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quarta-feira, 25 de março de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS

Junho de 1966.

Ou 67?

O Helder Pinho a dizer-nos: o Cine-Clube do Barreiro vai dar Ladrões de Bicicletas.

 Quem alinha?

Alinharam seis.

O Cine-Clube era dirigido pelo Cortez, militante comunista, enfermeiro e barbeiro com loja aberta na Rua Castelo Branco Saraiva, sala a abarrotar.

O neo-realismo italiano visto na margem sul, a fita não ajudava, a projecção não foi a melhor, mas oportunidade, quase única, de então ver Ladrões de Bicicletas, em sessão quase clandestina.

O último barco do Barreiro para Lisboa acontecia à meia-noite. O filme batia quase o horário do barco, mas antes, já um camarada pegara na bicicleta, e acelerara para o cais,  dizer ao pessoal de bordo que aguentassem uma migalha, que havia uma malta numerosa de Lisboa, a sair do Cine-Clube e precisava de ir para Lisboa.

Solidariamente, o mestre aguentou a migalha necessária,  e o camarada da bicicleta, ficou a ver a malta a chegar e entrar para o barco e lançou um punho no ar de adeus.

Porra! Há que dizer que estávamos na margem sul e o Barreiro eram operários das fábricas do Alfredo da Silva.

O barco traz-nos para Lisboa na noite de Primavera.

O Helder olha a cidade, diz-nos que gosta da palavra cineclube, que não há nada como o neo-realismo seja ele português, ou italiano, palavras soltas, gestos inacabados.

Ainda há cineclubes?


CINEMATECA PORTUGUESA–MUSEU DO CINEMA HISTÓRIAS DE OBJETOS, OBJETOS NAS HISTÓRIAS 15 e 18 de setembro de 2021 LADRI DI BICICLETTE / 1948 (Ladrões de Bicicletas) um filme de Vittorio de Sica Realização: Vittorio de Sica / Argumento: Cesare Zavattini, segundo o romance de Luigi Bartolini; adaptação: Cesare Zavattini, Vittorio de Sica, Oreste Biancoli, Suso Cecchi d’Amico, Adolfo Franchi, Gherardo Gherardi, Gerardo Guerrieri / Fotografia: Carlo Montuori / Direcção Artística: Antonino Traverso / Música: Alessandro Cicognini / Montagem: Eraldo Da Roma / Intérpretes: Lamberto Maggiorani (Antonio Ricci), Enzo Staiola (Bruno Ricci), Lianella Carell (Maria Ricci), Elena Altieri, Gino Saltamerenda, Vittorio Antonucci, Giulio Chiari, Michele Sakara, Carlo Jachino, Nando Bruno, Fausto Guerzoni, Umberto Spadaro, Massimo Randisi. Produção: “P.D.S.” (Produzione De Sica) / Cópia: Leopardo Filmes, dcp, preto e branco, legendado em português, 90 minutos / Estreia Mundial: Roma, em 24 de Novembro de 1948 / Estreia em Portugal: Tivoli, em 20 de Novembro de 1950 / Reposição: Estúdio 444, em 26 de Junho de 1969. Grande Prémio Internacional do Festival Mundial do Filme e das Belas Artes, Bélgica, 1949 Prémio Social do Festival de Cinema de Locarno, 1949 Grande Prémio Saint Michel do Festival de Knokke, Bélgica, 1949 Fita de Prata, Roma, 1949 Prémio da Crítica de Nova Iorque para o Melhor Filme Estrangeiro, 1949 Oscar da Academia de Hollywood para o Melhor Filme Estrangeiro, 1949.


