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quarta-feira, 16 de julho de 2025

À LUPA


 Leu, com espanto, que Alice Vieira está na Comissão de Honra da candidatura de Marques Mendes à presidência da república.

Desconhece qual o motivo para uma coisa destas ter acontecido.

Mário Castrim, onde quer que esteja, ter-se-á perguntado:

«Mas o que terá passado pela cabeça da moça?»

domingo, 9 de março de 2025

POSTAIS SEM SELO

Porque amigo é assim mesmo: conhece-nos por dentro, adivinha aquilo de que necessitamos, sabe o que nos alegra, entende os nossos silêncios, tem a capacidade de nos surpreender dando-nos aquilo de que estamos mesmo a precisar-- mas sem termos de o pedir. Porque se o pedimos…qualquer estafeta serve.

Alice Vieira

Legenda. Fotografia de Eugene Smith

domingo, 28 de janeiro de 2024

CONVERSANDO

Entre 1933 e 1974 os serviços de censura das ditaduras de Salazar e Marcelo Caetano censuraram mais de 3300 livros, proibiram milhões de palavras nos artigos e notícias de jornais e revistas.

O jornalista e poeta José Viale Moutinho disse um dia:

«Recordo-me ter lido umas instruções aos inquisidores que diziam, mais ou menos, isto acerca dos livros em exame: se houver algo a cortar, é cortar essas partes insidiosas, porém, se a obra não apresentar, a uma primeira leitura, nada de censurável, então deve ser totalmente proibida a sua edição, pois isso apenas pode significar que a insídia se encontra completamente disfarçada.»

O Diário de Notícias continua a publicar uma série de depoimentos de gente diversa que lembra, onde estava e o que fazia, há 50 anos.

Hoje, foi a vez de Alice Vieira que lembrou parte do que a censura lhe cortou nos jornais em que trabalhou. Reparem neste perfeito disparate censório:

«Quando Grace Kelly veio a Portugal, escrevi que era filha de um pedreiro. A censura cortou porque, evidentemente, uma princesa não podia ser filha de um pedreiro.»

sábado, 9 de setembro de 2023

CONVERSANDO


Volta e meia, para ocupar pequenos pedaços de tempo, pego num livro e começo a reler.

Peguei em Um Anjo no Trapézio, do Manuel da Fonseca, e na página 45, reencontro este parágrafo, por sinal, devidamente sublinhado, bem esgalhado que está:

 «Vindo do lado da Cordoaria, a rua é estreita como um beco. Alarga à medida que desce. Mas continua sempre estreita, angustiada, exígua. Fora e dentro das casas, nos quartos divididos por tabiques, nos corredores. Até nas janelinhas de sacada, bonitas à sua maneira, mas onde mal se cabe.
É preciso falar, sair das casas, senão sufoca-se. É preciso viver à vista da rua. Contar tudo, em grupos, pelas tabernas ou de longe, de porta para porta, de janela para janela. Desabafar, senão cometem-se crimes. Gritar o que se fez ou anda a pensar fazer. O que se viu ou ouviu. Tudo. Principalmente acontecimentos da vida íntima. Nossa ou alheia.
Velhos como a rua, de pé, no minúsculo degrau que faz de passeio, os barbeiros analisam os factos, criticam. Os diálogos refilam de uma vivacidade crua e mordaz. A ninguém, homem, mulher ou criança, nenhuma palavra é vedada. Obscena, cruel, satírica, odiosa, desde que sirva usa-se de voz corrente e simples.»

Não foi um livro feliz do Manuel da Fonseca, apesar de em certas páginas encontrarmos o seu selo:

Relembremos o que aqui já foi escrito sobre o livro:

«Numa entrevista a Maria Teresa Horta publicada em A Capital de 20 de Junho de 1968 disse Manuel da Fonseca:

«Pouco depois de “Cerromaior”, escrevi um romance. Duzentas e tal páginas. Um sujeito que o leu, gostou. Eu não. Nem o publiquei. Agora, que já tinha “esquecido” o tal romance inédito, mas não as pessoas, nem os acontecimentos, dei-me à escrita, e as duzentas e tantas páginas ficaram reduzidas a quarente e nove. O título do conto é o mesmo do romance “Um Anjo no Trapézio”.»

O livro foi muito mal recebido pela crítica.

