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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

NOCTURNO COM AVIÕES

                                    para o Miguel Martins

Não estejas só. Tu também és

o que já foste e o que esperaste

vir a ser . A manhã que se aproxima

 

há-de passar, não importa. Para já,

os diligentes aviões da madrugada

sobrevoam o desenho das colinas

de Lisboa – e cá dentro, muito fundo,

numa redoma de música, os amigos

ainda bebem para esquecer

 

o futuro, que outro remédio

não têm, se a hora não se repete

e a vida é só espuma

Rui Pires Cabral em Resumo: a poesia em 2012

quarta-feira, 27 de maio de 2026

PLANO DE EVASÃO

Que mais podemos fazer?
Este amor é um país cansado

que não nos deixa mudar.
O medo cerca as fronteiras

e a capital é Nenhures,
cidade de perdulários

e pequenas ruas tortas
onde vem morrer a noite –

aqui estamos ambos sós,
desunidos, extraviados,

não há táxis na praceta
nem cinzeiros nos cafés

e perdemos os amigos
entre as curvas de um enredo

que deixámos de seguir.
Mas não era nada disto

o que tinha na cabeça
ao começar a escrever:

os versos chamam o escuro,
abrem os portões ao frio

e eu quero estar nas colinas
do outro lado do rio.

Rui Pires Cabral em Resumo: a poesia em 2012

sexta-feira, 8 de março de 2024

NUNCA SE SABE

Papéis velhos com poemas: são o joio
das gavetas. Relê-los causa aversão
e uma espécie de tristeza arrependida –
são tão nossos como as más recordações
e ainda vemos a circunstância precisa,
a causa, a ferida, por detrás de cada um.


Mas na altura havia esperança: é isso
que representam. Não pelas coisas que
dizem – é só descrença e fastio – mas
pela simples razão de termos querido
guardá-los. Com um pouco mais de alento,
de inspiração e trabalho, ainda se endireita
isto. Ou seja, os versos. E até a vida.

Rui Pires Cabral de Oráculos de Cabeceira em Resumo: a poesia em 2009

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

AINDA NÃO È TARDE

                           Para a Daniela e o Manuel Boucherie Mendes

 

Ainda não é tarde, dizem os amigos

aos quarenta anos. Amam as canções

e as cidades estranhas que o desejo

guarda: a pressa de Junho nas escadas

do metro e essa livraria à beira do rio –

só a descobrimos no último dia, a pena

 

que foi. No fim da estação regressam

iguais como histórias diferentes, gratos

souvenirs. Ainda não é tarde, nada

está perdido (e ninguém lhes dá

 a idade  que têm). Aos quarenta anos

não sabem dizer o que aconteceu,

 

mas quando se juntam à roda da mesa

na vaga euforia que a hora consente,

já quase acreditam que podem voltar

à pequena praça, à luz entrevista de um

quarto de hotel, onde a noite é nova

e toda a beleza se há-de cumprir.

Rui Pires Cabral de Oráculos de Cabeceira em Resumo: a Poesia em 2009

terça-feira, 25 de outubro de 2022

AND SO ON, AND SO FORTH

Mas vejam que miséria quando o clube

perde em casa, quando chove no molhado

do recreio a tarde toda, quando o carteiro

 

faz greve e o outono se insinua –

vejam que miséria este défice de razões5

para pôr em movimento a roda perra

 

do dia, esta pomba trucidada pela ambulância

que guina, enquanto o vizinho almoça e o poeta

transfigura – mas vejam que miséria

 

quando a arte não resgata e a orquestra

não anima e o amor torna mais árdua

a triste faina da vida.

 

Rui Pires Cabral

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

O CÉU VISTO DE CIMA


Tu já estavas prometido à tristeza
da cidade mais pequena. Mas a noite
tinha passagens secretas, bastava seguir
os sinais.

Uma sombra avançava muito fundo
nos teus estratos, tacteavas um território
de pedras difíceis, às vezes perigosas.

Depois imergias e a boca estava amarga
outra vez, a roupa amontoada na cadeira
como o princípio de um poema indesejado.

Reflectido nos teus olhos, o céu
era um lugar inabitável.

Rui Pires Cabral em Resumo: a poesia em 2011