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terça-feira, 30 de março de 2021

TEATRO POLÍTICO


                          para o Rui Miguel Ribeiro

 

Quando tudo é mentira,
a mentira torna-se invisível
como o dedo do encenador.

O pano sobe, de fumo,
e nada representa nada
nem ninguém.

Às escuras, o público sorri,
o público aplaude, julgando
seguir, entender a história.

Se um grama de verdade,
todavia, custa hoje
setecentas ilusões apodrecidas

e o preço da entrada
é suspensão da descrença,
só de fora é perceptível

o entrecho da decomposição,
com seus ritos e porquês
assinalados a vermelho:

o vinho do desejo cultivado
em bardos de necessidade,
a bolha esburacada da democracia,

a corrente de facadas e suturas
a que chamamos progresso,
o beco sem saída da evolução.

José Miguel Silva em Resumo: a poesia em 2013

sábado, 13 de fevereiro de 2021

ÚLTIMAS VONTADES

Há coisas que estão mal pensadas desde o início.

Uma delas é o mundo. Não é que lhe falte alguma coisa,

é que lhe sobram, por exemplo, as elegias, os ruídos,

ao arrais da economia, a gestão dos escorregas.

Fica-lhe mal ser destruído por obuses de cimento,

nada ganha com o medo, a cratera do progresso,

o zapping dos afectos, as obras completas de Napoleão.

Não era necessário tanto ouro no caminho do arado,

tantas horas de alumínio por semana. E das praias,

que dizer? que dizer das guilhotinas, do terror

alimentado pelos sonhos? Em resumo: não aprovo

os circuitos de extermínio, o estilo Faetonte de cair.

 

Foi pena não podermos escolher. Preferia que restassem

as maçãs, os verdes de Vuillard, o selim de Monteverdi,

a palha de centeio nos eirados. Sem a trova dos astutos

poderíamos viver, mas não sem o labor dos pintassilgos,

quando a tarde se despede para sempre, e a luz entreabaerta

por um livro corre fulva pelo quarto como um gato

a meio de junho. Recebesse eu as notícias do meu rosto

pelo rosto dos amigos e ficassem as colinas, mais o cheiro

dos teus ombros quando chegas do trabalho e me perguntas

«há batatas cá em casa? trouxe vinho e cogumelos».

Nestas ervas, não em outras, gostaria

De deixar cair os punhos, esquecer como se reza.

 

José Miguel Silva em Os Cem Melhores Poemas Portugueses

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

DESCULPAS NÃO FALTAM

Uma casa junto ao Vouga,

rio de água suficiente,

onde apenas se mergulha

até à cintura, a pequena horta

de Virgílio, o amor robustecido

por nenhuma esperança

e tantos livros para ler

- que desculpa vou agora dar

Para não ser feliz?

 

José Miguel Silva em resumo: a poesia em 2011

Legenda: fotografia de Luís Eme

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO


Ladrões de Bicicletas - Vittorio de Sica (1948)

Mil quilómetros por dia pedalava meu pai, desde
a cama junto ao Douro até à próspera Cerâmica
de Valadares. Se qualquer homem recebe,
à nascença, uns sessenta inimigos por hora,
imaginem a jornada de um operário ciclista.
Tudo são despesas para ele: o rosário de geada
nas giestas, o jornal atropelado pelo vento, o verdor
da Primavera, a poalha do suor em cada mão.

Meu pai, é claro, não se queixa, ganha um conto
de réis, tem uma casa portuguesa e grandes sonhos
de amanhãs a gasolina. Pelo menos não trabalho
em nenhum matadouro, pensa ele, e com razão,
erguido nos pedais do seu veículo de sombra,
solitário trepador pela encosta de Avintes. Não
trabalha em nenhum matadouro. E nesse reconforto
passa à Quinta dos Frades, alcança o Freixieiro,
sente já o rumor de fumacentos camiões na nacional,
onde tudo, depois, será muito mais plano.

José Miguel Silva em Poemas Com Cinema, Assírio & Alvim, Lisboa Novembro de 2010.

Legenda: desenho de Rogério Ribeiro