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sábado, 19 de setembro de 2026

SOLTAS


 Seis meses de guerra no Irão já custaram 43,6 mil milhões de dólares aos Estados Unidos.

1.

Voltamos ao vinho:


«Viticultores do Douro que deixem uva por vindimar receberão 1125 euros por hectare
viticultores que não encontrem comprador para as suas uvas e que, por isso, as deixem ficar nas videiras receberão um apoio máximo do Estado de 1125 euros por hectare, o que equivale a assegurarem escoamento para a produção de três pipas, pouco mais de 1500 litros de vinho, como de resto tinha antecipado o cronista Pedro Garcias, na rubrica que assina semanalmente na Fugas.

Os 12 milhões de euros do Governo para o Douro são uma ofensa e um desperdício
Chegou, finalmente, o dia da vergonha e da humilhação no Douro. Não foi nenhuma surpresa, não surgiu do nada. Estava escrito na pedra há muito tempo. Mas nem isso diminui a vergonha e a humilhação. Ficará para os anais: na vindima de 2026, no dia 4 de Setembro, o Governo de Portugal, liderado por Luís Montenegro e cujo ministro da Agricultura se chama José Manuel Fernandes, aprovou a concessão de 12 milhões de euros do Orçamento Geral do Estado para pagar aos durienses que deixem as uvas maduras na vinha.»

O curioso, assim como quem diz que é, o governo dá milhões de euros para que os viniticultores não apanhem as uvas, e nos supermercados, estamos a comprar uvas, vindas de toda a parte, menos Portugal, a preços incomportáveis e de qualidade duvidosa, enquanto as excelente uvas do Douro ficam a olhar a paisagem.

2.

Um leitor do Público, por causa do cómico Jerry Seinfeld, lamenta-se:

« Não me levam a mal, mas a conclusão de que Israel está a cometer genocídio consta dos relatórios da Comissão Independente da ONU, da Associação Internacional de Estudiosos do Genocídio, ou de organizações de direitos humanos como a Amnistia Internacional, o Centro Europeu de Direitos Constitucionais e Humanos, o Human Rights Watch, o Médecins Sans Frontières e ainda de prestigiadas ONG's israelitas como a B'Tselem e a Physicians for Human Rights. Também são da mesma opinião dois especialistas israelitas judeus: Omer Bartov, "I’m a Genocide Scholar. I Know It When I See It", NYT, e Amos Goldberg, "Holocaust Memory in a Time of Genocide". Sem dúvida há sempre jornalistas do Público e leitores aqui que o negam. Respeito as suas opiniões. Porém, nunca nenhum apresentou um estudo a apoiá-las.»

Pedro Tadeu no Diário de Notícias:

«Recordo, para quem ande esquecido, que esta posição de Seinfeld é discutida num contexto em que o Governo israelita massacra a população de Gaza, destrói as condições da sua sobrevivência e pratica atos que a Amnistia Internacional classificou como genocídio. A desproporção em relação aos ataques terroristas do Hamas de 7 de outubro de 2023 é evidente. Esses crimes não justificam matar civis, provocar fome ou destruir um território. As vítimas palestinianas não são responsáveis coletivamente pelos crimes do Hamas.»

3.

Um estudo da Marktest indica que três em cada quatro portugueses adultos consome bebidas alcoólicas.

4.

A electricidade fica mais cara em Outubro no mercado regulado por causa da guerra no Irão. São mais 0,005 euros por kWh, a aplicar a partir de 1 de Outubro de 2026.

5.

Portugal registou o maior aumento anual do custo da habitação entre 57 países analisados num estudo internacional, tendo-se verificado um aumento de 15,2% em apenas um ano, enquanto o preço das casas, em termos mundiais, caíu 1,2% no mesmo período.

sábado, 23 de maio de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Já mais de uma vez disse por aqui que o meu pai foi um marxista-leninista. 

Nas nossas conversas entendia que eu, acima de tudo, deveria ler Marx e Engels. Por Marx ainda li o que se entenderia (?) por fundamental, mais por o João César Monteiro ter escrito que no Marx está tudo.

A carne é fraca e li mais Raymond Chandler do que os clássicos marxistas, leninistas e estarei em condições de dizer que cheguei mais às ideias que hoje tenho lendo Sartre, Camus, Vailland, Vittorini, Roger Martin du Gard, tantos outros, do que clássicos da política.  

«A tese de que o fim da União Soviética e do bloco socialista europeu, entre 1989 e 1991, obrigaria os partidos comunistas a abandonar o marxismo-leninismo – defendida a partir de 1998 pelo malogrado Carlos Brito e que conduziu à sua ruptura com o PCP em 2000 – sempre me pareceu partir de um pressuposto errado: o de que o marxismo-leninismo teria como única expressão prática possível a experiência soviética. 

O marxismo-leninismo, criado depois da morte de Lénine, albergou projectos políticos muito diversos e até antagónicos. Em Portugal, além do PCP, existiram entre 1964 e 1976 pelo menos 40 organizações que se reivindicavam marxistas-leninistas. Na própria URSS a mesma designação serviu para fundamentar o “socialismo num só país” de Estaline, a desestalinização de Khrushchev, apresentada como “regresso a Lénine”, e a Perestroika de Gorbachev, descrita como renovação leninista do socialismo.

A elasticidade do conceito permitiu ainda legitimar experiências tão distintas como o maoísmo, que deslocou o eixo revolucionário para o campesinato em sociedades semicoloniais, ou o titoísmo jugoslavo, que combinou socialismo, mecanismos de mercado e autogestão operária. Na China, no Vietname, em Cuba e noutros países, o marxismo-leninismo serviu aplicações nacionais muito diferentes.