Nem o nome de De Sica, o impacto do seu filme anterior, Sciuscià, ou a nova lei do cinema que entra em vigor em 1947 e impõe a exibição de filmes italianos durante (pelo menos) 20 dias por ano em cada cinema, serviram de muito para o projecto do actor-realizador adaptar o romance de Luigi Bartolini Ladri di Biciclette. Em Itália ninguém se interessou apesar do chamado “neorealismo” estar na moda, em França também não, o que os ingleses ofereciam não chegava para mandar cantar um cego (ou confundiam já “neo-realismo” com “miserabilismo”). Será com o seu próprio dinheiro e o de um grupo de amigos, os advogados Graziadei e Bernardi, e o conde Cicogna, que De Sica poderá levar a cabo o filme que ficará como a sua obra-prima, e que durante uma década esteve na lista dos dez melhores filmes da história do cinema. Ao tempo Ladri di Biciclette causou um impacto maior que os primeiros filmes de Rossellini, tornando-se o modelo frequentemente invocado do “verdadeiro” neo-realismo, que esteve na origem dos equívocos que o rodearam, e que levariam à sua marginalização com o esgotamento da fórmula. Se o equívoco lhe deu fama foi também a sua desgraça, o que a uma revisão se afigura extremamente injusto. Ladri di Biciclette é, antes de mais, um belíssimo filme sem necessidade de adjectivos de “verismo” ou “realismo”. Não se passa nada durante o filme e, no entanto, passa-se tudo. O “fait-divers” (o roubo da bicicleta a um homem que com ela conseguira, finalmente, trabalho nos anos de crise do pósguerra em Itália) transforma-se numa história de suspense. É inegável que ele existe pois todos estamos suspensos do encontro ou não da bicicleta e o filme não é mais do que a história da sua busca, através dos mais variados lugares. E é este percurso que está na base do equívoco (aceite naturalmente, e nunca contestado, porque era um movimento de “vanguarda”) erigido em “escola” por Zavattini. A captação do “real”, com as filmagens em exteriores, actores não profissionais e uma fotografia próxima da das actualidades, são o embrulho sobre o qual se coloca a etiqueta do “neo-realismo”. Mas todo o filme de De Sica manifesta em germe a sua própria negação (a que nem o próprio Umberto D escapa, e que passa a primeiro plano em Miracolo a Milano e L’Oro di Napoli: um desejo de ficção (o tema da busca) e de encenação (a belíssima e cuidada sequência do almoço de pai e filho no restaurante, com uma fotografia mais trabalhada do que o resto do filme). Um dos tais sinais de “realismo” é, no fim de contas, uma fórmula usada com uma certa frequência no cinema em geral: captar “um rosto na multidão”(que será o título de um filme de Kazan), entre os anónimos habitantes da cidade, o que traz logo à memória as comédias e melodramas americanos do fim do mudo, em particular The Crowd e Lonesome (e já agora o genial número de Busby Berkeley para o primeiro Gold Diggers: “Remember My Forgotten Man”). E o final segue o mesmo modelo, com a multidão anónima rodeando aquele que se tornou “intérprete” de um drama colectivo, neste caso o desemprego que estava no ponto mais alto na altura da realização do filme (apesar da recuperação da economia que se começava a verificar com o apoio do Plano Marshall). E o início do filme de De Sica é ainda mais sugestivo: António Ricci não engloba a massa que se aglomera à volta do funcionário que distribui empregos ocasionais. Está à margem dela, e é preciso que um outro corra a chamá-lo para que a câmara nos mostre Ricci isolado e sentado no chão, como um homem marcado pelo destino. Destino absurdo que tem a sua dimensão kafkiana na loja de penhores, onde a trouxa de lençóis se vai misturar com milhares de outras, cruzando-se, num sugestivo plano, com a bicicleta que lhe é devolvida. Mesmo contaminado por estes momentos simbólicos, esquecidos na altura pois apenas se quis ver as suas características de “pedaços da vida”, Ladri di Biciclette é até aqui ainda um filme de forte conotação “realista” (para continuarmos a usar o chavão), com o retrato da vida do casal e da sua casa. Tudo muda, porém, no “dia seguinte”, aquele em que Ricci vai começar a trabalhar. E não deixa de ser curioso que De Sica apenas neste momento nos apresente a outra figura central do drama, Bruno, filho de Ricci que, com o pai, parte também para o trabalho. De facto, e esta é outra marca anti-“realista” do filme, a verdadeira história é a da relação entre os dois (repare-se que, durante todo o filme o garoto procura o pai com o olhar), e a pesquisa que irão fazer no outro dia, é da mesma ordem das “viagens iniciáticas” dos jovens no cinema americano. O roubo da bicicleta é o momento em que tudo vacila e tudo começa. Se serve para apresentar, de forma documental, o estado de coisas da sociedade italiana de então (a crise económica, o desemprego, a superstição, a miséria e a promiscuidade, segundo uma fórmula de testemunho que Zavattini erigirá, tardiamente, em programa em L’Amore in Città), o que mais fica desta peregrinação exemplar, quase crística (houve quem comparasse o percurso de Ricci à Via Sacra) é o que se passa entre pai e filho, testemunhado nos três momentos maiores do filme:a sequência da bofetada e a desaparição de Bruno com a angústia do pai ao ouvir os apelos de ajuda ao afogado; a sequência do restaurante, de reconciliação, a que não falta o toque de humor com o menino “bem” na outra mesa comendo a sua “pasta” com ar afectado, mas onde, pela primeira vez, no filme, o pai dá conta dos seus sonhos ao filho (sonhos que o roubo vem por em causa); e a última, que possui uma carga simbólica que o afasta da mera referência realista onde se teima em inclui-lo: António desceu ao ponto mais baixo, procurando, por sua vez, roubar uma bicicleta, mas é apanhado e humilhado. Será a mão do filho que se estende para a sua, crispada, que lhe transmitirá de novo a força. E o “fait-divers” adquire a forma de uma tragédia sobre a condição humana. 

