Torres Couto foi o secretário-Geral da UGT de 1978 a 1995, abandonando a central em
virtude de uma fraude da central com o Fundo Social Eleitoral.
Das
razões de os trabalhadores deixarem-se dividir, é um processo longo, demorado,
não concluído, muitas memórias perdidas.
Este
é um breve «flash» à volta de uma das mais graves rupturas do pós-25 de Abril, também motivo para trazer até aqui a fotografia, que acima se vê, tirada, algures perto da Nazaré, por
Luís Miguel Mira.
O
José Mário Branco tem uma lindíssima canção a que chamou Inquietação.
Um
diálogo do cantigueiro, do homem, tentando conciliar dores e alegrias, guerras
travadas, um houve aqui alguém que se enganou, os porquês diz não saber, e
apenas quer deixar-nos a chave para nos obrigar a saber, a pensar até que a
luta se transforme em poema colectivo.
INQUIETAÇÃO
«A contas com o bem que
tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes
São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha
Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
Ensinas—me fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas
Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco pra chegar
Eu não meti o barco ao mar
Pra ficar pelo caminho
Cá dentro inqueitação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
Cá dentro inqueitação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Mas sei
Que não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda»
Kris Kristofferson, que agora nos
deixou, é daqueles personagens de que se gosta ao primeiro olhar,
ao primeiro som, ao primeiro gesto. Não se pode esquecer a sua passagem pelo
filme «Pat Garrett and Billy the Kid», filme de Sam Peckinpah, filme tratado a pontapé
pelos idiotas da Metro-Goldwin Mayer, que tem banda sonora escrita por Bob Dylan,
que também entra como actor, para além de James Coburn, Rita Coolidge eHarry Dean Stanton.
Pode ser que a Cinemateca, oportunamente,
faça um In Memorian de Kris Kristofferson.
Por aqui ainda andam cassettes (inaudíveis)
gravadas, a long time ago, dos LPs de Kris Kristofferson, que são propriedade
do Luís Miguel Mira.
Para completar a lembrança de Kris Kristtoferson,
ficamos com a espantosa interpretação de Janis Joplin de «Me na Bobby Mac Gee»,
como a canção de Bob Dylan «Knockin' On Heaven's Door» da banda sonora do filme «Pat Garrett and Billy the Kid».
O Luís Miguel Mira apresenta hoje, pelas 15,00
horas na Nova Atena, Universidade Senior,
na Rua Almeida Garrett, 20, em Linda-a-Velha, «O Inimigo Público» de
Woody Allen:
O INIMIGO PÚBLICO
(1969)
(Take the
Money and Run)
Realização:
Woody Allen
Argumento:
Woody Allen e Mickey Rose
Montagem:
Ralph Rosenblum, James T. Heckert, Paul Jordan e Ron Kalish
Fotografia:
Lester Shorr
Música:
Marvin Hamlisch e Felix Giglio
Direção
Artística: Fred Harpman
Interpretação:
Woody Allen (Virgil Starkwell), Janet Margolin (Louise), Ethel Sokolow (a mãe
de Virgil), Henry Leff (o pai de Virgil), Don Frazier (o psiquiatra), Jacquelyn
Hyde (mademoisele Blair), James Anderson (o guarda prisional), Marcel Hillaire
(Fritz), Lonny Chapman (Jake), Louisse Lasser (Kay Lewis), Jackson Beck
(a voz do narrador), etc
Produção:
Sidney Glazier, Charles H. Joffe e Jack Grossberg, para a Palomar Pictures
International
Duração: 85
mn
No que
respeita ao “Riso”, já por aqui passaram pela mão do Prof. Jorge Barata Preto,
no âmbito deste recente ciclo “O Riso e as Lágrimas”, alguns dos principais
vultos da Comédia Americana: Charles Chaplin, Buster Keaton, os Irmãos Marx,
Jerry Lewis, Mel Brooks.
Dos grandes
“Clássicos”, julgo que só faltaram Harold Lloyd, Harry Langdon, Stan Laurel e
Oliver Hardy (o Bucha e o Estica…), W. C. Fields e talvez Woody Allen, embora
não esteja certo de que ele não tenha por aqui passado noutro ciclo…
Para além
destes, houve uma série de comediantes americanos de grande sucesso no seu
tempo, mas para os quais a memória dos cinéfilos não foi tão generosa como em
relação aos outros que mencionei: falo-vos de nomes como Eddie Cantor, Bob
Hope, Bud Abbot e Lou Costello (o Gordo e o Magro), Danny Kaye e, muito mais
recentemente, Jim Carrey, “o novo Jerry Lewis”.
Embora tenha
com ele uma relação de Amor/Ódio, escolhi para concluir a minha intervenção
neste ciclo um filme de Woody Allen, porque ele merece estar ao lado dos
maiores.
Mas porquê esse
Amor/Ódio, perguntar-me-ão vocês, talvez intrigados, tal a unanimidade que o
autor de “Annie Hall” habitualmente suscita…?
Amor, porque
gosto muito de muitos dos filmes de Woody Allen.
