                                                 Aqui era o Cinema Royal, agora é um dos supermercados Pingo Doce

Houve demasiadas últimas sessões também para os lados de Alvalade: desde logo, perdemos o luxuosíssimo cinema Star na Guerra Junqueiro, onde ainda oiço o Bolero de Ravel em Les Uns et les Autres; mas também sumiram as cadeiras que baixavam com o nosso peso no Londres (hoje loja chinesa), que passava Buñuel, Truffaut, Rohmer e muitos outros; morreram os Alfa (onde conheci, por exemplo, Blue Velvet); as salas do Centro Comercial de Alvalade (O Jogo Fatal, de David Mamet, ainda é um dos meus filmes favoritos); o ACSantos, escondido na Avenida da Igreja (Frances foi uma revelação); o Vox/King, de tantos filmes e também de Cyrano; o Roma (lembram-se de O Passageiro da Chuva?), que hoje é a sala da Assembeia Municipal e, claro, o inesquecível Quarteto, onde se andava freneticamente de sala para sala atrás de coisas tão diferentes como QuerelleCerromaiorO Fantasma da ÓperaVoando sobre Um Ninho de Cucos, Almodóvar, Woody Allen, Tanner, Tarkovski, Wim Wenders…

Mesmo o cinema Alvalade desmaiou por mais de uma década (foi nele que, em adolescente, me despedi de uns amigos que foram viver para o estrangeiro com um filme chamado Friends), antes de ressuscitar há uns anos, dividido em muitos e com novo nome (City).

No resto da cidade, a mesma escuridão: o Castil (onde fui ver Amarcord às escondidas da minha mãe), o Fonte Nova, o Gemini, o Pathé, o Roxy, o Terminal (que ficava na estação do Rossio ao lado de umas lojas manhosas) e ainda outros onde nunca cheguei a pôr os pés, como o Cinebolso, o Paris, o Jardim Cinema ou o Europa, estão reduzidos a memórias de uma cidade que já foi de cinéfilos e salas cheias.

Ficaram apenas aqueles espaços que cheiram a pipoca e, aqui e ali, um milagre de teimosia.

A minha vida tem agora mais livros e menos filmes. Porque será?»

Legenda: pintura de John French Sloan

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

OLHARES


 O que ele gostava dos cafés de Lisboa.

Um dos muitos simples prazeres da sua vida.

Depois começaram a transformá-los em agências bancárias, em casas de trapos.

As grandes mágoas que então nasceram.

Quando José Rodrigues Miguéis foi obrigado ao exílio nos Estados Unidos, o primeiro grande choque que enfrentou foi a não existência de cafés.

Sua mulher Camila conta o episódio:

«Quando chegou aos Estados Unidos a primeira coisa que o ia matando foi quando descobriu que não havia cafés. Como é que podia viver sem um café onde encontrava os amigos, onde se sentava e levantava logo que se sentia desconfortável ou aborrecido, ou quando lhe surgia uma ideia e tinha de regressar a casa para a escrever? Como é que as pessoas podiam viver daquela forma? Isto foi um problema muito, muito difícil para ele, e eu sentia-me desanimada, porque não o podia resolver. Quando lhe disse o que tínhamos – restaurantes, cafetarias, balcões, vários locais -, ele disse: «Mas eu estou a falar de um café; tu não percebes.» E esta situação aborreceu-o a vida toda. Aborreceu-o mesmo.»

Foi dura, e inglória, a luta pela manutenção dos cafés.

O poeta José Gomes Ferreira nos seus Dias Comuns fala dessas lutas, quando juntamente com o Carlos de Oliveira, O Augusto Abelaira, tantos outros, andaram em bolandas, de café para café que lhes dessa possibilidades de manterem as suas tertúlias.

Os cafés da minha preguiça" como escreveu o Mário de Sá-Carneiro.

Ler o jornal, um livro num café com uma bica à frente.

Jorge Silva Melo: Sabores de outros tempos: o ovo a cavalo, o molho, as batatas fritas dos velhos cafés de Lisboa.

Façamos a evocação de um café de Lisboa: o Vává, símbolo dos anos 60 que viu nascer o cinema novo português, também músicas, conspirações várias.

Lauro António, que há dias nos deixou, escreveu diversas crónicas sobre a cidade no jornal digital  «Mensagem de Lisboa».

Uma dessas crónicas lembra o VáVá e a sua história:

Nasci em 1942, em Campo de Ourique. Passei sete anos da minha vida em Portalegre, para onde o meu pai, professor, foi deslocado para se efectivar. Regressei a Lisboa em 1958 e vim morar para as avenidas novas, precisamente para a avenida dos EUA, muito perto do cruzamento com a avenida de Roma. O Café Restaurante Vavá existe desde esse ano e foi um dos meus cafés de eleição. Os outros foram a Grãfina e o Nova Iorque

Além de mais, tem sido o meu café-restaurante prioritário, acompanhei todas as transformações, lidei com todas as gerências, fui assistindo à reciclagem da clientela, e descobri que o espaço, apesar de tudo, se mantém como local de culto e de saudosa romagem. Por isso vale a pena contar a história física, que é pouca, mas sobretudo recordar o espírito do lugar, que se conserva, muito para lá das vicissitudes do tempo e dos circunstancialismos vários da vida de cada um.

Julgo ser, por isso, uma pessoa bem informada para dar conta do recado, ainda que nestes casos, o recado, por muito factual que se queira, tenha sempre de ser subjectivo, com o que a posição comporta de risco, mas também de sinceridade. O meu testemunho não é totalmente imparcial e a tender para o abstracto, antes se afirma desde início, pessoal e apaixonado. Esta será uma “visão”, uma “visão” possível entre muitas outras, de um espaço que vem cumprindo, vai para cima de seis décadas, a função para que foi criado.

 OVavá nasceu em 1958, criado por uma dupla de gerentes, dois irmãos, Petrónio e Luís Gonzaga. Irmãos que apenas se pareciam no apelido, e igualmente na gentileza, dado que um era basto volumoso, de presença imponente, arrastando por detrás do balcão uma bonomia ruborizada, enquanto o outro, mais discreto e aprumado, ia deslizando delicadamente pelo mesmo balcão. Às vezes em simultâneo, outras revezando-se no comando das operações.

 O Vavá que eles idealizaram era um espaço enorme, que abrangia o que ainda hoje lhe compete, e ainda o que o Banco BPI agora ocupa e lhe comprou. O Vavá não era apenas o dobro, em extensão, à superfície, mas ainda possuía uma extensa cave, onde se encontrava uma, na época, muito disputada sala de bilhares.

