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sábado, 4 de outubro de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


A 14 de Janeiro de 1945, debaixo de chuva, estive na manifestação, junto ao Ministério do Trabalho, na Praça de Londres.

Lutava-se pela Unicidade Sindical.

«O espírito era o de evitar divisões e lutar contra as tentativas da contra-revolução».

O Partido Socialista respondeu à manifestação com um comício no Pavilhão dos Desportos:

«Soares e Zenha, não há quem os detenha.»

Do discurso de Salgado Zenha:

«A classe operária não é propriedade de nenhum partido, não é propriedade de nenhum estado, não é propriedade de qualquer corrente salvadora.»

Aqui começou a nascer a pluralidade sindical, dito de outro modo: a divisão dos trabalhadores.

«Há que partir a espinha à Intersindical!»

Maldonado Gonelha, dirigente do Partido Socialista.

A União Geral dos Trabalhadores (UGT), cujos princípios e estatutos são aprovados em Outubro de 1978.

Torres Couto foi o secretário-Geral da UGT de 1978 a 1995, abandonando a central em virtude de uma fraude da central com o Fundo Social Eleitoral.

Das razões de os trabalhadores deixarem-se dividir, é um processo longo, demorado, não concluído, muitas memórias perdidas.

Este é um breve «flash» à volta de uma das mais graves rupturas do pós-25 de Abril, também motivo para trazer até aqui a fotografia, que acima se vê, tirada, algures perto da Nazaré, por Luís Miguel Mira.

O José Mário Branco tem uma lindíssima canção a que chamou Inquietação.

Um diálogo do cantigueiro, do homem, tentando conciliar dores e alegrias, guerras travadas, um houve aqui alguém que se enganou, os porquês diz não saber, e apenas quer deixar-nos a chave para nos obrigar a saber, a pensar até que a luta se transforme em poema colectivo.


INQUIETAÇÃO

 

«A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes
São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha
Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
Ensinas—me fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas
Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco pra chegar
Eu não meti o barco ao mar
Pra ficar pelo caminho
Cá dentro inqueitação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
Cá dentro inqueitação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Mas sei
Que não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda»

 

Legenda: fotografia de Luís Miguel Mira.

segunda-feira, 17 de março de 2025

DIFERENÇAS PROGRAMÁTICAS


Os programas mensais da Cinemateca Portuguesa já não se publicam em desdobrável.

Este, Março de 2011, foi o último.


Capa do programa da Cinemateca Francesa, Janeiro /Fevereiro 2007, trazido de Paris pelo Luís Miguel Mira.

É um livrinho de 112 páginas, profusamente ilustrado.

Pode-se avaliar, questões de orçamentos, das respectivas diferenças.

Desconheço se, hoje em dia, mantém o mesmo formato.

domingo, 6 de outubro de 2024

MÚSICA PELA MANHÃ


Kris Kristofferson, que agora nos deixou, é daqueles personagens de que se gosta ao primeiro olhar, ao primeiro som, ao primeiro gesto. Não se pode esquecer a sua passagem pelo filme «Pat Garrett and Billy the Kid», filme de Sam Peckinpah, filme tratado a pontapé pelos idiotas da Metro-Goldwin Mayer, que tem banda sonora escrita por Bob Dylan, que também entra como actor, para além de  James Coburn, Rita Coolidge e  Harry Dean Stanton.

Pode ser que a Cinemateca, oportunamente, faça um In Memorian de Kris Kristofferson.

Por aqui ainda andam cassettes (inaudíveis) gravadas, a long time ago, dos LPs de Kris Kristofferson, que são propriedade do Luís Miguel Mira.




Para completar a lembrança de Kris Kristtoferson, ficamos com a espantosa interpretação de Janis Joplin de «Me na Bobby Mac Gee», como a canção de Bob Dylan «Knockin' On Heaven's Door» da banda sonora do filme «Pat Garrett and Billy the Kid».



quarta-feira, 24 de abril de 2024

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?



 O Luís Miguel Mira apresenta hoje, pelas 15,00 horas na Nova Atena, Universidade Senior,  na Rua Almeida Garrett, 20, em Linda-a-Velha, «O Inimigo Público» de Woody Allen:

                                                    O INIMIGO PÚBLICO (1969)

                                                      (Take the Money and Run)

 

Realização: Woody Allen

Argumento: Woody Allen e Mickey Rose

Montagem: Ralph Rosenblum, James T. Heckert, Paul Jordan e  Ron Kalish

Fotografia: Lester Shorr

Música: Marvin Hamlisch e Felix Giglio

Direção Artística: Fred Harpman

Interpretação:  Woody Allen (Virgil Starkwell), Janet Margolin (Louise), Ethel Sokolow (a mãe de Virgil), Henry Leff (o pai de Virgil), Don Frazier (o psiquiatra), Jacquelyn Hyde (mademoisele Blair), James Anderson (o guarda prisional), Marcel Hillaire (Fritz), Lonny Chapman (Jake),  Louisse Lasser (Kay Lewis), Jackson Beck (a voz do narrador), etc 

Produção: Sidney Glazier, Charles H. Joffe e Jack Grossberg, para a Palomar Pictures International

Duração: 85 mn

No que respeita ao “Riso”, já por aqui passaram pela mão do Prof. Jorge Barata Preto, no âmbito deste recente ciclo “O Riso e as Lágrimas”, alguns dos principais vultos da Comédia Americana: Charles Chaplin, Buster Keaton, os Irmãos Marx, Jerry Lewis, Mel Brooks. 