Ódio (a
palavra é excessiva, confesso…), porque a ascensão de Allen correspondeu ao
declínio de Jerry Lewis, que era o meu ídolo de infância, de adolescência e até
de juventude, através dos filmes dele que frequentemente via na televisão e das
saudosas retrospetivas mais tarde organizadas nos anos 70 por Lauro António, no
Apolo 70 e no Caleidoscópio.
É que, na
verdade, entre 1969 (data do primeiro filme de Allen) e 1983 (data do último
filme de Lewis), o autor de “O Homem das Mulheres” apenas teve oportunidade de
realizar cinco filmes (um dos quais, “Le Jour oú le Clown Pleura”, realizado em
França e na Suécia em 1972, ainda hoje se mantém inédito…), enquanto o autor de
“Manhattan” realizou dez. E, a partir de então e até hoje, Allen realizaria
pelo menos um todos os anos, só falhando em 2018, 2021 e 2022.
E é claro que
culpei Woody Allen pela caída em desgraça de Jerry Lewis…
Antes de
entrar em força no Cinema já Allen era um nome sobejamente conhecido no meio
cultural americano, e sobretudo na cena nova-iorquina.
Começou a
trabalhar nos anos 50, ainda adolescente, escrevendo diálogos para a televisão.
O sucesso que
teve levou-o a ser chamado a colaborar com comediantes de cada vez maior
nomeada, para os quais escrevia sketches para shows, peças de
teatro e revistas da Boadway que viriam a obter grande sucesso.
Farto de
ficar na sombra e de ver os outros beneficiarem, em fama e proveito, do seu
próprio trabalho, Allen, embora já na altura muito bem pago para a sua idade,
decidiu ultrapassar a sua timidez natural e subir sozinho ao palco em 1961,
vindo a tornar-se um dos principais vultos da chamada stand-up comedy
americana, com digressões por teatros e night clubs de todo o país e
presença assídua na televisão. E o seu sucesso não se iria limitar aos
“monólogos” que fazia em palco, porque também já começara a escrever para
diversas publicações de prestígio, como era o caso da “New Yorker”, e as
gravações em disco de alguns dos seus espetáculos também obtiveram êxito,
levando-o, até, a ganhar um Grammy por uma delas em 1964.
Allen viria a
estrear-se no cinema em 1963, escrevendo o argumento e desempenhando um papel
secundário em “O Que Há de Novo Gatinha” (“What’s New Pussycat”), de Clive
Donner, que alguns de vós provavelmente se recordarão de ter visto no antigo
cinema São Jorge, já que por cá obteve um grande sucesso, com a inesquecível
música do Tom Jones.
Seguir-se-ia,
em 1967, “Casino Royale”, muito maltratado por diversos realizadores, entre
eles John Huston, do qual foi coargumentista, para além de ter, igualmente, um
pequeno papel como ator.
Cansado da
maneira, que considerava desajustada, como os seus argumentos eram postos em
cena (em 1969 estreara-se, também, “Don’t Drink the Water”, realizado por
Howard Morris e baseado numa peça sua), Allen começou a acalentar a ideia de
ser ele próprio a realizar os filmes que escrevia.
Mas ainda
antes disso, lançou-se numa obra bizarra: pegar num anónimo filme japonês,
misto de policial e de “kung-fu”, retirar-lhe a banda sonora original e
substituí-la por uma inteiramente concebida por si, tanto na escolha da música
como na escrita dos diálogos. O resultado deu pelo nome de “What’s Up Tiger
Lily” e foi lançado nos Estados Unidos em 1966. O DVD que tenho na minha
coleção chama-se “O Que se Passa, Tigresa?”, mas não tenho qualquer memória da
estreia deste filme em Portugal.
É só por isso
que “O Inimigo Público”, o nosso filme de hoje, surge em segundo lugar na
filmografia de Woody Allen enquanto realizador, apesar de ter sido, na verdade,
o primeiro filme escrito, realizado e interpretado por si. E esse sim,
lembro-me muito bem onde se estreou em Lisboa: no saudoso Cinema Berna, que
ficava nas Avenidas Novas, mesmo ao lado da Igreja de Nossa Senhora de Fátima.
Oito anos e
quatro comédias mais ou menos burlescas depois (para além de participação, como
ator principal, em dois outros filmes não por si realizados), Allen obteria, em
1977, o maior dos seus êxitos na América, com os quatro Óscares recebidos por
“Annie Hall”.
A partir
daqui o cinema de Woody Allen não mais seria o mesmo, mas a sua carreira não é
o principal objeto deste texto.
Fiquemo-nos,
pois, por “O Inimigo Público”, realizado em 1969.
Em tom sério
de documentário, com a voz “off” de um narrador, excertos de entrevistas ao
próprio Virgil e a outras pessoas que lhe são próximas ou que com ele se
relacionaram pontualmente (o pai e a mãe, devidamente disfarçados para não
passarem a vergonham de se verem associados ao filho, a mulher, o psiquiatra
que o acompanhou, o juiz que o condenou, colegas de prisão, vizinhos e amigos
de infância, etc), o filme conta-nos a história de Virgil Starkwell,
considerado um dos mais perigosos criminosos daquela época, desde os primeiros
tempos de delinquência juvenil no bairro desfavorecido de Baltimore onde
nascera, até à sua derradeira e mais penosa condenação.