 A decoração inicial produziu o milagre que ainda hoje perdura, apesar de pouco restar dela presentemente. Mas todo o recinto ganhava um ar acolhedor e recolhido, com as madeiras de um castanho-escuro, os maples de couro, igualmente de castanho-escuro, colados juntos às paredes, circulando todo o espaço. Mesas e cadeiras a condizer e um balcão que dividia a sala em duas, sem as tornar isoladas, como hoje acontece, pela intromissão de uma parede que não fazia parte da estrutura original.

 A iluminação era dourada, discreta, difusa, pequenos candeeiros desciam do tecto sobre as mesas, o ambiente era intimista, o que terá seduzido a clientela destas avenidas novas que iam surgindo lentamente por estes lados.

Não muito longe do cruzamento da Avenida de Roma com a Avenida dos EUA, nesta praça onde se encontram frente a frente o Vavá e o Luanda, começavam as quintas e os quintais, viam-se rebanhos de ovelhas e cabras e cultivavam-se as couves. Paulo Rocha fala dos “Verdes Anos” destes locais no seu filme, um dos que abriu caminho ao Novo Cinema Português (curiosamente o Novo Cinema marchou lado a lado com o Vavá, mas disso falarei mais a frente).

 Avenidas Novas, vidas novas, novos arrendatários. Quem veio habitar estes bairros foram os filhos da burguesia endinheirada, num período em que a estabilidade social e uma ligeira abertura ao exterior permitiram a ascensão de novas classes profissionais, vivendo com relativo desafogo, que lhes possibilitava pagar rendas mais caras, e usufruir de maior qualidade de vida.

 Do Areeiro à Avenida do Brasil, a Avenida de Roma era o exemplo da modernidade em Lisboa. Aqui se vinham descobrir as novidades, na moda, nos usos e costumes. Os quarteirões encheram-se de jovens de novas profissões: publicidade, moda, canção, cinema, televisão, aviação, arquitectura, decoração, etc. Mas, por detrás dessas luxuosas avenidas novas, existiam novos bairros de habitação social que contribuíam igualmente para o aparecimento de uma população diferente e diversificada.

 Foram esses os frequentadores habituais do Vavá nesses primeiros anos. Foram eles que criaram o estilo da casa e impuseram um tom. Aberto até de madrugada (fechava às duas da manhã), permitia a criação de tertúlias espontâneas, de amigos e conhecidos que todas as noites ali se reuniam para falar e discorrer sobre os mais variados temas, com a política sempre como prato de resistência.

 É importante referir que os finais da década de 1950 e o início da de 60 foram tempos difíceis para o governo de Salazar. Poucos meses depois das eleições de 1958, que opuseram Humberto Delgado a Américo Tomás, e que este haveria de ganhar com batota descarada, abria o Vavá. Iniciava-se igualmente um tempo de revolta e conspiração sem precedentes na história do Estado Novo.

 Em todas as tertúlias lisboetas se comentava o que não se podia saber pela informação escrita, radiofónica ou televisiva (a RTP acabava igualmente de iniciar as suas transmissões) e se soprava de ouvido a ouvido. O Vavá não era excepção. Congregando clientes já de alguma idade com a rebeldia da juventude, o Vavá era local de conspiração certa (segura nunca seria, pois “os olhos e os ouvidos” do regime estavam um pouco por todo o lado).

 A proximidade da Cidade Universitária criava outra clientela, maioritariamente irreverente e interventiva. Os alunos que vinham estudar para a capital escolhiam quartos de abrigo perto das faculdades. Este era outro potencial cliente, que o Vavá logo aglutinou. A contestação universitária que eclodiu em pleno durante a crise académica de 1962 foi dispersando pólos de inquietação. Os cafés eram centros de estudo, mas igualmente focos de rebelião, onde se discutia e se organizava a revolta.

 Tínhamos assim uma fauna variada, de extractos sociais diferenciados, profissionalmente irreverente e moderna, maioritariamente jovem. Entrando no café numa noite de inverno ou atravessando a esplanada numa solarenga tarde de verão, eles estavam lá, em pequenos grupos que se distinguiam pelos interesses profissionais ou pelos escalão etários, mas que por vezes se interpenetravam e fundiam em grandes grupos de amena cavaqueira.

Em Novembro de 1993, para uma revista então publicada pela livraria Barata, escrevi um texto que não resisto a recuperar. Dizia assim:

O café, enquanto local, e não só chávena, e não só bebida, refere duas realidades, ambas de agradável evocação: a bica, que se toma, e a tertúlia de amigos com quem se fala, enquanto se bebe a primeira.

 Muitos escritores têm relembrado, em saborosos textos, tertúlias célebres ao longo das décadas. Não vem ao caso historiar, mas Lisboa esteve bem provida destes locais de referência obrigatória, e não há certamente quem ignore o papel do Martinho da Arcada, da Brasileira do Chiado, do Nicola, do Café Gelo, do Monte Carlo, do Ribadouro, de tantos e tantos outros. Escritores e pintores deixaram marca num local, actores e encenadores eram habituais noutros, os cinéfilos reuniam-se sobretudo no antigo VaVá,  mesas pegadas com cançonetistas e baladistas dos idos de 60, e, antes do 25 de Abril, políticos e “gente do reviralho”, como então eram chamados os opositores ao regime, apareciam um pouco por todo o lado, acumulando funções na maioria dos casos.

 Os cafés eram locais de encontro, logo depois do almoço, e antes de se entrar no trabalho, ou a seguir ao jantar, prolongando-se então a cavaqueira pela noite dentro, até que as portas do café fechassem, e muitas vezes até para lá do seu encerramento. Nunca antes das duas ou três da matina. Muitos artigos se escreveram, muitos romances e poemas se pensaram, muitos espectáculos se montaram, muitos filmes se idealizaram, muitos quadros adquiriram ali cores e formas, muitos governos caíram e muitos outros se formaram à mesa de um café de Lisboa, do Porto, de qualquer cidade do interior de Portugal.

