A nitidez é uma conveniente distribuição de luz e sombra.
segunda-feira, 4 de julho de 2022
sexta-feira, 19 de março de 2021
OS CLÁSSICOS DO MEU PAI
Hoje é o Dia do Pai.
Sempre me disseram que esta coisa dos Dias, seja do que for: Pai, Mãe, Mulher, etc., são um
negócio. Contudo, as escolas, principalmente nos jardins de infância, cultivam
a ideia de os miúdos fazerem desenhos em cartolina, em azulejos, para levar aos
pais. Essa parte ainda aceitei, depois, já crescidinhos, tratei de dizer, aos
meus filhos, que não contassem comigo para esse folclore.
Importa agora
dizer-vos, que o meu pai, por motivos que nunca descortinei claramente, tinha
pela cultura alemã uma profunda admiração: o Natal, música clássica, livros
(gostava de Goethe, Karl Marx, adorava Rainer Maria Rilke e lamentava que Rilke
tivesse nascido em Praga e não numa qualquer cidade alemã) e tudo acabava com ele a dizer que não havia nada no mundo como
os electrodomésticos de marcas alemãs, de carros não falava porque nunca teve
carta de condução.
Eu era miúdo, teria
uns 8 anos, lembro-me de ele ter chegado a casa com um disco de 78rpm do trompetista
Eddie Calvert a tocar uma velha canção «Oh,
Mein Papa». Ele adorava esta canção e quando fazia anos, gostava de a por a
tocar. O disco partiu-se e alguns anos antes de ele nos deixar, consegui encontrar
na Feira da Ladra, um EP do Eddie Calvert. O disco terá pertencido a alguém
chamado Ilda que lhe terá sido oferecido em 21 de Fevereiro de 1964, mas as
coisas não terão corrido bem, vendeu o disco e riscou a dedicatória.
Hoje, lembrei-me do
meu pai, o melhor ouvinte e conversador que tive, e chegaram até mim as noites
de Verão em Almoçageme, numa velha casa alugada, sentados no alpendre a ouvir o
silêncio, ao longe a ronca do Cabo da Roca, ele a beber o seu whisky, eu a beber
o meu gin-tonic.
sábado, 3 de março de 2018
terça-feira, 10 de novembro de 2015
POSTAIS SEM SELO
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?
CINEMA
Comunidade das pequenas salas de cinema, não muita gente, e a que houver tocada em cheio como o coração tocado por um dedo vibrante, tocada, a pequena assembleia humana, por um sopro nocturno, uma acção estelar. Não se vai lá em busca de catarse directa mas de arrebatamento, cegueira, transe. Vão alguns em busca de beleza, dizem. É uma ciência de ritmo, ciclo, luz miraculosamente regulada, uma ciência de espessura e transparência da matéria? De todos os pontos da trama luminosa, ao fundo da assembleia sentadamente muda morrendo e ressuscitando segundo a respiração na noite das salas, a mão instruída nas coisas mostra, rodando quintuplamente esperta, a volta do mundo, a passagem de campo a campo, fogo, ar, terra, água, éter (ether), verdade transmutada, forma. A beleza é a ciência cruel, imponderável, sempre fértil, da magia? Então sim, então essa energia à solta, e conduzida, é a beleza.