Pelo meio são
evocadas outras peripécias da sua vida: os primeiros assaltos, as primeiras
vivências na prisão, as primeiras tentativas de fuga, a libertação que
conseguiu por se ter oferecido como cobaia para experiências com uma nova
vacina nunca antes testada num Ser Humano, a forma como conheceu a sua mulher,
ternamente contada pelo próprio Virgil, que nos confessa tê-la visto deitada na
relva de um jardim e lhe pretender roubar a mala, mas que lhe bastaram 15
minutos de conversa com ela para se aperceber que era essa a mulher dos seus
sonhos com quem se desejaria casar, e que 30 minutos depois já tinha desistido,
em definitivo, da ideia de lhe roubar a carteira...
Casado e com
novas responsabilidades familiares no horizonte, Virgil, como todo o bom
criminoso que se preza, sonha em dar o último e definitivo golpe que lhe
assegurará, para sempre, a subsistência da família, mas a coisa corre-lhe mal.
É condenado a trabalhos forçados numa prisão de alta segurança, mas,
persistente como é, dela também se consegue libertar, na companhia de outros
reclusos.
De novo ao
lado da mulher e do filho, Virgil tenta seguir caminhos mais honestos, mas não
se consegue adaptar a essa vida. Uma nova tentativa de assalto volta a
correr-lhe mal e vamos encontrá-lo, no final, condenado a 800 anos de prisão
por 52 assaltos, embora, otimista como sempre, ele esteja esperançado de que,
se tiver um comportamento exemplar, essa pena lhe possa ser reduzida a metade.
Mas nem por isso deixa de se preocupar em construir, artificialmente, uma
pistola…
Quanto à
profissão que escolheu, diz que não se arrepende de nada… “Somos onosso
próprio patrão, tem -se liberdade de horário, viaja-se imenso, conhece-semuita
gente interessante”… Que mais se pode desejar…? Uma única tristeza lhe
ficou, certamente: apesar de tão badalado e de ter sido nomeado “Gangster do
Ano”, nunca ter integrado o “Top 10” dos maiores criminosos…
Nas suas
“Memórias”, publicadas em 2020, Woody Allen não se alonga demasiado acerca
deste filme e só parece dar importância a duas coisas: o gozo que lhe deu ter
conseguido filmar no interior da célebre prisão de San Quentin e a preciosa
ajuda que recebeu de Ralph Rosenblum, chamado à última hora para o apoiar na
montagem do filme.
Em relação à
primeira escreve mesmo o seguinte: “o primeiro dia de filmagensseria
na Penitenciária de San Quentin. Todo o meu entusiasmo se prendia com o facto
de ir a uma prisão e ali estarem reclusos e eu veria uma gigantesca casa
icónica, sobre a qual apenas tinha lido ou visto versões em velhos filmes a
preto e branco. Queria lá saber que me estava a estrear como realizador. Era
pela prisão que eu estava fascinado” (1)
Quanto à
segunda, tenho de me deter mais algum vagar, porque é essencial para a
compreensão do próprio filme.
Na sua total
ignorância do que era a realização de um filme, Allen não se preocupou
demasiado com a montagem final nem com a forma como a escolha da música poderia
condicionar, em muito, o próprio ritmo do seu filme.
Preocupou-se,
unicamente e com o apoio dos técnicos que tinha ao seus dispor, em rodar corretamente
cenas cómicas umas atrás das outras, e nisto até se revelou um bom aluno porque
não só acabou as filmagens antes da data prevista, como também conseguiu ficar
aquém do orçamento previsto.
O grande
problema foi que, após realizada a preview screening (2), toda a
produção deitou as mãos à cabeça. O filme era um autêntico desastre. A pouca
música escolhida era desadequada, a montagem não fazia muito sentido, era
evidente a falta de ritmo de toda a obra e estava à vista de todos, incluindo a
de Allen, um verdadeiro descalabro.
Fez-se então
apelo a Ralph Rosenblum, um montador experiente que fez tábua rasa dessa
primeira versão de montagem, visionou todas as bobinas que haviam sido filmadas
e chegou à versão final que hoje conhecemos, à qual juntou música
diversificada, incluindo algumas peças de jazz de New Orleans para fazer
acelerar o ritmo de algumas cenas. Foi considerado o verdadeiro salvador do
filme, que viria a ter algum êxito nos Estados Unidos.
Apesar de
tudo isto, “O Inimigo Público” não deixa de ser um filme algo desequilibrado,
como desenvolverei no final.
Quando
estamos perante a primeira obra de um realizador, sobretudo quando se trata,
como no caso de Woody Allen, de um “Autor” consagrado e detentor de uma vasta
Obra, existe sempre a tendência de nele procurarmos encontrar os primeiros
sinais do “Universo do Autor”, ou seja, o seu estilo, os seus temas prediletos,
as suas obsessões, a sua visão do Mundo, os seus “tiques”…
Ora no caso
de “O Inimigo Público” não será difícil descortinar um esboço daquilo que viria
a ser o trabalho futuro do seu realizador.
Vejamos,
seguidamente, alguns exemplos.
