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sábado, 20 de janeiro de 2024

DEU-ME UM BAQUE!

Manuel António Pina foi colega de Sérgio Godinho no 6º e 7º Anos do liceu. 

Estavam em áreas diferentes, mas tínham cadeiras comuns. 

Foi o Pina que lhe mostrou Pela Estrada Fora do Kerouac. Foi também ele que lhe mostrou as Odes Elementares de Pablo Neruda - «Deu-me um baque!»

sexta-feira, 10 de novembro de 2023

O OUTRO LADO DAS CAPAS



Acima se reproduz o Relatório nº 5244, datado de Setembro de 1954, bolsado pelo capitão José Brandão Pereira de Melo, censor pidesco do regime salazarista, que proibiu Encontro-Antologia de Autores Modernos.

O militar-censor-analfabeto começa o vómito dizendo que a esta “Antologia de Autores Modernos” melhor se lhe podia chamar “Antologia de autores comunistas, comunistoides ou comunisantes”.

 O livro faz parte da Colecção «Biblioteca da Censura», publicada pelo Público com curadoria de Álvaro Seiça, contém  textos de Eugénio de Andrade, Federico Garcia Lorca, José Fernandes Fafe, Luís Francisco Rebello e Miguel Torga e traduções de André Gide, Henri Lefebvre, Pablo Neruda, René Leibowitz e Walt Whitman, todos os textos estão antecedidos por curtas introduções assinadas por Alexandre Pinheiro Torres, Correia Alves, António Pinheiro Guimarães, Carlos F. Barroso, Manuel Dias da Fonseca e Eugénio de Andrade.

O censor-militar-analfabeto analisa o texto de Henri Lefebvre, o poema “O Canto de Mim Mesmo” de Walt Whitman e a peça teatral “O Dia Seguinte” de Luís Francisco Rebelo e termina o relatório:

 «Estes trechos da Antologia bastam, quanto a mim, para justificar ou dictar a proibição da obra, mas até, parece-me, só o último referido tal imporia.»

quinta-feira, 6 de maio de 2021

POSTAIS SEM SELO


A palavra é uma asa do silêncio, o fogo tem a sua metade de frio.

Pablo Neruda

terça-feira, 13 de abril de 2021

O POETA CASAMENTEIRO


Não gosto da casa sem telhado nem da janela sem vidros. Não gosto do dia sem trabalho nem da noite sem sonhos. Não gosto do homem sem mulher nem da mulher sem homem. Quero que as vidas se integrem acendendo os beijos até agora apagados. Eu sou o bom poeta casamenteiro.

Pablo Neruda numa encenação criada por Antonio Skármeta em O Carteiro de Pablo Neruda

Legenda: fotograma do filme O Carteiro de Pablo Neruda

terça-feira, 16 de março de 2021

POSTAIS SEM SELO


Tira-me o pão se quiseres, tira-me o ar, mas não me tires o teu sorriso.

Pablo Neruda

Legenda: Matilde Urrita

segunda-feira, 29 de junho de 2020

NÃO HÁ SOLIDÃO INEXPUGNÁVEL


Não aprendi nos livros qualquer receita para a composição de um poema; e não deixarei impresso, por meu turno, nem sequer um conselho, modo ou estilo para que os novos poetas recebam de mim alguma gota de suposta sabedoria. Se narrei neste discurso alguns sucessos do passado, se revivi um nunca esquecido relato nesta ocasião e neste lugar tão diferentes do sucedido, é porque durante a minha vida encontrei sempre em alguma parte a asseveração necessária, a fórmula que me aguardava, não para se endurecer nas minhas palavras, mas para me explicar a mim próprio. 