Manuel Cintra Ferreira 

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Pelo menos os dois volumes do Tomo I, que são os únicos que ainda tenho, já estão publicados, salvo erro, cinco, têm a mesma capa.

Colocando de lado, mas muito importante, que a minha vida cresceu em redor de cinemas de reprise – Cine-Oriente, Max, Royal, Rex, Liz, Imperial – devo o meu gosto pelo cinema a João Bénard da Costa, também a M. Cintra Ferreira, Manuel S. Fonseca.

Há uma grande pasta com as «Folhas da Cinemateca» e a maior parte são do João Bénard da Costa.

Estes Escritos do Cinema que a Cinemateca decidiu publicar são um trabalho deveras notável, pelo menos a quem gosta de cinema, pelo menos a quem fez da Cinemateca, a sua sala preferida e não posso esquecer a sala de cinema do Apolo 70.

A escrita de Bénard da Costa é uma escrita de gosto e mistérios que, como disse Manuel S. Fonseca, se percebe melhor por percebermos que nada se pode perceber.

Pausadamente, tenho que ir em busca dos volumes já publicados e que ainda não estão na Biblioteca da Casa. Porque de tão importantes estes escritos, não são para ler de enfiada, mas para serem lidos saborosamente, lentamente, como uma velha aguardente.

quinta-feira, 14 de março de 2019

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O filme de Joseph Losey estreou em Portugal a 15 de Julho de 1983 no Cinema Hollywood, antes chamou-se ABCine, duas salas no Centro Comercial Alvalade, que ainda existe mas agora sem qualquer sala de cinema.

O filme apenas o vi a 28 de Janeiro de 2002 numa sessão na Cinemateca.

Esta é Folha da Cinemateca em que o excelente homem de cinema, Manuel Cintra Ferreira, escreve sobre o filme de Losey.



Há livros que na visão ligeira que deles faço, concluo que não poderão dar um filme. Nesse ponto estão os romances de Roger Vailland, e adianto desde já «A Truta.»

Mas isso é o pobre de mim a pensar.

Losey não se fez rogado e avançou.

O filme não me entusiasmou e, apesar de o livro não ser daquela colheita Vailland em que aprendi a gostar, inclino-me mais para o livro.

Há quem declare que Roger Vailland é um autor datado.

Não vou por aí.

Recordo as conversas de então: «um assalariado, seja qual for o salário, ganha sempre um pouco menos do que precisa» e para que não houvesse qualquer dúvida, acrescentava-se: regra segundo São Roger Vailland. 

Roger Vailland esteve três vezes em Portugal.

As duas primeiras em reportagem; a terceira como membro da Resistência à ocupação da França pelos exércitos de Hitler,

Sobre o olhar pelo país em «A Lei», inventa o verbo «portugalizar».

«Entre 1904 e 1914, entre os seus vinte e trinta anos, viajara nas férias universitárias por toda a Europa a fim de rematar a educação, segundo o desejo do pai. Voltando certo Verão de Londres para em Valência embarcar rumo a Nápoles, demorou-se alguns dias em Portugal. Fizera a si mesmo mil perguntas sobre o declínio desta nação cujo Império se alargara a todo o globo. Conheceu escritores que não escreviam para ninguém; homens políticos que governavam para os ingleses; homens de negócios que liquidavam as feitorias do Brasil e viviam de rendas exíguas nas cidades da província, sem qualquer objectivo. Concluiu que a pior das desgraças era nascer português. Em Lisboa e pela primeira vez na vida travara encontro com um povo que se tinha desinteressado.»