Allen sempre incorporou em muitos dos seus
filmes aspetos autobiográficos. Na primeira versão do guião deste filme,
Virgil chamava-se … Woody Allen!; depois, a forma como retrata os pais de
Virgil é muito semelhante àquela como, ao longo da sua vida artística, nos
foi falando dos seus próprios pais, com uma ligeira diferença: ao
contrário do que sucede no filme, era o seu pai, e não a sua mãe, o mais
tolerante em relação a ele (acerca da sua mãe, Allen chegou a escrever o
seguinte: “ateoria edipiana de Freud de que todos os homens
querem, inconscientemente, matar os pais para casarem com as mães
choca com umaparede de tijolo no que diz respeito à minha mãe…”
(3)); por outro lado, o bairro desfavorecido de Baltimore onde Virgil
passa a sua infância também parece ter alguns traços de semelhança com o
de Midwood, em Brooklyn, onde o próprio Allen deu os primeiros passos e
que tão bem nos mostrou em “Os Dias da Rádio”; tal como Allen, Virgil
também parece gostar de música, mas não ter lá muito jeito para o seu
instrumento favorito; e que me dirão vocês se vos disser que Allen
escolheu para data de nascimento de Virgil (1 de Dezembro de 1935) … o dia
seguinte ao do seu próprio nascimento…; mas a mais deliciosa das private
jokes de Allen parece-me ser a de ter dado à sua mulher Louisse
Lasser, com quem então já estava em acelerado processo de divórcio, aquela
hilariante tirada final, qualquer coisa como isto (cito de memória): “Acho
que ele era um génio. Quando descobri que ele era um criminoso, não
pude acreditar, porque nunca vi ninguém que dissimulasse algo tão bem.
Excelente trabalho de ator. E eu que pensava que ele era um idiota…!”;
2.Tal como
Vigil Starkwell, muitos dos personagens principais dos filmes de Allen são
homens (quase sempre, mas também há mulheres…) torturados e inseguros, com
alguma timidez e complexo de inferioridade resultante, por vezes, de uma
infância castradora, todos estes problemas confluindo numa enorme insegurança
no relacionamento com as mulheres. E, em relação, a Allen, isto também terá
qualquer coisa de autobiográfico…;
3.Pelos
motivos que referi no ponto anterior, muitos dos personagens dos seus filmes
recorrem, ou já recorreram no passado à psicanálise, e isso é sempre mencionado
em tom jocoso. Ora referências à psicanálise são coisas que abundam no filme de
hoje, em especial na hilariante cena em que o seu psicanalista é satirizado,
explicando-nos o papel do violoncelo na mente tortuosa de Virgil… E é também
evidente que, subjacente a todo o filme, está a teoria determinista, então
muito em voga naqueles tempos na Psicologia e na Sociologia, de que é a
família, a educação e o meio envolvente quem mais determina a formação de uma
personalidade. E foi o próprio Allen quem, na altura, afirmou que Virgil
poderia muito bem ter sido ele próprio, se em momentos-chave da sua
adolescência tivesse enveredado por outros caminhos, como alguns dos seus
companheiros do passado o fizeram;
4.Um certo
fatalismo, quase que ilustrando a Lei de Murphy (se algo pode correr mal, é
certo que irá correr (mesmo) mal…) parece acompanhar a vida e a “carreira” do
pobre Virgil, como também a de muitos dos personagens do cinema de Allen;
5.É sabido
que Woody Allen estudou cinema na sua juventude e frequentou avidamente as
salas de cinema, primeiro levado pela mão de uma sua prima 5 anos mais velha e,
mais tarde, por conta própria. Esta cinefilia é algo que se torna evidente em
muitos dos seus filmes. Os seus personagens são, muitas vezes, pessoas ligadas
ao cinema e/ou à televisão, o seu cinema homenageia e cita frequentemente
realizadores como Bergman, Fellini e Antonioni, muitas são as cenas dos seus
filmes que decorrem no interior ou à porta de cinemas ditos “de Arte e Ensaio”,
em cujos letreiros luminosos se anunciam clássicos do cinema americano e
europeu, etc. No filme de hoje, que Allen pretendia realizar a preto e branco e
a Produtora recusou, para além da memória dos velhos documentários que no
passado abriam as sessões de cinema e aos quais me refiro no ponto seguinte, a
inspiração veio-lhe dos velhos filmes de “gangsters” com fundo social, bem como
dos “filmes de prisão” dos anos 30 e 40, em particular “Anjos de Cara Suja” e
“I’m a Fugitive From a Chain Gang”, do qual chega a copiar uma cena inteira. E
as “delicodoces” cenas nos parques e à beira-mar, que aqui surgem claramente
como sátira, eram coisas que abundavam no cinema americano dos anos 60…; como
homenagem à cena final de “Bonnie and Clyde”, Allen chegou a filmar um final
diferente para este filme, no qual Virgil era apanhado numa emboscada e
fuzilado, como no filme de Arthur Penn, cena esta que foi abandonada na
remontagem de que atrás vos falei; mas, para os cinéfilos mais inveterados, a
cereja no topo do bolo das “homenagens” é Allen ter filmado uma cena no
interior do célebre Restaurante Ernie’s, em São Francisco, onde Hitchcock
também havia rodado duas cenas capitais em “Vertigo / A Mulher que Viveu Duas
Vezes”, hoje um verdadeiro “filme de culto”
6.Indiscutivelmente,
um dos motivos de atração deste filme é o tom de documentário no qual ele é
estruturado, e uma boa parte do seu humor reside no profundo contraste entre a
seriedade da locução e a comicidade das imagens que, em contraponto, nos são
mostradas. Allen tinha na memória, como vos disse atrás, os velhos
documentários do passado e levou esta homenagem a um tal ponto de
perfeccionismo que quem foi convidar para locutor foi Jackson Beck, a própria
voz dos documentários da Paramount dos anos 40. E essa mesma estrutura em
documentário, aqui e além acompanhada por imagens da época, acabou por ser um
esboço para “Zelig”, um dos grandes filmes de Allen realizado 14 anos depois, e
esse sim, inteiramente baseado em documentários de época;
Mais exemplos
haveria para salientar, mas creio que já vos macei demasiado…
E se comecei
falando-vos de Jerry Lewis, com ele irei terminar. É que este filme era para
ter sido realizado por Lewis, e não por Woody Allen. Suspeitando (e, pelos vistos,
com alguma razão…) da capacidade e da experiência deste como realizador, a
Produtora começou por dar o seu acordo ao filme, mas na condição de este ser
realizado por Lewis, e Allen concordou, embora com alguma relutância.
