domingo, 1 de fevereiro de 2026

NESTE DIA


O ano é o de 1968, estamos a 22 de Dezembro, um domingo.

Jorge de Sena faz o sumário das longas viagens que de 11 de Setembro a 22 de Dezembro fez: 70 cidades, 12 países em 4 meses.

Está em Madrid e ainda pensa ir a Santiago, Burgos, Léon, Valladolid; e é claro, 

Évora, Coimbra, Porto (e rever a Batalha e Alcobaça).

É aqui que queremos registar as agruras por que Jorge de Sena passa antes de entrar em Portugal, país que tanto ama e tantas tristezas lhe tem reservado e que o obrigou a exilar-se  primeiro no Brasil, depois na América.

(Cada vez mais penso que Portugal não precisa de ser salvo. Porque estará sempre perdido como merece. Nós todos é que precisamos que nos salvem dele. Mas sabe que não há maneira fácil? -Jorge de Sena numa carta a Sophia de Mello Breyner Andresen).


«Parti às 10,45, perpassam os campos de Castela.

Viagem boa até Marvão – Beirã, por uma paisagem muito semelhante à do Alto Alentejo. Em Marvão, a polícia portuguesa  fez-me sair do comboio, pois eu figurava incrivelmente na lista das pessoas sem direito de entrada. E o chefe trouxe-me de automóvel a Valência de Alcântara, não me sendo possível nada telefonicamente de lá. Foi muito amável. Na estação de Valência, onde fiquei, foram gentis comigo, e consegui lugar para dormir na fonda da Estação. E à conta do cônsul de Portugal, Dom Ramon, telefonei para casa do Presidente Marcelo Caetano. Não estava, mas disseram-me que perto das 8 estaria. Telefonei para o Zé que saíra a esperar-me, e falei com o filho. À 8 voltei a ligar para casa do Presidente do Conselho, que pessoalmente falou comigo, dizendo que o Zé o inteirara da situação e que ia dar ordem à polícia para deixar-me entrar. E terminou dizendo: - Seja bem-vindo – Telefonei então para Marvão, a comunicar ao chefe da polícia a conversação. Irei no comboio das 5 da manhã. Mas ele recomendou-me que falasse primeiro com o chefe da C.P. aqui, a quem telefonariam a recomendação. Escrevia eu isto, telefonou ele, a dizer que estava tudo em ordem, e não havia problema nenhum. E mesmo me lembrou que eu poderia tomar um carro aqui, e ir dormir a Marvão. Mas não há necessidade desta despesa, para tomar meia hora mais tarde o mesmo Lusitânia que tomarei aqui. De resto, ao chegar à fronteira, a alfândega estaria fechada e seria impossível passar. Claro que, com a preocupação de que não me acordem, não vou dormir nada – telefonaram-me duas vezes de Lisboa, entretanto o Notícias e o Século, que, com a Sophia e o Tareco parece insistem em vir buscar-me a Marvão, às 5,50 da manhã. Insisti que não era necessário, mas ficou assim combinado.»

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