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quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

SARAMAGUEANDO


O Partido, a que José Saramago pertenceu até à sua morte, não apreciou
a independência política que o escritor desenvolveu durante o PREC, mais concretamente enquanto foi sub-director do Diário de Notícias.

Álvaro Cunhal só depois de ter lido Levantado do Chão reconheceu o escritor que Saramago era e tenha, a partir daí tenha modificado o relacionamento pessoal e, politicamente, ter permitido a sua independência.

Já antes, em vida de Álvaro Cunhal, Saramago terá discordado dele algumas vezes, interpretando a História de forma diferente. Escreveu Saramago numa crónica:

«A esta distância, porém, já tudo parece esfumar-se, até as razões com que, sem resultados que se vissem, nos pretendíamos convencer um ao outro. O mundo seguiu o seu caminho e deixou-nos para trás.»

Muitas vezes, em textos, em diversas entrevistas, José Saramago abordou o facto de ser comunista:

 «Às vezes refleti sobre o facto de ainda ser comunista. Claro que sou e não consigo imaginar-me sendo algo diferente. Mas percebi que precisava acrescentar algo a esse ditado sou comunista e acrescento que sou um comunista libertário. Como escritor, acredito que nunca me separei da minha consciência como cidadão. Eu acredito que onde um vai, o outro deve ir. Não me lembro de ter escrito uma única palavra que contradissesse as convicções políticas que defendo, mas isso não significa que eu já tenha colocado a literatura ao serviço directo da ideologia que é minha. Significa, sim, que quando escrevo, em cada palavra, procuro expressar a totalidade do homem que sou. Repito: não separo a condição de escritor da de cidadão, mas não confundo a condição de escritor com a do militante político.
Se alguma vez me tivesse sentido mal no partido, tinha saído, e se um dia me sentir mal, saio. As minhas discordâncias, que são sérias, e em alguns casos sobre pontos essenciais, não foram suficientes para abandonar o partido. Creio que por causa da minha própria convicção, e sem esforço. É o único parido onde a minha convicção está à vontade e tem suficiente resposta.»

Mais uma achega:

«Eu tenho o partido que tenho, e não tenho outro. Se estou dentro, tenho de enfrentar todas as consequências. Na minha relação com o PCP não entro em conta com a minha “base social de apoio” (a expressão é do Eduardo Prado Coelho) enquanto escritor, ou cidadão. Se tiver de acontecer que o facto de o PCP não ter feito a sua “perestroika” afecte a minha vida pública como escritor, não é por isso que deixo o meu partido. Não, não deixo o partido.»

Ainda uma outra achega:

«O partido como um sol, como um deus, não significa que, uma vez por outra, quando se está ao sol, não se procure a sombra, e que mesmo aqueles que crêem em Deus não tenham as suas dúvidas. Não estou em crise de fé, nem me refugiei na sombra,  O que acontece é que a minha relação com o partido é muito mais saudável do que isso. Eu não considero que o meu partido – e isso põe-se em relação ao PCP como se poderia por em relação a qualquer outro -, eu não considero que o meu partido seja competente em matéria literária e, em geral, artística. Por muito respeito que eu tenha, e tenho, com os meus camaradas com as responsabilidades directas e imediatas do meu partido, não os considero realmente tão competentes ao ponto de me poderem dizer como se faz, e se o que fiz está a bem feito ou mal feito. Prefiro que gostem daquilo que faço, mas se porventura acontecer não gostarem, paciência…»

Baptista-Bastos escreveu: «Saramago foi um comunista desobediente; nunca dissidente porque não tolerava as derivas morais, periodicamente em moda. Esteve sempre onde a consciência o determinava».

Um aspecto interessante do livro de Joaquim Vieira sobre José Saramago, reside no passo em que, a págs. 510, é aflorado o apoio que José Saramago deu a Jorge Sampaio quando este se candidatou à Presidência da República.

Sérgio Ribeiro:

«Quando o Saramago apoia o Sampaio para a Presidência da República, diz-mo a mim num almoço. Saiu do restaurante a dizer-mo “vou apoiar o Jorge Sampaio.» E eu: “Ó Zé, há um candidato do partido, tu conhece é um militante conhecido.”Ele não estava de acordo. Eu posso não estar de acordo, mas a partir do omento em que há uma decisão tomada por nós, esse constrangimento aceito-o.»

