Dêem-lhe o que pedir – a mão aberta como
uma ave deitada no seu
peito, estancando a dor;
e beijos, muitos,
pequenos goles de água na sua
boca triste. Levem-no
para a luz e acendam
fogueiras nos seus
olhos, pois esteve cego para
o amor. E cantem-lhe ao
ouvido fados que o
tempo não possa
desmentir, dêem-lhe o que pedir –
sol, uma razão, os
vossos dedos mil vezes no seu
corpo, os meus dedos
cortados par despertar
um sonho na sua pele.
Rasguem-lhe as ligaduras
que nunca foram laços e
livrem-no dos vermes
que pastam nas suas
feridas. Deitem-no na neve
dos lençóis e
encostem-lhe aos lábios bagas de
sumo vermelho, leite, e
um pão que seja um seio
de mulher – o meu seio
amputado, se ele o pedir.
Segurem-lhe o rosto com
as mãos e soprem-lhe
os brancos do meio dos
cabelos. Protejam-no
da escuridão absurda da
noite roubando estrelas
e calem o silêncio
chamando o seu nome
devagar. Porém, não o
molestem nunca com
palavras – deixou a
meio demasiados livros e
há-de morrer exausto do
que não sabe; mas não,
não o deixem morrer
mais uma vez, levem-no
convosco aonde forem e
dêem-lhe o que pedir –
tempo, uma razão, o
vosso riso explodindo
mil vezes nos seus
lábios, as minhas lágrimas
cansadas para lavar a
terra dos seus olhos. Não
o amem em vão, nem
jurem amá-lo até ao fim,
porque, depois do fim,
não saberão o que fazer de
tanto amor. Guardem-no,
por isso, do bafo da
morte e dêem-lhe,
simplesmente, o que pedir –
o vosso sangue mil
vezes derramado nas suas
veias, o meu coração
arrancado para lhe bater
no peito, a minha vida
– sem ele ma pedir.
Maria
do Rosário Pedreira em Poesia Reunida
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