Seguiram-se
contactos entre Allen e Lewis, mas este acabou por declinar a oferta por não se
sentir muito convencido do projeto, em especial devido à estrutura do guião
demasiado baseada em sucessivos sketches, que Allen se recusava a
alterar significativamente. Esta recusa de Lewis deve ter sido recebida com
grande alívio por parte Allen, em cujo ego não cairia, certamente, muito bem o
facto de, num projeto tão pessoal, se ver dirigido pelo seu maior rival, com
quem poderia, fatalmente, entrar em conflito, como sucedeu com Peter Sellers no
“Casino Royale”.
Curiosamente,
nem Lewis nem Allen se referem a este facto nas respetivas autobiografias, mas
quem o relata com algum detalhe é John Baxter, na sua obra de referência sobre
o autor de “Manhattan” (4).
Disse-vos
atrás que, em minha opinião, este é um filme algo desequilibrado, com evidentes
problemas de ritmo na sua parte final, em contraste com a forma frenética como
o filme se inicia. Por exemplo, a cena dos prisioneiros acorrentados uns aos
outros, se no início tem a sua graça, a partir de determinada altura torna-se
algo penosa, tantas foram as vezes que foi repetida. E o mesmo se diga das
sucessivas cenas do bilhete com os supostos erros ortográficos no assalto ao
banco, que de tanto serem repetidas acabam por perder alguma eficácia.
Nada disso
altera, porém, o interesse que tem o visionamento deste filme histórico, o qual
contém, certamente, muitas cenas que poderíamos selecionar para uma antologia
do humor de Woody Allen: as impagáveis cenas em que intervêm os pais de Virgil,
disfarçados de Groucho Marx; as diversas cenas de assaltos e de fugas
fracassadas, com os gags das pistolas; a cena ao espelho com a toalha é
cintura; a teoria do psiquiatra em relação ao violoncelo; as hilariantes
tiradas de humor judaico…
Woody Allen
é, indiscutivelmente, um dos grandes realizadores do nosso tempo. Ao contrário
de outros grandes realizadores clássicos, de quem não chegámos a ser
contemporâneos, enquanto cinéfilos, com Allen tivemos a oportunidade de
acompanhar a construção de todo o edifício da sua Obra, tijolo após tijolo, e
julgo ser imperdível ver este momento inicial em que, timidamente, começou a
dar os primeiros passos.
Espero que
estejam de acordo comigo e se divirtam.
Sendo esta a
minha última intervenção, mais uma vez os meus agradecimentos a quem me
convidou e a quem teve a paciência de me ler e de me ouvir.
2. Desde
os primórdios da Indústria Cinematográfica era habitual os Estúdios e/ou os
produtores dos filmes realizarem, antes da sua estreia oficial, sessões prévias
de apresentação para uma audiência selecionada, a fim de testarem a reação do
público. Em função desta e dos inquéritos individuais lançados à assistência,
os filmes podiam ser modificados, por forma a colmatar as principais
insuficiências detetadas. No caso deste primeiro filme de Allen, foram
escolhidos como publico um grupo de soldados americanos em licença no país,
tendo o filme sido projetado com uma muito reduzida e suave banda sonora. A
reação da plateia foi péssima…
O Luís Miguel Mira já nos prometeu que irá voltar
às crónicas de viagens mas, por agora, anda entretido a divulgar grandes
filmes, todas as quartas-feiras, pelas 15,30 horas na:
Nova Atena
Universidade Senior
Rua Almeida Garrett, 20
Linda-a-Velha
Na próxima quarta-feira, dia 17 de Abril, é a vez
de OFantasma Apaixonado de Joseph L. Mankiewicks, rigorosamente
a não perder.