Alice Vassalo Pereira escreveu no “Jornal do Fundão” de 28 de Julho de 1968:

«Manuel da Fonseca publica pouco. Sabemos isso. Temos dele meia dúzia de livros, e um longo silêncio de cerca de dez anos entre a publicação do último – “Seara de Vento” – e a de “Um Anjo no Trapézio” que surge agora nas nossas mãos. Um longo silêncio apenas povoado, de vez em quando de reedições e trabalhos dispersos por jornais. “Um Anjo no Trapézio” é a palavra de quebrar o silêncio.

Mas (infelizmente) para certos casos o silêncio continua a ser de oiro. E por vezes (agora) a palavra nem de pedra é…»

José Gomes Ferreira, nos seus “Dias Comuns”, 5º volume, no dia 14 de Junho de 1968 escreve esta entrada:

«O Manuel da Fonseca publicou um livro novo: “O Anjo no Trapézio.

Ainda não o li, mas gelou toda a gente.

O João José Cochofel:

- É muito mau… Com as palavras derretidas.

O Augusto Abelaira, a medo, com a delicadeza natural de não dizer mal dos ausentes:

- “O Fogo e as Cinzas” é um livro formidável.

O Carlos de Oliveira sacode a cabeça apavorado com esta verificação:

É terrível! Pode perder-se o talento!

Desgosto de família.

Damos os pêsames uns aos outros. Sinceros.»

segunda-feira, 17 de julho de 2023

OLHAR AS CAPAS

 Esta Lisboa

Alice Vassalo Pereira

Fotografias de António Pedro Ferreira

Editorial Caminho, Lisboa, Outubro de 1993

O Bilhete-Postal

Não podemos fugir, em toda a parte nos espreitam: dos folhetos turísticos, dos quiosques e tabacarias com estendais de postais ilustrados, dos documentários para estrangeiro ver. São as imagens institucionalizadas da cidade, os bilhetes-postais que se compram para mandar à família que ficou longe. Apesar de tudo, todos têm uma história.

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

POSTAIS SEM SELO


 Lia tudo o que encontrava, bom ou mau. Por isso é que hoje nunca digo a ninguém para não ler um livro muito mau, porque nunca sabemos onde é que aquele livro vai tocar.

 Alice Vieira

segunda-feira, 23 de março de 2020

VELHOS RECORTES


Miguel Esteves Cardoso está muito longe, seja no que for, de me entusiasmar com aquilo que escreve ou opina.

Contudo, agora com todo o tempo do mundo, ando a arrumar caixas de papelada e encontrei este velho recorte dum texto de Esteves Cardoso sobre o Eduardo Prado Coelho.

Se ainda andasse por aqui, o Eduardo tinha quase rigorosamente mais um ano do que eu, nasceu a 29 de Março de 1944.

Conhecemo-nos, escapatoriamente, no Diário de Lisboa Juvenil, muitos anos mais tarde, tempos do PREC, tropeçámos no hall do Centro Vitória.

Entendia que eu tinha opiniões primárias e pouco fundamentadas.

Tinha razão. Sempre foi vasta a minha ignorância. Ainda hoje.

O Mário Castrim depositava grandes esperanças nele. Não se enganou quase nada. O João César Monteiro não era da mesma opinião mas, estando longe com um cigarro na beiça, não é para aqui chamado.

Eduardo Lourenço disse, recentemente, que o Eduardo não tinha o culto do patético, do trágico, tinha o instinto, o gosto da felicidade.

António Mega Ferreira, também recentemente escreveu:

«Ele era um “tudólogo”, nada do que era humano lhe era estranho.»

Fica o recorte do Esteves Cardoso, que é o editorial da revista «K» de Agosto de 1992:


Legenda: fotografia do retomar dos ENCONTROS DO JUVENIL em 12 de Novembro de 1966, na Casa da Imprensa. O convidado foi Eduardo Prado Coelho. A moça que está no canto esquerdo inferior da fotografia, é Alice Vassalo Pereira, hoje Alice Vieira.

sábado, 7 de abril de 2018

POSTAIS SEM SELO


Não há nada mais saudável do que ser capaz de chorar por causa de um livro.

Alice Vieira

domingo, 24 de setembro de 2017

RELACIONADOS


A propósito deste Olhar as Capas, recuperamos um texto publicado neste Cais do olhar em 15 de Outubro de 2011:

Quando Manuel da Fonseca, publica Seara de Vento  encerra aí o seu grande percurso na prosa.