A ideia de que a adaptação do comunismo aos “novos tempos” exigiria a rotura com essa identidade contradiz a conceção antidogmática defendida por Lénine. Em múltiplos textos, Lénine insistiu que a teoria de Marx não era um “dogma morto”, nem um mapa detalhado do futuro, mas um “guia para a acção”. Essa flexibilidade permitiu-lhe defender a participação de comunistas em parlamentos burgueses ou criar a NEP de 1921, que reintroduziu mercado, comércio privado e iniciativa camponesa na jovem URSS.

Os partidos que se reivindicam marxistas-leninistas partilham alguns princípios: transição para o socialismo, subordinação dos meios de produção ao interesse colectivo, anti-capitalismo, anti-imperialismo, denúncia da exploração humana na democracia burguesa, partido de massas. Mas esses princípios nunca deram origem a uma institucionalização homogénea. Podem exprimir-se em sistemas políticos distintos, como também o capitalismo convive tanto com ditaduras como com democracias liberais.

A adaptação de partidos comunistas marxistas-leninistas às instituições da democracia representativa encontra, aliás, exemplo contemporâneo no programa do Partido Comunista Português. O PCP, o meu partido, define o marxismo-leninismo como a sua base teórica não dogmática. O seu projecto de “democracia avançada” para Portugal incorpora liberdades, pluralismo de opinião e organização política, sufrágio universal, separação e interdependência de poderes, liberdade de imprensa, direito à formação de partidos e protecção jurídica dos direitos individuais e coletivos dos cidadãos.

Esta compatibilidade funda-se na ideia de que a luta pelo socialismo passa pelo aprofundamento da democracia política, económica, social e cultural, sem renúncia ao objectivo de uma sociedade sem exploração.

É por isso que me parece que Carlos Brito e os camaradas que a partir de 1998 o apoiaram na reivindicação do fim do marxismo-leninismo no PCP estavam errados: é que discutir a democracia interna no PCP, que é um tema que deve estar sempre em cima da mesa, nada tem a ver com o fim do marxismo-leninismo, pelo contrário.»

Pedro Tadeu no Diário de Notícias

sábado, 14 de fevereiro de 2026

À LUPA

«Quase todos os anos contamos os mortos por incêndios e as duas últimas semanas de tempestades mostraram, mais uma vez, com o custo direto ou indireto de, pelo menos, 15 mortes, milhares de desalojados e a destruição de milhões e milhões de euros em bens, a fragilidade das defesas do país perante ataques ambientais - e como não investimos seriamente no seu combate e prevenção. Mas, ao que parece, vamos gastar 5% do nosso PIB para nos defendermos de um improvável ataque russo...

Ah! Há uma coisa em que somos bons: demitimos um ministro de vez em quando, para acalmar a população.»

Pedro Tadeu no Diário de Notícias

domingo, 4 de janeiro de 2026

DISTO, DAQUILO E DAQUELOUTRO


 Requisitámos trabalho para o Mourad e a Aishe  limparem a casa para a festa de Ano Novo que vamos dar.

A festa inclui duas pessoas a comer salada de batata e umas salsichas saborosas.

Não tenho a certeza se as duas pessoas vão aguentar ficar acordadas até à meia-noite, mas vamos ver o que acontece.

Porque comemoramos a passagem de ano em frente à televisão.

Se sobrevivermos até à meia-noite, talvez bebamos uma taça de champanhe ou talvez tenhamos começado a dormir mais cedo, então, sem champanhe.

1.


Lisboa perdeu mais 12 ecrãs de cinema com o encerramento, no final de 2025, do complexo Alvaláxia, explorado pela Nos Cinemas. É uma dúzia de salas perdidas que se junta aos 37 outros ecrãs apagados em várias cidades do país no ano passado, entre os quais cinco em Portimão, e aos nove que estão a caminho de encerrar em Vila Nova de Gaia.

2.

O secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, manifestou na passada quarta-feira repúdio pelas recentes notícias de exonerações de administrações hospitalares, acusando o Governo de actuar por razões "estritamente de natureza política".
O governo vai afastar a administração da Unidade Local de Saúde (ULS) de São José em Lisboa e vai escolher um militante do PSD para o cargo. O mesmo vai suceder com a ULS de Coimbra.

3.

«Segundo a ONU, até novembro de 2025 mais de 69 mil palestinianos foram mortos e cerca de 170 mil feridos pelos bombardeamentos em Gaza ocorridos depois de um ataque terrorista perpetrado pelo Hamas a 7 de outubro de 2023, que matou 726 civis bem como 379 militares e polícias israelitas.

A resposta desproporcional de Israel ao terrorismo, assim quantificada, foi objetivamente uma carnificina, um autêntico genocídio, como muitos o classificam.

A entrada em vigor do acordo de paz entre Israel e o Hamas negociado em outubro deste ano por Donald Trump retirou do foco mediático a situação humanitária no território palestiniano, mas a ONU voltou a fazer soar o alarme, perante a indiferença ocidental.»

Pedro Tadeu no Diário de Notícias

4.

Os Estados Unidos invadiram a Venezuela para prender o ditador Nicolás Maduro e fazer o seu julgamento nos Estados Unidos.

Donald Trump disse que com este acto militar apenas pretende o petróleo venezuelano e instalar companhias norte-americanas para renovar o parque de extracção de petróleo que se encontra praticamente degradado.

Não se sabe o que seguirá mais: a Colômbia, Cuba...ah! sim, a Gronelândia?

Dizer ainda que este nosso mundo não só está mais perigoso como caminha precipitadamente para o abismo!

sábado, 2 de agosto de 2025

A AR VAI DEIXAR PASSAR ISTO?


Foi depressa! Ora aí está um novo Código do Trabalho que o Governo levou já cozinhado para a Concertação Social e onde o serviu sob o quase inocente nome de “Trabalho XXI”.

