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quinta-feira, 25 de julho de 2024

OLHAR AS CAPAS


 Estrada

Manuel Mendes

Capa: Manuel Ribeiro de Pavia

Colecção Contos e Novelas

Sociedade de Expansão Cultural,  Lisboa, Outubro 1952

Também já andei embarcado. Tempos que lá vão!... Mas isto da estrada, por mais que digam, é outra coisa…

segunda-feira, 8 de julho de 2024

OLHAR AS CAPAS


Minas de San Francisco

Fernando Namora

Capa: Manuel Ribeiro de Pavia

Editorial Inquérito. Lisboa, Dezembro de 1952

Com os ventos de Espanha, corria agora a notícia de um achado de oiro negro, escondido nas rochas, saltando dos rasgões das enxadas, que enriquecia os miseráveis de um dia para o outro. Eram pedras negras que rendiam oiro, lá longe, onde apareciam estrangeiros que compravam terrenos áridos e os furavam como toupeiras, empreitando camponeses, pagando jornas de loucura.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

TODOS ESTIVEMOS COMPROMETIDOS


Todos os princípios são difíceis, e os assuntos delicados ainda mais.

Quando os assuntos têm que ser tratados com pinças, há que inventar um abrir de prosa.

Lembrei-me de algo que Vitorino Magalhães Godinho disse em Outubro de 1974, citado por José- Augusto França nas suas Memórias:

«Num tão longo regime totalitário, quer se queira quer não, todos estiveram comprometidos. Salvo raras excepções em casos de sacrifício merecedores de respeito e de rendida homenagem, a grande maioria teve de acomodar-se. Viver…»

Volto a lembrar o que, aqui,  já deixei escrito:

 Ano de 1967, o Helder Pinho levou-nos a visitar a cave-casa-estúdio que o Bual possuía na Amadora, a dado ponto da conversa,  entre latas de atum, azeitonas, queijinhos frescos, pão alentejano, um garrafão de tinto, lembrei ao Artur Bual, a colaboração com o S.N.I.

 Muito calmamente respondeu: «Fomeca, meu caro, muito espaço no estômago».

 Não acrescentou nem mais uma palavra e eu fiquei, parvamente, a olhar.

 Como pude ser tão idiota, tão ordinário, tão estúpido, tão repugnante, tão mania de ser chico-esperto?

 Tinha o exemplo do senhor meu pai, e alguma vez o Artur Bual merecia que lhe perguntasse o que perguntei?

 E não há nenhuns 20 anos que desculpem uma imbecilidade daquelas!

 Mário-Henrique Leiria, meu mestre de gin, e não só, amiúde dizia que «posso morrer de fome mas não peço esmola», ou ainda «para vivir de rodillas vale más morir de pie.»

Mas isso era o Mário-Henrique Leiria, um louco genial, e não podemos exigir que todos fossem, ou sejam, como ele.

 José Gomes Ferreira entristecia-se quando se lembrava que os seus compadres e vizinhos, Bernardo Marques, sua mulher Ofélia Marques, para sobreviverem, aceitavam fazer capas e ilustrações para as publicações do S.N.I.

O meu pai foi funcionário do S.N.I. para a parte gráfica das suas publicações.

Sempre que saia uma qualquer das publicações do S.N.I., livros, revistas, catálogos, etc., levava um exemplar para casa. Isto durante anos a fio. Tudo se foi acumulando e começou a faltar espaço para acondicionar outros livros.

 Naquele tempo andavam homens e mulheres pelas ruas a comprar jornais, garrafas, outras velharias. Mais ou menos uma vez por mês, alguém ia lá a casa perguntar se havia algo para vender.

 Um dia, para arranjar o tal espaço para livros que começava a faltar, o meu pai decidiu  vender ao quilo as publicações do S.N.I.

 A minha costela anti-regime rejubilou e até ajudei a fazer os molhos e a atar cordas.

 Nesse monte estavam os muitos números da Panorama e também, entre muitos outros, Férias com Salazar, da jornalista francesa Christine Garnier com fotografias do pide Rosa Casaco.