Encontrei, naquela longa jornada, as doses necessárias para a formação do poema. Ali me foram dadas as contribuições da terra e da alma. E penso que a poesia é uma acção passageira ou solene em que entram em doses medidas a solidão e solidariedade, o sentimento e a acção, a intimidade da própria pessoa, a intimidade do homem e a revelação secreta da Natureza. E penso com não menor fé que tudo se apoia - o homem e a sua sombra, o homem e a sua atitude, o homem e a sua poesia - numa comunidade cada vez mais extensa, num exercício que integrará para sempre em nós a realidade e os sonhos, pois assim os une e confunde. E digo igualmente que não sei, depois de tantos anos, se aquelas lições que recebi ao cruzar um rio vertiginoso, ao dançar em torno do crânio de uma vaca, ao banhar os pés na água purificadora das mais elevadas regiões, digo que não sei se aquilo saía de mim mesmo para se comunicar depois a muitos outros seres ou era a mensagem que os outros homens me enviavam como exigência ou embrazamento. Não sei se aquilo o vivi ou escrevi, não sei se foram verdade ou poesia, transição ou eternidade, os versos que experimentei naquele momento, as experiências que cantei mais tarde.

De tudo aquilo, amigos, surge um ensinamento que o poeta deve aprender dos outros homens. Não há solidão inexpugnável. Todos os caminhos conduzem ao mesmo ponto: à comunicação do que somos. E é necessário atravessar a solidão e aspereza, a incomunicação e o silêncio para chegar ao recinto mágico em que podemos dançar com hesitação ou cantar com melancolia, mas nessa dança ou nessa canção acham-se consumados os mais antigos ritos da consciência; da consciência de serem homens e de acreditarem num destino comum.

Pablo Neruda em Nasci para Nascer

terça-feira, 27 de agosto de 2019

POSTAIS SEM SELO



Aprendi a vida
da vida
aprendi o amor com um só beijo,
e não pude ensinar nada a ninguém
senão quanto vivi,
o que tive em comum com outros homens,
o que lutei com eles:
o que espremi de todos no meu canto.

Pablo Neruda de Ode ao Livro (I) em Antologia Breve

terça-feira, 4 de junho de 2019

POSTAIS SEM SELO


Não existe poesia sem contacto humano. No pão de amanhã deverão ver-se as mãos do poeta.

Pablo Neruda

terça-feira, 11 de setembro de 2018

A HISTÓRIA OS JULGARÁ!


Como escreveu Rafael Alberti:

Ontem, no Chile, morreu um homem. Hoje mesmo, milhares de outros já se levantam. A morte não acaba nada!

Pablo Neruda no seu livro Confesso Que Vivi:

O meu povo foi o mais atraiçoado deste tempo. Dos desertos do nitrato, das minas submarinas do carvão, das altitudes terríveis onde jaz o cobre e o extraem com esforços sobre-humanos as mãos do meu povo, surgiu um movimento libertador de dimensão grandiosa. Esse movimento levou à presidência do Chile um homem chamado Salvador Allende, para introduzir reformas e medidas de justiça inadiáveis, a fim de resgatar as nossas riquezas nacionais das garras estrangeiras. (…).
Aqui, no Chile, estava a construir-se, entre enormes dificuldades, uma sociedade verdadeiramente justa, bem assente na base da nossa soberania, do nosso orgulho nacional, do heroísmo dos melhores habitantes do Chile. Do nosso lado, do lado da
revolução chilena, estavam a Constituição e a lei, a democracia e a esperança.

Discurso do Presidente Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973, dia do golpe de Estado que derrubou o governo da Unidade Popular e implantou a sanguinária ditadura militar comandada pelo general Pinochet.