Vou listar apenas algumas das medidas que significam perdas claras para o lado do trabalho e, consequentemente, o favorecimento da “economia”, forma moderna e errada de dizer “capital”.

Se isto passar, a contratação coletiva será ainda mais fragilizada. Se um contrato coletivo caducar (a intenção é que eles durem no máximo 12 meses) e o patronato recusar negociar um novo, não haverá aumentos salariais mínimos nem regulação de carreiras para todo esse sector de atividade, podendo até ser eliminado o que estava estabelecido no anterior contrato.

Se uma empresa declarar estar em crise, poderá suspender temporariamente a aplicação da convenção coletiva, o que transforma estes contratos numa espécie de verdade virtual. Ou seja: se isto passar, só haverá contratos coletivos se o patronato quiser.

Hipocritamente, o preâmbulo da proposta apresentada diz que assim se vai “dinamizar a contratação coletiva”.

Teremos ainda mais facilidades nos despedimentos: nas micro, pequenas e médias empresas (que representam cerca de 78% dos empregados deste país), ele passará a ser um processo simplificado.

Se isto passar e se um despedimento for considerado ilícito pelo tribunal, as empresas poderão pagar uma quantia para não readmitir o trabalhador.

O Governo propõe ainda “revogar o mecanismo de fiscalização e suspensão do despedimento ilícito, promovido pela ACT junto do Ministério Público”, fragilizando gravemente a proteção do trabalhador despedido.

Ah! E uma empresa que despeça pode contratar em outsourcing alguém que faça o trabalho de quem foi despedido.

Teremos alterações à Lei da Greve, que sairá enfraquecida, com maiores exigências de serviços mínimos e a sua aplicação em novos sectores de actividade.

Teremos também o regresso do banco de horas e a possibilidade de impor horários de trabalho “anormais”, mesmo a quem tem responsabilidades familiares.

Teremos ainda o fim da proibição da anulação dos créditos laborais. Isto significa que se um trabalhador tiver salários em atraso, subsídios de Natal, de férias ou indemnizações a receber, a empresa terá um caminho legal aberto para tentar não pagar essas dívidas.

Teremos mais possibilidades e maior duração nos contratos a prazo, bem como o alargamento do âmbito dos contratos de trabalho de muito curta duração.

E teremos, ainda, pura antipatia: passa-se a exigir um atestado médico de seis em seis meses e reduz-se o tempo total de dispensa no emprego para amamentar ou aleitar bebés e piora-se o acompnhamenro paternal aso filhos recem-nascidos.

Luís Montenegro e a AD estão, portanto, em grande. Agora, com amplas hipóteses de garantirem apoios dos partidos à direita, seja do Chega, seja da Iniciativa Liberal, seja de ambos ­- ou até à sua esquerda, do ziguezagueante Partido Socialista - há todo um cardápio de leis ideológicas, como esta, que segue em frente.

Na Concertação Social o patronato estava todo contente, mas CGTP e a UGT já recusaram esta lei laboral. Será que o Governo leva o documento ao Parlamento e, mesmo assim, aprova-o?

Pedro Tadeu no Diário de Notícias

sábado, 12 de julho de 2025

NOTÍCIAS DO CIRCO

«Depois de, em abril do ano passado, o Governo ter prometido aplicar um plano de 100 dias para a Saúde - completamente fracassado - a ministra Ana Paula Martins anuncia agora uma reorganização das urgências. Quem acredita nela?»

Pedro Tadeu no Diário de Notícias

sexta-feira, 30 de maio de 2025

NOTÍCIAS DO CIRCO

«A apresentação oficial da candidatura de Gouveia e Melo à Presidência da República mostrou, nas nossas televisões, uma vasta corte de aduladores do almirante, que faz lembrar as caricaturas queirosianas e camilianas do século XIX: um batalhão de burgueses bajuladores e um pelotão de políticos oportunistas que sentem ali o cheiro a poder e tratam de se mostrar rapidamente ao lado de quem parece estar à beira de influenciar muita coisa no futuro próximo deste país.

Um vídeo introdutório apresentou o candidato como sendo um homem “rigoroso” e “muito disciplinado”, o que é contraditório com tudo o que ele fez na aplicação dessa mesma disciplina e rigor aos marinheiros do NPR Mondego que recusaram cumprir uma missão, por o navio não estar em condições de navegar. Gouveia e Melo abriu processos disciplinares, depois de os humilhar publicamente frente às televisões, sem cumprir o rigor da lei, nem as regras da disciplina que ele próprio teria de cumprir para aplicar sanções a subordinados e, no final, passou pela vergonha de os tribunais anularem as suas decisões. Ele diz que se quer dar ao respeito, mas não respeita o que devia respeitar.»

Pedro Tadeu no Diário de Notícias

sexta-feira, 4 de abril de 2025

UM COMBOIO PODE ESCONDER OUTRO

Em 100 anos a lista de pensadores pessimistas sobre os efeitos desta aceleração da história cada vez maior e mais ampla cresce igualmente a grande velocidade mas, apesar de todos os avisos, de todos os diagnósticos e de todas advertências, nada desacelera, nada pausa, nada corrige a rota.

Talvez estes pessimistas estejam totalmente errados mas, se olhar para as notícias das últimas semanas, entre as reações às taxas alfandegárias de Trump e o kit com canivete suíço da Comissária Europeia Hadja Lahbib; entre mais matanças de palestinianos e o descarado saque das riquezas da Ucrânia; entre a corrida aos armamentos e a ameaça da guerra nuclear; entre a degradação da democracia e o prenúncio norte-americano de ocupação da Gronelândia; entre líderes da União Europeia claramente estupidificados e líderes portugueses significativamente alienados... parece-me que, pelo menos, esta conclusão é válida: neste mundo acelerado pelo maravilhoso comboio do capitalismo digital, a velocidade estonteante de más decisões políticas está, com grande rapidez, a levar-nos ao descarrilamento global.»

