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terça-feira, 23 de dezembro de 2025

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


Um Rosto no Natal

Caiu sobre o país uma cortina de silêncio
a voz distingue o homem mas há homens que
não querem que os demais se elevem sobre os animais
e o que aos outros falta têm eles a mais
no dia de natal eu caminhava
e vi que em certo rosto havia a paz que não havia
era na multidão o rosto da justiça
um rosto que chegava até junto de mim de nicarágua
um rosto que me vinha de qualquer das indochinas
num mundo onde o homem é um lobo para o homem
e o brilho dos olhos o embacia a água
Caminhava no dia de natal
e entre muitos ombros eu pensava em quanto homem morreu por um deus que nasceu
A minha oração fora a leitura do jornal
e por ele soubera que o deus que cria
consentia em seu dia o terramoto de manágua
e que sobre os escombros inda havia
as ornamentações da quadra de natal
Olhava aquele rosto e nesse rosto via
a gente do dinheiro que fugia em aviões fretados
e os pés gretados de homens humilhados
de pé sobre os seus pés se ainda tinham pés
ao longo de desertos descampados
Morrera nesse rosto toda uma cidade
talvez pra que às mulheres de ministros e banqueiros
se permita exercitar melhor a caridade
A aparente paz que nesse rosto havia
como que prometia a paz da indochina a paz na alma
Eu caminhava e como que dizia
àquele homem de guerra oculta pela calma:
se cais pela justiça alguém pela justiça
há-se erguer-se no sítio exacto onde caíste
e há-de levar mais longe o incontido lume
visível nesse teu olhar molhado e triste
Não temas nem sequer o não poder falar
porque fala por ti o teu olhar
Olhei mais uma vez aquele rosto era natal
é certo que o silêncio entristecia
mas não fazia mal pensei pois me bastara olhar
tal rosto para ver que alguém nascia.

Ruy Belo em Todos os Poemas  

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL



 Último Poema 

 

É Natal, nunca estive tão só.

Nem sequer neva como nos versos

do Pessoa ou nos bosques

da Nova Inglaterra.

Deixo os olhos correr

entre o fulgor dos cravos

e os diospiros ardendo na sombra.

Quem tem assim o verão

dentro de casa

não devia queixar-se de estar só,

não devia.

Eugénio de Andrade

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


QUANDO VIERES

 

Quando vieres

Encontrarás tudo como quando partiste.

A mãe bordará a um canto da sala...

Apenas os cabelos mais brancos

E o olhar mais cansado.

O pai fumará o cigarro depois do jantar

E lerá o jornal.

Quando vieres

Só não encontrarás aquela menina de saias curtas

E cabelos entrançados

Que deixaste um dia.

Mas os meus filhos brincarão nos teus joelhos

Como se te tivessem sempre conhecido.

Quando vieres

nenhum de nós dirá nada

mas a mãe largará o bordado

o pai largará o jornal

as crianças os brinquedos

e abriremos para ti os nossos corações.

Pois quando tu vieres

Não és só tu que vens

É todo um mundo novo que despontará lá fora

Quando vieres.

 

Maria Eugénia Cunhal em Silêncio de Vidro

 

Legenda: Ilustração de Rogério Ribeiro para o livro de Manuel Tiago  Até Amanhã, Camaradas

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


 

Natal


Neste caminho cortado

Entre pureza e pecado

Que chamo vida,

Nesta vertigem de altura

Que me absorve e depura

De tanta queda caída,

É que Tu nasces ainda

Como nasceste

Do ventre da Tua mãe.

Bendita a Tua candura.

Bendita a minha também.

 

Mas se me perco e Te perco,

Quando me afogo no esterco

Do meu destino cumprido,

À hora em que Te rejeito

E sangra e dói no Teu peito

A chaga de eu ter esquecido,

É que Tu jazes por mim

Como jazeste

No colo da Tua mãe.

Bendita a Tua amargura

Bendita a minha também.

