Teria que mudar o título para O Outro Lado das Badanas, mas é um acaso, apenas.
A Relógio d’Água,
uma as editoras do livro, escreve:
«Era uma vez um homem que não era feliz. Tinha uma mulher que não lhe agradava e um trabalho que lhe causava horror. […] [Um dia,] quando se sentia muito infeliz, encontrou uma mulher de grande beleza, que tinha muito dinheiro e um barco. Ela percorria os mares em busca do marinheiro de Gibraltar. Quem é o marinheiro de Gibraltar? É a juventude, o crime e a inocência, um homem simples, o mar, as viagens. Um homem que ela amou e que desapareceu, que está talvez morto ou se esconde. Ele encontrou-a. Gostam um do outro. Ele teve a coragem de decidir sobre a sua vida. É livre. Não tem um cêntimo. Ela contrata-o para o seu navio. Ele vai ajudá-la a procurar o marinheiro de Gibraltar. Partem.»
Sobre a autora:
«Marguerite Duras nasceu a 4 de Abril de 1914 em Gia Dinh, perto de Saigão,
na então Indochina Francesa, cuja paisagem a marcaria profundamente. O seu pai
era director de uma escola e faleceu em 1921 num hospital francês. A mãe,
professora, regressou então à metrópole com os três filhos, mas em Junho de
1924 partiu para Phnom Penh, no Camboja, e depois para Saigão, onde adquiriu
terras e se fixou em 1928 (a posse de terras depressa se revelou ruinosa e a
mãe voltou ao ensino). Marguerite Duras fez estudos secundários num liceu de
Saigão, tirando um bacharelato em Filosofia. Tinha 18 anos quando se fixou
definitivamente em Paris, onde estudou Direito e seguiu cursos de Matemática.
Em 1936, Duras conhece Robert Antelme, com quem viria a casar em Setembro de
1939. Empregara-se, entretanto, como secretária no Ministério das Colónias.
Em 1942, preside a um comité de leitores controlado pelo regime de Vichy. Em
1943, o apartamento de Duras e Robert Antelme torna-se um ponto de encontro de
intelectuais, entre os quais Jorge Semprún. O casal vai participar na
Resistência e, em Junho de 1944, Robert Antelme é detido pela Gestapo e
Marguerite Duras tem de fugir. É ainda durante a guerra que Duras publica os
seus primeiros livros, Les impudents em 1943 e La vie tranquille no ano
seguinte, ambos ainda com uma estrutura tradicional. Depois da libertação,
filiou-se no PCF, de onde saiu anos mais tarde. Em 1950, torna-se conhecida
através de um romance de inspiração autobiográfica, Uma Barragem contra o
Pacífico, onde as características do seu estilo são já visíveis. Em 1954, participa
no comité de intelectuais contra a guerra na Argélia. É já então evidente que o
romance tradicional não interessa a Marguerite Duras e que ela procurava uma
voz singular através da desestruturação das frases, da estranheza das
personagens, da acção e do tempo. Os seus temas são o amor, a espera, a
sensualidade feminina e o álcool. Moderato Cantabile, de 1958, subverte as
convenções vigentes num estilo que depressa se alarga às suas peças teatrais e
textos cinematográficos. Em 1958, escreve o argumento cinematográfico de
Hiroshima, Meu Amor, que será realizado por Alain Resnais. Em obras como Le
ravissement de Lol V. Stein (1964) e O Vice-Cônsul (1966), Duras confirma um
estilo cada vez mais despojado e de grande rigor formal. Duras realiza em 1966
o seu primeiro filme, La Musica, e Détruire, dit-elle em 1969. É então uma
autora de culto. Tornar-se-ia uma das escritoras mais lidas em todo o mundo
depois de publicar em 1984 O Amante, que recebe o Goncourt. Em 1987, Duras
procura explicar a sua dependência do álcool na obra A Vida Material. A partir
do final dos anos 80, padece de várias doenças e começa a sentir dificuldades
na escrita, tendo mesmo sido mantida em coma artificial durante cinco meses.
