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sábado, 11 de janeiro de 2020

OLHAR AS CAPAS


Obras Completas

4º Volume
Português, Escritor, 45 Anos de Idade, Os Marginais e a Revolução, Três Quadros de Revista, O Punho
Bernardo Santareno
Organização, Posfácio e Notas: Luís Francisco Rebello
Capa: Delgado Godinho
Editorial Caminho. Lisboa, Dezembro de 1987

VOZ DO AUTOR – Sou português, escritor e tenho quarenta e cinco anos de idade. Sim, sou aquele menino a cujo nascimento os senhores assistiram, no começo desta peça... Ouviram os alegres votos de esperança dos meus pais, amigos e familiares. Lembram-se? Coitados, como se enganaram! Viram também as imagens e as cenas representadas que se seguiram. Elas pretendem mostrar alguns aspectos principais da vida política, religiosa e social do País. Assim tenho vivido, assim temos todos vivido em Portugal. Tenho quarenta e cinco anos e... estou farto, cansado, já não acredito em nada. Esta será a minha última peça. Estou desesperado, a vida dói-me horrivelmente. Sim, esta representação é, gostaria que fosse, uma despedida. Uma despedida sem amor. Perdi tudo. O que lhes possa acontecer a vocês, espectadores, mesmo aos mais jovens, já não me interessa. Esperança, progresso, luta, futuro, beleza, camaradagem, povo, juventude... são papeis rasgados para mim. Tiraram-me tudo. Já não posso mais. Esta, repito, será a minha última peça. Uma peça autobiográfica. Escrevi-a na prisão.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

OLHAR AS CAPAS


Obras Completas
3º Volume
O Judeu, O Inferno, A Traição do Padre Martinho

Bernardo Santareno
Organização, Posfácio e Notas: Luís Francisco Rebello
Capa: Delgado Godinho
Editorial Caminho. Lisboa, Setembro de 1986

Engenheiro (indignado): Ajuda, ajuda, disso tenho eu a certeza! E tu ainda o vens dizer em público, meu malandro?! (Para os espectadores) Um Padre! Um ministro de Deus!... Vão assim os tempos de hoje. Prezo-me de ser um bom católico. Toda a gente, nesta região, me conhece e sabe a firmeza das minhas ideias. Creio humildemente que sou bem informado e que pratico a caridade cristã como me ensinaram os meus maiores: portanto, tenho alguma autoridade para falar. Sempre me dei bem com os párocos do Cortiçal: nem doutro modo seria de esperar. Respeito e venero o senhor Bispo da Diocese, que faz o favor de ser meu amigo. Pois bem: a este, ao Padre Martinho, por mais que me esforce – e Deus sabe como esgotei as tentativas! -, não sou capaz de o compreender. Deixei-o entrar na minha fábrica, confiante, lealmente. Como se fosse sua casa. Aliás como poderia eu impedir um sacerdote católico de exercer, em plena liberdade, o seu apostolado junto de trabalhadores meus?! (Para o Padre Martinho) Estou a mentir? (Para os operários) É ou não, verdade? (OPadre Martinho baixa os olhos, disfarçando um sorriso de ironia e desprezo. Os operários contêm uma máquina de troça, em alguns hostil. Novamente para o público) Pois querem saber a paga que recebi da minha boa fé e do meu zelo cristão? Pelo menos duas amotinações, duas greves ridículas, são obra do nosso Padre Martinho: que, se não fosse ele, mais as razões que lhes dava, mais os «améns» com que apoiou as suas pretensões absurdas, nunca aquilo teria acontecido! Estão os senhores a ver, hã? Claro, acabei por ser obrigado a proibir-lhe a entrada na fábrica. Ai, tristes e conturbados tempos estes em que um bom católico se vê coagido a defender-se dum sacerdote do seu próprio credo, como se inimigo aturado e e manhoso se tratasse.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

OLHAR AS CAPAS



Obras Completas
2º Volume
António Marinheiro, Os Anjos e o Sangue, O Duelo, O Pecado de João Agonia, Anunciação

Bernardo Santareno
Organização, Posfácio e Notas: Luís Francisco Rebello
Capa: Delgado Godinho
Editorial Caminho. Lisboa, Dezembro de 1984