Segue-se um interregno de 10 anos, interrompido pela publicação do livro de contos Um Anjo no Trapézio.

Numa entrevista a Maria Teresa Horta publicada em A Capital de 20 de Junho de 1968 disse Manuel da Fonseca:

“Pouco depois de “Cerromaior”, escrevi um romance. Duzentas e tal páginas. Um sujeito que o leu, gostou. Eu não. Nem o publiquei. Agora, que já tinha “esquecido” o tal romance inédito, mas não as pessoas, nem os acontecimentos, dei-me à escrita, e as duzentas e tantas páginas ficaram reduzidas a quarente e nove. O título do conto é o mesmo do romance “Um Anjo no Trapézio”.

O livro foi muito mal recebido pela crítica.

Alice Vassalo Pereira escreveu no “Jornal do Fundão” de 28 de Julho de 1968:

Manuel da Fonseca publica pouco. Sabemos isso. Temos dele meia dúzia de livros, e um longo silêncio de cerca de dez anos entre a publicação do último – “Seara de Vento” – e a de “Um Anjo no Trapézio” que surge agora nas nossas mãos. Um longo silêncio apenas povoado, de vez em quando de reedições e trabalhos dispersos por jornais. “Um Anjo no Trapézio” é a palavra de quebrar o silêncio.
Mas (infelizmente) para certos casos o silêncio continua a ser de oiro. E por vezes (agora) a palavra nem de pedra é…

José Gomes Ferreira, nos seus “Dias Comuns”, 5º volume, no dia 14 de Junho de 1968 escreve esta entrada:

O Manuel da Fonseca publicou um livro novo: “O Anjo no Trapézio.
Ainda não o li, mas gelou toda a gente.
O João José Cochofel:
- É muito mau… Com as palavras derretidas.
O Augusto Abelaira, a medo, com a delicadeza natural de não dizer mal dos ausentes:
- “O Fogo e as Cinzas” é um livro formidável.
O Carlos de Oliveira sacode a cabeça apavorado com esta verificação:
É terrível! Pode perder-se o talento!
Desgosto de família.

Damos os pêsames uns aos outros. Sinceros.

terça-feira, 23 de maio de 2017

UMA TERRÍVEL VONTADE DE DEIXAR-ME IR...


A falar de comboios, Alice Vieira, no seu livro de crónicas Bica Escaldada, conta da morte de Leon Tolstoi numa estação de caminho-de-ferro:

Um dia, sem que até hoje alguém tenha conseguido explicar a razão, o velho Leão Tolstoi fugiu de casa, apanhou um comboio, saiu dele quando já estava muito longe, e deixou-se morrer, sozinho, na pequena gare de Astapovo. Sempre me pareceu a maneira mais digna de se morrer – sobretudo, como era o caso, aos 80 anos, depois de já se terem apanhado e perdido todos os comboios essenciais de uma vida.

Das razões de Leão Tolstoi, conta José Jorge Letria, num artigo de opinião publicado no Diário de Notícias de 15 de Maio de 2017:

No dia 14 de Novembro de 1910, Leon Tolstói morreu de pneumonia na estação de caminhos-de-ferro de Atapovo, na província de Riaz, depois de abandonar a casa onde vivia e onde Sofia Andreievna, sua mulher e valiosa colaboradora durante muitos anos, permaneceu.
A relação conjugal fora afectada pela decisão do autor de Guerra e Paz de prescindir de metade dos seus direitos de autor. Sofia nunca aceitou essa decisão, como não aceitou a metamorfose perada na vida e nos hábitos do marido que repudiou a condição aristocrática de ambos, passou a andar descalço e começou a servir-se a si próprio nas refeições.
Uma parte significativa da inquietação que esteve na origem desta radical mudança está presente no texto de Uma Confissão, livro publicado em 1882, quatro anos antes de A Morte de Ivan Ilitch. Também rejeitou a autoridade da Igreja Ortodoxa, que o excomungou em 1901. Em tempo de ruptura e crise escreveu no seu diário: “Tenho uma terrível vontade de deixar-me ir.”