Ao tempo, rumores-cor-de-rosa, dão a jornalista francesa como uma paixão assolapada pelo Botas de Santa Comba, e vice-versa, ao ponto de se ter divorciado.

 Pelos anos 80, comprei o livro editado por Fernando Pereira, mas sem as fotografias do pide Casaco, o que faz alguma diferença.

 Há uns anos, comprei, na Feira da Ladra, 4 exemplares da Panorama ao preço de 2,50 euros cada exemplar.

 Dessa pilhagem anti-S.N.I. restaram 29 volumes do “Notícias de Portugal” devidamente encadernados em carneira porque o SNI, ao fim de cada ano, enviava esses volumes para a Presidência da República, para o Conselho de Ministros, para todas as entidades gradas do regime.

 Outra história para contar.

 Legenda: no topo, capa de Bernardo Marques para a Panorama nº 8, Abril de 1942. A outra capa é da autoria de Manuel Ribeiro de Pavia para a Panorama nº 27 de 1946, sem indicação do respectivo mês.

segunda-feira, 30 de março de 2020

UMA FRASE QUE ASSUSTA OS OUVIDOS


Ao longo dos tempos, fui comprando alguns livros que, de imediato, por isto ou por aquilo, fui deixando num canto. Um desses livros,  é O Cemitério de Praga, de Umberto Eco.

Peguei, deixei, repeguei, anda a ser lido aos tropeções.

Nos tempos que vão correndo, sou mais de reler do que descobrir.

Não sendo um entusiasta dos livros de Fernando Namora, apenas gosto das primeiras obras, em que o neo-realismo passeia por ali, mais as lindíssimas capas e ilustrações de Manuel Ribeiro de Pavia. Principalmente Retalhos da Vida de um Médico, aquele conto do primeiro parto e das palavras de que nunca me esqueci:

– Se quer fazer alguma coisa, senhor Doutor, saiba que a criança está nas nalgas. Está presa no osso da rabadilha.

O conto «História de um Parto», começa assim:

 «Com 24 anos medrosos e um diploma de médico, tinha começado a minha vida em Monsanto. Ali, a província bravia despede-se da campina (de Idanha), ergue-se nos degraus das fragas para olhar com altivez as serras de Espanha, enquanto o friso de planaltos que corre as linhas da fronteira espreita as surtidas do contrabando e a fuga dos rios.
Aquele povo soturno, endurecido a subir e descer abismos, frutificando uma terra alheia, pressentiu o perigo da minha inexperiência. Os camponeses vinham ao consultório fechados em meias palavras, avaliando dos meus dotes de mágico, e nas suas faces obstinadas havia apenas desconfiança e desafio Algumas vezes, a morte estava ali entre mim e eles, troçando da minha humildade apavorada, e nem assim me davam um estímulo.»

Avançamos nas palavras de Namora:

«Mas sendo eu médico avençado – eis a cortesia em jogo – o posto pertencia-me, devia ser procurado para o trabalho e para o pago. E a família acabou por correr o risco: seria eu o escolhido. Para mim o transporte do burro, o sobressalto, a apreensão pelo que poderia acontecer. O meu nervosismo ainda foi avivado por uma rude prova de fraqueza dos campónios: sucedeu que, mal eu chegara junto da esmorecida parturiente, me confessaram, com ressaibos de deferência, as dúvidas que haviam tido na minha escolha!
E ali fiquei, humilde, embrutecido, perante a comadre escura que me vigiava. Os olhos dela, vorazes, eram mais temíveis do que esse ventre desgastado de esforços vãos, do que a bacia estreita que se opunha à vida. Esperei minutos, horas, para me dispor àquilo que desde logo me pareceu indicado: uma intervenção com os medonhos ferros que são o pesadelo das parturientes e das famílias aldeãs. Até que a comadre, não suportando já as minhas hesitações, levou à frente das palavras um dedo sujo, antes que eu pudesse simular uma reacção, e enfiou-o nesse abismo insondável. E disse, sem meias-tintas:
– Se quer fazer alguma coisa, senhor Doutor, saiba que a criança está nas nalgas. Está presa no osso da rabadilha.
Aquela frase ficou inteira nas minhas recordações, ainda hoje me assusta os ouvidos.»