É José Luís Judas, ex-militante do PCP, que revela até que ponto Saramago estava consciente do que dizia e o quanto o Partido percebeu e consentiu nesse procedimento de Saramago:

«Ele não o fez contra o PCP, mas de forma convicta em conformidade com o PCP. De certeza que falou antes com alguém do PCP. Aquilo foi feito em cumplicidade, não tenho dúvidas. Era um sinal de que o partido estava de acordo. Eu sei como funcionava o PCP (quem sugeriu o apoio do Partido Comunista a Sampaio para a Câmara Municipal de Lisboa fui eu). Sampaio também não estava interessado em que o PCP o apoiasse publicamente. Devem ter dito ao Saramago (o Cunhal fazia essas coisas muito bem): “Dá sinal ao homem de que a gente está com ele”.»

Remate conclusivo de Joaquim Vieira:

«E o facto é que a desistência de Jerónimo de Sousa, à beira das urnas, a favor de Sampaio mostraria que Saramago tivera razão antecipada, pelo que o PCP também nunca mais tocaria no assunto.»

quinta-feira, 18 de julho de 2019

SARAMAGUEANDO


Falando numa linguagem simples se dirá que José Saramago não brincava em serviço.
Quis ser escritor e consegui-o. A pulso e num longo percorrer por um caminho de pedras.
Página 544 de Rota de Vida:

«Zeferino Coelho: «Ele não frequentava café ou tertúlias, Estava em casa.»
«Ele não era homem de andar nas noitadas», garantirá Esmeralda Cardoso e Silva. A secretária de Zeferino Coelho entenderá mesmo que, num meio – o literário – em que os encontros de grupo eram tão naturais como o pão de cada dia, Saramago, talvez porque «nos anos 60 e assim não era muito bem aceite pela intelectualidade, não era um dos pares:: «O Mário Ventura comentava: 2Ele era um vaidosos, a gente ia para os copos, e ele nunca ia.» O Cardoso Pires e outros andavam nos copos até de manhã. Mas isso não era com o Saramago, embora ele gostasse de gin e de muito bom vinho branco.» E também é um facto que algumas dessas amizades eram mais aparentes do que reais, caso do próprio Cardoso Pires – algo que não escapava ao ouvido de Esmeralda: «O Luiz Pacheco até dizia: 2Por cada prémio que o Saramago ganha , o Cardoso Pires deita abaixo uma garrafa de uísque.» O que não era difícil. Aquilo eram uns ódios…» O que Correia Jesuíno confirmará: «Eu érea muito amigo do José Cardoso Pires, que não gostava nada do Saramago. Começava por dizer que não tinha lido os livros dele.
O editor da Caminho achará que, sobretudo, Saramago fugia à ideia de estar a desperdiçar o tempo.»

Legenda; José Saramago, Piteira Santos, Maria Rosa Colaço, Fernando Lopes Graça, Manuel da Fonseca, José Cardoso Pires e Urbano Tavares Rodrigues desfilando na Avenida da Liberdade.

sábado, 13 de julho de 2019

SARAMAGUEANDO


Pode ser da minha vista, mas tenho a opinião de que Objecto Quase é um livro bem interessante. Difícil, é certo, mas interessante.

José Saramago numa entrevista publicada no semanário Extra de 1 de Junho de 1978:

«Com o Objecto Quase quis fazer um livro contra a alienação e creio tê-lo conseguido. Não é um livro fácil. Fácil seria não passar do primeiro grau da denúncia e apostar na preguiça do leitor. Não o fiz e nunca farei. O leitor também escreve o livro quando lhe penetra o sentido, o interroga. Ler um livro não é ver televisão. O leitor não pode ser esponja inerte que absorve sem esforço nem escolha tanto a água pura como as piores poluições. «Objecto Quase» é um livro com o qual e contra qual o leitor tem de lutar.»

É isto que torna José Saramago um escritor que apetece ler, mesmo que com dificuldade as páginas se ultrapassem, chega-se a um final feliz pelo desafio que o escritor nos lança.

Maria Alzira Seixo: «Trata-se de um conjunto de contos onde fantástico e certas componentes da ficção científica se misturam, criando uma atmosfera conjunta de maravilhoso que muitas vezes se constrói a partir de uma fissura insólita, ou desmesurada, do mais banal quotidiano ou do acontecimento mais efectivamente demonstrável.»