ANTÓNIO (surpreendido, ferido): Doutra maneira, não nos deixam ficar juntos…
AMÁLIA: Sim, toda a gente diria que…
ANTÓNIO; Não te agrado?...
AMÁLIA: (reacção viva): Sim, tanto! Mas…
ANTÓNIO: Se me deixas, mato-me!
AMÁLIA (grito fundo de horror): Não!
ANTÓNIO: Mato-me, mato-me!
AMÁLIA: Ouve, António, escuta: eu nunca pensei em ti assim como… como homem, entendes?!
ANTÓNIO (grave): Eu sou um homem.
AMÁLIA (recuando, as mãos de novo sobre o ventre): És… Tu és um homem… (Pára de repente: grito deluz, síntese súbita de todos os seus sentimentos confusos.) Não, não! Tu és um rapazinho, tão novinho ainda… (mais uma vez se aproxima de António, acariciando-o.)
ANTÓNIO (que está sentado numa cadeira, poisando a face na mão de Amália infantil) Que voz a atua, Amália! Tão boa, tão meiga!... Quando me falas comigo, assim… é como se eu estivesse adormecido e as tuas palavras me chegassem em sonhos – num sonho bom. É verdade isto que eu te digo, Amália, juro! (Levanta a cabeça, fixando Amália) Queres saber?
Parece-me que a tua voz não é nova – coisa mais esquisita! -, que é antiga, antiga… que sempre a ouvi, sempre!... (Volta a apoiar a faxe sobre as mãos de Amália) É tão bom escutar as tuas palavras… Tão bom!...
AMÁLIA (muito suave, maternal): Quem me dera que tu fosses pequenino, António! Queria poder pegar-te ao colo, esconder-te todo nos meus braços… E sofro… Ai sofro muito! Porque já não posso fazê-lo. (Com um quase-espanto sincero.) Que crescido… Que grande, que alto que estás, António!
ANTÓNIO (infantil): Sei… Tenho a certeza de que não é de agora a tua voz… Ouvia-a muitas vezes, antes de te ver, Amália! Muitas vezes, muitas, muitas… escondida como um fio de água clarinha, no fundo na fala de outra gente, ou no vento, ou no mar: saltava de repente, como um relâmpago, e logo deixa de a escutar. Mas era ela, era a tua voz, Amália! E eu ficava todo a tremer, alagado em suores frios, com um gosto a sangue na boca…

sexta-feira, 15 de março de 2019

OLHAR AS CAPAS


Obras Completas
1º Volume
A Promessa. O Bailarino, A Excomungada, O Lugre, O Crime de Aldeia Velha

Bernardo Santareno
Organização, Posfácio e Notas: Luís Francisco Rebello
Capa: Delgado Godinho
Editorial Caminho. Lisboa, Dezembro de 1984

CAPITÃO (com autoridade; digno e simples; comovido. Começa a cerimónia do funeral): Tenho muita pena do António Nazareno. Era um bom rapaz e um bom pescador.  Tenho muita pena… Resta-nos a consolação de termos feito tudo para o salvar. Tudo. Gostaria mais de o sepultar em terra mas 4stamos longe e a lei não permite a arribada. Por isso o corpo do Nazareno será dado ao mar. Eu bem sei que numa cova funda, coberta com boa terra firme, um homem descansa mais em paz, que a mulher ou os filhos ou os pais o terão lá, anos e anos, quieto… Depois, na terra duma campa nascem flores e ervas de cheiro: giestas e malmequeres, rosmaninho e alecrim… Gostava, só Deus sabe como eu gostava!, de sepultar o António Nazareno em terra. Mas não posso. Era um grande prejuízo. Sei bem que todos vocês têm pena… Mas lembrem-se de que aqui, num destes portos da Terra Nova, ele não teria nem giestas, nem rosmaninho… nada disso! Seriam outras flores que a gente não conhece, que ele Nazareno, nunca viu em vida! Até a terra, até a terra que o cobriria, seria diferente da nossa: com outra cor, com outro cheiro. Isto é assim: e por assim ser, não devemos ter pena de deitar ao mar o corpo do Nazareno. Aqui nestes bancos da Terra Nova, ele fica menos só. Fica, fica mais acompanhado nestes mares. Se todas as vezes e em todos os sítios que este oceano matou um pescador português, houvesse, como é de uso na nossa terra, uma alminha iluminada… ai, então estes mares estariam cheiinhos de luzes, cheios a perder de vista! Vocês sabem que é verdade isto que eu lhes digo: alguns têm cá o pai, ou um irmão, ou um filho… É ou não assim, João das Almas. Estou a mentir, Zé Sol? O nosso companheiro António Nazareno ficará portanto neste mar. Que descanse em paz.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

OLHAR AS CAPAS


Nos Mares do Fim do Mundo

Bernardo Santareno
Edições Ática, Lisboa, Junho de1999


Enquanto o “David  Melgueiro” se afasta, mais e mais de Lisboa, eu surpreendo-me com as mãos  abertas ao vento, para nele colher um certo olhar negro e patético, ou um riso estridente e nervoso que queria ser lágrima, ou aquele dorido inclinar de cabeça silencioso e resignado, ou aquele beijo enviado por alguém que me pede uma estrela como testemunho da aventura, ou a serenidade hirta e requintada de quem, enquanto o navio se distancia, se acusa por não sentir nada (nem mágoa, nem saudade) por mim... Com as minhas longas mãos abertas ao vento...