terça-feira, 18 de setembro de 2018

OLHAR AS CAPAS



Cerromaior

Manuel da Fonseca
Capa: Manuel Ribeiro de Pavia
Editorial Inquérito, Lisboa Dezembro de 1943

Mas a maior parte dos camponeses já havia feito as compras e enchera as vendas do largo. De quando em quando, atraídos pelas gargalhadas dos que estavam de fora, chegavam às portas.
O motivo do riso era a loucura mansa do aguadeiro, já bêbado, de fralda de camisa fora das calças, ajoelhado diante do burro.
- O meu burro é um santo!
Cada domingo, a bebedeira trazia novos aspectos à doidice do Zé da Água. Perante as gargalhadas gerais, obrigava o burro a bater com as patas repetidas vezes no chão enquanto agitava ele os pés descalços, num compasso marcado.
Estavam dançando o fandango. Por fim parou. Um sorriso alvar escorria-lhe do rosto e dos olhos aguadas e era, num momento, substituído por tal expressão de espanto que os olhos mortiços se lhe abriam atónitos:
- Ganha-me o pão e ainda dança que nem um homem! Que é o meu burro?!...Continua a falar e o animal segue-o, rua acima. As bilhas vão escorrendo, duas de cada lado da albarda. De súbito, Zé da Água salta e dá punhadas no peito, enquanto grita para o largo: É mais esperto que vocês todos juntos! Ajoelha de novo, põe as mãos e atira a voz para as alturas: Nosso Senhor mo guarde!... 
Continua a falar e o animal segue-o, rua acima. As bilhas vão escorrendo, duas de cada lado da albarda. De súbito, Zé da Água salta e dá punhadas no peito, enquanto grita para o largo:
- É mais esperto que vocês todos juntos!
Ajoelha de novo, põe as mãos a atira a voz para as alturas:
- Nosso Senhor mo guarde!...
Mas os rapazes aparecem de todos os lados em grande alarido. Querem demorar a cena:
- Xô, burro! Aí, xô!
No largo e na rua ressoam risadas até o aguadeiro desaparecer.

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