Dos grandes “Clássicos”, julgo que só faltaram Harold Lloyd, Harry Langdon, Stan Laurel e Oliver Hardy (o Bucha e o Estica…), W. C. Fields e talvez Woody Allen, embora não esteja certo de que ele não tenha por aqui passado noutro ciclo…

Para além destes, houve uma série de comediantes americanos de grande sucesso no seu tempo, mas para os quais a memória dos cinéfilos não foi tão generosa como em relação aos outros que mencionei: falo-vos de nomes como Eddie Cantor, Bob Hope, Bud Abbot e Lou Costello (o Gordo e o Magro), Danny Kaye e, muito mais recentemente, Jim Carrey, “o novo Jerry Lewis”.

Embora tenha com ele uma relação de Amor/Ódio, escolhi para concluir a minha intervenção neste ciclo um filme de Woody Allen, porque ele merece estar ao lado dos maiores.

Mas porquê esse Amor/Ódio, perguntar-me-ão vocês, talvez intrigados, tal a unanimidade que o autor de “Annie Hall” habitualmente suscita…?

Amor, porque gosto muito de muitos dos filmes de Woody Allen.

Ódio (a palavra é excessiva, confesso…), porque a ascensão de Allen correspondeu ao declínio de Jerry Lewis, que era o meu ídolo de infância, de adolescência e até de juventude, através dos filmes dele que frequentemente via na televisão e das saudosas retrospetivas mais tarde organizadas nos anos 70 por Lauro António, no Apolo 70 e no Caleidoscópio. 

É que, na verdade, entre 1969 (data do primeiro filme de Allen) e 1983 (data do último filme de Lewis), o autor de “O Homem das Mulheres” apenas teve oportunidade de realizar cinco filmes (um dos quais, “Le Jour oú le Clown Pleura”, realizado em França e na Suécia em 1972, ainda hoje se mantém inédito…), enquanto o autor de “Manhattan” realizou dez. E, a partir de então e até hoje, Allen realizaria pelo menos um todos os anos, só falhando em 2018, 2021 e 2022.  

E é claro que culpei Woody Allen pela caída em desgraça de Jerry Lewis… 

Antes de entrar em força no Cinema já Allen era um nome sobejamente conhecido no meio cultural americano, e sobretudo na cena nova-iorquina.

Começou a trabalhar nos anos 50, ainda adolescente, escrevendo diálogos para a televisão.

O sucesso que teve levou-o a ser chamado a colaborar com comediantes de cada vez maior nomeada, para os quais escrevia sketches para shows, peças de teatro e revistas da Boadway que viriam a obter grande sucesso.

Farto de ficar na sombra e de ver os outros beneficiarem, em fama e proveito, do seu próprio trabalho, Allen, embora já na altura muito bem pago para a sua idade, decidiu ultrapassar a sua timidez natural e subir sozinho ao palco em 1961, vindo a tornar-se um dos principais vultos da chamada stand-up comedy americana, com digressões por teatros e night clubs de todo o país e presença assídua na televisão. E o seu sucesso não se iria limitar aos “monólogos” que fazia em palco, porque também já começara a escrever para diversas publicações de prestígio, como era o caso da “New Yorker”, e as gravações em disco de alguns dos seus espetáculos também obtiveram êxito, levando-o, até, a ganhar um Grammy por uma delas em 1964.  

Allen viria a estrear-se no cinema em 1963, escrevendo o argumento e desempenhando um papel secundário em “O Que Há de Novo Gatinha” (“What’s New Pussycat”), de Clive Donner, que alguns de vós provavelmente se recordarão de ter visto no antigo cinema São Jorge, já que por cá obteve um grande sucesso, com a inesquecível música do Tom Jones.

Seguir-se-ia, em 1967, “Casino Royale”, muito maltratado por diversos realizadores, entre eles John Huston, do qual foi coargumentista, para além de ter, igualmente, um pequeno papel como ator.


Cansado da maneira, que considerava desajustada, como os seus argumentos eram postos em cena (em 1969 estreara-se, também, “Don’t Drink the Water”, realizado por Howard Morris e baseado numa peça sua), Allen começou a acalentar a ideia de ser ele próprio a realizar os filmes que escrevia.

Mas ainda antes disso, lançou-se numa obra bizarra: pegar num anónimo filme japonês, misto de policial e de “kung-fu”, retirar-lhe a banda sonora original e substituí-la por uma inteiramente concebida por si, tanto na escolha da música como na escrita dos diálogos. O resultado deu pelo nome de “What’s Up Tiger Lily” e foi lançado nos Estados Unidos em 1966. O DVD que tenho na minha coleção chama-se “O Que se Passa, Tigresa?”, mas não tenho qualquer memória da estreia deste filme em Portugal.

É só por isso que “O Inimigo Público”, o nosso filme de hoje, surge em segundo lugar na filmografia de Woody Allen enquanto realizador, apesar de ter sido, na verdade, o primeiro filme escrito, realizado e interpretado por si. E esse sim, lembro-me muito bem onde se estreou em Lisboa: no saudoso Cinema Berna, que ficava nas Avenidas Novas, mesmo ao lado da Igreja de Nossa Senhora de Fátima.