O livro guarda o conto «Cadeira» que é uma variação literária e política sobre esse momento histórico em que Salazar se lança para uma cadeira de lona, espalha-se e bate com a cabeça no empedrado da esplanada do Forte de Santo no Estoril.

«Já aí vêm buscar o velho. Aquele raspar de unhas, aquele choro, é das hienas, não há ninguém que não saiba. Vamos até à janela. Que me diz a este mês de Setembro? Há muito tempo que não tínhamos um tempo assim.»

Peguemos agora nas linhas que Joaquim Vieira em Rota de Vida dedica a Objecto Quase. 

Palavras que provém de conversas com o editor Nelson de Matos e um tal Carlos que se diz amigo de Saramago.

As palavras do editor reflectem a circunstância de ter privado política e literáriamente com José Saramago e permitido que o futuro Nobel da Literatura batesse à porta de um concorrente e este tenha apostado no então escritor desconhecido. São palavras que nascem de uma infindável dor de cotovelo. Quanto ao tal «amigo»… fácil  se torna concluir que a amizade não passeia por ali.

«A memória que Nelson de Matos conserva da sua segunda experiência editorial com a obra de Saramago é que «as críticas ao Objeco Quase foram todas más – e o livro era mauzote»: «Ainda foi pior que o primeiro, um insucesso total, Foi pior a sensação que tive com o Objecto Quase, que me pôs completamente os cabelos em pé, porque esse eu achei um péssimo livro, mas também o publiquei.»
Não era mais encomiástica a apreciação de Carlos Duarte a Objecto Quase: «Nós mantínhamos uma boa relação de amizade, nessa altura em que ele passou as passas do Algarve. Lembro-me de que Saramago publicou um livrinho de contos, que me ofereceu, e eu cheguei a casa e disse à minha mulher: “Coitado do Zé, ele não tem futuro como escritor”.»

segunda-feira, 24 de junho de 2019

SARAMAGUEANDO


Na obra de José Saramago, Manual de Pintura e Caligrafia é um dos meus livros preferidos.

Gostei logo à primeira leitura.

Joaquim Vicente no seu Rota de Vida, aborda com algum pormenor o livro.

Conta que Nelson de Matos terá dito que o Manual tinha vendido três exemplares, um dos quais comprado por Mário Soares, que quando o adquiriu  na Livraria Moraes, terá dito: «Manual de Pintura e Caligrafia? Mas o que é que o Saramago sabe disto?»

Mais uma história mal contada. Eu comprei o livro. E ao tempo, sei de mais pessoas que compraram.

Passemos à frente.

«É inegável a característica autobiográfica de todo o livro. Foi o que logo sentiu Nelson de Matos: «Era normal que a personagem do livro correspondesse ao escritor que estava a começar. No qual ele não confiava ainda.» «É talvez o meu livro mais autobiográfico», reconhecerá o próprio Saramago.
(…)
Nelson de Matos terá ficado longe de se sentir eufórico com o texto, mas, não obstante, optou por arriscar: «Lembro-me de que não gostei do livro, não me entusiasmou. Comentei pouco o livro com ele, mas publiquei. O Saramago estava próximo, e o livro não era tão mau assim. Foi um desastre editorial, comercialmente, não se vendeu. A escrita dele sempre foi muito rebuscada, muito barroca.».

A obra passou despercebida do público, para grande frustração do autor, pelo que testemunhou Mário de Carvalho: «O Manual de Pintura e Caligrafia foi uma desilusão para ele, Foi um livro em que o Saramago apostou muito, Recordo-me da mágoa com que ele viu que o livro não estava a ser bem acolhido.»