Pedro Tadeu no Diário de Notícias

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

NOTÍCIAS DO CIRCO

Pedro Tadeu perguntava, ontem no Diário de Noticias:

«Podemos confiar nos políticos com imobiliárias?»

Não, não podemos, e temos sempre aquele travo amargo de, também, não podermos confiar nos políticos.

Enquanto ministro, Cavaco Silva disse um dia:

"Para serem mais honestos do que eu têm que nascer duas vezes".

 Para depois virmos a saber o que se passou com o BPN para além de afirmar  que o BES, já em falência, era um banco em que os portugueses podiam investir.

Há breves semanas, o primeiro-ministro, na Assembleia da República, acossado por uma moção de censura colocada por «aquela coisa», disse quase o mesmo e, hoje o Expresso coloca na primeira página que «O grupo Solverde paga à empresa da família de Luís Montenegro, a Spinumviva, uma avença mensal de 4500 euros desde julho de 2021 a troco de um conjunto de “serviços especia­lizados de compliance e definição de procedimentos no domínio da proteção de dados pessoais».

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

A LEVEZA TERRÍVEL DAS SUSPEITAS MONTEGRINAS


Alguém disse ao primeiro-ministro Montenegro que, nos cafés da província se diz que os incêndios são despoletados por uns tolos, por gentes sem qualquer ponta de escrúpulos que querem de qualquer maneira arranjar uns cobres para a droga, para o vinho, amalucados pagos por madeireiros.

E Montenegro, com Marcelo ao lado, pôs a pata na poça, e disse ao povo que o governo não daria descanso a esses energúmenos.

Daniel de Oliveira no Expresso:

«Montenegro conseguiu que tudo o que é político, do ordenamento do território à invasão do país pelo eucalipto, da economia da floresta às falhas iniciais destes incêndios, desaparecesse. Sem perguntas, com o Presidente como escudo e a ministra da Administração Interna fechada numa cave durante os dias mais críticos, fez do fogo posto o tema central, lançando suspeitas vagas e prometendo substituir-se à polícia. Assim, o Governo passou de ator político a vítima do crime, desviando as atenções para o que enoja todos. Em comparação com 2017, demonstra génio na comunicação política. Mas isso chega?»

Pedro Tadeu no Diário de Notícias:

« O antigo primeiro-ministro António Costa governava quando ocorreu uma enorme tragédia com incêndios. Todos sabemos que nesse ano de 2017, somando os incêndios em Pedrógão Grande, Oliveira do Hospital, Tábua, Arganil e outros, contaram-se 116 mortes.

Com o país em estado de choque, o então primeiro-ministro António Costa, apoiado pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, prometeu uma verdadeira revolução na gestão florestal para a tornar mais resistente aos fogos; anunciou a obrigatoriedade dos proprietários rurais cortarem, todos os anos em maio, o mato que estivesse próximo de habitações; criou operações de limpeza e de abertura de faixas de contenção no meio do arvoredo; prometeu um grande recenseamento dos terrenos para se saber quem era dono do quê e para planear emparcelamentos que facilitassem a conservação dessas áreas; modificou o funcionamento da Proteção Civil e a sua ligação aos bombeiros criando uma entidade especializada no combate a fogos rurais; garantiu, na União Europeia, o apoio de reforços aéreos de combate a incêndios sempre que fosse preciso; lançou não sei quantas campanhas de sensibilização e vários sistemas de avisos das populações sobre incêndios, que foram da publicidade institucional às mensagens telefónicas que nos perturbam os telemóveis.Tivemos, depois desses e de outros anúncios, seis anos de relativo sossego florestal.

Sete anos depois vejo na televisão o atual primeiro-ministro, Luís Montenegro, apoiado pelo Presidente da República, o mesmo Marcelo Rebelo de Sousa de 2017, consternados com as, até agora, sete mortes provocadas pelos incêndios dos últimos dias.»

quarta-feira, 22 de maio de 2024

NOTÍCIAS DO CIRCO

Um presidente da Assembleia da República enredado num mar de contradições. Como diria um dos meus netos está a escorregar na maionese.

Mas...

É importante ler o artigo que Pedro Tadeu escreve hoje no Diário de Notícias. 

O «link» do artigo fica aí mas deixo alguns tópicos:

 «Por exemplo: se podem ser proibidas no Parlamento declarações racistas ou xenófobas, porque não podem ser proibidas frases que ponham em causa a honra de um governante? Ou que acusem um país “amigo” de cometer genocídio? Ou que defenda o pagamento de indemnizações a países estrangeiros? Ou que acuse os banqueiros de explorarem a população? Ou que defendam o comunismo para Portugal?...

 Há uma deriva censória no poder Ocidental que atinge a esquerda e a direita e, por isso, a defesa da liberdade de expressão, mesmo quando beneficia um fascista, é prioritária.

E os racistas? A única solução é deixá-los falar (até para não haver ilusões de que eles não existem) mas, ao mesmo tempo, não parar de combatê-los - e aí Aguiar-Branco tem responsabilidades, pois podia, evidentemente, ter criticado André Ventura pelo que ele disse.

 Aguiar-Branco tem razão em defender a liberdade de expressão dos deputados, mas também, por não o admoestar quando ele diz desumanidades, está a ser cúmplice de André Ventura.

Deitar fora o bebé com a água do banho. É este o perigo do debate corrente acerca dos limites da liberdade de expressão e da promoção do racismo e da xenofobia nas instituições democráticas.»

quarta-feira, 17 de abril de 2024

NOTÍCIAS DO CIRCO


 O título pertence ao Público do dia 21 de Março.