Oito anos e quatro comédias mais ou menos burlescas depois (para além de participação, como ator principal, em dois outros filmes não por si realizados), Allen obteria, em 1977, o maior dos seus êxitos na América, com os quatro Óscares recebidos por “Annie Hall”.

A partir daqui o cinema de Woody Allen não mais seria o mesmo, mas a sua carreira não é o principal objeto deste texto.

Fiquemo-nos, pois, por “O Inimigo Público”, realizado em 1969. 

Em tom sério de documentário, com a voz “off” de um narrador, excertos de entrevistas ao próprio Virgil e a outras pessoas que lhe são próximas ou que com ele se relacionaram pontualmente (o pai e a mãe, devidamente disfarçados para não passarem a vergonham de se verem associados ao filho, a mulher, o psiquiatra que o acompanhou, o juiz que o condenou, colegas de prisão, vizinhos e amigos de infância, etc), o filme conta-nos a história de Virgil Starkwell, considerado um dos mais perigosos criminosos daquela época, desde os primeiros tempos de delinquência juvenil no bairro desfavorecido de Baltimore onde nascera, até à sua derradeira e mais penosa condenação.

Pelo meio são evocadas outras peripécias da sua vida: os primeiros assaltos, as primeiras vivências na prisão, as primeiras tentativas de fuga, a libertação que conseguiu por se ter oferecido como cobaia para experiências com uma nova vacina nunca antes testada num Ser Humano, a forma como conheceu a sua mulher, ternamente contada pelo próprio Virgil, que nos confessa tê-la visto deitada na relva de um jardim e lhe pretender roubar a mala, mas que lhe bastaram 15 minutos de conversa com ela para se aperceber que era essa a mulher dos seus sonhos com quem se desejaria casar, e que 30 minutos depois já tinha desistido, em definitivo, da ideia de lhe roubar a carteira...

Casado e com novas responsabilidades familiares no horizonte, Virgil, como todo o bom criminoso que se preza, sonha em dar o último e definitivo golpe que lhe assegurará, para sempre, a subsistência da família, mas a coisa corre-lhe mal. É condenado a trabalhos forçados numa prisão de alta segurança, mas, persistente como é, dela também se consegue libertar, na companhia de outros reclusos.

De novo ao lado da mulher e do filho, Virgil tenta seguir caminhos mais honestos, mas não se consegue adaptar a essa vida. Uma nova tentativa de assalto volta a correr-lhe mal e vamos encontrá-lo, no final, condenado a 800 anos de prisão por 52 assaltos, embora, otimista como sempre, ele esteja esperançado de que, se tiver um comportamento exemplar, essa pena lhe possa ser reduzida a metade. Mas nem por isso deixa de se preocupar em construir, artificialmente, uma pistola…

Quanto à profissão que escolheu, diz que não se arrepende de nada… “Somos o nosso próprio patrão, tem -se liberdade de horário, viaja-se imenso, conhece-se muita gente interessante”… Que mais se pode desejar…? Uma única tristeza lhe ficou, certamente: apesar de tão badalado e de ter sido nomeado “Gangster do Ano”, nunca ter integrado o “Top 10” dos maiores criminosos…

Nas suas “Memórias”, publicadas em 2020, Woody Allen não se alonga demasiado acerca deste filme e só parece dar importância a duas coisas: o gozo que lhe deu ter conseguido filmar no interior da célebre prisão de San Quentin e a preciosa ajuda que recebeu de Ralph Rosenblum, chamado à última hora para o apoiar na montagem do filme.

Em relação à primeira escreve mesmo o seguinte: “o primeiro dia de filmagens seria na Penitenciária de San Quentin. Todo o meu entusiasmo se prendia com o facto de ir a uma prisão e ali estarem reclusos e eu veria uma gigantesca casa icónica, sobre a qual apenas tinha lido ou visto versões em velhos filmes a preto e branco. Queria lá saber que me estava a estrear como realizador. Era pela prisão que eu estava fascinado” (1) 

Quanto à segunda, tenho de me deter mais algum vagar, porque é essencial para a compreensão do próprio filme.

Na sua total ignorância do que era a realização de um filme, Allen não se preocupou demasiado com a montagem final nem com a forma como a escolha da música poderia condicionar, em muito, o próprio ritmo do seu filme.

Preocupou-se, unicamente e com o apoio dos técnicos que tinha ao seus dispor, em rodar corretamente cenas cómicas umas atrás das outras, e nisto até se revelou um bom aluno porque não só acabou as filmagens antes da data prevista, como também conseguiu ficar aquém do orçamento previsto.

O grande problema foi que, após realizada a preview screening (2), toda a produção deitou as mãos à cabeça. O filme era um autêntico desastre. A pouca música escolhida era desadequada, a montagem não fazia muito sentido, era evidente a falta de ritmo de toda a obra e estava à vista de todos, incluindo a de Allen, um verdadeiro descalabro.

Fez-se então apelo a Ralph Rosenblum, um montador experiente que fez tábua rasa dessa primeira versão de montagem, visionou todas as bobinas que haviam sido filmadas e chegou à versão final que hoje conhecemos, à qual juntou música diversificada, incluindo algumas peças de jazz de New Orleans para fazer acelerar o ritmo de algumas cenas. Foi considerado o verdadeiro salvador do filme, que viria a ter algum êxito nos Estados Unidos.    