«Seguramente, esta será a última oportunidade em que poderei dirigir-me a vocês. A Força Aérea bombardeou as antenas da Rádio Magallanes. Minhas palavras não têm amargura, mas decepção. Que sejam elas um castigo moral para quem traiu seu juramento: soldados do Chile, comandantes-em-chefe titulares, o almirante Merino, que se auto designou comandante da Armada, e o senhor Mendoza, general rastejante que ainda ontem manifestara sua fidelidade e lealdade ao Governo, e que também se autodenominou diretor geral dos carabineros.
Diante destes fatos só me cabe dizer aos trabalhadores: Não vou renunciar! Colocado numa encruzilhada histórica, pagarei com minha vida a lealdade ao povo. E lhes digo que tenho a certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos, não poderá ser ceifada definitivamente. [Eles] têm a força, poderão nos avassalar, mas não se detém os processos sociais nem com o crime nem com a força. A história é nossa e a fazem os povos.
Trabalhadores de minha Pátria: quero agradecer-lhes a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram em um homem que foi apenas intérprete de grandes anseios de justiça, que empenhou sua palavra em que respeitaria a Constituição e a lei, e assim o fez.
Neste momento definitivo, o último em que eu poderei dirigir-me a vocês, quero que aproveitem a lição: o capital estrangeiro, o imperialismo, unidos à reação criaram o clima para que as Forças Armadas rompessem sua tradição, que lhes ensinara o general Schneider e reafirmara o comandante Araya, vítimas do mesmo setor social que hoje estará esperando com as mãos livres, reconquistar o poder para seguir defendendo seus lucros e seus privilégios.
Dirijo-me a vocês, sobretudo à mulher simples de nossa terra, à camponesa que nos acreditou, à mãe que soube de nossa preocupação com as crianças. Dirijo-me aos profissionais da Pátria, aos profissionais patriotas que continuaram trabalhando contra a sedição auspiciada pelas associações profissionais, associações classistas que também defenderam os lucros de uma sociedade capitalista. Dirijo-me à juventude, àqueles que cantaram e deram sua alegria e seu espírito de luta. Dirijo-me ao homem do Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos, porque em nosso país o fascismo está há tempos presente; nos atentados terroristas, explodindo as pontes, cortando as vias férreas, destruindo os oleodutos e os gasodutos, frente ao silêncio daqueles que tinham a obrigação de agir. Estavam comprometidos. A história os julgará.
Seguramente a Rádio Magallanes será calada e o metal tranquilo de minha voz não chegará mais a vocês. Não importa. Vocês continuarão a ouvi-la. Sempre estarei junto a vocês. Pelo menos minha lembrança será a de um homem digno que foi leal à Pátria. O povo deve defender-se, mas não se sacrificar. O povo não deve se deixar arrasar nem tranquilizar, mas tampouco pode humilhar-se.
Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e seu destino. Superarão outros homens este momento cinzento e amargo em que a traição pretende impor-se. Saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.
Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores! Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a perfídia, a covardia e a traição.»

segunda-feira, 9 de julho de 2018

POSTAIS SEM SELO


 A vida espera todos aqueles que amam o selvagem odor a mar e a menta que ela tem entre os seios.

Pablo Neruda em Odes Elementares

sexta-feira, 11 de maio de 2018

UM FATO QUE ME FICA DEMASIADO LARGO


«Queria mandar-te mais alguma coisa além das palavras. Por isso meti a minha voz nesta gaiola que canta. Uma gaiola que é um pássaro. Ofereço-ta. Mas também quero pedir-te uma coisa, Mario, que só tu podes fazer. Os outros meus amigos todos ou não saberiam o que fazer, ou pensariam que sou um velho gagá e ridículo. Quero que vás com este gravador passear pela Ilha Negra, e me graves todos os sons e ruídos que fores encontrando. Preciso desesperadamente nem que seja do fantasma da minha casa. A minha saúde não anda bem. Falta-me o mar. Faltam-me os pássaros. Manda-me os sons da minha casa. Vai ao jardim e deixa tocar os sinos. Primeiro grava esse repicar fininho dos sininhos pequenos quando os agita o vento, e a seguir puxa a corda do sino maior, cinco, seis vezes, Sinos, meus sinos! Não há nada que soe tanto como a palavra sino, se a ouvimos de um campanário junto ao mar. E vai até às rochas e grava-me a rebentação das ondas. E se ouvires gaivotas, grava-as. Paris é bonita, mas é um fato que me fica demasiado largo. Além disso aqui é Inverno, e o vento revolve a neve como um moinho de farinha. A neve sobe e sobe, trepa-me pela acima. Faz de mim um triste rei com a sua túnica branca. Já chega à minha boca, já me tapa os lábios, já não me saem as palavras».
«E para que conheças alguma coisa da música de França, mando-te uma gravação do ano de 1938 que encontrei esquecida numa loja de discos usados do Bairro latino. Quantas vezes a cantei quando jovem? Sempre quis tê-la e nunca consegui. Chama-se J’attendrai, canta-a Rita Ketty, e a letra diz: «Esperarei dia e noite, esperarei sempre que regresses.»