Contudo, o regresso de José Saramago á ficção, três décadas após Terra do Pecado, teve os seus defensores. Na Seara Nova, Ana Hatherly, num artigo sobre o Manual de Pintura e Caligrafia, constituindo acima de tudo uma reflexão acerca das possibilidades do romance contemporâneo, com citações de Louis Althusser, Paul Valéry, Claude Levi-Strauss, Émile Benveniste, William Blake, Maurice Blanchor, Kafka, Julia Kristeva, Walter Benjamim e Jacinto do Prado Coelho, deixava entrever a importância atribuída ao livro, não propriamente por uma opinião crítica, mas pelo espaço que lhe dedicava – três densas páginas. E no balanço literário nacional do ano seguinte, que faria para a Colóquio/Letras, Eduardo Prado Coelho coloca o volume de Saramago no seio de um «desfiar imenso de obras interessantes a vários títulos», referindo-se a Manual de Pintura e Caligrafia como a «a estreia (aparente) dum ficcionista» (se bem que as obras que destacasse para esse período, «dois livros excecionais», fossem Casas Pardas, de Maria Velho da Costa, e Directa, de Nuno Bragança). Em contrapartida, na mesma revista, Maria Alzira Seixo exporá mais tarde reservas por observar na obra «uma serenidade de relato que não cumpre a tensão temática proposta» e «uma efabulação que não acompanha os meandros intricados da simbólica utilizada».

Já José Manuel Mendes inserirá o livro do amigo na coerência de um percurso literário: «Se lermos com atenção os dois livros que ele escreveu antes, Terra do Pecado e Claraboia (sobretudo Claraboia), entendemos que está ali integralmente um homem capaz de fazer uma obra de grande envergadura. Depois, a tarimba do jornal e particularmente da crónica, mais do que os artigos de opinião, servem-lhe para experimentação de mecanismos de escrita e de procedimentos textuais de vária ordem. E quando um dia parte para a escrita do Manual de Pintura e Caligrafia, livro que valorizo bastante, ele está maduro para fazer esse tipo de experiência e levá-la a bom porto, a um bom resultado. O romance é um bom romance.»

Também Carlos Reis acha que aqui se anuncia mais do que à primeira leitura parece: «No Manual de Pintura e Caligrafia, que é um romance subvalorizado – passou despercebido -, está muito do projecto de Saramago, de transformar o artista de pintor em escritor e de fazer com que o escritor olhe para a realidade histórica. No fundo é uma reflexão muito metaficcional, metaliterária - o pensar a escrita, pensar a História, pensar a ficção. Isso está tudo inscrito ali.» Baptista-Bastos lamentará até que o autor não tenha aprofundado essa via: «Acho que o Manuel de Pintura e Caligrafia é um grande livro, que devia ser um caminho que ele devia ter encetado. É a minha opinião. Porque é uma coisa gira sob o ponto de vista das interrogações que um artista tem para fazer as coisas. É um bocado parecido com Os Sonâmbulos, do Herman Broch, é um bocado umas perplexidades do autor.»

Saramaguiano que já era, encantou-me de imediato, e sempre entendi Manual de Pintura e Caligrafia como um livro para ser vigilantemente pensado.

Lido de um só fôlego, a ele voltei para lentamente o apreciar, tal como se faz com uma velha aguardente.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

SARAMAGUEANDO


Até chegar onde chegou, a vida de José Saramago não foi nada fácil.
Joaquim Vieira, no seu Rota de Vida, assinala que para sobreviver, José Saramago fazia traduções, uma vida espartana:

«Baptista-Bastos: «O Saramago era um indivíduo que se afastava muito. Também. Não ia a bares, era muito parcimonioso e reservado. E depois tinha de trabalhar para comer. E trabalhar é traduzir. E traduzir é muito mau. Porque se ganha muito pouco e trabalha-se… Eu sei o que é isso.»
Das muitas páginas que traduziu, assegurará Saramago: «Foram elas que me serviram de almoço e jantar. Quem quiser viver do que escreve tem de ter uma disciplina de ferro. O trabalho de tradutor é desgastante, frustrante. A capacidade de o realizar, a par de uma obra própria, depende da disciplina e da saúde. A tradução, como forma de sobrevivência do escritor profissional, é uma espécie de trabalho a táxi.»
Além do mais, o estado de necessidade implicava considerar peixe tudo o que viesse à rede: «O mesmo editor que me tinha dado um grande livro podia estar a dar-me algo simplesmente de rotina. Como comer era necessário que se tornasse também numa rotina, então eu fechava os olhos e fazia o trabalho. Li livros políticos, livros que tinham a ver com os países do Leste, muito chatos, sensaborões e com muitos lugares-comuns ideológicos. Mas o editor queria e eu precisava.»