Apesar de tudo isto, “O Inimigo Público” não deixa de ser um filme algo desequilibrado, como desenvolverei no final. 


Quando estamos perante a primeira obra de um realizador, sobretudo quando se trata, como no caso de Woody Allen, de um “Autor” consagrado e detentor de uma vasta Obra, existe sempre a tendência de nele procurarmos encontrar os primeiros sinais do “Universo do Autor”, ou seja, o seu estilo, os seus temas prediletos, as suas obsessões, a sua visão do Mundo, os seus “tiques”…

Ora no caso de “O Inimigo Público” não será difícil descortinar um esboço daquilo que viria a ser o trabalho futuro do seu realizador.

Vejamos, seguidamente, alguns exemplos.

  1. Allen sempre incorporou em muitos dos seus filmes aspetos autobiográficos. Na primeira versão do guião deste filme, Virgil chamava-se … Woody Allen!; depois, a forma como retrata os pais de Virgil é muito semelhante àquela como, ao longo da sua vida artística, nos foi falando dos seus próprios pais, com uma ligeira diferença: ao contrário do que sucede no filme, era o seu pai, e não a sua mãe, o mais tolerante em relação a ele (acerca da sua mãe, Allen chegou a escrever o seguinte: “a teoria edipiana de Freud de que todos os homens querem, inconscientemente, matar os pais para casarem com as mães choca com uma parede de tijolo no que diz respeito à minha mãe…” (3)); por outro lado, o bairro desfavorecido de Baltimore onde Virgil passa a sua infância também parece ter alguns traços de semelhança com o de Midwood, em Brooklyn, onde o próprio Allen deu os primeiros passos e que tão bem nos mostrou em “Os Dias da Rádio”; tal como Allen, Virgil também parece gostar de música, mas não ter lá muito jeito para o seu instrumento favorito; e que me dirão vocês se vos disser que Allen escolheu para data de nascimento de Virgil (1 de Dezembro de 1935) … o dia seguinte ao do seu próprio nascimento…; mas a mais deliciosa das private jokes de Allen parece-me ser a de ter dado à sua mulher Louisse Lasser, com quem então já estava em acelerado processo de divórcio, aquela hilariante tirada final, qualquer coisa como isto (cito de memória): “Acho que ele era um génio. Quando descobri que ele era um criminoso, não pude acreditar, porque nunca vi ninguém que dissimulasse algo tão bem. Excelente trabalho de ator. E eu que pensava que ele era um idiota…!”;

2.                  Tal como Vigil Starkwell, muitos dos personagens principais dos filmes de Allen são homens (quase sempre, mas também há mulheres…) torturados e inseguros, com alguma timidez e complexo de inferioridade resultante, por vezes, de uma infância castradora, todos estes problemas confluindo numa enorme insegurança no relacionamento com as mulheres. E, em relação, a Allen, isto também terá qualquer coisa de autobiográfico…;

3.                  Pelos motivos que referi no ponto anterior, muitos dos personagens dos seus filmes recorrem, ou já recorreram no passado à psicanálise, e isso é sempre mencionado em tom jocoso. Ora referências à psicanálise são coisas que abundam no filme de hoje, em especial na hilariante cena em que o seu psicanalista é satirizado, explicando-nos o papel do violoncelo na mente tortuosa de Virgil… E é também evidente que, subjacente a todo o filme, está a teoria determinista, então muito em voga naqueles tempos na Psicologia e na Sociologia, de que é a família, a educação e o meio envolvente quem mais determina a formação de uma personalidade. E foi o próprio Allen quem, na altura, afirmou que Virgil poderia muito bem ter sido ele próprio, se em momentos-chave da sua adolescência tivesse enveredado por outros caminhos, como alguns dos seus companheiros do passado o fizeram;  

4.                  Um certo fatalismo, quase que ilustrando a Lei de Murphy (se algo pode correr mal, é certo que irá correr (mesmo) mal…) parece acompanhar a vida e a “carreira” do pobre Virgil, como também a de muitos dos personagens do cinema de Allen;

5.                  É sabido que Woody Allen estudou cinema na sua juventude e frequentou avidamente as salas de cinema, primeiro levado pela mão de uma sua prima 5 anos mais velha e, mais tarde, por conta própria. Esta cinefilia é algo que se torna evidente em muitos dos seus filmes. Os seus personagens são, muitas vezes, pessoas ligadas ao cinema e/ou à televisão, o seu cinema homenageia e cita frequentemente realizadores como Bergman, Fellini e Antonioni, muitas são as cenas dos seus filmes que decorrem no interior ou à porta de cinemas ditos “de Arte e Ensaio”, em cujos letreiros luminosos se anunciam clássicos do cinema americano e europeu, etc. No filme de hoje, que Allen pretendia realizar a preto e branco e a Produtora recusou, para além da memória dos velhos documentários que no passado abriam as sessões de cinema e aos quais me refiro no ponto seguinte, a inspiração veio-lhe dos velhos filmes de “gangsters” com fundo social, bem como dos “filmes de prisão” dos anos 30 e 40, em particular “Anjos de Cara Suja” e “I’m a Fugitive From a Chain Gang”, do qual chega a copiar uma cena inteira. E as “delicodoces” cenas nos parques e à beira-mar, que aqui surgem claramente como sátira, eram coisas que abundavam no cinema americano dos anos 60…; como homenagem à cena final de “Bonnie and Clyde”, Allen chegou a filmar um final diferente para este filme, no qual Virgil era apanhado numa emboscada e fuzilado, como no filme de Arthur Penn, cena esta que foi abandonada na remontagem de que atrás vos falei; mas, para os cinéfilos mais inveterados, a cereja no topo do bolo das “homenagens” é Allen ter filmado uma cena no interior do célebre Restaurante Ernie’s, em São Francisco, onde Hitchcock também havia rodado duas cenas capitais em “Vertigo / A Mulher que Viveu Duas Vezes”, hoje um verdadeiro “filme de culto”

