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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

DE PROFUNDIS AMAMUS


Ontem
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria

 

Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros

 

Olha
como só tu sabes olhar
a rua os    costumes

O público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso

 

Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso


Mário Cesariny de Vasconcelos


quarta-feira, 22 de maio de 2024

EM TODAS AS RUAS TE ENCONTRO

Em todas as ruas te encontro

em todas as ruas te perco

conheço tão bem o teu corpo

sonhei tanto a tua figura

que é de olhos fechados que eu ando -

a delimitar a tua altura

e bebo a água e sorvo o ar

que te atravessou a cintura

tanto tão perto tão real

que o meu corpo se transfigura

e toca o seu próprio elemento

num corpo que já não é seu

num rio que desapareceu

onde um braço teu me procura

 

Em todas as ruas te encontro

em todas as ruas te perco

 

Mário Cesariny de Vasconcelos 

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

LORD BEVAN EM LISBOA

Ora deixai-me dizer

que vejo tudo ao contrário

do que era lícito ver

 

Ontem encontrei um operário

todo de pernas para o ar

no bolso de um usurário

 

«Que linda vista para o mar!»

dizia – e dizendo isto

tinha uns olhos a chorar

 

que eram tal qual os do Cristo

nos bonecos de se orar.

De repente o usurário

 

vai para o bolso do operário

«Que linda vista para o campo!»

dizia – e dizendo isto

 

escondia num lenço branco

um dinheirinho

que era a túnica do Cristo

à moda do Minho.

 

Vai daí veio a polícia

o exército a milícia

com trinta carros de assalto

 

e um capitão muito alto.

Zás! Zim! Bum! já nada vejo

e até creio que morri.

 

«Que linda vista para o Tejo!»

 

 – Mas o que é que se passa aqui?

 

Mário Cesariny em Burlescas, Teóricas eSentimentais

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

PRÓLOGO

O jogral do céu

riscou uma estrela no manto judeu

 

E o milagre veio

sem perdão nenhum sem forma sem meio

 

Sobre a palha

caiu o menino de Nossa Senhora

 

Menino perfeito

com fomes e prantos, com raivas e peito.

 

Mário Cesariny de Vasconcelos em Natal… Natais.

sexta-feira, 28 de abril de 2023

HOJE, DIA DE TODOS OS DEMÓNIOS

hoje, dia de todos os demónios
irei ao cemitério onde repousa Sá-Carneiro
a gente às vezes esquece a dor dos outros
o trabalho dos outros o coval
dos outros


ora este foi dos tais a quem não deram passaporte
de forma que embarcou clandestino
não tinha política tinha física
mas nem assim o passaram
e quando a coisa estava a ir a mais
tzzt… uma poção de estricnina
deu-lhe a moleza foi dormir


preferiu umas dores no lado esquerdo da alma
uns disparates com as pernas na hora apaziguadora
herói à sua maneira recusou-se
a beber o pátrio mijo
deu a mão ao Antero, foi-se, e pronto,
desembarcou como tinha embarcado


Sem Jeito para o Negócio

Mário Cesariny de Vasconcelos

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

POEMA

Uma pomba atravessa Piccadilly Circus
em direcção ao rio

em baixo
grandes extensões desérticas de pernas
ressoam como forças paralelas
nos tubos do grande órgão

o homem
é o mar
e o mar “é em cima como nas gravuras”

no dilúvio da luz
um braço pica-se numa seringa
que hoje faz vinte anos de amor bárbaro
todos os lábios falam português por baixo das palavras selvagens que dizem
e mesmo os pensamentos de olhos muito azuis
ideando quem sou no subterrâneo alado
este onde o homem redescobriu o sol e o cobre de cabelos de liberdade
e o submerge no ouro das palavras
e o devasta de corpos e de auroras
Piccadilly Circus
Lugar geométrico da terra
disco rodando o espantosíssimo número
do casamento
do metal com a carne

Vicente Huidobro sobre a torre Eiffel em 1917
é aqui que estás hoje
com sacos de pop-corn
e gestos de quatro a quatro
na noite de cabelos mais alta que todas as luas

Sobre os dois seios de Trafalgar Square
a água sobe branca
aos olhos de Lord Nelson

eu entro sigo saio torno desapareço
caminho muito acima dos meus ombros
sou quem vejo num espelho que vai de autocarro
para um hoje de cidades sem fissura
sou o bombeiro que volta do incêndio
com nos dedos o riso do fogo extinto
a salamandra assistindo ao futuro
e ajeitando ainda
ainda um pouco
o colo