Antonio Skármeta em O Carteiro de Pablo Neruda.

terça-feira, 13 de março de 2018

RELACIONADOS


Muito se discutiu o anonimato deste livro. O que eu discutia, entretanto, dentro de mim, era se devia ou não desvendar-lhe a sua origem íntima: revelar a sua progenitura era desnudar a intimidade do seu nascimento. E não se me afigurava que semelhante gesto se mostrasse leal para com os arrebatamentos de amor e fúria, para com o clima desconsolado e ardente do desterro que lhe deu nascimento.
Penso, por outro lado que todos os livros deveriam ser anónimos. Mas entre retirar o meu nome de todos os meus ou confiá-lo ao mais misteriosos de todos eles, cedi, por fim, ainda que sem grande empenho.
Porque guardou ele o seu segredo durante tanto tempo? – perguntar-se-á. Por tudo e por nada, por isto ou por aquilo, por alegrias impróprias, por sofrimentos alheios. Quando Polo Ricci, meu luminoso companheiro, o imprimiu pelam primeira vez em Nápoles, em 1952, pensámos que os escassos exemplares por ele acarinhados e preparados com excelência desapareceriam sem deixar rasto nas areias do Sul.
Não foi assim. E a vida que reclamou o seu estalido secreto impõe-mo hoje como sinal de inalterável amor.
Entrego, pois, este livro sem mais explicações, como se ele fosse w não fosse meu: basta-lhe que possa caminhar sozinho pelo mundo e crescer por sua conta. Agora que o reconheço, espero que o seu sangue furiosos me reconheça também.

Ilha Negra, Novembro de 1963

                                                                                         PABLO NERUDA         

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


O Carteiro de Pablo Neruda

Antonio Skármeta
Tradução: José Colaço Barreiros
Capa: Fernando Mateus
Colecção estórias nº 81
Editorial Teorema, Lisboa s/d

O que não conseguiu o Oceano Pacífico com a sua paciência semelhante à eternidade, conseguiu-o o simples e doce posto dos correios de San Antonio: Mario Jimenez não só se levantava de madrugada, assobiando e com um nariz fluído e atlético, como se lançou com tanta pontualidade no seu ofício que o velho funcionário Cosme lhe confiou a chave do local, no caso de alguma vez se decidir a levar a cabo uma façanha desde há muito sonhada: ficar a dormir de manhã até tõ tarde que já fosse hora da sesta e dormir uma sesta tão grande que já fosse horas de deitar, e ao deitar-se dormir tão bem e com um sono tão profundo que no dia seguinte sentisse pela primeira vez essa vontade de trabalhar que Mario irradiava e que Cosme meticulosamente ignorava.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

POSTAIS SEM SELO


Há no mundo alguma coisa mais triste do que um com­boio parado na chuva?

Pablo Neruda

Legenda: pintura de Paul Delvaux

sexta-feira, 10 de abril de 2015

POSTAIS SEM SELO


Como con­se­guiu a liber­dade a bici­cleta aban­do­nada?

Pablo Neruda

quarta-feira, 8 de abril de 2015

UM ANO SEM CRITÉRIO


A 8 de Abril de 1973 morria Pablo Picasso.

Tinha 92 anos.

Um ano terrível esse de 1973.

Para além de Pablo Picasso, morreu Pablo Casals e Pablo Neruda.

Num poema, Vinicius de Moraes registou esse ano negro:


Que ano mais sem critério 
esse de 73
Levou para o cemitério
três Pablos de uma só vez

Três Pablões, não três pablinhos
No tempo como no espaço
Pablos de muitos caminhos:
Neruda, Casals, Picasso.

Três Pablos que se empenharam
contra o fascismo espanhol
Três Pablos que muito amaram
Três Pablos cheios de Sol.

Um trio de imensos Pablos
em gênio e demonstração
Feita de engenho, trabalho
Pincel, arco e escrita à mão.