Sobre a morte de Tolstoi, o poeta brasileiro Mario Quintana escreveu Poema da gare de Astapovo:


O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na gare de Astapovo!
Com certeza sentou-se a um velho banco,
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo
Contra uma parede nua…
Sentou-se …e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Gloria,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
Coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!
E entao a Morte,
Ao vê-lo tao sozinho aquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali a sua espera,
Quando apenas sentara para descansar um pouco!
A morte chegou na sua antiga locomotiva
(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta…)
Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
E quem sabe se ate não morreu feliz: ele fugiu…
Ele fugiu de casa…
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade…
Não são todos que realizam os velhos sonhos da infância!

domingo, 13 de novembro de 2016

DANTES OS COMBOIOS


Mais do que as viagens, mais do que ficar a olhar pelas janelas e os campos que corriam e não eu, foi o cinema que me deu a paixão pelos comboios.

O cinema a preto e branco, evidentemente, onde os comboios eram daqueles a sério, daqueles que apareciam e desapareciam entre espessas nuvens de fumo, e depois no meio delas acabávamos por descobrir o herói que chegava, ou que no final não tinha partido e decidira ficar nos braços da sua amada para sempre.

Daqueles que faziam o Gary Cooper olhar vezes sem conta para o relógio da parede, ao lado de uma Grace Kelly de chapelinho de abas com laçarote a prendê-lo ao queixo, esperando a desgraça que devia chegar a meio da tarde.

Daqueles em cujo topo Buster Keaton se passeava, entre túneis e precipícios, a fuligem do carvão empapando-lhe o corpo.

Daqueles onde havia sempre espiões, e freiras disfarçadas, e resistentes a fintarem os nazis, e velhinhas de carrapito que de repente apontavam uma pistola e fugiam com os sacos do tesouro federal.

Daqueles onde, a meio da viagem, surgia um morto que ninguém conseguia explicar.

Daqueles onde um polícia (o mau) perseguia um ladrão (o bom), saltando de carruagem em carruagem, e a gente a torcer na plateia para que a carruagem seguinte se desprendesse do resto do comboio e o ladrão pudesse regenerar-se no colo da rapariga loira, enquanto o polícia caía pela ravina no exacto momento em que o comboio enchia os ares com o seu apito, abafando-lhe os gritos.

Daqueles que nos faziam perceber que uma vida monótona e rasteira se podia redimir por alguns momentos de um breve encontro num pequeno restaurante de uma pequena gare de uma pequena cidade, entre amores clandestinos e silêncios deslumbrados.

Dantes, os comboios eram assim. E as gares. E pequenos restaurantes,  de soalhos a cheirar a sabão e cera, de mesas de ferro e madeira, e melancólicos criados que nos deixavam nas mesas grandes chávenas de chocolate quente, que agarrávamos com ambas as mãos para que o frio passasse depressa. Aí sonhávamos com os nossos heróis do cinema, esperando que chegassem no próximo comboio, por entre nuvens de fumo, muito, muito fumo, que graça poderia ter um comboio sem fumo?, heróis com os olhos do Trevor Howard, por exemplo, e nós claro, de boina vermelha levemente inclinada e o cesto das compras ao lado, que, obviamente, ele iria carregar porque é um cavalheiro, e um cavalheiro leva sempre o saco das nossas compras, e o sobretudo no braço, mas antes disso há o tempo da paixão, que começa e acaba entre um comboio que chega e um comboio que parte, com muitos violinos em música de fundo. E fumo. Nuvens e nuvens de fumo.

Um dia, sem que até hoje alguém tenha conseguido explicar a razão, o velho Leão Tolstoi fugiu de casa, apanhou um comboio, saiu dele quando já estava muito longe, e deixou-se morrer, sozinho, na pequena gare de Astapovo. Sempre me pareceu a maneira mais digna de se morrer – sobretudo, como era o caso, aos 80 anos, depois de já se terem apanhado e perdido todos os comboios essenciais de uma vida.

Mas há muito que os comboios deixaram de ser o que eram.

Eléctricos, assépticos, pontuais, demoram três horas de Lisboa ao Porto, têm fax e telemóvel, empregados solícitos que levam ao lugar a bandeja do pequeno-almoço e do jantar com aquela comida plastificada igual à que servem nos aviões. Têm homens de negócios apressados, cada um com o seu computador portátil e a sua pasta de cabedal, aproveitando o tempo de viagem para adiantar a reunião que vão ter mal o comboio chegue, para acabarem o artigo de opinião par o general de referência, para pegarem no telemóvel a pedir que esteja um carro à sua espera na estação, porque não podem perder um minuto.