Mediante a afirmação Montenegrina, no dia 2 de Abril, o Presidente da República deu posse ao XXIV Governo Constitucional.

Desde então temos assistido a uma série de situações que permitem concluir que o governo tem realmente maioria para exercer a governação, mas falta-lhe humildade, bom senso, competência, algo mais.

Tem-se revelado um governo amante de truques e magias com uma sucessão de casos que permitem ter a ideia que o governo está a fazer tudo para proporcionar a sua queda.

Isso mesmo conclui Pedro Tadeu, hoje, no Diário de Notícias.

quarta-feira, 6 de março de 2024

POR QUE VOTOU VOTAR NA CDU?

Os leitores que fazem o favor de lerem os meus artigos no Diário de Notícias sabem que, sempre que o assunto que abordo justifica, na minha ótica, essa clarificação, assinalo a minha militância no Partido Comunista Português.

Penso que um jornalista, se sente esse impulso cívico, não deve prescindir de participar na vida partidária que está acessível à generalidade dos cidadãos.

Não aceito, aliás, que um jornalista, para o poder ser, passe a ter direitos políticos limitados, seja por ser considerado um cidadão menor ou, contraditoriamente, por ser visto como alguém com acesso a poderes excessivos.

Também não aceito que a militância partidária comprometa, a priori, a minha credibilidade jornalística.

Em primeiro lugar porque não acredito em jornalistas ideologicamente isentos, tenham ou não um partido: toda a gente pensa, vê, ouve e sente o mundo dentro de um determinado quadro intelectual, emocional, cultural e ideológico e, por isso, o jornalista reflete essa moldura mental no seu trabalho.

Em segundo lugar porque acredito em jornalistas de espírito independente e que essa independência pode sobrepor-se ao quadro ideológico interiormente adquirido, que lhes impede a tal isenção “pura e dura”, que nunca é alcançável, mas que, utopicamente, devem sempre perseguir.

Acontece que este é um artigo de opinião, não é uma notícia, não é uma reportagem, não é uma análise (que é coisa diferente de “opinião”, embora esta possa conter análise). Esses géneros jornalísticos exigem, na minha forma de entender a profissão, um “apagamento”, na medida do possível, das convicções pessoais do jornalista.

Num artigo de opinião, pelo contrário, o que é relevante é, precisamente, a convicção pessoal do articulista - e é por isso que volto a informar os leitores da minha militância partidária.

Vou, portanto, no próximo dia 10 de março, votar na CDU, a coligação de que faz parte o tal partido em que milito, o PCP.

Porquê?

Por acaso há uma razão primordial, que ultrapassa a questão de eu ser ou não ser militante do PCP: eu acho que a sociedade portuguesa, 50 anos depois do 25 de Abril, precisa de uma revolução, que elimine as injustiças e as corrupções entretanto feitas às visões de uma democracia social e de uma comunidade livre que motivaram a Revolução dos Cravos.

Esclareço, porém, que ser-se revolucionário no Portugal de 2024 não significa o mesmo que significava em 1974, mas, ao mesmo tempo, resulta da evolução natural das ideias revolucionárias dessa época que se sintetizavam no refrão de uma canção de Sérgio Godinho, isto é, nas palavras Paz, Pão, Habitação, Saúde, Educação.

O PCP quer a paz no mundo de hoje como queria em 1974: nessa altura exigia o fim da Guerra Colonial, da corrida aos armamentos, da confrontação entre blocos, pugnava pela autodeterminação dos povos. Continua a fazê-lo em 2024, seja na Ucrânia, seja na Palestina, seja em qualquer parte do mundo onde haja milhares de mortos, recusando a seletividade contraditória da conveniência política e eleitoral em que os outros partidos caiem.

O PCP lutava em 1974 pelo pão para todos, tal era a miséria vinda do Estado Novo, como luta agora em 2024 por algo mais do que esse mínimo dos mínimos de há meio século, recusando compromissos e “meias-tintas” na noção de “igualdade” ou de “direitos” que outros partidos subscrevem.

O PCP recusava em 1974 que a habitação, a Saúde e a Educação fossem bens para privilegiados, como recusa em 2024 que sejam negócios que aprofundem o fosso entre favorecidos e desprotegidos, exigindo também que o mundo do trabalho tenha um poder determinante na definição dos destinos do país, ao contrário das cedências excessivas ao poder capitalista que quase todos os outros partidos aceitam ou defendem.

Mas então, o que traz de revolucionário o PCP às eleições de 2024 se, basicamente, defende as mesmas causas de 1974?

Traz isto: o PCP é o único partido que defende as suas ideias sem rodeios de linguagem, mas também sem exageros de retórica. Ninguém é enganado com o que o PCP diz. O PCP exprime o que pensa, mesmo que isso lhe custe votos ou, até, o acesso ao Parlamento - este facto, na ditadura do jogo de ilusões que faz a política dos dias de hoje, tem um caráter revolucionário... e é mais uma razão para eu votar na CDU, porque o PCP, sempre lutador, é, serenamente, o único partido revolucionário que resta em Portugal.

 

Pedro Tadeu no Diário de Notícias de hoje             

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

NOTÍCIAS DO CIRCO

«O ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, João Gomes Cravinho, imitando o que outros ministros europeus fizeram na sequência da morte, tremendamente suspeita, de Alexei Navalny, opositor do presidente russo Vladimir Putin, chamou o embaixador da Rússia ao seu ministério para que fossem prestados esclarecimentos... Muito bem!

O ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, João Gomes Cravinho, que se saiba, ainda não chamou ao seu ministério o embaixador de Israel no nosso país para pedir esclarecimentos sobre a morte de 10 mil a 30 mil civis (conforme as fontes) e o valor de quase dois milhões de deslocados, imensas vítimas inocentes provocadas pela retaliação de Israel ao ataque do Hamas de 7 de outubro que, por seu lado e perante indignação geral, matou 1200 pessoas... Muito mal!»

Pedro Tadeu no Diário de Notícias de hoje.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

A IMPRENSA PRIVADA TEM FUTURO?

 

A imprensa privada portuguesa, por falta de capital, não consegue, neste momento, garantir uma cobertura noticiosa permanente, nobre e diversificada de todo o país, não trabalha para a coesão do território. Limita-se, quando o faz, a acompanhar matérias de crimes, acidentes, tragédias e alguns fait-divers.

A imprensa privada portuguesa, por falta de capital, não consegue noticiar consistentemente a atividade de vários parceiros sociais: das universidades, dos sindicatos, das associações patronais, das instituições de solidariedade social, das igrejas, dos movimentos ecologistas, antirracistas, de proteção dos direitos dos deficientes, das coletividades de cultura e recreio, das associações desportivas e das modalidades desportivas que estão fora do futebol, de muitas outras áreas de atividade que mobilizam inúmeros portugueses e são ignoradas na esmagadora maioria dos jornais e nos respetivos sites.

A imprensa privada portuguesa, por falta de capital, quase só notícia a atividade e o conflito político autárquicos quando o Ministério Público faz o favor de anunciar a abertura de um inquérito judicial a um presidente de Câmara.

O Portugal da imprensa privada acompanha bem a atividade palaciana do grande poder político-económico e dos seus satélites, das maiores instituições públicas e privadas, das vedetas e dos VIP, do que está em voga nas elites, mas não noticia o Portugal dos portugueses comuns.

A imprensa privada portuguesa, por falta de capital, não consegue acompanhar o ritmo da atividade, por todo o país, protagonizada por milhares de artistas e intelectuais, em milhares de produções de espetáculos, de exposições, de eventos, de lançamentos de livros, de edições musicais, de conferências, omitindo múltiplas tendências culturais e cívicas da sociedade. Mas acompanha bem fenómenos mediáticos transnacionais, nomeadamente de origem anglo-saxónica.

A imprensa privada portuguesa não consegue garantir, de forma crónica, apesar do esforço das suas redações e de algumas iniciativas editoriais inovadoras, uma participação própria nas redes sociais que seja um mecanismo eficaz contra a proliferação do boato, das campanhas de ódio e da desinformação.

 A imprensa privada portuguesa, quase toda, por falta de capital, não cobre com qualidade, persistência e profundidade o noticiário de um grande número de países de língua portuguesa, nem das comunidades portuguesas radicadas no estrangeiro.

 A imprensa privada portuguesa não tem um papel central na defesa e na promoção da nossa língua.

 A imprensa privada portuguesa não cobre diária e sistematicamente o noticiário interno de cada um dos países da União Europeia. Reproduz sem contraditório as decisões das cúpulas institucionais da União Europeia, nem fiscaliza o seu imenso poder. Acaba por dar mais noticiário norte-americano do que de países europeus.

 A imprensa privada, quase toda, não consegue libertar-se da dependência da banca, do setor financeiro, dos anunciantes das grandes empresas, o que limita a sua independência editorial.

 A imprensa privada portuguesa, por falta de capital, não consegue, há já muitos anos, garantir postos de trabalho e contratos equilibrados entre as várias profissões e as várias funções envolvidas no jornalismo, com muitos contratos a prazo, muitos salários degradados, alguns exageradamente inflacionados, múltiplos despedimentos coletivos e muitos outros seletivos. E, agora, já nem consegue pagar ordenados a tempo e horas...Se, por milagre, a imprensa privada portuguesa, toda ela, arranjasse depressa o capital que lhe falta, garantiria o seu futuro, mas a viabilidade económica desses projetos implicará sempre recusar fazer muitas das missões informativas que, por imperativo financeiro, foram abandonadas há já vários anos...

 Neste momento, a propósito da crise no Global Media Group e da realização do Congresso dos Jornalistas, que começa amanhã, volta a discutir-se a possibilidade de haver jornais de serviço público ou de propriedade do Estado. Mas o debate está envenenado por se focar nas mesmas questões que se discutiam em 1991, quando o DN, onde escrevo, voltou a ser privado.

A realidade é completamente diferente, as necessidades da sociedade atual são outras e, simplesmente, a imprensa privada não consegue, nem nunca conseguirá, cumprir plenamente a missão que antigamente se esperava dela. Tem outro papel, fulcral, importante e necessário, mas deixa uma lacuna no país. É por isso que a ideia de um jornal de serviço público, que faça o que privado não pode fazer, deveria ser discutida sem preconceitos anacrónicos.

Pedro Tadeu no Diário de Notícias de hoje 

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

NOTÍCIAS DO CIRCO

«António Costa foi um mau primeiro-ministro, mas Passos esteve, no mínimo, ao mesmo nível.

PS e PSD, que controlam este país há quase 50 anos, antes de atirarem pedras aos telhados um do outro deviam lembrar-se dos seus próprios telhados de vidro.»

Pedro Tadeu no Diário de Notícias de hoje.

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

NOTÍCIAS DO CIRCO

Portugal é um enorme buraco e não se consegue vislumbrar qualquer ponta de retorno que permita que nos tornemos um país, minimamente decente.

Para além de outras coisas, péssimas coisas, Ricardo Araújo Pereira põe um dos dedos nas muitas feridas que nos rodeiam:

«Portugal abusa na bandalheira e André Ventura ganha com este lamaçal. Isso é imperdoável.»

1.