Não havia ainda televisão em doses industriais, para agarrar audiências pelos processos mais singulares; não havia internet, chats, blogues ou Facebook; não havia ainda Betas, VHS ou DVDs para se verem os filmes em casa; não havia concertos rocks todos os dias, nem espectáculos a toda a hora; não havia as drogas pesadas a influir negativamente nos horários dos donos dos cafés, que se querem ver livres de tão ingratos clientes, e fecham muito mais cedo; não havia a ameaça da violência urbana que apesar de tudo pesa sobre o comportamento de muita gente que prefere a segurança do lar à incerteza das ruas; nem havia, sobretudo, estes mercantis balcões de agora, onde as pessoas tomam apressadamente café, enquanto outras comem sofregamente uma sopa e pastelinhos de bacalhau, bifanas ou mesmo “pratinhos” de feijoada à transmontana, antes de regressarem ao seu balcão no centro comercial ou à secretária no escritório.

 Dos meus tempos de Universidade, relembro cafés inesquecíveis. Desde logo, o bar da Faculdade de Letras, onde se estudava a vida, quando se faltava às aulas, para se discutir um filme, uma peça de teatro ou um livro, onde se tentava mudar o mundo à medida dos nossos sonhos, ou simplesmente se namorava uma colega, quando o tempo não estava de molde a poder-se sair com ela até ao estimulante verde do discreto estádio universitário.

 Depois, à tarde e à noite, estudavam-se as matérias, em mesas de outros cafés, por apontamentos emprestados por quem assistira ao verbo do Professor. Por mim, que morava então em casa de meus pais, na Av. EUA, os mais utilizados eram o Nova Iorque, hoje transformado em banco, e a Grãfina. Mas muitas noites as passava também entre o Monte Carlo e o Monumental, espreitando actores e actrizes com quem se procurava meter conversa, ou sendo lentamente perfilhado por tertúlias de escritores, jornalistas, pintores e excêntricos avulso.

 Pouco a pouco, fui subindo avenida acima, até ao VáVá, que então tinha bilhares e cave, e não era ainda metade banco e metade pastelaria. Ali se reunia o grupo de cinéfilos, que observava de longe, e o dos cantores, que ouvia na rádio e muito pouco na TV estatal. Com breves incursões pela Suprema, pela Sul-América e pelo Luanda, adoptei o Vává como segunda casa, ali fiz amizades e vi partir amigos, ali conheci amores e desamores, ali escrevi e li, ali pensei guiões e filmes, dali parti com equipas de filmagem para a serra da Estrela, para Sintra, para o Alentejo, ali filmei mesmo uma sequência de um deles, ali vi rodar alguns outros, ali me despedi do 24 e ali saudei o 25, há quem diga que ele é a minha sala de jantar (quanto muito seria a de almoçar), e um prolongamento do meu escritório.

 O Vává foi mudando com os anos, deixando sempre saudades do velho Vává, de maples de cabedal castanho encostados às paredes, de luz difusa e discreta, de acolhedor conforto. Ali conheci o Manuel Guimarães, que seria meu padrinho de casamento e padrinho cinematográfico, cedendo-me umas bobines de película virgem do seu derradeiro “Cântico Final” para eu realizar uma das minhas primeiras curtas-metragens; ali conheci melhor o Manuel de Azevedo, o Villas-Boas, o Rafael, o Pinto Bandeira, o Manuel Costa e Silva, o Sam, o Pedro Bandeira Freire, o João Maria Tudela, o Fernando Tordo, o Paulo de Carvalho, o Carlos Mendes, o Fernando Silva, o Mário Damas Nunes, a Acácia Thiele; ali continuo a encontrar o Manel, o Fanan, o Vasco, o Mário, o Rangel, a Lena, o Carlos, e tantos outros, alguns deles agora já acompanhados das respectivas e respectivos, com a prole a gatinhar por entre mesas e cadeiras, ganhando já, se calhar, o mesmo “vício” de ali se encontrarem no futuro; por ali passam também personagens bisonhas de tristes recordações, ali ficam suspensas memórias efémeras ou persistentes, ali se discute o presente do cinema, do xadrez, da televisão e da canção portugueses, ali se debate o futuro da TAP, ali se comentam, à segunda-feira, os “roubos” dos árbitros, invariavelmente a prejudicarem o Sporting e a beneficiarem quem se sabe, por lá passava ao fim da tarde o Frederico, na volta do colégio, para a Cola e o bolo da praxe, ali descia e desço com a Eduarda para tomar o café, antes de ir para o cinema ou de regressar a casa, para um serão televisivo.

 Os cafés de Lisboa tendem a desaparecer, e os que restam são já sombras de um passado que procuramos apesar de tudo manter vivo, contra a arremetida das leis inexoráveis do comércio, da cobiça dos bancos, do poder da televisão, da proliferação de bares e discotecas. São, aliás, os bares e as discotecas que, de certa forma, vieram a ocupar o lugar desempenhado pelos cafés, reunindo tertúlias de amigos, agora ao som da música de momento. Até esta transferência é significativa da mudança dos tempos. Em lugar do café, bebe-se whisky ou vodka; em vez do espreguiçar do pensamento em redor da bica bem quente, gritam-se frases rápidas por entre dois compassos mais trepidantes. Nem melhor, nem pior. “Tudo é feito de mudança”, como dizia o poeta. “A nostalgia não é deste mundo”, como explicava Signoret. E as bicas bem quentes continuam a incendiar a imaginação dos poetas. Que nunca dispensaram outros “acompanhamentos”, a começar pelo absinto.

 A última grande transformação do Vavá data de 2017, quando a empresa Petrónio e Gonzaga, Lda foi comprada aos anteriores proprietários pelos sócios Pedro Ferreira e João Simões. O café restaurante sofreu uma profunda remodelação, mantendo e reabilitando o espólio artístico (as obras de Menez foram todas restauradas por especialistas), tarefa levada a cabo por familiares dos gerentes, a designer Mafalda Ferreira e o arquitecto paisagista Filipe Pedro. A inauguração aconteceu a 21 de Julho de 2017 e, não muito depois, a casa foi considerada “Loja com História” pela Câmara Municipal de Lisboa.

Muitos se perguntam por quê a designação Vavá?

 Estranha homenagem a um jogador brasileiro que aparece a dar nome a um café restaurante no cruzamento da av. de Roma com a dos EUA, em Lisboa. “Vavá” era mesmo o nome por que era conhecido Edvaldo Izídio (Recife, 12 de Novembro de 1934 – Rio de Janeiro, 19 de Janeiro de 2002), jogador brasileiro de futebol, bi-campeão mundial nas copas de 1958 e 1962, conhecido também por “peito de aço”. Nascido no Recife, Pernambuco, foi como avançado da selecção brasileira bicampeão mundial nas campanhas da Suécia (1958) e do Chile (1962). Iniciou a sua carreira no Sport de Recife, transferiu-se depois para o Rio de Janeiro (1952), para jogar no Vasco, passou pelo Atlético de Madrid, Palmeiras, América do México, San Diego, dos EUA, e Portuguesa do Rio. Conquistou dois campeonatos cariocas pelo Vasco da Gama e um paulista, pelo Palmeiras, além das duas Copas do Mundo pela selecção.

