quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

DÊEM-LHE O QUE PEDIR

Dêem-lhe o que pedir – a mão aberta como

uma ave deitada no seu peito, estancando a dor;

e beijos, muitos, pequenos goles de água na sua

boca triste. Levem-no para a luz e acendam

fogueiras nos seus olhos, pois esteve cego para

o amor. E cantem-lhe ao ouvido fados que o

tempo não possa desmentir, dêem-lhe o que pedir –

 

sol, uma razão, os vossos dedos mil vezes no seu

corpo, os meus dedos cortados par despertar

um sonho na sua pele. Rasguem-lhe as ligaduras

que nunca foram laços e livrem-no dos vermes

que pastam nas suas feridas. Deitem-no na neve

dos lençóis e encostem-lhe aos lábios bagas de

sumo vermelho, leite, e um pão que seja um seio

de mulher – o meu seio amputado, se ele o pedir.

 

Segurem-lhe o rosto com as mãos e soprem-lhe

os brancos do meio dos cabelos. Protejam-no

da escuridão absurda da noite roubando estrelas

e calem o silêncio chamando o seu nome

devagar. Porém, não o molestem nunca com

palavras – deixou a meio demasiados livros e

há-de morrer exausto do que não sabe; mas não,

não o deixem morrer mais uma vez, levem-no

convosco aonde forem e dêem-lhe o que pedir –

 

tempo, uma razão, o vosso riso explodindo

mil vezes nos seus lábios, as minhas lágrimas

cansadas para lavar a terra dos seus olhos. Não

o amem em vão, nem jurem amá-lo até ao fim,

porque, depois do fim, não saberão o que fazer de

tanto amor. Guardem-no, por isso, do bafo da

morte e dêem-lhe, simplesmente, o que pedir –

 

o vosso sangue mil vezes derramado nas suas

veias, o meu coração arrancado para lhe bater

no peito, a minha vida – sem ele ma pedir.

 

Maria do Rosário Pedreira em Poesia Reunida

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