Na nota introdutória a «Esboço Para um Retrato do Verdadeiro Libertino», Vitor Silva Tavares anota:

«Prazer; jogo; razão; liberdade – eis a infraestrutura geométrica do retrato do libertino segundo Vailland.»

Pegando em «A Roda da Fortuna» saco estas passagens:

«Mesmo no Inverno dormia nua. Bastava-lhe um pouco de álcool para não sentir frio.»

«Gozar a vida – disse Milan – é como um ofício, tem de se aprender. Mas é talvez preciso começar muito cedo».

«- Continua a pensar que a sua mãe não tinha razão? – perguntou Helena
- Cada vez mais – diz Roberta – É muito menos humilhante dobrar a espinha ante as injúrias da nossa mãe, mesmo que seja prostituta, do que passar uma única noite com um homem que não amamos.
- Mas podia trabalhar, diz Helena.
-Não – diz Roberta – Fazer um trabalho que não agrada é tão humilhante como dormir com um homem que nos repugna.»

«Minha filha, nunca se deve dizer a um homem que o enganámos. Mesmo que aceitasse a tua infidelidade, mesmo que a encorajasse, o que é certo é dez anos mais tarde se serviria da tua confissão como de uma arma contra ti. Nega mesmo a evidência. Foi a única coisa razoável que me ensinou a minha abominável mãe»

terça-feira, 17 de abril de 2018

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A sequência dosbeijos cortados pelo padre-censor, levou-me para este cartoon, publicado no Cinéfilo nº 33 de 25 de Maio de 1974, da autoria de Rui, retratando a Comissão de Censura da ditadura, durante e depois da projecção dum filme, em que gozavam à tripa forra para depois nos roubaram a beleza dos filmes.


A crónica de Carlos Pinhão, retirada do Público s/s, a tal crónica de que não consegui encontrar as pontas do novelo.



Crónica de Jorge Listopad, publicada no Diário de Lisboa de 23 de Abril de 1990.


Texto de Manuel Cintra Ferreira publicado no Público de 13 de Dezembro de 1991 referente à projecção do filme no Canal 1 da RTP.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

SIGAM A ESTRELA



Nos 30 anos da morte de Marilyn Monroe, o Público dedicou- lhe duas páginas.

O crítico Manuel Cintra Ferreira começa assim a sua evocação, a que deu o título Sigam a estrela:

 O que fica de uma estrela quando explode é o brilho que nos ilumina ainda durante milhares de anos. Extinta já, a asua imagem continua aobcecar-nos e a sua luz a ser cantada pelos poetas. Numa dimensão mais terrestre e humana a “movie star” provoca o mesmo efeito. Na constelação nascida desde o começo do século, Marilyn é a Estrela Polar.

- Como encontras o caminho no escuro?

- Seguimos aquela grande estrela. Ela leva-nos para casa.

(Diálogo final de Os Inadaptados)

Manuel Cintra Ferreira, no seu artigo, coloca três subtítulos: Sugar, Cherie e Lorelei.

Transcrevo este último:

Diz a lenda que Lorelei foi uma donzela que se afogou no Reno em consequência de um amor não correspondido e que, transformada em sereia, atraía com o seu canto os barqueiros para a perdição. Que melhor mito se poderia aplicar a Manuel Cintra Ferreira tanto na vida como na ficção cinematográfica?

Premonitoriamente, o nome da sua personagem no filme que a consagrou, “Os HomeLs Preferem as Loiras, É Lolerei, e no anterior, “Niagara”, é uma “sereia” que, mesmo morta, leva para a perdição o obcecado marido, Joseph Cotten.

Coincidência? O elemento que envolve a tragédia é a água com as suas imponentes cataratas do Niágara em pano de fundo, e em “Rio Sem Regresso” é de novo sobre o elemento líquido que a acção se desenvolve. Como a Lorelei da lenda, o canto de Marilyn, fascina e envolve de uma forma letal os homens porque lhes é impossível libertarem-se do fascínio, seja Cotten ao som de “Kiss” em “Niagara”, Don Murray em “Paragem do Autocarro” ouvindo “That Old Black Magic”, Yves Montand com a canção tema de “Let’s Make Love” ou John Fitzgerald Kennedy ao ouvir o mais quente e sensual “Happy Birthday” em 1962.