 Era visto como o clássico “matador” de grande área: oportuno, sem muita técnica, mas dono de muita garra e inteligência táctica, além de bom a jogar de cabeça. O seu vigor físico valeu-lhe o apelido de “Peito de Aço”. Marcou nove golos pelo Brasil em Copas do Mundo, e em 22 jogos pela selecção brasileira, contabilizou 14 golos. Foi auxiliar técnico de Telê Santana (1982) na selecção brasileira que disputou a Copa da Espanha. Morreu aos 67 anos, na Clínica São Victor, na Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, após internado por três dias com insuficiência cardíaca, e enterrado no Cemitério do Catumbi.

 Porque se chama Vavá o café restaurante a que estamos a dedicar este texto, eis um enigma que não conseguimos decifrar. Numa época em que no Brasil havia Pelé e Garrincha, porquê optar por Vavá? Um mistério a que pouca gente dá qualquer atenção. Curiosamente, os nomes fixam-se e raras vezes se procura encontrar uma razão para a sua escolha. Vavá é hoje em dia algo abstracto que, neste caso, designa um café, nada mais. Uma sonoridade apenas.

 Mas esta sonoridade faz retinir recordações e memórias de outros tempos. No final da década de 1950 e na de 60 do século passado o Vavá foi local de encontro e de tertúlias diárias de uma certa inteligência nacional, urbana, resistente ao Estado Novo, ponto de encontro de diversos grupos sociais. Um deles, os jovens do que viria a ser chamado o novo cinema português, onde pontificaram os nomes de Fernando Lopes, Paulo Rocha, António Pedro Vasconcelos, Alberto Seixas Santos, António da Cunha Telles, João César Monteiro, Manuel Costa e Silva, entre outros que habitavam perto e ali se reuniam diariamente, à noite, para a bica da praxe e a conversa habitual. Foi aqui que se convencionou ter nascido o novo cinema português, que um filme como “Verdes Anos”, de Paulo Rocha, confirma (grande parte filmado no edifício do próprio Vavá onde então morava o seu realizador).

 Mas o café não era apenas refúgio de jovens cineastas, mas também de um ou outro veterano, como era o caso de Manuel Guimarães, o mais conhecido realizador português a testemunhar a influência do neorrealismo italiano no nosso país, com títulos como “Saltimbancos” ou “Nazaré”. Não confraternizavam todos na mesma mesa, o conflito geracional existia. Guimarães era frequentador de uma outra tertúlia, onde surgiam vários opositores ao regime, “malta do reviralho”, como então eram chamados, como Aquilino Ribeiro Machado, engenheiro, filho do escritor Aquilino Ribeiro e futuro Presidente da Câmara de Lisboa, entre 1977 e 1979, Dias Amado, professor da Faculdade Ciências, Manuel de Azevedo, jornalista do “Diário de Lisboa”, Aventino Teixeira, coronel, um dos capitães de Abril, Pinto Bandeira, o artista plástico Sam, Rafael, proprietário de uma agência de publicidade, entre alguns mais. Senhoras de certa idade eram raras. Uma delas era a mulher de Manuel Guimarães, a Dª Clarice, que acompanhava sempre o marido.»

Legenda:

Foto 1 – Fotografia de Aida Santos

Foto 2 – Fotografuia do jornal I

Foto 3 - Site de Lojas Com História

Foto 4 – Site de Lojas Com História

Foto 5 – Site de Lisboa ComVida

sábado, 5 de fevereiro de 2022

LAURO ANTÓNIO (1942-2022)


 Na quinta-feira, aos 79 anos, morreu Lauro António.

Uma vida dedicada à cultura, mas principalmente ao cinema.

Não tinha grande apetência por holofotes.

«Como crítico, como organizador de festivais, como professor, como dinimizador cultural, nunca foi minha intenção impor opiniões.».

Entendia a crítica de cinema com paixão e, por isso mesmo, era parcial.

Manteve, nos primeiros tempos da TVI, o programa «Lauro António Apresenta», cujos textos de apresentação dos filmes foram publicados em Junho de 1994 pelas Edições ASA.

 Quem gosta da vida vai ao cinema.

É lá que tudo se passa.

«Nos nossos cinemas, ou no que resta dos nossos cinemas, se me quiser fazer entender.» é o começo de uma crónica de João Bénard da Costa.

Lauro António, entre Setembro de 1974 e Março de 1975, realizou um filme-documentário a que chamou «Vamos ao Nimas».

Nos seus 18 minutos de duração, o filme pretende ser uma evocação dos cinemas de bairro, os chamados «piolhos», que já não existem, das salas de cinema que pelo país, um pouco por toda a parte, foram encerrando as portas, e em muitos casos, com os edifícios destruídos.

Escreveu  Lauro António: «por maquinações do capitalismo, os velhos “clássicos”da aventura, do humor, do “suspense” ou do amor cederam progressivamente o seu lugar a este estendal de violência gratuita, de especulação, de barbárie que por todo o lado cresce. Enquanto desaparecem as salas que viram nascer e morrer uma época de ouro.»

Ainda Lauro António:

«Aqui existiu uma sala de cinema. Uma sala popular. Um bilhete para uma sessão dava direito a ver duas fitas em reprise.
Aqui existiu uma sala de ilusões. Aqui Gene Kelly dançava à chuva.
Marilyn amava.
James Bond tinha ordem para matar.
Chatrlot dava pontapés nos polícias
Os Marx faziam coisas impossíveis
Tarzan lutava com crocodilos-"Me Tarzan. You Jane."
Zorro e Fantomas na mesma sessão.
Bogart em "Casablanca"
A malta sorria - ria - sonhava - vibrava.»

De Lauro António retenho ainda o ter sido programador da sala de cinema do Centro Comercial Apolo 70, uma sala confortável com a excelência de uma projecção e de um som que dela fizeram um autêntico «must»

«Ao abrir as portas, todo o cinema que se preza orgulha-se de se apresentar ao público referindo normalmente a excelência da sua projecção, a comodidade dos seus lugares, o bom gosto do seu ambiente, o interesse espectacular da sua programação, etc. Apolo 70 poderia começar também por isso (e cremos que o faria com inteira justiça), mas as responsabilidades que irá contrair são sobretudo de um outro tipo. Com o que a sua declaração de princípio pretenderá atingir um alcance muito mais vasto».