Mário Cesariny

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

CONVERSANDO


 No Corpo Visível do Mário Cesariny, eslão lá estes versos: o moço que há uma hora não fazia senão fumar cigarros, o mesmo que julgou ter a noite perdida, que maçada, sempre encontrou o seu par, lá vão eles já no extremo do outro lado da praça

e também há aquele outro poema

Em todas as ruas te encontro

em todas as ruas te perco

conheço tão bem o teu corpo

sonhei tanto a tua figura

que é de olhos fechados que eu ando

a limitar a tua altura

e bebo a água e sorvo o ar

que te atravessou a cintura

tanto, tão perto, tão real

que o meu corpo se transfigura

e toca o seu próprio elemento

num corpo que já não é seu

num rio que desapareceu

onde um braço teu me procura

O Manuel António Pina, na morte do poeta (26 de Novembro do ano de 2006), disse que o Cesariny tinha vivido como quem aproveita uma oportunidade única e sabíamos do seu fascínio por marinheiros e várias vezes foi preso pela polícia de costumes o que, segundo Luiz Pacheco deitaram-no muito abaixo, ele tinha de ir todos os meses ao Torel, à apresentação, uma imposição muito chata, se faltava prendiam-no.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

YOU ARE WELCOME TO ELSINORE

Entre nós e as palavras há metal fundente

entre nós e as palavras há hélices que andam

e podem dar-nos a morte      violar-nos     tirar

do mais fundo de nós o mais útil segredo

entre nós e as palavras há perfis ardentes

espaços cheios de gente de costas

altas flores venenosas      portas por abrir

e escadas e ponteiros e crianças sentadas

à espera do seu tempo e do seu precipício


Ao longo da muralha que habitamos

há palavras de vida há palavras de morte

há palavras imensas, que esperam por nós

e outras, frágeis, que deixaram de esperar

há palavras acesas como barcos

e há palavras homens, palavras que guardam

o seu segredo e a sua posição

 

Entre nós e as palavras, surdamente,

as mãos e as paredes de Elsinor

E há palavras nocturnas palavras gemidos

palavras que nos sobem ilegíveis à boca

palavras diamantes palavras nunca escritas

palavras impossíveis de escrever

por não termos connosco cordas de violinos

nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar

e os braços dos amantes escrevem muito alto

muito além do azul onde oxidados morrem

palavras maternais só sombra só soluço

só espasmos só amor só solidão desfeita

 

Entre nós e as palavras, os emparedados

e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

 

Mário Cesariny de Vasconcelos

domingo, 28 de julho de 2019

OLHAR AS CAPAS


Autografia e Outros Poemas de Pena Capital

Mário Cesariny
Assírio & Alvim, Lisboa, Março de 2007

Autografia I

sou um homem
um poeta
uma máquina de passar vidro colorido
um copo uma pedra
uma pedra configurada
um avião que sobe levando-te nos seus braços
que atravessam agora o último glaciar da terra

o meu nome está farto de ser escrito na lista dos tiranos: condenado
à morte!
os dias e as noites deste século têm gritado tanto no meu peito que
existe nele uma árvore miraculada
tenho um pé que já deu a volta ao mundo
e a família na rua
um é loiro
outro moreno
e nunca se encontrarão
conheço a tua voz como os meus dedos
( antes de conhecer-te já eu te ia beijar a tua casa )
tenho um sol sobre a pleura
e toda a água do mar à minha espera
quando amo imito o movimento das marés
e os assassínios mais vulgares do ano
sou, por fora de mim, a minha gabardina
e eu o pico Everest
posso ser visto à noite na companhia de gente altamente suspeita
e nunca de dia a teus pés florindo a tua boca
porque tu és o dia porque tu és
a terra onde eu há milhares de anos vivo a parábola
do rei morto, do vento e da primavera
Quanto ao de toda a gente - tenho visto qualquer coisa
Viagens a Paris - já se arranjaram algumas.
Enlaces e divórcios de ocasião - não foram poucos.
Conversas com meteoros internacionais - também, já por cá
passaram.
Eu sou, no sentido mais enérgico da palavra
uma carruagem de propulsão por hálito
os amigos que tive as mulheres que assombrei as ruas por onde
passei uma só vez
tudo isso vive em mim para uma história
de sentido ainda oculto
magnifica irreal
como uma povoação abandonada aos lobos
lapidar e seca
como uma linha-férrea ultrajada pelo tempo
é por isso que eu trago um certo peso extinto
nas costas
a servir de combustível
e é por isso que eu acho que as paisagens ainda hão-de vir a ser
escrupulosamente electrocutadas vivas
para não termos de atirá-las semi-mortas à linha

E para dizer-te tudo
dir-te-ei que aos meus vinte e cinco anos de existência solar estou
em franca ascensão para ti O Magnifico
na cama no espaço duma pedra em Lisboa-Os-Sustos
e que o homem-expedição de que não há notícias nos jornais
nem
lágrimas à porta das famílias
sou eu meu bem sou eu
partido de manhã encontrado perdido entre
lagos de incêndio e o teu retrato grande!

terça-feira, 4 de junho de 2019

OLHAR AS CAPAS


Cadernos do Meio-Dia
Nº 3

Coordenação de António Ramos Rosa, Casimiro de Brito, Fernando Moreira
 Ferreira, Hernâni de Lencastre
Edição dos Coordenadores, Faro, Outubro de 1958

Canção de Vistoriar

Vou aqui por este lado
a vistoriar o historiado.

