segunda-feira, 24 de setembro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Soma

Hélia Correia
Capa: Arranjo gráfico sobre gravura de Cruz Filipe
Relógio d’Água Editores, Lisboa, 1987

Passava com o filho dois domingos por  mês e para eles convocava gripes e enxaquecas, na fuga dessas horas em que nada encontravam para dizer um ao outro- Aquilo a que se chama a voz do mesmo sangue perdera-se, sem eco, nem eles dabiam quando: de repente, uma tarde em que toda a linguagem se tornara impossível e uma antiga ternura se debatera entre eles como entre os lados deslizantes de um poço, numa mudez de bicho muito ferido, a afundar-se, a despedir-se para sempre; ou fora-se apagando aos poucos, devagar, desde o divórcio, emurchecendo como tudo a que a raiz falece, enquanto o rapazinho fabricava o seu mundo usando os materiais que lhe vinham à mão e onde não se incluíam, do pai, nem as palavras, nem os desejos, nem os preconceitos.

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