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quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

POSTAIS SEM SELO


As vantagens de aprender a escrever com os Pardais.

Adília Lopes 

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

NÃO GOSTO TANTO DE LIVROS

Não gosto tanto
de livros
como Mallarmé
parece que gostava
eu não sou um livro
e quando me dizem
gosto muito dos seus livros
gostava de poder dizer
como o poeta Cesariny
olha
eu gostava
é que tu gostasses de mim
os livros não são feitos
de carne e osso
e quando tenho
vontade de chorar
abrir um livro
não me chega
preciso de um abraço
mas graças a Deus
o mundo não é um livro
e o acaso não existe
no entanto gosto muito
de livros
e acredito na Ressurreição
dos livros
e acredito que no Céu
haja bibliotecas
e se possa ler e escrever

Adília Lopes


quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ

 


A arrumar jornais espalhados por cada canto da casa, fiquei com o Público de 26 de Dezembro na mão, precisamente na crónica de Nuno Pacheco lembrando que Todos os dias nasce uma pessoa… e morrem outras tantas.

Nuno Pacheco invocava algumas das figuras da cultura que nos deixaram em 2024.

Mais uns dias e falaria de Adília Lopes que morreu ontem.

Começamos um novo ano sem vermos resolvidos genocídios como os da Ucrânia e do Médio Oriente, por todos os cantos do mundo sem deles termos conhecimento e a crónica de Nuno Pacheco é um bom pretexto para a primeira música da manhã:

«Há uma canção de Amélia Muge que diz: “Todos os dias nasce uma pessoa/ todos os dias é dia natal”. Constatação de um facto, não o desejo solidário expresso por Ary dos Santos no poema Quando um homem quiser, que Fernando Tordo musicou e Paulo de Carvalho cantou: “Natal é em Dezembro/ Mas em Maio pode ser/ Natal é em Setembro/ É quando um homem quiser.” Porém, se todos os dias é mesmo dia natal, porque em todos eles nasce alguém algures no mundo – sendo o Natal (que acabámos de celebrar) marco de um nascimento, o de Cristo –, todos os dias é também dia letal, não só devido às mortes que fecham naturalmente ciclos de vida, mas às que abreviam inesperadamente tais ciclos – doenças, privações, misérias, maus-tratos – ou às que derivam do incontrolável impulso assassino que alimenta guerras e violências de todo o tipo.»

quinta-feira, 19 de maio de 2022

CIDADE BRANCA

 

Cidade branca
semeada
de pedras

Cidade azul
semeada
de céu

Cidade negra
como um beco

Cidade desabitada
como um armazém

Cidade lilás
semeada
de jacarandás
Cidade dourada

semeada
de igrejas

Cidade prateada
semeada
de Tejo

Cidade que se degrada
cidade que acaba


Adília Lopes

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

UMA ESPÈCIE DE CONTO DE NATAL

Reuniam-se aos domingos à tarde
na leitaria
com os casacos de pele de zebra e os bichos
ao pescoço de olhos de vidro
na juventude tinham sido
criadas de servir
e toda a vinha tinham lutado
por uma boneca loira em cima da cama
com colcha de cetim cor-de-rosa e passamanarias
a ponto de dormirem no chão
transidas de frio
bebiam chá comiam torradas
com muita manteiga
e pediam bolos de creme colorido
uma vez por outra o criado simpático
(havia um outro mas com maus modos para elas)
conseguia arranjar-lhes restos
de bolo de noiva
e as três exultavam então
só por acanhamento não encomendavam
um bolo de noiva para as três
num dia de Natal particularmente frio
sentiram qualquer coisa
nas saias plissadas
era um rato vulgar com um olhar
muito meigo e assustado
afeiçoaram-se logo ao animal
que levaram para casa comovidas
chamavam-lhe o nosso menino lindo
e consentiam-lhe tudo
o rato de noite roía as três bonecas
e as três de manhã iam contemplar os estragos
como aquelas pessoas que se deixam ficar paradas
diante da casa onde se consumou o crime hediondo
ao menos podiam ter arranjado um cão
ou uma criança da Santa Casa
quando o rato adoeceu chegaram a ser insultadas
nas salas de espera das clínicas veterinárias
(a excentricidade nos afectos mais tarde ou mais cedo
sai cara)
o rato ficou internado uns dias
e elas suspeitaram que tinha sido trocado
desconfiaram então muito das instituições
o mundo afinal era uma encenação
e não valia a pena perguntar
se um criado um veterinário ou um bolo de noiva
eram a sério ou a fingir
só se podia tentar averiguar se a encenação
revelava bom gosto ou não

Adília Lopes em Resumo: a poesia em 2009

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

POEMAS DA MINHA RUA

Quando encostam

ou abrem

o portão

do pátio do Duarte

na minha rua sossegada

à tarde

é como se os músicos

afinassem os instrumentos

antes do concerto

Adília Lopes

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

75

Em 75, achava que sabia pouco de política. Falava-se muito de marxismo e eu não tinha lido Marx. Achei que estava pouco informada. Fechei-me em casa a ler Marx, Engels e Lenine. Ainda hoje tenho esses livros todos. Percebia pouco do que lia. Às vezes lia mecanicamente, nunca saltava uma palavra. Não me aborrecia. Nunca me aborreço. Muitas vezes li assim mecanicamente e tinha prazer nisso. Os caracteres da escrita dão-me prazer.

Adília Lopes em resumo: a poesia em 2013

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

NÃO GOSTO TANTO DE LIVROS


Não gosto tanto
de livros
como Mallarmé
parece que gostava
eu não sou um livro
e quando me dizem
gosto muito de seus livros
gostava de poder dizer
como o poeta Cesariny
olha
eu gostava
é que tu gostasses de mim
os livros não são feitos
de carne e osso
e quando tenho
vontade de chorar
abrir um livro
não me chega
preciso de um abraço
mas graças a Deus
o mundo não é um livro
e o acaso não existe
no entanto gosto muito
de livros
e acredito na Ressurreição
dos livros
e acredito que no Céu
haja bibliotecas
e se possa ler e escrever.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

A PROPÓSITO DE ESTRELAS


Não sei se me interessei pelo rapaz
por ele se interessar por estrelas
se me interessei por estrelas por me interessar
pelo rapaz hoje quando penso no rapaz
penso em estrelas e quando penso em estrelas
penso no rapaz como me parece
que me vou ocupar com as estrelas
até ao fim dos meus dias parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz
até ao fim dos meus dias
nunca saberei se me interesso por estrelas
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas já não me lembro
se vi primeiro as estrelas
se vi primeiro o rapaz
se quando vi o rapaz vi as estrelas

Adília Lopes

segunda-feira, 11 de março de 2019

50 ANOS


Talvez escreva
poemas
que já li
que outros já escreveram
que eu mesma já escrevi
esqueço-me da minha vida

Adília Lopes

Legenda: Adília Lopes

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Psycho

Assassinada no duche
como Marat
mas sem revolução
nem razão
e o sangue aguado dela
vai-se pelo ralo
da banheira
no sentido
dos ponteiros do relógio
nos antípodas
seria ao contrário
porquê?

Adília Lopes em Poemas Com Cinema

Legenda: Janet Leigh em Psycho de Alfred Hitchcock

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

POSTAIS SEM SELO


Ah! quem me dera um vestido que me queimasse.