 

Reinaldo Ferreira em Natal…Natais

Legenda: pintura de Heidi Malott

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL



Natal – 1950


Nenhum Natal será possível: sei

que tudo enfim suspenso aguarda

não já Natais sempre de guerra mas

a morte iluminada como aurora

entre esta gente que se junta rindo

e as luzes interiores, muitas cabeças juntas;

entre as lágrimas de ternura e os murmúrios de esperança,

entre as vozes e os silêncios, as pedras e as árvores,

entre muralhas de janelas sob a chuva,

entre agonias dos que lutam porque são mandados

e a cobarde angústia dos que apenas mandam,

no meio da vida, círculo de fogo,

à luz de que se vê uma calçada suja

de restos de comida e de papéis rasgados

– se sei, embora saiba, quanto soube:

ah canto do meu canto, olhar do meu olhar,

nenhum Natal, bem sei, mas outra gente,

e tanta gente, e mesmo que um só fosse,

já louco, envelhecido, apenas hábito,

que poderei fazer, senão humildemente cantar?

 

Jorge de Sena em Natal… Natais

 

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL

 

espero que me calhe aquela fava

que é costume meter no bolo-rei:

quer dizer que o comi, que o partilhei

no natal com quem mais o partilhava

 

numa ordem das coisas cuja lei

de afectos e memória em nós se grava

nalgum lugar da alma e que destrava

tanta coisa sumida que, bem sei,

 

pela sua presença cristaliza

saudade e alegria em sons e brilhos,

sabores, cores, luzes, estribilhos...

e até por quem nos falta então se irisa

 

na mais pobre semente a intensa dança

de tempo adulto e tempo de criança.

 

Vasco Graça Moura

 

Poema retirado de Natal… Natais

sábado, 25 de dezembro de 2021

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL

Quando Vieres

Quando vieres
Encontrarás tudo como quando partiste.
A mãe bordará a um canto da sala...
Apenas os cabelos mais brancos
E o olhar mais cansado.
O pai fumará o cigarro depois do jantar
E lerá o jornal.
Quando vieres
Só não encontrarás aquela menina de saias curtas
E cabelos entrançados
Que deixaste um dia.
Mas os meus filhos brincarão nos teus joelhos
Como se te tivessem sempre conhecido.
Quando vieres
nenhum de nós dirá nada
mas a mãe largará o bordado
o pai largará o jornal
as crianças os brinquedos
e abriremos para ti os nossos corações.
Pois quando tu vieres
Não és só tu que vens
É todo um mundo novo que despontará lá fora
Quando vieres.


Maria Eugénia Cunhal em  Silêncio de Vidro

Legenda: Ilustração de Rogério Ribeiro para o livro de Manuel Tiago  Até Amanhã, Camaradas

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


Ladaínha dos Próximos Natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que se veja à mesa o meu lugar vazio

 

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

 

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que só uma voz me evoque a sós consigo

 

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que não viva já ninguém meu conhecido

 

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que nem vivo esteja um verso deste livro

 

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que terei de novo o Nada a sós comigo

 

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que nem o Natal terá qualquer sentido

 

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que o Nada retome a cor do Infinito

 

David Mourão-Ferreira de Cancioneiro de Natal em Obra Poética

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


 S. Mateus, Por Exemplo

 

fica tranquila, direi o que quero

 daí neste natal, tranquiliza-te,

um saco de plástico purificado

cheio de mar, um copo de vinho,

 um cesto de lapas, um pouco

de tabaco, um postal ilustrado

 

neste natal, direi o que quero

 um chá quente em barro da lagoa

 um copo de vinho, dois copos

 de vinho de cheiro, umas favas

de molho, uma vaca a abanar o rabo

em pasto verde, o céu cinzento

38° de humidade relativa

que me façam vomitar cinco anos

de angústia

 

fica tranquila, neste natal

vais enviar-nos a ilha ou

S. Mateus, por exemplo

 

Ivone Chinita em Natal… Natais

domingo, 5 de dezembro de 2021

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


 Natal... Natais...

Tu, grande Ser,
Voltas pequeno ao mundo.
Não deixas nunca de nascer!
Com braços, pernas, mãos, olhos, semblante,
Voz de menino.
Humano o corpo e o coração divino.

Natal... Natais...
Tantos vieram e se foram!
Quantos ainda verei mais?