E será coincidência que esses dois homens que a possuíram e abandonaram, o presidente dos EUA e seu irmão Robert, tenham tido morte violenta poucos anos depois de Marilyn entrar, por sua vez, na lenda? Poderia dizer-se que a maldição de Lorelei se cumpriu de novo.

Legenda: Marilyn Monroe e Clark Gable na cena final de Os Inadaptados de John Huston.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

MANUEL CINTRA FERREIRA (1942-2010)


No passado domingo morreu o crítico de cinema Manuel Cintra Ferreira.

Aprender a gostar é tudo quanto peço aos críticos. A crítica de cinema de Manuel Cintra Ferreira era apaixonada, decididamente apaixonante, sem qualquer medo de cair na mais franca e descarada propaganda a um filme. Gosto disso e Cintra Ferreira era um descobridor, seguia à letra a ideia de Jean Renoir de que um crítico deve aproximar o espectador dos filmes de que gosta.

De um texto de Sérgio C. Andrade, no “Público On-Line”,sobre a morte de Manuel Cintra Ferreira:

“Era o mais antigo programador da Cinemateca Portuguesa, além de um dos mais respeitados críticos de cinema, com carreira no Expresso, no Publico e na SIC. Detinha uma memória cinéfila prodigiosa, que pôs ao serviço de várias gerações de cinéfilos. O cinema era a casa dele
Manuel Cintra Ferreira era "uma autêntica enciclopédia da história do cinema", que amava esta arte acima de todas as outras coisas e que tinha uma grande preocupação pedagógica e de contextualização histórica, quando escrevia sobre os filmes.
Estes são os traços fundamentais da biografia profissional de Manuel Cintra Ferreira, que morreu anteontem em Lisboa, aos 68 anos, vítima de um tumor cerebral.
Há uma história que Pedro Mexia, ex-subdirector da Cinemateca, ouviu contar acerca de Manuel Cintra Ferreira: a de que ele se teria casado, mas ter-se-ia separado logo que descobriu que a companheira não gostava dos filmes de John Ford. "Não sei se é verdade", nota, mas acrescenta que, tratando-se de Cintra Ferreira e de John Ford, podemos sempre adaptar aqui a famosa tese do mestre do western: quando a lenda substitui a realidade, é a lenda que conta.
O cinema americano clássico era, de resto, o mais apreciado por Cintra Ferreira. "Na Cinemateca, quando distribuíamos pelos diferentes programadores a tarefa de escrever para as Folhas que acompanhavam as sessões, sempre que surgia um filme americano da época clássica ou mesmo pré-clássica, o Manuel Cintra Ferreira dizia logo: "Esse é meu"", recorda Mexia.
Jorge Leitão Ramos, companheiro de crítica no Expresso, e Manuel Fonseca, que, para além de no semanário e na Cinemateca, com ele trabalhou também na SIC, quando era director de programas do canal, confirmam a ideia de que Cintra Ferreira tinha "uma memória prodigiosa". "Ele tinha a história do cinema na cabeça", realça Leitão Ramos.
Luís Miguel Oliveira, crítico do Publico, assinala também a sua "curiosidade insaciável" por tudo o que dizia respeito ao cinema. "Ele gostava de gostar e de se entusiasmar com os filmes que via."
António Loja Neves diz que se tratava de "um sábio do cinema", arte que ele conhecia e amava de uma forma muito particular, tendo uma grande preocupação de comunicar esse prazer aos seus leitores. Foi assim que, com essa preocupação pedagógica e de contextualização histórica, formou várias gerações de cinéfilos, acrescenta este jornalista e também crítico de cinema do Expresso.
"Ao contrário de muitos críticos que agora entram na sala de cinema com uma "bola preta" no bolso, Cintra Ferreira ia ver um filme sempre com uma grande abertura de espírito, e com "cinco estrelas" disponíveis", diz Jorge Leitão Ramos, salientando ser essa uma atitude que cada vez mais rareia nos nossos dias.
Manuel Cintra Ferreira nasceu em Lagos, em 1942, e mudou-se ainda em criança para Lisboa, onde fez o liceu. Com formação audodidacta, começou depois a trabalhar na rádio, na Emissora Nacional, onde afirmou o seu interesse especial pelo cinema, que haveria de o levar depois à crítica e aos jornais. Manuel Fonseca e Pedro Mexia destacam também a sua generosidade e afabilidade. "É talvez a única pessoa do mundo do cinema de quem não se ouve ninguém dizer mal", diz o escritor.”