E não se podem esquecer as sessões da meia-noite que por lá aconteceram.

Foi no Apolo 70 que, com o meu pai, vi dois filmes do Francis Ford Coppola: «Appocalipse Now» e «Do Fundo do Coração».

Outra referência minha de Lauro António data de finais de 1967 quando, juntamente com o Eduardo Prado Coelho, mais tarde com o João César Monteiro e o Vitor Silva Tavares, se tornaram críticos de cinema de Diário de Lisboa, crítica de cinema a sério, o que levou as distribuidoras de filmes a dizer a Ruella Ramos, proprietário do jornal, que ou punha aqueles senhores a andar dali para fora ou nunca mais via um tostão de publicidade.

Os senhores das exibidoras não estavam a ver bem com que quem estavam a lidar, não só os críticos não saíram como se gerou uma enorme onda de solidariedade entre os jornalistas e escritores, bem como dos leitores do jornal, e tiveram que arrepiar caminho.

O jornal não cedeu a qualquer tipo de chantagem.

Lauro António criou, no ano passado, a Casa das Imagens, em Setúbal, para onde levou uma boa parte do seu acervo, entre livros, filmes, cartazes, fotografias e onde organizava ciclos de programação.

No jornal digital Mensagem de Lisboa, podem encontrar as crónicas que Lauro António escreveu para esta publicação.

«Um velho sábio, elegante, a tentar agarrar a memória da sua paixão, o cinema, e a generosidade da militância pelo cinema», tal como de Lauro António escreveu Ferreira Fernandes.

Legenda: fotografia de Maria Eduarda Colares

segunda-feira, 8 de março de 2021

VELHAS CASAS, VELHAS HISTÓRIAS


Da necessidade de pegar num qualquer número da Vértice, para ilustração de um texto do Cais, peguei num em que existem algumas páginas dedicadas a Manuel de Oliveira.

Manuel de Oliveira é como está em toda a evocação da Vértice, se teclar Manuel de Oliveira a Wikipédia pergunta-me: «Será que quis dizer Manoel de Oliveira?»

Como não sei as razões da passagem de Manuel para Manoel, por hoje, respeito como vem na revista.

Num texto intitulado O Cinema e o Capital, publicado na revista Movimento de Outubro de 1933, Oliveira começa por dizer:

«O cinema é, de todas as artes, a mais sujeita ao capitalismo, pelo custo fabuloso do seu material e meios técnicos, e ainda pela dependência esmagadora dum público mal orientado por uma forte propaganda que cuida demasiado de estrelas e astros, e nada de ideias e processos artístico»

E termina assim:

«É portanto necessário acabar com o cinema-negócio. É necessário arrancar a indústria do cinema das garras nefastas do capitalismo. É necessário que o cinema seja apenas isto: um órgão de criação artística, e de acção educativa e social.»

Na Vértice também é publicada uma entrevista que Lauro António fez a Oliveira e publicada no Jornal de Letras e Artes de Fevereiro de 1964.

Pegue-se na parte final da entrevista:

«Perguntámos a Manuel de Oliveira quais os seus projectos imediatos. Respondeu-nos que o mais amadurecido era a adaptação de A Velha Casa, romance de José Régio.

- O projecto foi submetido à provação do Fundo de Cinema Nacional?

- Sim. Foi. E até tinha razões para esperar que fosse atendido. A verdade é que não fui, mais vez.

- E então desiste?

- Desistir, não desisto. Fico na expectativa…

- E se voltar a ser negado?

- Procurarei outras soluções…

Perderam-se na poeira dos tempos as expectativas de Manoel de Oliveira, também acabou por não encontrar outras soluções que o terão levado simplesmente a desistir do projecto.

Mas segundo João Bénard da Costa (2º volume de Crónicas: Imagens Proféticas e Outras):

Régio foi influência maior obra de Oliveira, Agustina gosta de o recordar «menino entre os doutores». Os temas da obra de Régio ecoam na de Oliveira, e os mestres de Régio foram, através dele, os mestres de Oliveira»

Agustina Bessa Luís teve uma declarada fascinação por Régio e a sua obra, que a levaram a escrever (Caderno de Significados) que Régio «é um dos nossos autores pior interpretados. Mesmo os seus discípulos o interpretam mal, porque especulam sobre a pluralidade dos seus meios e dos seus fins, mas não compreendem, na verdade, o homem vitorioso.

Muitas vezes eu olhava para José Régio, à minha maneira desprotegida e vazia de conceitos, e surpreendia nele uma ambição fabulosa; como se não houvesse linguagem para ele exprimir o que sabia, como se não houvesse sequer um mapa do corpo humano que ele conhecia».

José Régio considerava A Velha Casa (cinco romances publicados entre 1945 e 1966) o melhor da sua obra. Sempre manifestou a ideia da impossibilidade de a transcrever para o cinema, Manuel de Oliveira não ignorava essas dificuldades,  mas ainda chegou a trabalhar com Régio na adaptação das primeiras cenas que serviram de base para o trabalho a apresentar ao Fundo de Cinema, para a obtenção de um subsídio, que foi recusado.

O oportunismo e a mediocridade, principalmente em tempos de ditadura, andaram sempre de mãos dadas, fosse para que arte fosse.

domingo, 4 de outubro de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


 Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados. 

O QU’É QUE VAU NO PIOLHO?

O meu primeiro contacto com João César Monteiro remete-me para a década de 70, quando começou a fazer crítica de cinema no Diário de Lisboa, tendo como companheiros o Eduardo Prado Coelho, o Lauro António e o Vitor Silva Tavares.

 Críticas verdadeiramente diabólicas.

 «Eu sempre disse por exemplo que o cinema sou eu. E isto é uma afirmação que não tem nada de monárquico ou de centrista. Tudo o que eu faço é singular, insubstituível.»

 E ainda:

 «Eu sou um realizador que não sabe efectivamente, «a ponta de um corno». Sei que isto é horrível, mas é assim. Devo dizer que foi com o poeta Carlos de Oliveira que mais aprendi de cinema.»

 Fiquei com um gosto assolapado pelo João.

