Um capítulo do seu
interessantíssimo Século Passado, um
livro tão ignorado por críticos – há crítica de livros? – também por leitores,
chama-se Mesmo Agora Que Anoitece e
por lá existe uma crónica que Jorge Silva Melo publicou mo saudoso Mil Folhas do Público de 20 de Janeiro de 2001. Começa assim:
«Têm má fama os adjectivos. Incitados a não os usar à toa, os
jornalistas abrem um leque restrito que muda como os stocks da Zara.»
Mais a meio há este
delicioso pedacinho:
«Teria eu lido
o Gatsby, se Fitzgerald
não lhe tivesse aposto o Great? A Enseada,
se não me perguntasse por que é que Abelaira lhe chama Amena? O Anjo, não fosse ele Ancorado?
As Palavras, não as anunciasse Maria Judite como Poupadas?
O Dia, não o pintasse Mário Dionísio de Cinzento? Como
veria eu o mundo da colonização se Shakespeare não o entrevisse
"admirável" (brave) e
"novo" (new)?
Teria eu sido tingido pela soturnidade e pela melancolia de Lisboa/Cesário se o desejo
de sofrer não fosse
subitamente absurdo? Teria
ultrapassado o primeiro parágrafo de Moby Dick sem
o damp, drizzly November in my soul ("desperta
na minha alma um Novembro brumoso e húmido" na tradução de Alfredo Margarido)? Andaria eu de Gomes Leal no
bolso sem o Bela, dizia
eu, fria como o luar / sobre o dorso luzente e excepcional dum peixe?
O que fazem estes adjectivos raros, justapostos,
cruzados, intrigantes? Atrasam a narrativa, demoram o pensar, fazem cair sobre
as coisas ou a acção a poeira da incerteza. Não serão, assim benvindos ao mundo
da notícia, que se publicita mundo de contagem de caracteres, impessoal, sem
voz. Sem o desequilíbrio destas pobres palavras, o que seria da literatura.
Ai, não fosse Furioso o Orlando!