6.                  Indiscutivelmente, um dos motivos de atração deste filme é o tom de documentário no qual ele é estruturado, e uma boa parte do seu humor reside no profundo contraste entre a seriedade da locução e a comicidade das imagens que, em contraponto, nos são mostradas. Allen tinha na memória, como vos disse atrás, os velhos documentários do passado e levou esta homenagem a um tal ponto de perfeccionismo que quem foi convidar para locutor foi Jackson Beck, a própria voz dos documentários da Paramount dos anos 40. E essa mesma estrutura em documentário, aqui e além acompanhada por imagens da época, acabou por ser um esboço para “Zelig”, um dos grandes filmes de Allen realizado 14 anos depois, e esse sim, inteiramente baseado em documentários de época;

Mais exemplos haveria para salientar, mas creio que já vos macei demasiado…

E se comecei falando-vos de Jerry Lewis, com ele irei terminar. É que este filme era para ter sido realizado por Lewis, e não por Woody Allen. Suspeitando (e, pelos vistos, com alguma razão…) da capacidade e da experiência deste como realizador, a Produtora começou por dar o seu acordo ao filme, mas na condição de este ser realizado por Lewis, e Allen concordou, embora com alguma relutância. 

Seguiram-se contactos entre Allen e Lewis, mas este acabou por declinar a oferta por não se sentir muito convencido do projeto, em especial devido à estrutura do guião demasiado baseada em sucessivos sketches, que Allen se recusava a alterar significativamente. Esta recusa de Lewis deve ter sido recebida com grande alívio por parte Allen, em cujo ego não cairia, certamente, muito bem o facto de, num projeto tão pessoal, se ver dirigido pelo seu maior rival, com quem poderia, fatalmente, entrar em conflito, como sucedeu com Peter Sellers no “Casino Royale”.  

Curiosamente, nem Lewis nem Allen se referem a este facto nas respetivas autobiografias, mas quem o relata com algum detalhe é John Baxter, na sua obra de referência sobre o autor de “Manhattan” (4).

Disse-vos atrás que, em minha opinião, este é um filme algo desequilibrado, com evidentes problemas de ritmo na sua parte final, em contraste com a forma frenética como o filme se inicia. Por exemplo, a cena dos prisioneiros acorrentados uns aos outros, se no início tem a sua graça, a partir de determinada altura torna-se algo penosa, tantas foram as vezes que foi repetida. E o mesmo se diga das sucessivas cenas do bilhete com os supostos erros ortográficos no assalto ao banco, que de tanto serem repetidas acabam por perder alguma eficácia.

Nada disso altera, porém, o interesse que tem o visionamento deste filme histórico, o qual contém, certamente, muitas cenas que poderíamos selecionar para uma antologia do humor de Woody Allen: as impagáveis cenas em que intervêm os pais de Virgil, disfarçados de Groucho Marx; as diversas cenas de assaltos e de fugas fracassadas, com os gags das pistolas; a cena ao espelho com a toalha é cintura; a teoria do psiquiatra em relação ao violoncelo; as hilariantes tiradas de humor judaico… 

Woody Allen é, indiscutivelmente, um dos grandes realizadores do nosso tempo. Ao contrário de outros grandes realizadores clássicos, de quem não chegámos a ser contemporâneos, enquanto cinéfilos, com Allen tivemos a oportunidade de acompanhar a construção de todo o edifício da sua Obra, tijolo após tijolo, e julgo ser imperdível ver este momento inicial em que, timidamente, começou a dar os primeiros passos. 

Espero que estejam de acordo comigo e se divirtam.

Sendo esta a minha última intervenção, mais uma vez os meus agradecimentos a quem me convidou e a quem teve a paciência de me ler e de me ouvir.


LUÍS MIGUEL MIRA


  1. ALLEN, Woody, “A Propósito de Nada”, Ediçoes 70, 2020, pág. 195

2.                   Desde os primórdios da Indústria Cinematográfica era habitual os Estúdios e/ou os produtores dos filmes realizarem, antes da sua estreia oficial, sessões prévias de apresentação para uma audiência selecionada, a fim de testarem a reação do público. Em função desta e dos inquéritos individuais lançados à assistência, os filmes podiam ser modificados, por forma a colmatar as principais insuficiências detetadas. No caso deste primeiro filme de Allen, foram escolhidos como publico um grupo de soldados americanos em licença no país, tendo o filme sido projetado com uma muito reduzida e suave banda sonora. A reação da plateia foi péssima…


3.                  Vd (1), pág. 12


4.                  Vd (1), pág. 12   BAXTER, John, “Woody Allen”, Edição Flammarion, 2000, pág. 207    

sábado, 13 de abril de 2024

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?

