O ano é o de 1968, estamos a 22 de Dezembro, um domingo.
Jorge
de Sena faz o sumário das longas viagens que de 11 de Setembro a 22 de Dezembro
fez: 70 cidades, 12 países em 4 meses.
Está em Madrid e ainda pensa ir a Santiago, Burgos, Léon, Valladolid; e é claro,
Évora, Coimbra, Porto (e rever a Batalha e Alcobaça).
É
aqui que queremos registar as agruras por que Jorge de Sena passa antes de
entrar em Portugal, país que tanto ama e tantas tristezas lhe tem reservado e
que o obrigou a exilar-se primeiro no
Brasil, depois na América.
(Cada vez mais penso que Portugal não precisa de ser salvo. Porque estará sempre perdido como merece. Nós todos é que precisamos que nos salvem dele. Mas sabe que não há maneira fácil? -Jorge de Sena numa carta a Sophia de Mello Breyner Andresen).
«Parti
às 10,45, perpassam os campos de Castela.
Viagem
boa até Marvão – Beirã, por uma paisagem muito semelhante à do Alto Alentejo.
Em Marvão, a polícia portuguesa fez-me
sair do comboio, pois eu figurava incrivelmente na lista das pessoas sem
direito de entrada. E o chefe trouxe-me de automóvel a Valência de Alcântara,
não me sendo possível nada telefonicamente de lá. Foi muito amável. Na estação
de Valência, onde fiquei, foram gentis comigo, e consegui lugar para dormir na
fonda da Estação. E à conta do cônsul de Portugal, Dom Ramon, telefonei para
casa do Presidente Marcelo Caetano. Não estava, mas disseram-me que perto das 8
estaria. Telefonei para o Zé que saíra a esperar-me, e falei com o filho. À 8
voltei a ligar para casa do Presidente do Conselho, que pessoalmente falou
comigo, dizendo que o Zé o inteirara da situação e que ia dar ordem à polícia
para deixar-me entrar. E terminou dizendo: - Seja bem-vindo – Telefonei então
para Marvão, a comunicar ao chefe da polícia a conversação. Irei no comboio das
5 da manhã. Mas ele recomendou-me que falasse primeiro com o chefe da C.P.
aqui, a quem telefonariam a recomendação. Escrevia eu isto, telefonou ele, a
dizer que estava tudo em ordem, e não havia problema nenhum. E mesmo me lembrou
que eu poderia tomar um carro aqui, e ir dormir a Marvão. Mas não há
necessidade desta despesa, para tomar meia hora mais tarde o mesmo Lusitânia
que tomarei aqui. De resto, ao chegar à fronteira, a alfândega estaria fechada
e seria impossível passar. Claro que, com a preocupação de que não me acordem,
não vou dormir nada – telefonaram-me duas vezes de Lisboa, entretanto o
Notícias e o Século, que, com a Sophia e o Tareco parece insistem em vir
buscar-me a Marvão, às 5,50 da manhã. Insisti que não era necessário, mas ficou
assim combinado.»

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