Três publicíssimos Pablos:
Picasso, Casals, Neruda
Três Pablos de muita agenda
Três Pablos de muita ajuda.
Três líderes cuja morte
o mundo inteiro sentiu

Oh ano triste e sem sorte
Vá pra puta que o pariu

sábado, 9 de fevereiro de 2013

O MAIOR DOS SOFRIMENTOS É NÃO TER SOFRIDO


Segundo a Lusa, um juiz chileno ordenou a exumação do corpo do poeta Pablo Neruda, no âmbito de uma investigação sobre as circunstâncias da morte, anunciou a Fundação responsável pelo seu legado literário.
O poeta, membro do Partido Comunista Chileno, que morreu 12 dias após o golpe de Estado militar de 1973, dirigido pelo general Augusto Pinochet e que implicou o derrube, e também a morte, do Presidente Salvador Allende, terá sido vítima de um cancro, de acordo com a versão então divulgada.
No entanto, responsáveis oficiais têm admitido nos últimos anos a possibilidade de Neruda ter sido assassinado às ordens dos militares da Junta.

Datado de Santa Bárbara, 24 de Setembro de 1973, Jorge de Sena escreveu o poema Pablo Neruda morreu de cancro:

Os cancros matam, vêm insidiosos,
sem preferência pelos bons ou maus.
Raízes implacáveis que se estendem
e não dão fruto mais do que só morte.
Destino fingem ser, cegos e surdos,
e mudos como a carne que vão roendo,
até que a vida não resiste já.

Na noite que se acende à beira-mar

lá onde as cordilheiras tocam céus,
o sangue brilha dos assassinados
em quem mais uma vez a liberdade
é morta nos quintais destas Américas.
O cancro alastra: os cancros são fascistas.

Importa pouco o cancro só da próstata

que assassinou Neruda, em conivência
com Pinochets, como este conspirando
há muito já, seguindo uma cartilha
que eu vira passo a passo noutro espaço
trazida à rua com panelas, tachos,
ou procissões desagravando a Virgem.

Importa pouco. É só uma raiz

humilde e pequenina de outro cancro
patriota e medalhado sobre o mundo,
abrindo em negra flor de companhias,
consórcios, trustes, negras agonias.

De 40 Anos de Servidão, Círculo de Poesia, Moraes Editores, Lisboa Setembro 1982.

Nota do editor: o título é um verso do poema Saudade de Pablo Neruda.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Pelas 19,00 horas do próximo dia 3 de Fevereiro, no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, Paco Ibáñez canta poetas latino-americanos.

Salvador Dali chamava-lhe "a mais espanhola das vozes". Mas nem por isso Paco Ibáñez, histórica figura do antifranquismo, deixou de querer cantar outras terras e outras vozes da língua castelhana. Aos 70 anos decidiu prestar homenagem a alguns dos poetas maiores da América Latina e, portanto, traz até nós e através do seu canto as palavras da ragentina Alfonsina Strorni, do peruano César Vallejo, do chileno Pablo Neruda, do cubano Nicólas Guillén e do nicaraguense Rubén Dario.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

POSTAIS SEM SELO


Já se aproxima o Natal. Cada natal que passa abeira-nos do ano 2000. Para essa alegria futura, para essa paz de amanhã, para essa justiça universal, para esses sinos do ano 2000, lutaram e cantaram os poetas do meu tempo.

Pablo Neruda em “Confesso Que Vivi”

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

RETRATOS



Neste dia, no ano de 1973, com 69 anos, morria o poeta militante chileno Pablo Neruda.

Este ano, aliás, foi terrível para os grandes Pablos: a 8 de Abril morria Pablo Picasso, a 22 de Outubro, Pablo Casals.

Neruda debatia-se, há alguns anos, com um cancro na próstata, mas o golpe militar que derrubou, com o total apoio dos Estados, Unidos, o governo de Salvador Allende, apressou o fim.

Doze dias antes da sua morte, uma feroz ditadura militar, comandada por Augusto Pinochet, instalou o terror e a morte no Chile.

“Uma vitória é sempre um calafrio,
Porque se ganha o povo há uma corrente de ar
Na tonta do invejoso logo a entrar” (1)

Milhares e milhares de mortos e feridos, assassinados, massacrados, de desaparecidos, de refugiados,

Pinochet morreu em Dezembro de 2006, sem nunca ter sido julgado pelos hediondos crimes.

Em Julho de 2010, para comemorar o bicentenário da independência do Chile, a Conferência Episcopal chilena pediu, ao Presidente da República Sebastián Piñera, perdão para Augusto Pinochet e os militares condenados por crimes cometidos durante a ditadura.

Abençoada gente!...