O Luís Miguel Mira já nos prometeu que irá voltar às crónicas de viagens mas, por agora, anda entretido a divulgar grandes filmes, todas as quartas-feiras, pelas 15,30 horas na:

Nova Atena
Universidade Senior
Rua Almeida Garrett, 20
Linda-a-Velha

Na próxima quarta-feira, dia 17 de Abril, é a vez de O Fantasma Apaixonado de Joseph L. Mankiewicks, rigorosamente a não perder.

                                      O FANTASMA APAIXONADO (1947)

                                              (The Ghost and Mrs. Muir))

 

Realização:      Joseph L. Mankiewicz

Argumento:     Philip Dunne, com base num romance de R. A. Dick 

Montagem:     Dorothy Spencer 

Fotografia:       Charles Lang  

Música:             Bernard Herrmann             

Direção Artística:  Richard Day e George W. Davis

Interpretação:    Gene Tierney (Lucy Muir), Rex Harrison (o fantasma do Capitão Gregg), George Sanders (Miles Fairley), Edna Best (Martha), Vanessa Brown (Anna Muir adulta), Natalie Wood (Ana Muir criança), Isobel Elson (Angelica, a sogra), Victoria Horne (Eva, a cunhada), Robert Coote (Coombe), etc       

Produção:       Fred Kohlmar, para a 20th Century Fox    

Duração:     104 mn

 

Aqueles de melhor memória lembrar-se-ão, certamente, que ainda há muito pouco tempo vos falei aqui de Joseph Mankiewicz, a propósito de “Os Três Camaradas”. Era ele o produtor com quem Francis Scott Fitzgerald se zangou, acusando-o de ter destruído o argumento que ele escrevera para esse mesmo filme.

Mas antes de ser produtor para a Metro Goldwin Meyer, entre 1935 e 1942, já Mankiewicz fora argumentista, primeiro na Paramount, na qual entrou em 1929 pela mão do seu irmão mais velho Herman, igualmente argumentista de muito sucesso àquela época (quem tiver visto na Netflix o filme “Mank”, de David Fincher, lembrar-se-á dele…), e depois já na própria MGM entre 1933 e 1935, antes de ter ascendido a produtor.

Como realizador, Mankiewicz teve uma brilhante estreia em 1946 com “O Castelo de Dragonwyck, e viria a realizar um total de vinte filmes entre essa data e 1972.

Talvez alguns de vós se lembrem de “A Condessa Descalça”, de 1954, mas seguramente que todos se recordarão de “Cleópatra”, realizado em 1963 e interpretado pelo casal/vedeta daqueles tempos, Elizabeth Taylor e Richard Burton.

Quando morreu, em 1993, tinha Mankiewicz quatro Óscares na sua estante, que lhe vieram aos pares em dois anos consecutivos: em 1950 pela melhor Realização e pelo melhor Argumento de “Carta a Três Mulheres”, e no ano seguinte idênticos prémios por “Eva”.     

E passemos, então, a “O Fantasma Apaixonado”.

Ao ver de novo este velho filme, que já não revia há alguns anos, dei comigo a pensar nesta estranha coincidência…

Programei, muito próximos um do outro, dois filmes de “fantasmas apaixonados” que acabam ambos quase de forma idêntica, com os fantasmas a virarem-nos as costas e a partirem através do nevoeiro não se sabe bem para onde, mas seguramente que para lá onde o seu amor surreal continuará a ser possível, contra tudo e contra todos.

Feliz coincidência.

Ou talvez não…

Talvez que eu goste muito dessa ideia de fantasmas apaixonados.

Mas adiante…   

O filme inicia-se em Londres nos primeiros anos do Séc. XX e conta-nos a história de Lucy Muir, uma jovem e bonita viúva que, cansada da vida citadina e - percebemo-lo rapidamente … - farta de aturar a sogra e a cunhada com quem vivia, decide mudar-se para Whitecliff-By-The-Sea, um lugar à beira-mar no Atlântico, levando consigo Anna, a sua filha de tenra idade, bem como Martha, a sua fiel empregada doméstica. 

Com grande relutância do Sr. Coombe, promotor imobiliário local, Lucy insiste em alugar “Gull Cottage”, uma casa antiga situada mesmo por cima da praia, onde antes vivera (e, alegadamente, se suicidara) o Capitão Daniel Gregg, seu antigo proprietário, mesmo depois do Sr. Coombe ter procurado insistentemente dissuadi-la, garantindo-lhe que coisas muito estranhas haviam ocorrido nessa mesma casa a quem antes a tinha tentado alugar.

De facto, logo numa das primeiras noites, Lucy recebeu a visita do fantasma do Capitão, que lhe contou a sua história e, comovido pela forma como Lucy se prendera de amores pela casa, apesar de todos os conselhos em contrário, aceita mantê-la durante um período experimental, embora desde logo a avise que o seu verdadeiro desejo é o de transformar a casa em lugar de asilo para velhos marinheiros aposentados. 

Essas visitas passam a repetir-se frequentemente ao ponto de uma certa cumplicidade amorosa se ter vindo instalar entre eles.

Pouco tempo depois de se ter mudado Lucy recebe a visita da sogra e da cunhada que, com indisfarçável satisfação, lhe transmitem a notícia de que ela se encontra arruinada, uma vez que a mina de ouro que herdara de seu marido e de cuja atividade provinham os seus rendimentos, se esgotara e fora definitivamente encerrada.