António Costa é um dos políticos mais experientes do círculo português mas custa a crer como se rodeou de ministros e colaboradores que deixam, em todos os sentidos, muito a desejar.

Por causa do ministro João Galamba arranjou uma guerra tão estutúpida, como inútil, com o Presidente da República que sempre entendeu que Galamba não tinha condições para ser ministro e António Costa insistiu em mantê-lo.

Agora o ministro das Infraestruturas apresentou um pedido de demissão do cargo ao primeiro-ministro. Na última sexta-feira, na Assembleia da República, o governante tinha afastado este cenário, mas justifica agora a decisão como a "única possível" para assegurar à família a "tranquilidade e discrição a que inequivocamente têm direito", isto apesar de entender que "não estavam esgotadas as condições políticas de que dispunha" para exercer funções.

 «O trabalho feito, os seus bons resultados e o desempenho das minhas funções com absoluto respeito pela lei e com total dedicação ao País e aos portugueses são, em meu entendimento, as condições políticas necessárias para o desempenho de funções governativas", defendeu, num comunicado em que alerta também que esta demissão "não constitui uma assunção de responsabilidades quanto ao que pertence à esfera da Justiça e com esta não se confunde".»

António Costa acumulará o cargo de ministro das Infraestruturas.

 2.

 Tão cedo não iremos saber o que se passou com Mário Centeno, António Costa e Marcelo rebelo de Sousa. Apenas ressalta que é um péssimo número que nos deixa no meio da risota do circo, nacional, europeu, talvez mundial.

 3.

O jornalista Pedro Tadeu perguntava, ontem, no Diário de Notícias se podemos confiar no Ministério Público:

«A pergunta que deixo é esta: Não podendo, nem devendo, a política meter-se no trabalho da Justiça, que penalizações a própria Justiça aplicou aos responsáveis por erros, omissões, incompetências, demoras, desleixos, teimosias e atropelos ao bom senso que, como é evidente, sempre que um caso é mediático, sistematicamente os investigadores judiciais cometem?... Que fizeram sobre isso, por exemplo, o Conselho Superior do Ministério Público ou o Conselho Superior da Magistratura?

E já nem falo das violações de segredo de justiça que, em todos estas situações, aconteceram e que arruinaram a reputação pública de alguns inocentes.

Se o Ministério Público quer que confiemos nele, tem de fazer Justiça a si próprio.»

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

A MEIGUICE É UMA ARMA?

Quando Cátia Mazari Oliveira, aliás "A Garota Não", iniciou a leitura de um poema que escreveu para agradecer a atribuição do Globo de Ouro para Melhor Intérprete da 27.ª edição da iniciativa da SIC, arrancou uma primeira reação de aplauso do público no quarto dos 12 versos desse texto, quando disse: "Saibamos agradecer aos bancos os juros que nos cobram na habitação."

Na véspera desta cerimónia, intitulada de gala, milhares de pessoas mobilizaram-se para acorrerem, numa vintena de cidades, a manifestações pelo direito à habitação. Em Lisboa e no Porto foram mesmo grandiosas.

Viram-se cartazes com linhas deste tipo:

"Os nossos bairros não são os vossos negócios";

"Sob a capa do desenvolvimento e do novo capital a angústia é social";

"Se não há habitação existe direito à okupação"

...entre muitas outras no mesmo tom, várias delas comparando salários muito baixos com elevados preços de arrendamentos ou de prestações a pagar aos bancos.

Há uma naturalidade hiperbólica na mecânica das manifestações políticas e sociais: às frases fortes dos cartazes, diretas e acusatórias, junta-se o grito de palavras de ordem reivindicativas, o apupo aos poderosos ou oponentes políticos, o cântico de históricas canções de protesto, a exigência de soluções imediatas e, até, a ameaça do recurso à violência desesperada - tudo isso é normal, neste enquadramento democrático, há já muitos anos (em Portugal há quase 50).

Quando A Garota Não, no palco brilhante, frívolo e luxuoso do Coliseu dos Recreios, disse, na mesma voz meiga com que canta a sua arte, a frase "Saibamos agradecer aos bancos os juros que nos cobram na habitação" simbolizou com serenidade a reivindicação, o grito, o apupo, o cântico, o desespero dos manifestantes das ruas do país, assustados com a escuridão de um cenário de miséria que lhes enquadra uma vida demasiado real.

Cátia começou por dizer que vinha do Bairro 2 de abril (que é, também, o nome do seu segundo LP), em Setúbal, talvez com a intenção de explicar que sentia que o mundo dela era mais o da gente lá de fora do que a daquele planeta que a homenageava. Mas procurou a adesão das pessoas que estavam à sua frente, não as alienou, o que seria arrogante e mal-agradecido. Procurou antes que aqueles homens vestidos de smoking e aquelas mulheres de vestido de noite, talvez indiferentes ou até críticos das preocupações e posições políticas e sociais expressas em muitas das suas cantigas, tivessem, pelo menos, uma hipótese de sentirem empatia com as motivações da cantautora.

 A ovação final parece comprovar que até houve mais do que isso, houve mesmo identificação entre plateia e oradora. Ela conquistou-os. Mais importante que isso: mais de um milhão de pessoas, na TV, foi também envolvida por esse ambiente e essa aprovação.

Numa entrevista ao site Setenta e Quatro, Cátia disse que se sente mais uma cantora inconformada do que uma cantora de intervenção...

Eu acho que ela é uma cantora de protesto. Disse até, num programa de rádio que faço na Antena 1, que A Garota Não "representa uma inovação na canção de protesto portuguesa, quer na forma musical e interpretativa, quer nos textos que escreve ou escolhe para interpretar, quer na maneira como se apresenta em palco ou como fala com o público.