Publica ainda O Amante da China do Norte, em 1991, Yann Andréa Steiner, em
1992, e Écrire, em 1993. Faleceu a 3 de Março de 1996, com 81 anos, e o seu
túmulo, tão despojado como a sua escrita, pode ser visitado no Cemitério de
Montparnasse.»
Não é dos livros mais acarinhados de Duras mas gostei de o ler e nunca vi o filme de Tony Richardson com Jeanne Moreau, Orson Welles, Vanessa Redgrave, mas trago para aqui o que o escritor Jorge Marmelo dissertou sobre o livro:
«Jornalista a Quanto tempo pode um livro permanecer
intocado na estante de nossa casa? Muito tempo.
Há romances exímios em confundirem-se e camuflarem-se entre outros que já
lemos, imitando-lhes a tonalidade amarelada das lombadas, a camada de pó, o
mesmo aspecto gasto. Aí ficam adormecidos, quietos e silenciosos como inimigos
ocultos - como as células adormecidas do novo terror. Não respiram, nunca
levantam o braço para se fazerem notar e, quando nada o faz supor, rebentam-nos
nas mãos, acendem certas luzes que temos dentro.
Resgatei ontem um desses livros-camaleão da estante onde, julgava eu, havia
apenas romances lidos há muito tempo. Estava convencido de que em algum momento
da vida me tinha já passado pelas mãos aquele O Marinheiro de Gibraltar, de
Marguerite Duras, mas, como não me lembrava de nada do que pudesse ter lido, o
aborrecimento do domingo levou-me a retirá-lo do sítio, a folheá-lo (com
cuidado para não perder as páginas já descoladas da lombada, sinal inequívoco
de algum uso) e a constatar que, caso alguma vez o tenha lido, não li, na
verdade, coisa alguma: passei-lhe os olhos por cima e esqueci.
Há provavelmente, naquela estante, outros livros nas mesmas circunstâncias,
obliterados pelo mesmo esquecimento, mas resolvi dedicar o final de tarde de
domingo a O Marinheiro de Gibraltar. A edição é de 1991, da Dom Quixote, mas a
primeira página tem uma dedicatória assinada por duas pessoas e datada de
Dezembro de 1995. Tive que fazer um esforço para recordar quem eram aqueles
dois "amigos", também esquecidos, aos quais agora estou
particularmente grato por terem infiltrado o romance de Duras na minha estante,
oferecendo-o à pessoa colectiva à qual, pelos vistos, eu então pertencia:
"Espero que gostem e que vos toque da mesma forma que nos tocou a
nós".
Alguma parte daquele "nós" já extinto o deve ter lido entretanto,
pois as folhas estão descoladas entre as páginas 71 e 139. Mas não fui eu - ou,
pelo menos, não foi a mesma pessoa que hoje sou. Tal como agora me conheço, não
esqueceria, decerto, a bela americana deitada na areia perto do canavial e o
iate ancorado diante de Rocca, nem esqueceria Éolo, o estalajadeiro, ou Carla,
a sua filha, nem essa Jacqueline demasiado agitada e optimista, capaz de passar
dias a correr sob o impiedoso calor de Florença para ver todos os museus e
monumentos da cidade. Não esqueceria, sobretudo, esse homem cansado da vida,
"um desses homens cujo drama consiste em nunca ter encontrado um
pessimismo à altura do seu", que subitamente se descobre vivo enquanto
conversa com um pedreiro italiano e, por isso, larga tudo, Jacqueline e o
emprego no Registo Civil do Ministério das Colónias, para se instalar em Rocca
e fazer pesca submarina, ir aos bailes nocturnos do outro lado do rio e aprender
a gostar de beber pastis ao sol.
Leio ou releio O Marinheiro de Gibraltar, não sei bem, e mergulho numa estranha
nostalgia. Invejo, parece-me, todas as pessoas que recomeçam a viver.»
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