O risco de ser posta na rua por falta de pagamento das suas rendas era grande, mas Lucy, nada interessada em corresponder aos ostensivos cortejos que o Sr. Coombe lhe fazia, acaba por, com a cumplicidade do fantasma, encontrar uma solução que lhe permitirá não só pagar as suas rendas em atraso, como, também, comprar a própria casa. Com a ajuda do Capitão Gregg, escreve as memórias deste e o livro é aceite por um editor londrino, que logo antevê nele um grande sucesso literário.

Na mesma editora, Lucy encontra um elegante e galanteador escritor de livros para crianças conhecido por Uncle Neddy, mas que na verdade se chama Miles Fairley. Lucy não resiste à sedução e aos avanços de Fairley e aceita a sua proposta de casamento, o que faz com que o fantasma do Capitão dela se venha nessa mesma noite despedir, com a promessa de não mais a incomodar.

Mas as coisas não correm de feição para Lucy que, ao pretender visitar Fairley de surpresa na sua residência londrina, vem a descobrir que não só ele já era casado, como também pai de duas crianças, dando-lhe a mulher a entender que comportamentos sedutores dessa natureza também já ele os tinha tido com muitas outras mulheres, antes dela.

Perante tamanha desilusão, nada mais resta a Lucy senão regressar a Gull Cottage e deixar o tempo passar.    

Bela e triste história, esta de Mrs. Muir…

Pelo sonho é que vamos, dizia Sebastião da Gama, e foi pelo sonho que Mrs Muir foi…


Desde muito nova confundiu o sonho com a realidade. Tinha lido num livro que dois apaixonados se beijaram num jardim e viveram felizes para sempre, e assim, quando aos 17 anos se viu ela própria beijada no pomar de sua casa, Mrs. Muir embarcou no sonho pela primeira vez…

Não saberemos porquê, mas enviuvou muito cedo e o tempo de casada não lhe deve ter deixado doces memórias.

Quanto ao nascimento da filha, não foi mérito seu, mas, segundo confessa, algo que lhe aconteceu…

Da companhia da sogra e da cunhada, então nem se fala…

Do mar - conta-nos ela mais tarde - nada sabia a não ser que era romântico, e assim, no meio sufocante onde vivia, não é de estranhar que Mrs. Muir tenha desenvolvido um tão grande desejo nostálgico pela costa, lá onde as ondas rebentam na praia e as gaivotas esvoaçam pelos ares.

E com uma tão grande apetência pelo sonho, também não será de admirar que Mrs Muir se tenha sentido, de imediato, atraída pela casa, pela sua decoração e pela ideia de vir a ter um fantasma por companhia.

Depois, tal como Alice, passou para o outro lado do espelho e por lá navegou, noites sem fim.

Pensou Mrs. Muir que esse sonho de uma paixão empolgante e duradoura se poderia materializar na realidade e foi profunda a sua desilusão… 

Mrs. Muir sonhou uma vez muito jovem, e voltou a sonhar de novo mais crescida, ao ser beijada pela segunda vez no pomar…   

Mas quando a realidade se mostra tão distante dos sonhos que sonhámos, muita vez se opta por não dar ao sonho uma nova oportunidade.

Deixa-se, então, de sonhar, mas a memória do sonho, essa ninguém nos tira…

Vagueia-se sozinha pela praia…

Ouve-se o barulho do mar e os gritos das gaivotas, lá ao longe…

Vai-se á noitinha para a varanda sentir a maresia e olhar o mar, mesmo nas noites de maior nevoeiro. Sobretudo, nas noites de maior nevoeiro…

E, sem se saber muito bem como nem porquê, deixa-se o tempo passar…  

E foi tudo isto que aconteceu a Mrs. Muir.

Alma insatisfeita e sonhadora, mais do que se apaixonar por um morto, Mrs. Muir criou para si própria todo um mundo paralelo, compensando, dessa forma, as deceções e as desilusões de toda uma existência carregada de frustração (“Nunca tive uma via própria. Sinto-me inútil. Aqui estou, quase na metade da vida, e o que fiz? Cozinhei carne para alimentar um hipopótamo e conservei o nome Huguins bem limpo…”, desabafa ela com a sogra e a cunhada).  

Mais tarde, quando tenta explicar à sua empregada a atração que sente por Miles Fairley, diz-lhe : “Ele é real!. Acreditei que era insensível às emoções, numa vida respeitável com uma filha pequena. Mas não sou e preciso de todas as coisas que uma mulher precisa. Preciso de companhia e de risadas. Acho que preciso de amor…”

Depois, quando tudo se desmorona, ficam as memórias (“as memórias, eu tenho-as, mesmo que tudo não tenha passado de um sonho”, confessa ela à empregada. E à filha já crescida, que lhe vem anunciar o seu noivado e o desejo de a levar a viver com ela para fugir à reclusão e à solidão em que se encontra, Mrs. Muir dá-lhe a entender que a sua solidão é acompanhada (“Pode estar-se muito mais só ao lado de outras pessoas do que consigo própria, e mesmo ao lado de pessoas que se ama. Amo esta casa e viverei aqui até morrer”) 

Neste filme, que o crítico e historiador francês Jacques Lourcelles considerou “um dos mais belos produzidos em Hollywood” (1), tudo parece estar na mais absoluta das perfeições: a fotografia, a música, os diálogos, os atores, …

