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segunda-feira, 4 de maio de 2026

OLHAR AS CAPAS


Pão de Anjos

Patti Smith

Tradução: João Pedro Vala

Capa: Rui Rodrigues

Quetzal Editores, Lisboa, Abril de 2026

Que valor tem o sangue em comparação com as necessidades de uma criança faminta? Onde se situam os nossos esforços na balança do valor? O pergaminho desenrola-se, os anjos guiam a minha pequena barcaça. Arrasto uma rede e retiro o casaco descartado, a pele, os amores, células moribundas das marés do corpo de água. Vejo-me na tal varanda do Hotel Suisse, uma simples escritora de férias, vestida de branco, a contemplar fixamente uma mancha triangular no centro da baía. A vaga comichão regressa. O que devo escrever e juntar? Prometo ser boa. Escreverei sobre uma rapariga que encontra um pequeno espelho de mão pousado na relva. Gesticula na direcção dessa mancha, tão distante porém tão próxima. Saltita alegremente, suspensa no ar, e depois aterra, de braços estendidos. Bem-vinda, bossa rebelde, grita ela. Eu sou tu.

quinta-feira, 11 de março de 2021

OLHAR AS CAPAS


Devoção

Patti Smith

Tradução: Helder Moura Pinheiro

Capa: Rui Rodrigues

Quetzal Editores, Lisboa, Abril de 2019

As coisas avançam devagar. Tenho no bolso a ponta de um lápis.

Qual o desafio? Escrever alguma coisa que possa comunicar a vários níveis, como numa parábola, isenta do estigma da astúcia.

Qual o sonho? Escrever alguma coisa sublime, que seja melhor do que eu e que justifique as minhas provações e os meus erros. Oferecer uma prova, através de uma determinada maneira de usar as palavras. De que Deus existe.

Porque escrevo? O meu dedo, como um estilete, desenha no ar um ponto de interrogação. Uma obsessão familiar de que me lembro desde criança quando me retirava das brincadeiras e do convívio com os amigos e me afastava das eventuais delícias do amor para ficar cercada por palavras e dominada por uma pulsação que me era externa.

Porque escrevemos?, pergunta em uníssono o grande coro de quem escreve.

Porque não nos podemos limitar a viver.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

OLHAR AS CAPAS


 O Ano do Macaco

Patti Smith

Tradução: Helder Moura Pinheiro

Capa: Rui Rodrigues

Quetzal Editores, Lisboa, Agosto de 2020

Prolongo a minha estadia na cidade de Pessoa, embora não seja fácil dizer o que ando a fazer. Lisboa é a cidade ideal para nos deixarmos levar pelo tempo. Manhãs em cafés a escrevinhar umas coisas em mais um caderno, parecendo que cada página em branco oferece uma fuga, ao receber a fluidez constante da caneta. Durmo bem, sonho pouco, limito-me a existir apenas num intervalo que ninguém interrompe. Num passeio ao crepúsculo, a música ecoa pela velha cidade, evocando em mim a voz harmoniosa do meu pai a trautear baixinho Lisbon Antigua, precisamente uma das suas melodias favoritas. Lembro-me de, em criança, lhe ter perguntado o que queria dizer o título. Ele sorriu e disse que era um segredo.

E agora, amigos meus, repicam os sinos ao início da noite. Candeeiros iluminam as ruas calcetadas. No meio de um silêncio que lembra os quadros de Edward Hopper, faço o caminho que Pessoa fez tantas vezes. Um escritor capaz de criar personalidades distintas de ver o mundo, e tantos diários, assinados por tantos nomes. Caminhando pelas calçadas de paralelepípedos, passo por uma janela e vejo um senhor todo bem-posto ao balcão de um bar, ligeiramente debruçado, a escrever qualquer coisa num caderno.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

OLHAR AS CAPAS


M Train

Patti Smith
Capa: Rui Rodrigues
Tradução Helder Moura Pereira
Quetzal Editores, Lisboa, Maio de 2016

Não é assim tão fácil escrever sobre coisa nenhuma.
Isto era o que um cowboy estava a dizer quando eu ia mesmo quase a entrar num sonho. Vagamente bonito, intensamente lacónico, ele balançava-se numa cadeira desdobrável, reclinado para trás, com o seu Stetson a roçar a parede exterior de um café isolado de cor parda. Digo isolado porque parecia não haver mais nada ali por perto, exceto uma bomba de gasolina fora de uso e um bebedouro enferrujado, enfeitado com um colar de moscas pousadas sobre os últimos resíduos da sua água estagnada. Também não havia ninguém por ali, mas isso não era coisa que o importunasse; limitou-se a puxar a aba do chapéu para cima dos olhos e continuou a falar. Era o mesmo modelo Silverbelly Open Road que Lyndon Johnson costumava usar.
- Mas nós continuamos o nosso caminho – prosseguiu ele, alimentando todo o tipo de esperanças loucas – Para redimir a perda, um pequeno momento de revelação pessoal. É um vício, como jogar nas máquinas ou uma partida de golfe.
- É muito mais fácil falar sobre coisa nenhuma – disse eu.
Ele não ignorou a minha presença completamente, mas foi incapaz de contestar.

sábado, 6 de setembro de 2014

OLHAR AS CAPAS


Apenas Miúdos

Patti Smith
Tradução e Notas: Jorge Pereirinha Pires
Capa: Rui Rodrigues
Quetzal Editores, Lisboa, Fevereiro de 2014

EU ESTAVA A DORMIR QUANDO ELE MORREU. Tinha telefonado para o hospital, para lhe dizer mais uma vez boa noite, mas ele estava inconsciente, devido às doses de morfina, Ouvi a respiração esforçada dele pelo telefone. Fiquei em pé junto da secretária com o auscultador na mão, sabendo q1ue jamais tornaria a ouvi-lo
Mais tarde arrumei serenamente as minhas coisas, o meu caderno e a caneta de tinta permanente. O tinteiro azul-cobalto que fora dele. A minha chávena persa, o meu coração púrpura, um tabuleiro com dentinhos de leite. Subi vagarosamente as escadas, contando os degraus, catorze ao todo, um após o outro. Aconcheguei o cobertor ao bebé que estava no berço, beijei o meu filho enquanto ele dormia, e a seguir deitei-me ao lado do meu marido e rezei as minhas orações. Ele ainda está vivo, lembro-me eu de ter murmurado. A seguir dormi.
Acordei cedo e quando ia a descer as escadas soube que ele morrera. Tudo estava em silêncio, menos o som da televisão que eu deixara aceso durante a noite. Fui atraída para o ecrã enquanto a Tosca declarava, com poder e pesar, a sua paixão pelo pintor Cavaradossi, Estava uma fria manhã de Março e vesti o meu camisolão.
Subi os estores e a claridade entrou no estúdio. Alisei a manta grossa que cobria o meu cadeirão e escolhi um livro de pintura de Odilon Redon. Abri-o na imagem de uma cabeça a flutuar num pequeno mar, Les Yeux cols. Um universo ainda não assinalado contido por detrás das pálidas pálpebras. O telefone tocou e levantei-me para ir atendê-lo.
Era o Edward, o irmão mais novo do Robert. Contou que, tal como me prometera, tinha dado ao Robert um último beijo por mim. Fiquei imóvel por uns instantes, e depois, lentamente, como num sonho, regressei ao meu cadeirão. Nesse momento a Tosca iniciou a grande área «Vissi d’arte», Vivi pelo Amor, vivi pela Arte. Fechei os olhos, e entrelacei as mãos. A providência discernira como seria a minha despedida.