 Mais ainda quando colaborou na folha cultural q. b. &.etc. principalmente, quando lá  escarrapachou A Minha Certidão:

Por volta dos 15 anos, fixei-me com a família em Lisboa, para poder prosseguir a minha medíocre odisseia liceal. Instalado no colégio do Dr. Mário Soares, acabei por ser expulso ao contrair perigosíssima doença venérea. Pensei, então, que entre a política e as fraquezas da carne devia existir qualquer obscena incompatibilidade, e nunca mais fui visto na companhia de políticos.

 Eu e o meu pai, volta e meia, íamos para a petisqueira, para a conversa e depois havia «piolho»

 Tudo corria melhor, a cereja no topo do bolo, quando calhava um filme do João César Monteiro.

 Infelizmente só vimos quatro filmes, a morte do meu pai em 1990, roubou-me esse insubstituível prazer.

 Para além do génio, para além da arte, para além de tudo, os filmes do João César Monteiro davam-nos um imenso gozo.

 Foram estes os filmes:

 Veredas no Quarteto, é neste filme que o meu pai, que já andava com ela fisgada, se rendeu à 7ª sinfonia de Bruckner.

Silvestre no Cine-Bloco

À Flor do Mar no Ávila

Recordações da Casa Amarela no Fórum Picoas e éramos os únicos espectadores.

João César:

«A mim interessa-me fazer filmes para todos os públicos. Noventa por cento da população do país não é um espectador de cinema e provavelmente será esse o público mais inocente e disponível, porque menos condicionado por certos códigos imperialistas. É um dever cívico fazer cinema para essa gente, embora sem grandes esperanças de que a curto prazo possam ser espectadores de cinema.»

Vitor Silva Tavares:

«Melhor do que ele, ninguém escreve em português de - e para - cinema. São os seus scripts (ou filmes da galáxia Guttenberg) de lamber a língua canónica: volúpia e escarnho, ascese e escatologia numa ondulação de tal modo ritmada que é já êxtase erótico, cópula astral. E mais, de passo: Depois, quando iluminados por projecção mágica, viram ópera: teatro e música enquanto, e só, artes sacras - comédias, bufonarias sejam, libertinagens, profanações.»

Pego no guião de Recordações da Casa Amarela, publicado no 2º volume da Obra Escrita de João César Monteiro e entretenho-me a copiar a Cena 06 do filme.

João César escreve que a cena 06 de Recordações da Casa Amarela se passa, de dia, no restaurante Estrela da Sé.

Ferdinando sentado à mesa, serve-se de uma cabeça de garoupa com todos. Olha para fora de campo e diz:

Ferdinando: Caríssimo João de Deus: isso é reumático ou venéreo?

João de Deus entra em campo, com o sobretudo vestido, aperta a mão a Ferdinando, enquanto sussurra, debruçado sobre Ferdinando: 

João de Deus: É coisa que me apareceu nas virilhas.

João de Deus senta-se em frente de Ferdinando.

Ferdinando (a rir): Nas brilhas, como se diz no Porto. Manda vir qualquer coisa que se trinque.

João de Deus: Não me apetece, Ferdinando. Tenho a boca a arder e custa-me mastigar.

 Ferdinando: Estamos todos podres, é o que isso quer dizer. E a tua mãe?

Enquanto Ferdinando se vai  batendo com a cabeça de garoupa, João de Deus puxa de um cigarro, acende-o e, com o cotovelo apoiado no tampo da mesa, encosta a cabeça ao punho fechado.

João de Deus: Lá anda.

Ferdinando: Madre de Deus só há uma. Nunca o esqueças, meu filho.

João de Deus: Não consegui foi escrever nada. Sou amigo do tipo. Pelo menos, fui amigo da mulher e custa-me um bocado. Conheço-os há uma data de anos, ainda do tempo da outra senhora.

A câmara desloca-se ligeiramente para a esquerda, em travelling lateral, e descobre Ferdinando, que suspende o garfo, junto à boca.

Ferdinando: Estás a perder qualidades, Se me é permitido um reparo – não leves a mal - , por vezes consegues ser contundente, mas nunca fulminante. Andas às voltas, não vais direito ao assunto. Bebe nos clássicos, meu filho. Fulmina. Recordas-te da polémica de Camilo com Mesquita Fialho?

A câmara desloca-se ligeiramente para a direita, em travelling lateral, e descobre Ferdinando, que muito devastou a pratada e emborca um copo de branco.

João de Deus: O problema é que este não se chama Filho.

Ferdinando pousa o copo na mesa e diz com toda a gravidade que se impõe:

Ferdinando: Mas também deputa… filho.

João de Deus: Estou farto de escrever imundícies.

Ferdinando está boquiaberto.

Ferdinando: Mas tu nunca arriscaste a ponta de um corno, nem sequer o nome.

As chatices com a «judite», os processos em tribunal, as pesadas indemnizações, tudo te tem sido poupado. Nunca me vi confrontado com um caso de tamanha ingratidão: metes-me nojo.

O criado entra pela esquerda e levanta o prato de Ferdinando.

Ferdinando: Só café e uma bagaceira fresquinha. Da casa.

O criado sai por onde entrara. Percebe-se que Ferdinando acende uma cigarrilha. O criado entre em campo com o café e o bagaço, pousa-os na mesa e volta a sair.

Ferdinando: Vá-me tirando a continha, la dolorosa.»

Uma cena maravilhosa.

Por alturas da exibição do Silvestre em Lisboa, Mário Castrim abria, no Diário de Lisboa uma sua crítica de televisão, dizendo que tinha ido ver o filme pela segunda vez como quem se vai purificar nas águas do Jordão.

Sobre Silvestre, o João César disse que era um filme para as pessoas que ainda conseguem sentir-se crianças.

Agarrando na frase, José Saramago escreveu que «é um filme que não infantiliza os adultos que nós somos, mas adultiza as crianças que continuamos a ser.»

Fernando Lopes:

«Ao César perdoa-se tudo porque ele tem um talento que se ri de si próprio. Em suma. É um grande demente que faz coisas muito belas.»

Ainda o João:

«Ninguém morre por não fazer filmes e se morrer é idiota. Não avle a pena. Morre-se, sim, por fazer filmes, por na idade em que se fazem as opções mais importantes (que não são necessariamente as mais graves) se ter optado pelo ofício de cineasta, Agora estou sozinho diante das estrelas.»

Tenho saudades do João César Monteiro, do meu pai.

A falta que me fazem!

Texto publicado em 15 de Abril de 2019

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

FINCA VIGIA – SAN FRANCISCO DE PAULA, CUBA

Eu não me importo nada de andar a saltitar de um lado para o outro, mas parece-me ser mais interessante para quem tem a paciência de me ler que os textos tenham alguma sequência lógica entre si…

Voltemos a Hemingway, portanto…

E passemos a Cuba.