E chegamos às palavras finais:

«A criança chegou às minhas mãos, mãos heroicamente ensanguentadas, sem uma beliscadura. Tirei-a depois com ostentação dos dedos engelhados da comadre, lavei-a com carinho, feliz, alvoroçado. Amava-a como se me pertencesse.
Eu, agora, dominava o ambiente. Dominava os corvos e, entre eles, o mais sinistro: a comadre. Ela, então, ergueu as mãos, em transe:
– Milagre! Vi nascer centenas de meninos, vi horas boas e más, mas um trabalho destes… A criança está aí sem um arranhão. Onde eu chegar, senhor Doutor…
E ficámos amigos.
Cá fora esperava-me uma noite afogueada de Outono. O velho tinha aparelhado o jerico e engolia saliva a todo o momento, ondulando o pescoço, mudo de emoção. De chapéu erguido, os olhos brilhantes, esperava que eu partisse. Entesado numa posição de sentido, quedou-se de chapéu em jeito de bandeira, até que desapareci na dobra da rua. E só depois conseguiu rouquejar:
– Obrigado, senhor Doutor! Obrigado. Viva!, para sempre!»´

Legenda: ilustração de Manuel Ribeiro de Pavia

sábado, 1 de fevereiro de 2020

OLHAR AS CAPAS


Casa da Malta

Fernando Namora
Capa e ilustrações de Manuel Ribeiro de Pavia
Editorial Inquérito, Lisboa, 1951

Abílio, durante os seus três anos de vadiagem, lembrava-se sempre, à noite, do marulhar do rio. Era como se lhe faltasse uma música de embalar. Quando o rapaz do cornetim lhe ensinara o segredo de dominar e compor os sons, ao entardecer ia para um canto solitário, tocando, em surdina, uma toada lenta e monótona – imitando o rio. Imitando o rio e a melancolia da sua vida de acaso. Mesmo depois do circo desmanchado, continuara companheiro do tocador. Amigos, unidos por coisas que nem se esclareciam e pela música.
O circo acabara numa aldeia escura da Beira. Quando chegaram a esses sítios amaldiçoados em penedias e estevas já o grupo tinha minguado: as raparigas gordas fugidas na companhia de maltezes, a velha e duas crianças mortas de doença e miséria.
A velha arrastara ainda por um ano uma perna ulcerada e imunda. Ia aos médicos das terras onde paravam e eles diziam:
- Só cortando a perna.
E ela abanava furiosamente a cabeça.
Mas era ainda a velha que cozinhava umas sopas para o grupo, apesar do nojo dessa mistura de chagas, trapos purulentos e de comida. Depois que ela morrera, o chefe tinha vendido o carro e as mulas; tinha-os bebido, e ninguém mais pensara em comer o caldo. Pedaços de pão, chouriço, fruta roubada nos pomares das estradas.
A atracção do circo era agora o ganapo, esbandalhando o corpo como uma aranha; o rapaz do cornetim substituíra vários números acrobáticos e Abílio tocava o tambor e recitava versos brejeiros.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

OLHAR AS CAPAS


Retalhos da Vida de um Médico

Fernando Namora
Capa e ilustrações de Manuel Ribeiro de Pavia
Editorial Inquérito, Lisboa s/d