O FANTASMA APAIXONADO (1947)
(The
Ghost and Mrs. Muir))
Realização:
Joseph L. Mankiewicz
Argumento:
Philip Dunne, com base num romance de R. A. Dick
Montagem:
Dorothy Spencer
Fotografia:
Charles Lang
Música:
Bernard
Herrmann
Direção
Artística: Richard Day e George W. Davis
Interpretação:
Gene Tierney (Lucy Muir), Rex Harrison (o fantasma do Capitão Gregg),
George Sanders (Miles Fairley), Edna Best (Martha), Vanessa Brown (Anna Muir
adulta), Natalie Wood (Ana Muir criança), Isobel Elson (Angelica, a sogra),
Victoria Horne (Eva, a cunhada), Robert Coote (Coombe),
etc
Produção:
Fred Kohlmar, para a 20th Century Fox
Duração:
104 mn
Aqueles de melhor memória lembrar-se-ão,
certamente, que ainda há muito pouco tempo vos falei aqui de Joseph Mankiewicz,
a propósito de “Os Três Camaradas”. Era ele o produtor com quem Francis Scott
Fitzgerald se zangou, acusando-o de ter destruído o argumento que ele escrevera
para esse mesmo filme.
Mas antes de ser produtor para a Metro Goldwin
Meyer, entre 1935 e 1942, já Mankiewicz fora argumentista, primeiro na
Paramount, na qual entrou em 1929 pela mão do seu irmão mais velho Herman,
igualmente argumentista de muito sucesso àquela época (quem tiver visto na
Netflix o filme “Mank”, de David Fincher, lembrar-se-á dele…), e depois já na
própria MGM entre 1933 e 1935, antes de ter ascendido a produtor.
Como realizador, Mankiewicz teve uma brilhante
estreia em 1946 com “O Castelo de Dragonwyck, e viria a realizar um total de
vinte filmes entre essa data e 1972.
Talvez alguns de vós se lembrem de “A Condessa
Descalça”, de 1954, mas seguramente que todos se recordarão de “Cleópatra”,
realizado em 1963 e interpretado pelo casal/vedeta daqueles tempos, Elizabeth
Taylor e Richard Burton.
Quando morreu, em 1993, tinha Mankiewicz quatro
Óscares na sua estante, que lhe vieram aos pares em dois anos consecutivos: em
1950 pela melhor Realização e pelo melhor Argumento de “Carta a Três Mulheres”,
e no ano seguinte idênticos prémios por “Eva”.
E passemos, então, a “O Fantasma Apaixonado”.
Ao ver de novo este velho filme, que já não revia
há alguns anos, dei comigo a pensar nesta estranha coincidência…
Programei, muito próximos um do outro, dois filmes
de “fantasmas apaixonados” que acabam ambos quase de forma idêntica, com os
fantasmas a virarem-nos as costas e a partirem através do nevoeiro não se sabe
bem para onde, mas seguramente que para lá onde o seu amor surreal continuará a
ser possível, contra tudo e contra todos.
Feliz coincidência.
Ou talvez não…
Talvez que eu goste muito dessa ideia de fantasmas
apaixonados.
Mas adiante…
O filme inicia-se em Londres nos primeiros anos do
Séc. XX e conta-nos a história de Lucy Muir, uma jovem e bonita viúva que,
cansada da vida citadina e - percebemo-lo rapidamente … - farta de aturar a
sogra e a cunhada com quem vivia, decide mudar-se para Whitecliff-By-The-Sea,
um lugar à beira-mar no Atlântico, levando consigo Anna, a sua filha de tenra
idade, bem como Martha, a sua fiel empregada doméstica.
Com grande relutância do Sr. Coombe, promotor
imobiliário local, Lucy insiste em alugar “Gull Cottage”, uma casa antiga
situada mesmo por cima da praia, onde antes vivera (e, alegadamente, se
suicidara) o Capitão Daniel Gregg, seu antigo proprietário, mesmo depois do Sr.
Coombe ter procurado insistentemente dissuadi-la, garantindo-lhe que coisas
muito estranhas haviam ocorrido nessa mesma casa a quem antes a tinha tentado
alugar.
De facto, logo numa das primeiras noites, Lucy
recebeu a visita do fantasma do Capitão, que lhe contou a sua história e,
comovido pela forma como Lucy se prendera de amores pela casa, apesar de todos
os conselhos em contrário, aceita mantê-la durante um período experimental,
embora desde logo a avise que o seu verdadeiro desejo é o de transformar a casa
em lugar de asilo para velhos marinheiros aposentados.
Essas visitas passam a repetir-se frequentemente ao
ponto de uma certa cumplicidade amorosa se ter vindo instalar entre eles.
Pouco tempo depois de se ter mudado Lucy recebe a
visita da sogra e da cunhada que, com indisfarçável satisfação, lhe transmitem
a notícia de que ela se encontra arruinada, uma vez que a mina de ouro que
herdara de seu marido e de cuja atividade provinham os seus rendimentos, se
esgotara e fora definitivamente encerrada.
O risco de ser posta na rua por falta de pagamento
das suas rendas era grande, mas Lucy, nada interessada em corresponder aos
ostensivos cortejos que o Sr. Coombe lhe fazia, acaba por, com a cumplicidade
do fantasma, encontrar uma solução que lhe permitirá não só pagar as suas
rendas em atraso, como, também, comprar a própria casa. Com a ajuda do Capitão
Gregg, escreve as memórias deste e o livro é aceite por um editor londrino, que
logo antevê nele um grande sucesso literário.
