segunda-feira, 10 de setembro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde

Mário de Carvalho
Capa: José Serrão
Colecção: O Campo da Palavra
Editorial Caminho, Lisboa, Julho de 1995

Poucos vestígios da razia são hoje aparentes. É difícil acreditar que estas casas foram reconstruídas, após terem sido em grande extensão arrasadas. Quando esta geração morrer não ficará memória das alterações que em dias de desgraça ensanguentaram estas paragens. Restarão talvez anotações em livros que ninguém lerá, até serem, eles próprios, destruídos, pela crueza do tempo e desatenção dos homens, na melhor das hipóteses. Gozemos agora a paz, Mara e eu, e oxalá não se repitam até ao fim das nossas vidas as depredações que tivemos a desdita de presenciar. Ainda hoje olho com desconfiança quem venha do lado do Oceano. Mas será das praias que acorrem todos os perigos?
Outro dia fiquei estarrecido com o que vi. Era uma manhã agradável e fresca e, contra o meu costume, dei comigo a afastar-me e a deambular pela margem do rio. Debruçado sobre uma sebe, um escravozito apanhava amoras para uma sacola. Nem todas iriam parar à minha mesa, decerto. Habitualmente fecho os olhos a estas pequenas transgressões. As silvas dá-as a natureza, não exigem despesas nem cuidados. Procurei apenas manter-me à distância para que a criança não me visse e não ficasse inutilmente embaraçada. Em dado momento o garoto parou, sentou-se, encheu a boca de amoras, puxou de uma cana e começou a desenhar na areia: uma linha oblonga, outra linha oblonga com a mesma origem e que se afastava e curvava para seccionar a primeira. Uma terceira linha a unir o remate das outras duas. Um ponto: o olho do peixe.
«Quem te ensinou a desenhar isso?» O rapaz sobressaltou-se e olhou-me aterrorizado, com a boca entreaberta, arroxeada do suco das amoras. Nunca tinha visto o seu senhor tão ao perto. Eu devia parecer-lhe terrível, ameaçador, como Júpiter Trovante levantando-se de entre as nuvens. Ajoelhou-se e, com uma mão, estendeu-me instintivamente um punhado de frutos, enquanto com a outra mão protegia a cabeça: «Perdão, senhor!» Competia-lhe sentir-se em falta e não sabia bem de quê. «Responde: Quem te ensinou esse desenho?» Que tinha sido um cardador que passara por ali. «Dos meus?» Que não, meu senhor, que era homem forasteiro que ia de longada, com destino certo. E o gaiato tremia, continha o choro com esforço. A boca, tinta de amoras, dava-lhe um ar lastimoso, de mimo trágico. «Vai-te!» Desapareceu, correndo, por entre as urzes, deixando um rasto de bagas esbarrondadas pelo chão.

Pisoteei meticulosamente o desenho com as minhas botinas cardadas, até restar apenas uma lavra de areia remexida. Acto inútil. Não se apagam as realidades destruindo-lhes os símbolos. Talvez muitas milhas além, no caminho do cardador outros desenhos aparecessem e outras memórias fossem reavivadas. Estava extinta a congregação do peixe? Eu procurava convencer-me de que sim. Que sabia eu?

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