Quando vos falei da casa de Key West disse-vos que, após quatro viagens e um total de oito meses passados em Espanha durante o período da Guerra Civil, Hemingway regressara aos Estados Unidos em inícios de 1939, tendo-se instalado, seguidamente, em Cuba, onde prosseguiu a escrita de “Por Quem os Sinos Dobram”.

A jornalista Martha Gellhorn, com quem Hemingway iniciara uma relação afetiva em Espanha, juntar-se-ia a ele uns tempos mais tarde, e casaram-se em Novembro de 1940, no Wyoming, após ter sido decretado o divórcio de Pauline Pfeiffer.

Em Cuba Hemingway viveu no Hotel Ambos Mundos, na Habana vieja , que aqui vos mostro.

Neste hotel aconteceu-me uma coisa perfeitamente inesperada. 

Estava eu no bar do piso térreo, dou uma olhadela para um jogo de futebol que passava na televisão e começo a ver jogadores conhecidos. Era um jogo do Sporting em casa do CSKA para uma pré-eliminatória da Liga dos Campeões, coisa impensável de se ver em Cuba…!

Como não fora ao Ambos Mundos para ver jogos do Sporting, subi para tomar uma cerveja no terraço e ver a bela vista sobre Havana que de lá se vislumbra. Quando subi ganhava o Sporting 1-0; quando voltei a descer perdia 2-1… Parece que foi roubado e, desta vez, a sério…

Mas adiante, que não vim aqui falar em desgraças...

Hemingway gostava de se alojar neste hotel porque estava próximo do porto onde o seu barco, “Pilar”, se encontrava ancorado, e a poucas centenas de metros, também, dos bares que mais frequentava em Havana, sobretudo o Floridita, que ficava no outro extremo da mesma rua, porque o Bodeguita del Medio ainda não existia na altura.

Mas Martha Gellhorn não se sentia bem a viver em quartos de hotel e não descansou enquanto não encontrou uma residência para o casal.

Foi ela quem descobriu a Finca Vigia, num lugarejo chamado San Francisco de Paula, a 24 km de Havana, uma grande casa construída em 1886 num terreno vastíssimo.

A primeira vez que ouvi falar desta Finca foi em 1974 ou 75, num documentário integrado num ciclo de Cinema Cubano que o Lauro António organizou no Apolo 70. O programa do ciclo ainda deve andar por aí, mas vá lá saber-se onde...

Inicialmente alugada, a Finca seria, mais tarde, comprada por Hemingway por 12.500 dólares, após ter sido consumado o seu divórcio.

Mas Gellhorn não iria passar muito tempo em Cuba.

Primeiro porque, depois de uma primeira experiência bem sucedida em Espanha, a sua carreira de correspondente de guerra ganhou asas e as ausências em trabalho eram cada vez mais frequentes, levando Hemingway a queixar-se de que não precisava de uma mulher nas páginas dos jornais de grande tiragem, mas sim na sua cama…

Por vezes Hemingway acompanhava a mulher nas suas viagens de trabalho, como numa célebre viagem à China em 1941, em pleno conflito sino-japonês. Mas na maior parte das vezes ela ia sozinha à sua vida.

Depois porque a Martha não agradava muito o tipo de vida que Hemingway levava em Cuba e não perdia uma boa oportunidade para arejar.

Na primeira das cartas já escritas na Finca que constam desta coletânea de “cartas escolhidas” que vos mostro, datada de 11 de Fevereiro de 1940, Ernest escreve ao seu célebre editor Maxwell Perkins:

We won again at the pelota last night and stayed up till three a.m. So today will have to take Martha to the movies as a present for being drunk Saturday night, I guess. Started out on absinthe, drank a bottle of good red wine with dinner, shifted to vodka in town before the pelota game and then battened it down with whiskys and soda until 3 a.m.”

E, finalmente, porque, com todos estes problemas, o casal também não iria ficar junto muito tempo

Na verdade, eram duas personalidades muito fortes, que frequentemente batiam de frente.

Às vezes por ninharias, como quando Martha terá mandado castrar todos os gatos selvagens que aparecessem na quinta e Hemingway interpretou isso como uma ofensa simbólica em relação a si...

Martha era segura de si e afirmaria mais tarde, que não queria ficar para a posteridade como uma simples nota de rodapé na biografia de Hemingway…

Este, por seu lado, parecia sentir cada vez mais ciúmes do sucesso jornalístico da sua mulher.

E o copo transbordou quando, alegadamente, Hemingway conseguiu desviar para si uma credencial da “Collier’s” para acompanhar o desenrolar da II Grande Guerra em França, a qual, em princípio, estaria destinada à sua mulher.

Gellhorn não se conformou e conseguiu partir para a Europa, disfarçada no interior de um navio que transportava enfermeiras de guerra e várias toneladas de explosivos.

Finalmente, não deixaram Hemingway desembarcar porque, como escritor, foi considerado um ativo demasiado importante para correr riscos de morte, e Martha pôde orgulhar-se de ter sido a única correspondente a desembarcar na Normandia e a cobrir esse histórico evento.

Hemingway instalou-se em Londres, onde reencontrou Mary Welsh, uma jornalista da revista “Time” que já havia conhecido em Paris e com quem iniciou uma relação.

E foi em Londres que Gellhorn o informou que estaria tudo acabado entre eles. O divórcio foi decretado em finais de 1945 e em Março de 1946 Hamingway casar-se-ia, em Cuba, com Welsh.

Scott Fitzgerald parecia ter razão… Uma mulher para cada livro…

Mas Mary Welsh seria mulher para muitos livros e foi a quarta e última mulher de Ernest.

Gellhorn não mais voltaria à Fica Vigia e iria voar sozinha, prosseguindo uma carreira de jornalista que a iria transformar num dos mais célebres correspondente de guerra de todos os tempos.

Quanto a Hemingway, iria passar uma parte do seu tempo em Cuba até abandonar a ilha, em Julho de 1960.

Mas esta presença estava longe de ser constante porque, para além das permanentes viagens que fazia pelo Mundo, a determinada altura Hemingway criou o hábito de passar o Verão nas montanhas de SunValley, no Idaho, e os meses de Inverno em Cuba.

Literariamente e com exceção de “O Velho e o Mar”, publicado em 1952, Cuba não iria ser muito produtiva para Hemingway. 