Na mesma editora, Lucy encontra um elegante e
galanteador escritor de livros para crianças conhecido por Uncle Neddy, mas que
na verdade se chama Miles Fairley. Lucy não resiste à sedução e aos avanços de Fairley
e aceita a sua proposta de casamento, o que faz com que o fantasma do Capitão
dela se venha nessa mesma noite despedir, com a promessa de não mais a
incomodar.
Mas as coisas não correm de feição para Lucy que,
ao pretender visitar Fairley de surpresa na sua residência londrina, vem a
descobrir que não só ele já era casado, como também pai de duas crianças,
dando-lhe a mulher a entender que comportamentos sedutores dessa natureza
também já ele os tinha tido com muitas outras mulheres, antes dela.
Perante tamanha desilusão, nada mais resta a Lucy
senão regressar a Gull Cottage e deixar o tempo passar.
Bela e triste história, esta de Mrs. Muir…
Pelo sonho é que vamos, dizia Sebastião da Gama, e
foi pelo sonho que Mrs Muir foi…
Desde muito nova confundiu o sonho com a realidade.
Tinha lido num livro que dois apaixonados se beijaram num jardim e viveram
felizes para sempre, e assim, quando aos 17 anos se viu ela própria beijada no
pomar de sua casa, Mrs. Muir embarcou no sonho pela primeira vez…
Não saberemos porquê, mas enviuvou muito cedo e o
tempo de casada não lhe deve ter deixado doces memórias.
Quanto ao nascimento da filha, não foi mérito seu,
mas, segundo confessa, algo que lhe aconteceu…
Da companhia da sogra e da cunhada, então nem se
fala…
Do mar - conta-nos ela mais tarde - nada sabia a
não ser que era romântico, e assim, no meio sufocante onde vivia, não é de
estranhar que Mrs. Muir tenha desenvolvido um tão grande desejo nostálgico pela
costa, lá onde as ondas rebentam na praia e as gaivotas esvoaçam pelos ares.
E com uma tão grande apetência pelo sonho, também
não será de admirar que Mrs Muir se tenha sentido, de imediato, atraída pela
casa, pela sua decoração e pela ideia de vir a ter um fantasma por companhia.
Depois, tal como Alice, passou para o outro lado do
espelho e por lá navegou, noites sem fim.
Pensou Mrs. Muir que esse sonho de uma paixão
empolgante e duradoura se poderia materializar na realidade e foi profunda a
sua desilusão…
Mrs. Muir sonhou uma vez muito jovem, e voltou a sonhar
de novo mais crescida, ao ser beijada pela segunda vez no
pomar…
Mas quando a realidade se mostra tão distante dos
sonhos que sonhámos, muita vez se opta por não dar ao sonho uma nova
oportunidade.
Deixa-se, então, de sonhar, mas a memória do sonho,
essa ninguém nos tira…
Vagueia-se sozinha pela praia…
Ouve-se o barulho do mar e os gritos das gaivotas,
lá ao longe…
Vai-se á noitinha para a varanda sentir a maresia e
olhar o mar, mesmo nas noites de maior nevoeiro. Sobretudo, nas noites de maior
nevoeiro…
E, sem se saber muito bem como nem porquê, deixa-se
o tempo passar…
E foi tudo isto que aconteceu a Mrs. Muir.
Alma insatisfeita e sonhadora, mais do que se
apaixonar por um morto, Mrs. Muir criou para si própria todo um mundo paralelo,
compensando, dessa forma, as deceções e as desilusões de toda uma existência
carregada de frustração (“Nunca tive uma via própria. Sinto-me
inútil. Aqui estou, quase na metade davida, e o que fiz? Cozinhei carne
para alimentar um hipopótamo e conservei o nome Huguins bemlimpo…”,
desabafa ela com a sogra e a cunhada).
Mais tarde, quando tenta explicar à sua empregada a
atração que sente por Miles Fairley, diz-lhe : “Ele éreal!.
Acreditei que era insensível às emoções, numa vida respeitável com uma filha
pequena. Mas não sou e preciso de todas as coisas que uma mulher precisa.
Preciso de companhia e de risadas. Acho que preciso de amor…”
Depois, quando tudo se desmorona, ficam as memórias
(“as memórias, eu tenho-as, mesmo que tudo não tenha passado de um
sonho”, confessa ela à empregada. E à filha já crescida, que lhe vem
anunciar o seu noivado e o desejo de a levar a viver com ela para fugir à
reclusão e à solidão em que se encontra, Mrs. Muir dá-lhe a entender que a sua
solidão é acompanhada (“Pode estar-se muito mais só ao lado de outras
pessoas do que consigo própria, e mesmo ao lado de pessoas que se ama. Amo
esta casa e viverei aqui até morrer”)
Neste filme, que o crítico e historiador francês
Jacques Lourcelles considerou “um dos mais belosproduzidos em
Hollywood” (1), tudo parece estar na mais absoluta das perfeições: a
fotografia, a música, os diálogos, os atores, …
Em relação á fotografia de Charles Lang, dezoito
vezes nomeado para o Óscar da Melhor Fotografia em toda a sua carreira (uma
delas pelo filme de hoje), mas uma só vez vencedor (em 1933, com “O Adeus às
Armas”, de Frank Borzage), para além de realçar a fluidez e a beleza de uma
camara versátil que sobe e desce escadas e desliza pelas paredes, chamo apenas
a vossa atenção para o sublime jogo de luz e sombras na cena da segunda
aparição do fantasma, nessa noite de tempestade em que velas, luzes e
lumes sucessivamente se acendem e se apagam, até que reduzidíssimos focos de
luminosidade incidam sobre o rosto da protagonista, acentuando o mistério de
toda a cena.