Em cada estrela sempre pomos a esperança
De que ela seja a mensageira,
E a sua chama azul encha de luz a terra inteira.
Em cada vela acesa, em cada casa, pressentimos
Como um anúncio de alvorada;
E ein cada árvore da estrada
Um ramo de oliveira;
E em cada gruta o abrigo da criança omnipotente;

E no fragor do vento falas de anjos, e no vácuo
De silêncio da noite
Estriada de súbitos clarões,
A presença de Alguém cuja forma é precária
E a sua essência, eterna.
Natal... Natais...
Tantos vieram e se foram!
Quantos ainda verei mais?

Cabral do Nascimento Natais… Natais…

Legenda: pintura de David Jaconson

sábado, 4 de dezembro de 2021

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


Chama, Se Natal

Se o Natal fosse a luz, uma flor a romper

A escuridão do tempo.

Um cerco (múltiplos) dedos negros

De cinza, a alma negra

Do fumo que se espalha, e alarga, e estreita as coisas,

Prendendo o horizonte, E não

há praia assim.

 

E tu falas de longe como um anjo

Dos caminhos que vão calar a morte.

Por eles, volto a Belém com a estrela, e não há berço,

Só um cão pedindo os nossos passos.

Vogo em Veneza a estagnação dos dias

Nas águas rosadas do poente

Desde Setembro, o mais cruel dos meses,

E sinto o mar do Sul, a sua ausência

Na terra do meu corpo, devastada.

 

A tempestade canta nas máquinas. Lavram

Os anúncios da paz.

 

Natal, a chama

Que vai trazer-me as horas

De respirar com todos na cidade

Em água iluminada, e esse chão branco, sabes,

Onde a neve é um sol.

 

Chamo o Natal e estou aqui à espera

De despertar mais logo

À flor do lago.

 

Maria Alzira Seixo em Natal… Natais

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


Último Poema 


É Natal, nunca estive tão só.

Nem sequer neva como nos versos

do Pessoa ou nos bosques

da Nova Inglaterra.

Deixo os olhos correr

entre o fulgor dos cravos

e os diospiros ardendo na sombra.

Quem tem assim o verão

dentro de casa

não devia queixar-se de estar só,

não devia.

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


Um Rosto no Natal

Caiu sobre o país uma cortina de silêncio
a voz distingue o homem mas há homens que
não querem que os demais se elevem sobre os animais
e o que aos outros falta têm eles a mais
no dia de natal eu caminhava
e vi que em certo rosto havia a paz que não havia
era na multidão o rosto da justiça
um rosto que chegava até junto de mim de nicarágua
um rosto que me vinha de qualquer das indochinas
num mundo onde o homem é um lobo para o homem
e o brilho dos olhos o embacia a água
Caminhava no dia de natal
e entre muitos ombros eu pensava em quanto homem morreu por um deus que nasceu
A minha oração fora a leitura do jornal
e por ele soubera que o deus que cria
consentia em seu dia o terramoto de manágua
e que sobre os escombros inda havia
as ornamentações da quadra de natal
Olhava aquele rosto e nesse rosto via
a gente do dinheiro que fugia em aviões fretados
e os pés gretados de homens humilhados
de pé sobre os seus pés se ainda tinham pés
ao longo de desertos descampados
Morrera nesse rosto toda uma cidade
talvez pra que às mulheres de ministros e banqueiros
se permita exercitar melhor a caridade
A aparente paz que nesse rosto havia
como que prometia a paz da indochina a paz na alma
Eu caminhava e como que dizia
àquele homem de guerra oculta pela calma:
se cais pela justiça alguém pela justiça
há-se erguer-se no sítio exacto onde caíste
e há-de levar mais longe o incontido lume
visível nesse teu olhar molhado e triste
Não temas nem sequer o não poder falar
porque fala por ti o teu olhar
Olhei mais uma vez aquele rosto era natal
é certo que o silêncio entristecia
mas não fazia mal pensei pois me bastara olhar
tal rosto para ver que alguém nascia.

Ruy Belo em Todos os Poemas 

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


 Àquele Que É A Causa De Tudo


Estou sentado aqui sozinho

no dia de Natal

Eu sei, eu sei

Não devia ser assim

Tenho ligado a algumas pessoas

mas estão todas fora

& tenho rezado àquele

que é a causa de tudo

 

Não sei como me afastei tanto

de todos os que amo

ou porque fechei tantas portas

em que estaria a pensar?

 

Leonard Cohen em  A Chama