Vou por aqui e vou bem.
Já o dizia a tua mãe.

Pobre morta, é verdade.
Mas é assim a eternidade.

Vou depressa antes que anoiteça
e o campo, de facto, desapareça.

E canto esta canção irregular
que é como canta quem anda a vistoriar.

Mário Cesariny de Vasconcelos

sexta-feira, 15 de junho de 2018

AEROPORTO


A mala que segue viagem
Assim como o avião
Têm a grande vantagem
De não terrem coração.

Só formas amplas – metais
De uma brancura de praia!
Dentro, vão sonhos a mais.
É bom que a mala não caia.

Mala do sonho, vais bem
Assim deitada de lado?
Chega-te a roupa que tens
Ou chamamos o criado?

Ou chamamos o fantasma
Da queda livre no espaço,
Verga do pássaro de aço
Onde a poesia se espasma

segunda-feira, 26 de março de 2018

OLHAR AS CAPAS


Burlescas, Teóricas e Sentiemtais

Mário Cesariny
Colecção Forma nº 7
Editorial Presença, Lisboa, Julho de 1972

Rua do Ouro

Ai dele que tanto lutou e afinal
Está tão só. Tão sòzinho. Chora.
DIRECÇÃO DA COMPANHIA TANTOS DO TAL.
Cinquenta e três anos. Chove, lá fora.

Chora, porquê? Ora, chora.
Uma crise de nervos, coisa passageira.
É, talvez, pela mulher que o adora?
(A ele ou à carteira?)

Seis horas. Foi-se o pessoal.
O homem que venceu está sòzinho.
Mas reage: que diabo…Afinal...
E olha para o cofre cheínho.

Sim estou só ainda bem porque não? ele diz
Batendo com os punhos na mesa.
Lutei e venci. Sou feliz
E bate com os punhos na mesa.

Seis e meia. Ó neurastenia
O homem que venceu está de borco
E sente uma grande agonia
Que afinal é da carne de porco
que comeu no outro dia.

É da carne de porco ele diz
Vendo a chuva que cai num saguão.
É da carne de porco. Sou feliz.
E ampara a cabeça com as mãos.

Durante toda a vida explorou o semelhante.
Por causa dele arruinaram-se uns cem.
Agora, tem medo. E o farsante
Diz que é feliz diz que está muito bem.

Sim, reage. Que diabo. Terei medo?
E vê as horas no relógio vizinho.
Mas, ai, não é tarde nem cedo.
Ele, que venceu, está sòzinho.

Venceu quem? Venceu o quê? Venceu os outros
Os outros, os que o queriam vencer!
Arruinou-os, matou-os aos poucos.
Então não o queriam lá ver?

Sim, reage: Esta noite a Leonor
Amanhã de manhã o Salemos
e depois? Ah o novo motor
veremos, veremos, veremos

Mas pouco do que diz tem sentido.
Tudo hoje lhe é vago uniforme miudinho.
O homem que venceu está vencido.
O dinheiro tapou-lhe o caminho.

Os filhos? Esperam que ele morra.
A mulher? espera que ele morra.
O sócio? Pede a Deus que ele morra!
Só a Anita não quer que ele morra!

Ai, maldita carne, murmura
Vendo a água que há no saguão.
Tinha demasiada gordura!
E chora de desilusão.

Passa os olhos pelo lenço. Acabou-se.
Vai sair. Talvez vá jantar?
É inverno. Lá fora, faz frio.

O homem que venceu matou-se
Na margem mais escura do rio
Ao volante dum belo Packard

sexta-feira, 28 de julho de 2017

AUTORIDADE E LIBERDADE SÃO UMA E A MESMA COISA



Autoridade é do que é autor.
Só a autoridade confere autoridade.
A autoridade não é uma quantidade.
Todo o homem é teatro de uma inexpugnável autoridade.
Aquele que jula ser possível autorizar ou desautorizar
a autoridade de outrem não sabe no que se mete

                                       *

Liberdade.
A liberdade conhece-se pelo seu fulgor.
Quatro homens livres não são mais liberdade do que
um só. Mas são mais revérbero no mesmo fulgor.
Trocar a liberdade em liberdades é a moeda corrente
do libertino.

Pode prender-se um homem e pô-lo a pão e água. Pode tirar-se-lhe o pão e não se lhe dar água. Pode-se pô-lo a morrer, pendurado, no ar, ou à dentada com cães. Mas é impossível tirar-lhe seja que parte for da liberdade que ele é.
Ser-se livre é possuir-se a capacidade de lutar contra o que nos oprime. Quanto mais perseguido, mais perigosos. Quanto mais livre mais capaz.
Do cadáver dum homem que morre livre pode sair acentuado mau cheiro – nunca sairá um escravo.


                                AUTORIDADE E LIBERDADE
                                SÃO UMA E A MESMA COISA           

Lisboa, Maio-58

                                                Mário Cesariny de Vasconcelos

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

PASTELARIA



Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Mário Cesariny de Vasconcelos 

Legenda: Fotografia de Willy Ronis