No que respeita à música de Bernard Herrmann, um
dos mais célebres Diretores Musicais da História do Cinema Americano (era o
favorito de Alfred Hitchcock…), apenas também um só exemplo, para não vos maçar
muito mais: na cena em casa de Miles Fairley, quando a mulher deste confessa a
Mrs. Muir os antecedentes mulherengos do marido, quando a música subitamente
irrompe não foi apenas ela quem recebeu uma punhalada no coração naquele
momento, mas também nós, espectadores…
A Mankiewicz chamaram “cineasta da palavra”, tal a
importância que os diálogos assumem na construção dramática dos seus filmes. Em
muitos deles foi ele próprio o responsável pelo argumento, mas mesmo quando tal
não sucedeu ele nunca deixou de “meter a sua colherada”. É o caso do filme de
hoje, em que consta que uma boa parte do diálogo da cena de despedida do
fantasma (que João Bénard da Costa considerou ser “a mais bela sequência de
sempre da história de Hollywood” (2) (“Você tem sonhado, sonhado com
um capitão do mar que assombrava esta casa, das conversas que teve com ele. Mas
foi um sonho, Lucia. Amanhã e nos dias seguintes recordará isto como um sonho,
e ele morrerá, tal como todos os sonhos morrem ao acordarmos…”)), bem
como quase todos os diálogos em que intervém George Sanders, terão sido de sua
exclusiva responsabilidade, e não de Philip Dunne, que é o argumentista
creditado no genérico.
Finalmente, os atores: Gene Tierney, uma das mais
belas e enigmáticas atrizes do Cinema Americano, aqui no auge da sua carreira;
o inglês Rex Harrison, excelente no papel do fantasma truculento e irrascível,
apenas no segundo dos filmes que fez na América; a muito jovem Nathalie Wood,
que alguns de vós se lembrarão de ter visto numa destas sessões em “O Esplendor
da Relva”, aqui com apenas 7 anos, mas já no seu terceiro filme; o magnífico
George Sanders, deliciosamente cínico e manipulador como só ele soube ser; e
ainda uma panóplia de excelentes secundários, dos quais apenas destoa, em minha
opinião, Vanessa Brown, que desempenha o papel de Anna
adulta.
Há tantas, tantas imagens deste filme que ficam
dentro de nós para sempre: Mrs. vestida de luto, com o chapeuzinho na
cabeça; as janelas que se abrem e se fecham; a praia, o mar e as gaivotas
a esvoaçar; as portentosas cenas do mar a bater nas rochas (de novo a
força da música de Bernard Herrmann…), com o “leitmotiv” da estaca de madeira
para acentuar a passagem do tempo, enquanto Mrs. Muir vagueia pela praia como
se saída de uma tela de Noronha da Costa. E, é claro, a inesquecível cena
final
Aqui chegados, tenho de vos confessar que este é um
daqueles filmes em relação aos quais quanto mais falamos mais sentimos que o
essencial ficou por dizer, como se toda a sua beleza, perfeição e a emoção que
nos suscita fossem do domínio do indizível…
E se me faltam as palavras, então nada melhor que
concluir dando a palavra a quem destas coisas do Cinema sabe e sente bem mais
do que eu:
“Não
há filme mais triste. Não há filme mais bonito. Deixem-me ficar ao pé da mulher
que nasceu tarde demais para atravessar os sete mares e para ver o sol da
meia-noite. Deixem-me ficar ao pé do capitão que morreu cedo demais para a
poder beijar ou para poder deitar-se com ela. Ou deixem-me acreditar que não há
cedo nem tarde e que o único amor que existe - porque é o único em que
acreditamos que existe – é o “amor surreal”, esse que Rex Harrison e Gene
Tierney encontram no final, quando desaparecem na névoa, atravessada a última porta”. (2)
PS:
Já não tive espaço para vos falar da importância do
retrato em muitos filmes americanos dos anos 40/50, enquanto detonador do
sonho e do desejo, como é o caso evidente do filme de hoje. Talvez que na
apresentação em sala haja oportunidade de falarmos nisso.
LOURCELLES, Jacques, “Dictionnaire du Cunema – Les Films”, Edição
Robert Laffont, 1992, pág. 101
DA COSTA, João Bénard, “Escritos Sobre Cinema – Tomo 1, 4º
Volume”, Edições Cinemateca Portuguesa, 2021, pág. 365. A afirmação vale o
que vale, porque sabemos que Bénard da Costa disse, com igual convicção,
exatamente a mesma coisa de muitas outras cenas de muitos outros filmes…