Rápidos, os comboios já só param nas estações importantes. As pequenas gares desapareceram e, com elas, os pequenos restaurantes de soalhos a cheirara  sabão e cera. Nas novas gares há apenas arremedos de snack-bares, com cadeiras de plástico voltadas para o écran da televisão lá no alto, onde uma loiraça venezuelana de sotaque carioca ameaça «ainda tens de sofrer muito, Abigaíl Gusmán!»

As nuvens de fumo desapareceram também, levando com elas as paixões, os breves encontros, os olhares cúmplices sobre as chávenas de chocolate quente, as bóinas levemente inclinadas, os olhos do Trevor Howard, o sobretudo no braço, o romantismo.

Dantes, os comboios eram o prolongamento dos nossos sonhos. Hoje, são o prolongamento do nosso escritório. E as gares não passam de sala de espera onde eficientes secretárias coordenam entradas e saídas.

Se fosse hoje, o velho Tolstoi teria decerto grande dificuldade para encontrar um digno e solitário lugar de adeus.

Alice Vieira emBica Escaldada

Legenda: fotografia Shorpy Archive

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

QUOTIDIANOS


Porque amigo é assim mesmo: conhece-nos por dentro, adivinha aquilo de que necessitamos, sabe o que nos alegra, entende os nossos silêncios, tem a capacidade de nos surpreender dando-nos aquilo de que estamos mesmo a precisar-- mas sem termos de o pedir. Porque se o pedimos…qualquer estafeta serve.

Alice Vieira

Legenda: pintura de Henri Fantin Latour

sábado, 22 de outubro de 2016

POSTAIS SEM SELO


As livrarias fazem parte da minha família,

Alice Vieira em Bica Escaldada

sábado, 15 de outubro de 2016

LOUVOR E DECEPÇÃO À VOLTA DO NOBEL



A atribuição do Nobel de Literatura a Bob Dylan provocou em Portugal reacções tão desencontradas como significativas.

O Nobel é o principal prémio literário internacional. Mas nem por isso deixa de estar confinado ao horizonte da Academia Sueca, por mais que esta tente alargá-lo, encomendando traduções de autores das mais variadas línguas e geografias.

Além disso, se colocarmos num prato da balança os escritores que receberam o Nobel e resistiram à passagem dos anos, e no outro os grandes romancistas que nunca o receberam, de Conrad, Proust e Virginia Woolf a J. L. Borges, é bem provável que o equilíbrio se rompa a favor destes últimos.

E ainda claro que há uma ou duas dezenas de escritores que poderiam receber o prémio este ano, de Javier Marías a Cormac McCarthy, e que, mesmo entre os poetas de canções, haveria alternativas como Leonard Cohen e Chico Buarque.

Mas parece que a Academia Sueca está decidida a inovar, desiludida talvez com a inexistência de grandes romances na última década. Isso explica escolhas inesperadas como foram no seu tempo a de Churchill, a da primeira mulher a receber o Nobel (Selma Lagerlöf) ou os textos jornalísticos de Svetlana Alexievich.

Até por isso as reacções são significativas. Abstraindo do «paternalismo» e visão conspirativa do crítico e escritor Bruno Vieira Amaral, que afirma que a Academia atirou o prémio à cabeça e que Bob Dylan não merecia tal gesto, houve dois tipos de reacções.

A dos poetas e críticos ligados à música, de Miguel Esteves Cardoso a Pedro Mexia, que se mostraram favoráveis ou até entusiasmados.

E, no pólo oposto, a de alguns editores, críticos e escritores, que tinham na sua lista de expectativas nomes que iam de Philip Roth a Murakami, e tiveram reacções perplexas ou desfavoráveis.

Há editores que condicionam o seu catálogo à procura dos nobelizáveis e que estão cada vez mais condenados a uma desilusão anual em Outubro
.
E o mesmo sucede com certos autores que a meio da vida vão acomodando a escrita à procura de um prémio que afinal só traz uma fama anual, uma viagem invernosa a Estocolmo, vendas não muito acrescentadas e solicitações, capazes de perturbar a mais fecunda das imaginações.
Foi assim que tivemos Alice Vieira a acusar esta atribuição do Nobel de desvirtuamento e a indicar Murakami como alternativa, e os habituais defensores de Pynchon.