Legenda: capa da versão portuguesa de Ana Karenina, de Leão Tolstoi, traduzida do francês por José Saramago em 1969. Imagem tirada de A Consistência dos Sonhos.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

SARAMAGUEANDO


«Eu nunca tive uma formação jornalística, nem uma vocação jornalística, digamos; foi alguma coisa que tive de fazer contra vontade. E aí a regra mandava que se tinha de escrever à máquina. Devo algumas coisas ao jornalismo. Com certeza, do ponto de vista tecnológico devo isso. Como estava obrigado a escrever, enfim, com a velha caneta de tinta permanente, e tampouco com a esferográfica, porque me dá a ideia de que escreve mais depressa – ou que tudo escreve mais devagar do que aquilo que eu necessito. A minha máquina era uma máquina velhíssima, que tinha pelo menos 30 anos, uma Hermes Media, toda ela metálica.»

Parágrafo sublinhado da página 204 de Rota da Vida, José Saramago conversando  com jornalistas da Folha de S. Paulo, Maio de 1989.
Porque tive uma caneta de tinta permanente Parker.
Desapareceu.
Perdida? Roubada?
A pena que eu tenho daquela caneta…
Não mais tive outra igual.
Não mais terei.
Porque tive uma máquina de escrever, uma Erika, também toda ela metálica.
Escrevi pouco com ela.
Os tempos eram muito difíceis, e uma vez, o meu pai não tinha dinheiro para a renda de casa, e a máquina foi parar à Casa de Penhores.
Só passados muitos anos, juros pagos mensalmente, a recuperei.
Um destes dias, fotografo e coloco-a aqui.
The Story of My Life, como canta o Neil Diamond.

Legenda: máquina de escrever de Carlos de Oliveira, também uma Hermes, exposição mo Museu do Neo-Realismo, Outubro 2017

terça-feira, 28 de maio de 2019

SARAMAGUEANDO


Joaquim Vieira no seu Rota de Vida aborda a obra poética de José Saramago. Refere que o seu segundo livro de poesia, Provavelmente Alegria, não teve a mesma aceitação positiva que Os Poemas Possíveis.

Cita um artigo que António Ramos Rosa fez publicar na Colóquio nº 59 de Junho de 1970:

«Os limites bem visíveis da poética de José Saramago, em cujo léxico abundam termos como rosas, nardos, cristais, grinaldas, corais, estrelas, orvalho, não serão decerto os que se podem antever obrigatoriamente para uma linguagem de matizes e formas francamente clássicos, porquanto nos cabe, antes de qualquer reparo, declarar que muitos dos seus poemas, sobretudo em Poemas Possíveis, um belo livro de um poeta amadurecido, são de uma qualidade inegável que transcende e torna falsa qualquer discussão sobre a sua actualidade. Mas se esta justiça lhe prestamos, não podemos, por outro lado em daqueles mesmos valores que pressupõem «ritmo, segurança e consciência», como a sua «Arte Poética» requer, deixar de notar que existem neste seu livro fraquezas que o tornam inferior à sua primeira obra (…) De um modo geral, os poemas não atingem a densidade indispensável, dando a nítida sensação de facilidade de uma precipitação elocutória em que se chega ao verso final sem se ter captado algo de essencial, tudo se perdendo em palavras.»

quarta-feira, 15 de maio de 2019

SARAMAGUEANDO


Continuando o caminhar pelo livro de Joaquim Vieira José Saramago, Rota de Vida, Vieira escreve sobre as crónicas que José Saramago começa a escrever para A Capital:

«A censura era, por outro lado, o pesadelo do costume. Algumas das crónicas foram parcialmente cortadas, como a que publica a 17 de Maio de 1968 sob o título «As palavras» (acerca do poder e do significado da linguagem), expurgada por um censor demasiado zelosos de uma parte substancial do último parágrafo – toda aquela em que pretendia introduzir o conceito de um antónimo: «Há também o silêncio. O silêncio, por definição, é o que não se ouve. O silêncio escuta, examina, observa, pesa e analisa. O Silêncio é fecundo. O silêncio é a terra negra e fértil, o húmus do ser, a melodia calada sob a luz solar.»

As crónicas que José Saramago publicou em A Capital, estão reunidas em Deste Mundo edo Outro.