Em relação á fotografia de Charles Lang, dezoito vezes nomeado para o Óscar da Melhor Fotografia em toda a sua carreira (uma delas pelo filme de hoje), mas uma só vez vencedor (em 1933, com “O Adeus às Armas”, de Frank Borzage), para além de realçar a fluidez e a beleza de uma camara versátil que sobe e desce escadas e desliza pelas paredes, chamo apenas a vossa atenção para o sublime jogo de luz e sombras na cena da segunda aparição do fantasma, nessa noite de tempestade em que  velas, luzes e lumes sucessivamente se acendem e se apagam, até que reduzidíssimos focos de luminosidade incidam sobre o rosto da protagonista, acentuando o mistério de toda a cena.

No que respeita à música de Bernard Herrmann, um dos mais célebres Diretores Musicais da História do Cinema Americano (era o favorito de Alfred Hitchcock…), apenas também um só exemplo, para não vos maçar muito mais: na cena em casa de Miles Fairley, quando a mulher deste confessa a Mrs. Muir os antecedentes mulherengos do marido, quando a música subitamente irrompe não foi apenas ela quem recebeu uma punhalada no coração naquele momento, mas também nós, espectadores…

A Mankiewicz chamaram “cineasta da palavra”, tal a importância que os diálogos assumem na construção dramática dos seus filmes. Em muitos deles foi ele próprio o responsável pelo argumento, mas mesmo quando tal não sucedeu ele nunca deixou de “meter a sua colherada”. É o caso do filme de hoje, em que consta que uma boa parte do diálogo da cena de despedida do fantasma (que João Bénard da Costa considerou ser “a mais bela sequência de sempre da história de Hollywood” (2)  (“Você tem sonhado, sonhado com um capitão do mar que assombrava esta casa, das conversas que teve com ele. Mas foi um sonho, Lucia. Amanhã e nos dias seguintes recordará isto como um sonho, e ele morrerá, tal como todos os sonhos morrem ao acordarmos…”)), bem como quase todos os diálogos em que intervém George Sanders, terão sido de sua exclusiva responsabilidade, e não de Philip Dunne, que é o argumentista creditado no genérico. 

Finalmente, os atores: Gene Tierney, uma das mais belas e enigmáticas atrizes do Cinema Americano, aqui no auge da sua carreira; o inglês Rex Harrison, excelente no papel do fantasma truculento e irrascível, apenas no segundo dos filmes que fez na América; a muito jovem Nathalie Wood, que alguns de vós se lembrarão de ter visto numa destas sessões em “O Esplendor da Relva”, aqui com apenas 7 anos, mas já no seu terceiro filme; o magnífico George Sanders, deliciosamente cínico e manipulador como só ele soube ser; e ainda uma panóplia de excelentes secundários, dos quais apenas destoa, em minha opinião, Vanessa Brown, que desempenha o papel de Anna adulta.   


Há tantas, tantas imagens deste filme que ficam dentro de nós para sempre: Mrs. vestida de luto, com o chapeuzinho na cabeça;  as janelas que se abrem e se fecham; a praia, o mar e as gaivotas a esvoaçar; as portentosas cenas do mar a bater nas rochas  (de novo a força da música de Bernard Herrmann…), com o “leitmotiv” da estaca de madeira para acentuar a passagem do tempo, enquanto Mrs. Muir vagueia pela praia como se saída de uma tela de Noronha da Costa. E, é claro, a inesquecível cena final 

Aqui chegados, tenho de vos confessar que este é um daqueles filmes em relação aos quais quanto mais falamos mais sentimos que o essencial ficou por dizer, como se toda a sua beleza, perfeição e a emoção que nos suscita  fossem do domínio do indizível…

E se me faltam as palavras, então nada melhor que concluir dando a palavra a quem destas coisas do Cinema sabe e sente bem mais do que eu:

“Não há filme mais triste. Não há filme mais bonito. Deixem-me ficar ao pé da mulher que nasceu tarde demais para atravessar os sete mares e para ver o sol da meia-noite. Deixem-me ficar ao pé do capitão que morreu cedo demais para a poder beijar ou para poder deitar-se com ela. Ou deixem-me acreditar que não há cedo nem tarde e que o único amor que existe - porque é o único em que acreditamos que existe – é o “amor surreal”, esse que Rex Harrison e Gene Tierney encontram no final, quando desaparecem na névoa, atravessada a última porta”. (2)

PS:

Já não tive espaço para vos falar da importância do retrato em muitos filmes americanos  dos anos 40/50, enquanto detonador do sonho e do desejo, como é o caso evidente do filme de hoje. Talvez que na apresentação em sala haja oportunidade de falarmos nisso.  

  1. LOURCELLES, Jacques, “Dictionnaire du Cunema – Les Films”, Edição Robert Laffont, 1992, pág. 101
  2. DA COSTA, João Bénard, “Escritos Sobre Cinema – Tomo 1, 4º Volume”, Edições Cinemateca Portuguesa, 2021, pág. 365. A afirmação vale o que vale, porque sabemos que Bénard da Costa disse, com igual convicção, exatamente a mesma coisa de muitas outras cenas de muitos outros filmes…
  3. Idem, pág. 366   

 LUÍS MIGUEL MIRA