Recorde-se que, quando o Nobel foi atribuído em 2013 a Alice Munro, a escritora Inês Pedrosa «denunciou» o facto de o prémio ser atribuído a uma simples contista (o que não impede que o seu último livro seja de contos e que sublinhe agora a importância deste género literário).

Ou seja, há ainda muitos críticos e autores ligados ao perfil que durante décadas serviu de referência à Academia Sueca e que Javier Marías resumiu no seu artigo «Não tão Memoráveis»:

«O escritor “conhecido” e popular terá além disso de (…) proclamar que apoia os oprimidos do mundo; ser um pouco perseguido no seu país (ou, à falta disso, dizer que o é); clamar muito no deserto e ser voz estridente das consciências adormecidas; deverá ser solene ou um pouco sombrio, a amargura nunca é de mais; a sua obra deve reflectir a miséria do homem contemporâneo, ou a fragilidade do homem contemporâneo, ou o desconcerto do homem contemporâneo, ou o seu egoísmo, ou o seu sofrimento, ou a sua maldade, ou a sua desorientação (em qualquer caso, algo negativo do homem contemporâneo, ou melhor, um lugar-comum a todas as contemporaneidades); por último, não deve falar muito de literatura nem ter qualquer sentido de humor.»

De qualquer modo, em favor de Bob Dylan pode dizer-se que com a sua obra musical, literária e pictórica será um dos vencedores do Nobel a perdurar. Levou o melhor da poesia à música das suas canções, absorvendo influências que vão desde Walt Whitman a Ashbery, passando por Allen Ginsberg e outros autores da Beat Generation. Nas suas letras criou personagens que nada devem às de obras de narrativa ficcional. E as suas crónicas inacabadas constituem uma referência de literatura autobiográfica.

P. S. Declaração de interesses. A Relógio D’Água publicou em 2006 uma ampla antologia da poesia de Bob Dylan (Canções 1962-2001).

domingo, 9 de outubro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Há cheiros da infância que não morrem nunca, nem sequer envelhecem como a nossa pele.

Alice Vieira


Legenda: pintura de Nino Chakvetadze

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

QUANDO CHEGA DEZEMBRO


Quando chega Dezembro, começamos a notar que à mesa familiar falta cada vez mais gente. "Mesa familiar" é, no fundo, a metáfora que usamos para nesta altura abraçarmos um pouco mais os amigos e ficarmos felizes só pelo facto de eles estarem ao nosso lado. Mas ao nosso lado vai havendo cada vez mais lugares vagos. A minha mesa familiar ainda não se habituou às ausências do João Aguiar, da Rosa Lobato de Faria, da Matilde Rosa Araújo, do Raul Solnado, da Mariana Rey Monteiro, todos eles ainda tão dentro de mim.
Mas, de repente, chega-me uma terrível e inesperada saudade de alguém que há muitos anos desapareceu da minha mesa.
Tudo por causa de um programa que a RTP2 passou, dedicado aos "Grande livros".
Naquela noite, o livro era "Uma abelha na chuva", do Carlos de Oliveira.
É um grande romance da nossa literatura e foi bom recordarmos as imagens do filme do Fernando Lopes, e ouvir falar dele (a Laura Soveral e a sua voz incomparável...)
Mas o que sobretudo me marcou foi o rosto do Carlos de Oliveira - aquele olhar que entrava dentro de nós e nos dizia tudo o que era preciso, aquele sorriso que me recebia sempre, quando eu chegava à sua mesa do "Monte Carlo".
Ele e o Zé Gomes Ferreira - sempre. Depois, às vezes por lá caíam o Abelaira, o Mário Dionísio, tantos outros.
Mas o Carlos e o Zé Gomes eram a minha âncora. E foram a minha verdadeira universidade. Eu, 20 e poucos anos, deslumbrada no convívio diário com gente que nunca pensara vir a conhecer.
E, de repente, quando a revolução de Abril dava os seus primeiros passos, o Carlos de Oliveira morre. De um dia para o outro.
Nunca perdoei ao destino, e acho que aquela geração mais nova que privou com ele nunca mais se recompôs.
Fosse o que fosse que fizéssemos ou escrevêssemos, pensávamos sempre: "O que é que o Carlos dirá disto".
Ele era o rigor, a coerência, a lucidez em estado puro.
Ele era a nossa consciência moral.
Nunca mais tivemos outra.

Alice Vieira em “Jornal de Notícias”, 3 de Dezembro de 2010.