Antes havia publicado “Na Outra Margem Entre as Árvores”, obra de que gostava muito mas que fora mal recebida pela crítica e pelo público.

Mas vingara-se, porque “O Velho e o Mar” deu-lhe um Pulitzer e o Nobel chegaria, dois anos depois.

Em contrapartida, aventura não lhe terá faltado.

Por esta altura as grandes companhias de Hemingway, em Cuba, não eram intelectuais, mas boémios, desportistas, sedutores e jogadores. Para além da gente do mar, de cuja presença sempre necessitou.

Com o seu barco, “Pilar”, não se limitava às pescarias e patrulhava, de noite, as águas do Golfo, à procura de submarinos alemães e parece que também chegou a criar uma rede privada de investigação, chamada “Crook Factory”, que espiava simpatizantes nazis.

Tanta generosidade junta alertou Edgar Hoover, que mandou que lhe fosse aberto um “dossier” por suspeita de ligações soviéticas.

Ou seja, enquanto espiava em favor da América, era espiado por ela… Típico de Mr. Hoover!

Mais tarde, já na segunda metade dos anos 50, também foi espiado pelo FBI por suspeita de colaboração com grupos de rebeldes anti-Batista, através do fornecimento de armas e de dinheiro.

Os últimos anos de Hemingway foram penosos, com sequelas de dois graves acidentes de aviação ocorridos em África um após o outro, várias doenças, depressões e sucessivos internamentos hospitalares com terapia de eletrochoques .

Como é sabido, não terá aguentado ver-se muito mais tempo nesse estado e suicidou-se com um tiro na garganta em 2 de Julho de 1961, na sua quinta de Idaho, com apenas 61 anos de idade.

Durante alguns anos a família esconderia o suicídio, afirmando que se tratara de um acidente, mas mais tarde assumiu a verdade.

Martha Gellhorn, que passaria os seus últimos anos de vida praticamente cega e a padecer de um cancro nos ovários, suicidar-se-ia, também, em 15 de Fevereiro de 1998, em Londres, com 89 anos

Mary Welsh não se suicidou e viveu até aos 78 anos.

Hoje a Finca Vigia é um Museu Nacional, propriedade do Estado Cubano.

Mas a história desta passagem de propriedade para o Estado também é interessante.

Cuba diz que se tratou de uma doação de Hemingway, mas parece não ter sido bem assim...

Hemingway nutria simpatia por Fidel Castro e parece que a simpatia era mútua.

Mas, não obstante existirem várias fotografias de Hemingway em companhia de Fidel, parece que só se encontraram uma única vez e por pouco tempo, em Maio de 1960, por ocasião de um torneio de pesca ganho pelo Comandante, que dava provas de ser, também, um excelente pescador. Todas as fotografias existentes terão sido tiradas nessa ocasião.

Apesar dessa aparente boa relação, à cautela e temendo que os bens de cidadãos estrangeiros residentes em Cuba viessem a ser expropriados pelo novo Governo, Hemingway depositou num cofre de um banco os seus bens mais valiosos, que incluíam, para além de alguns objetos e bens pessoais, os manuscritos dos livros em que estava a trabalhar (“Paris é Uma Festa”, “Ilhas na Corrente” e “O Jardim de Éden”, que seriam todos editados postumamente) e os seus quadros de maior valor e/ou estima pessoal.

Na última das cartas escritas em Cuba que constam da coletânea que vos mostrei, Hemingway escreveu a Charles Scribner Jr a 6 de Julho de 1960, menos de três semanas antes de partir de vez:

We had planned to be leaving here in a couple of weeks. Very hot now and the trades are not blowing and it rains heavely each afternoon. The big fish have not come yet but are over-due and I would like to pull on a couple of big ones before I leave.

Não sei se os chegou a pescar, ou não, já que deixaria Cuba a 25 de Julho de 1960, para não mais voltar.

Após a falhada invasão da Baía dos Porcos, em Abril de 1961, os receios de Hemingway confirmar- -se-iam e os bens de cidadãos americanos foram de imediato confiscados, incluindo a Finca Vigia, todo o seu recheio e tudo o que se encontrava guardado em bancos.

O que mais tarde se passou terá sido uma mera operação diplomática, parece que sob a égide do próprio Presidente Kennedy, que transformou uma sempre desagradável expropriação em “doação”, mediante troca por tudo aquilo que havia sido depositado por Hemingway no referido banco.

Como poderão ver pelas fotografias que vos mostro, a Finca Vigia tem tudo o que é habitual ver-se nas casas de Hemingway: troféus de caça, posters de corridas de touros, fotografias, centenas de livros…

Os mais importantes quadros e peças de decoração terão saído para os Estados Unidos, como vos referi.

Tal como poderão ver, o “Pilar”, a amada embarcação que Hemingway possuía desde os tempos de Key West também lá foi colocado, no espaço adjacente à piscina.

A torre mais alta é o espaço onde Hemingway se recolhia para escrever e podem ver uma fotografia desse escritório.

E, por hoje, daqui já chega.

No próximo texto daremos um saltinho a Cojimar, que fica aqui tão perto…

PS:

Que saiba ou que me lembre, existem dois filmes relativamente recentes que abordam a vida de Hemingway em Cuba.

Um é “Hemingway & Gellhorn”, que se debruça sobre a vida do casal e cuja referência a Cuba é muito ligeira. Com Nicole Kidman no papel de Martha Gellhorn e Clive Owen no de Hemingway, o filme é uma muita cuidada produção da HBO e foi realizado em 2012 por Philip Kaufman. É uma obra bastante interessante e, tanto quanto consigo perceber, muito fiel aos factos retratados.

O outro, “Papa – Hemingway in Cuba”, que Bob Yari realizou em 2015, com Adrian Sparks no papel de um desgastado e alcoolizado Hemingway, é mais banal e centra-se nos anos de 1957 e 1958, em que ele terá colaborado com a guerrilha e sido espiado pelo FBI. O único verdadeiro interesse que me parece ter é ter sido o primeiro filme de Hollywood autorizado a ser rodado em Cuba desde 1959.

Como não sou historiador de Literatura, para escrever acerca de Hemingway andei à pesca, tal como ele, puxando uma linha aqui e outra acolá.

Para além da “Net”, estes dois filmes proporcionaram-me informação útil, a qual seria confirmada num muito recente documentário transmitido pela SIC e integrado na série “Grandes Romances do Séc. XX”.

Texto e fotografias de Luiís Miguel Mira