Certa vez, chegou ali um homem rude, dos seus cinquenta anos, com as rugas da nuca e da face preenchidas por décadas de sujidade. Enquanto o observava, distraía-me a seguir a geografia dessas linhas de porcaria estratificada. Dei-lhe uma palmada nas costas, para o dispor bem, e disse:
 - Pode ficar internado, sim senhor. Vai tomar um banho, despir esse fato e entra já hoje para a enfermaria.
 - Banho, Senhor. Doutor?
 - Banho, pois… É o costume.
O homem levou as mãos às costas, coçou-as, indeciso e agastado.
 - Banho… – repetiu ele, em palavras – Banho, Sr. Doutor, é que não consinto. Não vejo de que me sirva para a minha doença.
 - Pois isso nada tem que ver com a sua doença, é verdade. Mas é do regulamento; é uma lei para si e para todos. . O banho e a mudança de roupa. Temos cá em baixo uma casa para guardar o fato dos doentes. Pode estar descansado que fica seguro.
O homem deu um passo para a saída e pegou no chapéu. Interpelei-o ainda:
 - Então o senhor não toma banho em sua casa?
 - Tomei, sim senhor, antes das sortes e antes do meu casamento. A gente não vai chapinhar na água toda a vez que se lembre. Está um homem sujeito a apanhar um catarral ou um resfriamento.
 - Qual resfriamento! Deixe-se disso e espere aí pelo criado.
Ele, embora reticente, acabou por conceder.
Dois dias depois coube-me a vez de prestar serviço na enfermaria dos homens. Numa das camas, o doente tinha a roupa arrepiada para a cabeça, como se tivesse frio. Peguei no dossier e perguntei ao enfermeiro:
 - Quem é este homem?
As mãos do doente afastaram os lençóis com brusquidão. E, de olhos injectados, vermelhos de febre e rancor, disse numa voz rouquejada, mal se percebendo as palavras:
 - Sou eu, senhor doutor! Tenho um catarral e é por sua culpa. Eu bem lhe disse que não se brinca com a água!
O homem teve realmente uma pneumonia.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

OLHAR AS CAPAS



Os Afluentes do Silêncio

Eugénio de Andrade
Capa: Armando Alves
Editorial Inova, Porto, Dezembro de 1968

Esta morte, assim sem mais nem menos, que um amigo me comunica, entala-se-me na garganta. «Morreu o Manuel Ribeiro de Pavia. Levou-o uma pneumonia que o foi encontrar depauperado por uma vida quase de miséria. Passava fome! Tinha uma única camisa! Não pagava o quarto há não sei quanto tempo! E nós a falarmos-lhe de poesia…» Assim é: passava realmente fome. Todos nós o sabíamos. E ele a falar-nos de pintura, de poesia, da dignificação da vida. É justamente nisto que residia a sua grandeza. Não falava da sua fome – de que, feitas bem as contas, veio a morrer. A fome não consta de nenhum epitáfio.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

OLHAR AS CAPAS



Cerromaior

Manuel da Fonseca
Capa: Manuel Ribeiro de Pavia
Editorial Inquérito, Lisboa Dezembro de 1943

Mas a maior parte dos camponeses já havia feito as compras e enchera as vendas do largo. De quando em quando, atraídos pelas gargalhadas dos que estavam de fora, chegavam às portas.
O motivo do riso era a loucura mansa do aguadeiro, já bêbado, de fralda de camisa fora das calças, ajoelhado diante do burro.
- O meu burro é um santo!
Cada domingo, a bebedeira trazia novos aspectos à doidice do Zé da Água. Perante as gargalhadas gerais, obrigava o burro a bater com as patas repetidas vezes no chão enquanto agitava ele os pés descalços, num compasso marcado.
Estavam dançando o fandango. Por fim parou. Um sorriso alvar escorria-lhe do rosto e dos olhos aguadas e era, num momento, substituído por tal expressão de espanto que os olhos mortiços se lhe abriam atónitos:
- Ganha-me o pão e ainda dança que nem um homem! Que é o meu burro?!...Continua a falar e o animal segue-o, rua acima. As bilhas vão escorrendo, duas de cada lado da albarda. De súbito, Zé da Água salta e dá punhadas no peito, enquanto grita para o largo: É mais esperto que vocês todos juntos! Ajoelha de novo, põe as mãos e atira a voz para as alturas: Nosso Senhor mo guarde!... 
Continua a falar e o animal segue-o, rua acima. As bilhas vão escorrendo, duas de cada lado da albarda. De súbito, Zé da Água salta e dá punhadas no peito, enquanto grita para o largo:
- É mais esperto que vocês todos juntos!
Ajoelha de novo, põe as mãos a atira a voz para as alturas:
- Nosso Senhor mo guarde!...
Mas os rapazes aparecem de todos os lados em grande alarido. Querem demorar a cena:
- Xô, burro! Aí, xô!
No largo e na rua ressoam risadas até o aguadeiro desaparecer.