segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Como fiquei um tanto ou quanto enfastiado com os 4 volumes da Conta-Corrente, nunca comprei o 5º volume tão pouco os restantes novos volumes da obra diarística de Vergílio Ferreira.

Mas na reedição que a Quetzal está a disponibilizar com a obra de Vergílio Ferreira, não resisti: comprei o volume que contém os 1989 a 1992 da Conta Corrente.

«Quando é que acaba com isso? - era a pergunta que o Lourenço me fazia. Quando ia saindo mais um volume deste diário e ele me fazia ainda perguntas. Está por pouco, meu caro Eduardo, e agora é mesmo de vez».

Tinha toda a razão o Eduardo Lourenço!

Tinha eu a razão por, em devido tempo, não ter alinhado em mais volumes da Conta-Corrente, eu que detesto ter razão.

Estes últimos diários são um desconsolo.

A mesma atitude envinagrada contra tudo e mais alguma coisa.

Invejava os seus pares por não o tratarem com a dignidade que entendia merecer. Visitava as livrarias, folheava livros, mas não os comprava por os achar caríssimos. Claro que eram caros, mas se gostamos de ler livros, teremos que fazer sacrifícios para os comprar. Sei bem do que falo.

Até os amigos não tratava bem. Um exemplo é António Ramos Rosa: vai lendo os seus poemas, já escreveu sobre eles mas supõe que António Ramos Rosa «jamais leu um romance meu».

Um dia, em Tróia, Mário Soares disse-lhe que o Nobel lhe ficaria muito bem.

No ano em que Octávio Paz venceu o Nobel, escreveu:

«Nós portugueses arrastamos connosco, desde que me conheço, a cruz deste vexame de não existirmos para a Academia Sueca.»

Vergílio Ferreira morreu em Março de 1996.

O destino, ou o que lhe quiserem chamar, poupou-lhe a atribuição (1998) do Prémio Nobel a José Saramago.

José Saramago e António Lobo Antunes têm citações pífias nas 1098 páginas do livro.

Os Diários de José Gomes Ferreira são tratados quase a pontapé e fica pela quase margem de lhe chamar xéxé.

Vergílio Ferreira tem livros interessantes, um nome na nossa literatura, mas no resto foi sempre assim, uma inveja que nunca conseguiu dominar.

Talvez a solidão de Fontanelas o atormentasse, ou os mesmos pratos do dia do Café do Zé. Talvez…

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