Ela é clara nas posições que toma, mas, ao mesmo o tempo, recusa ser agressiva com o ouvinte ou o espetador - o protesto, a denúncia, a indignação estão lá, mas estão subordinados à sensibilidade, ao humanismo, à dignidade, à ternura e à liberdade com que quase todos nós, naturalmente, nos identificamos".

Para José Mário Branco, há 50 anos, a cantiga era uma arma onde, dizia a letra da música com esse nome:

"Tudo depende da bala

E da pontaria

Tudo depende da raiva

E da alegria."

Para A Garota Não, cantora de protesto em dias onde a raiva é a bala de prata da injustiça social, a meiguice é a melhor arma das suas canções.

PS: Deixo, para registo, o texto que foi lido por Cátia Mazari Oliveira:

"Vivemos o tempo dos Budas, das flores de plástico e das cómodas douradas,

E rimos muito alto, por cima da música alta das esplanadas.

Vivemos o tempo da Kombucha, do coaching, das soft skills e da gratidão;

Saibamos agradecer aos bancos os juros que nos cobram na habitação.

Vivemos o tempo mais corrido de sempre,

Das metas, dos objetivos, do "nem que me esfarrape";

Não há esforço que não valha a pena, seremos todos Luft, Tap.

Vivemos tempo de maioria absoluta, de posso e mando, de meritocracia.

O mérito mede-se a partir dos dentes, das notas do colégio ou da demagogia.

Obrigada por esta oportunidade, um Globo de Ouro nas mãos de um ser tão falho.

Há quem tenha muita sorte.

A sorte, a mim, tem-me dado muito trabalho."

Pedro Tadeu no Diário de Notícias

quarta-feira, 12 de julho de 2023

JOSÉ LUÍS CARNEIRO NÃO FOI CHARLIE?


 «O ministro José Luís Carneiro declarou, placidamente, como se fosse a coisa mais normal deste mundo, ter telefonado diretamente ao presidente do conselho de administração da RTP, a televisão pública, para "manifestar desagrado" (cito as palavras usadas pelo próprio) com um cartoon animado que caricaturava o suposto racismo da polícia francesa, na sequência dos acontecimentos que geraram vários dias de motins, mas cujo desenho foi entendido por alguns como sendo também uma acusação à polícia portuguesa.

 O ministro José Luís Carneiro, que tutela as polícias, talvez tenha sentido que essa era a sua obrigação, que tinha de defender a imagem dos polícias portugueses, mas para o fazer usou algo que liquida a sua própria credibilidade democrática - abusou da autoridade que o cargo de ministro da Administração Interna lhe confere.

 É verdade que os Estatutos da RTP dão aos diretores de Informação toda a autonomia e responsabilidade editorial do jornalismo da RTP, sendo teoricamente imunes a interferências do próprio conselho de administração, quanto mais do governo.

 Na programação, a força formal dessa blindagem não existe. Porém, para além do próprio conselho de administração, há estatutariamente vários órgãos que lateralmente podem verificar se a RTP está a cumprir na programação os requisitos do serviço público que presta, como o conselho geral independente e o conselho de opinião.

 A ERC e a própria Assembleia da República também podem pronunciar-se, dentro dos limites da regulamentação existente, sobre o que anda a televisão pública a fazer.

Há ainda provedores de espectadores, instituídos pela própria estação, que fazem análise crítica ao conteúdo das emissões.

 Nada na comunicação social portuguesa é tão escrutinado como o conteúdo da RTP, televisão e rádio, Isso acontece todos os dias, e ainda bem que é assim.

Mas ninguém do governo, enquanto tal, tem enquadramento legal para fazer o que José Luís Carneiro disse que fez. Nem, sequer, o ministro da tutela - e esta distância entre a televisão pública e o executivo foi algo duramente construído ao longo de quase cinco décadas de democracia, e que afasta a RTP dos tempos em que ministros telefonavam a diretores de Informação para discutir o alinhamento do Telejornal.

 Esse progresso, que aparentava ser consensual, está, pelos vistos, em risco de regressão.

 A simples sensibilidade política é também diferente se for um membro do governo a refilar contra a RTP ou se for um partido da oposição a protestar por uma qualquer notícia que lhe desagrade.

 Os partidos, isoladamente, não têm poder efetivo sobre a RTP e, por isso, as suas reclamações são um direito de intervenção pública que não lhes pode ser negado.

Poderá ser eventualmente aceitável que um membro do governo faça críticas ou elogios públicos a qualquer conteúdo da RTP, mas, na realidade informal, o peso do poder de um ministro implica que neste caso seja mais ténue a linha que separa a manifestação de uma posição política legítima da de uma interferência abusiva.

 José Luís Carneiro ultrapassou claramente essa linha ao telefonar diretamente ao presidente do conselho de administração, Nicolau Santos, pois esse contacto pode legitimamente ser interpretado como uma tentativa de coação política direta, um afrontamento personalizado de alguém, que está no poder executivo do país, sobre alguém que executa um contrato de serviço público. Nessa conversa, implicitamente, apesar de todas as defesas legais, está subentendido quem manda mais, quem está por cima, quem está por baixo e quem pode começar a trabalhar para fazer a vida negra ao outro. É, repito, um abuso de poder.

 Mas, pior do que isto tudo, é o ridículo. Meu Deus! Estamos a falar de um cartoon, que uns gostarão e outros não, mas é um cartoon, não é para levar a sério, não é para gastar tempo político e nos tribunais.

 Quantos destes ofendidos não se disseram um dia, em 2015, emocionados, solidários com os cartoonistas assassinados do Charlie Hebdo e usaram, desafiadores à distante ameaça islâmica, o autocolante "Eu sou Charlie"?...

 Que patetas!

 Pedro de Tadeu no Diário de Notícias de hoje.