Neruda era apelido do Chile.

Quando um chileno viajava por outros países e lhe era perguntado donde vinha, respondia: “Chile”, e acrescentava: “Neruda”.

“Iluminou através da sua poesia valores humanos caros ao humanismo marxista, enchendo de uma nova luz as coisas mais simples; recuperou para o universo poético cebolas, formas de amar, maneiras de lutar, aromas, gestos de povo; encheu a esperança de coisas e as coisas de esperança; deu forma humana ao Chile, converteu em novas, velhas frases, tornou o surreal real e o real e o real maravilhoso e ofereceu um grande e livre reino de palavras a todos os poetas. Morreu com o coração em forma de Povo em nome de um Povo que já o tinha a ele no coração.”
(2)




Em Outubro de 1971, a Academia Sueca atribui-lhe o Prémio Nobel da Literatura:

“O meu Prémio Nobel tem uma longa história. Durante muitos anos, o meu nome foi apontado como candidato sem o mínimo resultado.
Em 1963, a coisa foi mais séria. As emissoras disseram e repetiram várias vezes que o meu nome era firmemente discutido em Estocolmo e que era o mais provável vencedor entre os candidatos ao prémio. Matilde eu pusemos então em prática o plano nº 3 de defesa doméstica, Colocámos um cadeado grande no velho portão da Ilha Negra e abastecemo-nos de comida e vinho tinto. E escolhi alguns romances policiais na perspectiva do meu enclausuramento.
“A verdade é que qualquer escritor deste planeta chamado Terra deseja um dia alcançar o Prémio Nobel, incluindo aqueles que o não confessam e também aqueles que o negam.” (3)

Filho de ferroviário era um homem simples, de uma sensibilidade assombrosa que fugia das intelectualidades e apresentava-se, geralmente, com um boné aos quadrados e um casaco atirado para os ombros.

Numa carta que escreveu a John Edwards, pedia-lhe que fosse a Londres comprar-lhe um par de tambores que tinha visto numa loja, na sua passagem pela capital inglesa. A vida não se consegue viver sem um tambor. Nas manhãs da Ilha Negra tocava clarim e, com um gorro de marinheiro na cabeça, içava no mastro da praia a sua bandeira que era um peixe.

“A minha bandeira é azul e tem um peixe horizontal fechado ou enquadrado por dois círculos armilares. No inverno, com muito vento e sem ninguém por estes caminhos abandonados, agrada-me ouvir o agitar da bandeira e ver o peixe nadar pelos céus como se estivesse vivo.” (4).

Em 1970, pelo Partido Comunista Chileno, foi candidato ao cargo de Presidente da República. Durante a campanha eleitoral, percorreu o país de uma ponta à outra, inflamando multidões com discursos poéticos que falavam ao coração e ao sentir do seu povo, seguindo uma lição de vida que lhe apontava o caminho de que o segredo está no modo como olhamos as coisas e as pessoas.
O Partido, em benefício de uma candidatura mais abrangente, pediu-lhe que retirasse a candidatura para que fosse possível apoiar Salvador Allende.

Neruda não hesitou um segundo – o seu país, o povo chileno estavam à frente de tudo o mais.

Em Maio de 1971, Salvador Allende tornou-se o primeiro presidente da República marxista, democraticamente eleito, na América Latina.

“Não tenho cura: contra os inimigos do meu povo a minha canção ´«e ofensiva e dura como pedra araucana.

Pode ser esta uma função efémera, mas cumpro-a. E recorro às armas mais antigas da poesia, ao canto e aos panfletos usados por clássicos e românticos e destinados à destruição do inimigo.

Agora firmes, que vou disparar” (5).



(1)  e  (5) - "Incitamento ao Nixonnicídio e Louvor da Revolução Chilena, O Testamento poético de Pablo Neruda", Agência Portuguesa de Revistas, Lisboa, Dezembro de 1975

(2) - Eduardo Valente da Fonseca, Suplento Literário do "República", 27 de Setembro de 1975

(3) - "Confesso Que Vivi", Pablo Neruda, Publicações Europa-América, Lisboa Bril 1975

(4) - "Uma Casa na Paria", Pablo Neruda, Edições Contraponto, , Lisboa, Novembro 1996