Transcrevemos a crónica:

« As palavras são boas. As palavras são más. As palavras ofendem. As palavras pedem desculpa. As palavras queimam. As palavras acariciam. As palavras são dadas, trocadas, oferecidas, vendidas e inventadas. As palavras estão ausentes. Algumas palavras sugam-nos, não nos largam: são como carraças: vêm nos livros, nos jornais, nos slogans publicitários, nas legendas dos filmes, nas cartas e nos cartazes. As palavras aconselham, sugerem, insinuam, ordenam, impõem, segregam, eliminam. São melífluas ou azedas. O mundo gira sobre palavras lubrificadas com óleo de paciência. Os cérebros estão cheios de palavras que vivem em boa paz com as suas contrárias e inimigas. Por isso as pessoas fazem o contrário do que pensam, julgando pensar o que fazem. Há muitas palavras.
E há os discursos, que são palavras encostadas umas às outras, em equilíbrio instável graças a uma precária sintaxe, até ao prego final do Disse ou Tenho dito. Com discursos se comemora, se inaugura, se abrem e fecham sessões, se lançam cortinas de fumo ou dispõem bambinelas de veludo. São brindes, orações, palestras e conferências. Pelos discursos se transmitem louvores, agradecimentos, programas e fantasias. E depois as palavras dos discursos aparecem deitadas em papéis, são pintadas de tinta de impressão - e por essa via entram na imortalidade do Verbo. Ao lado de Sócrates, o presidente da junta afixa o discurso que abriu a torneira do marco fontanário. E as palavras escorrem tão fluidas como o «precioso líquido». Escorrem interminavelmente, alagam o chão, sobem aos joelhos, chegam à cintura, aos ombros, ao pescoço. É o dilúvio universal, um coro desafinado que jorra de milhões de bocas. A terra segue o seu caminho envolta num clamor de loucos, aos gritos, aos uivos, envolta também num murmúrio manso, represo e conciliador. Há de tudo no orfeão: tenores e tenorinos, baixos cantantes, sopranos de dó de peito fácil, barítonos enchumaçados, contraltos de voz-surpresa. Nos intervalos, ouve-se o ponto. E tudo isto atordoa as estrelas e perturba as comunicações, como as tempestades solares.
Porque as palavras deixaram de comunicar. Cada palavra é dita para que não se oiça outra palavra. A palavra, mesmo quando não afirma, afirma-se. A palavra não responde nem pergunta: amassa. A palavra é erva fresca e verde que cobre os dentes do pântano. A palavra é poeira nos olhos e olhos furados. A palavra não mostra. A palavra disfarça.
Daí que seja urgente mondar as palavras para que a sementeira se mude em seara. Daí que as palavras sejam instrumento de morte – ou de salvação. Daí que a palavra só valha o que valer o silêncio do acto.
Há também o silêncio. O silêncio, por definição, é o que não se ouve. O silêncio escuta, examina, observa, pesa e analisa. O silêncio é fecundo. O silêncio é a terra negra e fértil, o húmus do ser, a melodia calada sob a luz solar. Caem sobre ele as palavras. Todas as palavras. As palavras boas e as más. O trigo e o joio. Mas só o trigo dá pão.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

SARAMAGUEANDO


Voltamos às páginas do Joaquim Vieira em José Saramago Rota da Vida.

Vieira conta que José Saramago, vivendo na Parede com Ilda Reis e a filha Violante, inscreve-se «como o sócio nº 488 do Clube Nacinal de Ginástica da Parede, dedicando-se ao ténis como a sua actividade física favorita. E surpreendentemente publica no suplemento «Cultura e Desporto», do jornal «O Benfica», em início de 1956, um longo artigo intitulado «É tempo», onde não fala de desporto mas sim de «atitude do homem cristalizado diante da arte moderna, para fazer uma apaixonada apologia das vanguardas estéticas.

Joaquim Vieira não conta, mas José Saramago foi sócio do Sport Lisboa e Benfica e tal como se pode ler no catálogo da exposição José Saramago: A Consistência dos Sonhos em 1999 tornou-se Sócio Honorário Desportivo do Sport Lisboa e Benfica.

Há um curioso recorte do Mário Castrim, numa crítica, publicado no semanário Tal & Qual, a um programa, bem idiota, dos princípios da SIC, que dava pelo nome de Os Donos da Bola:

«O momento mais alto do programa aconteceu na Assembleia do Benfica transmitida em directo. Levantou-se para falar o sócio Jorge Máximo. “O galardão máximo da literatura foi entregue a José Saramago. Ainda por cima, José Saramago é do Benfica. Vamos daqui dar uma salva de palmas a esse grande homem, a esse grande português. Somos campeões do mundo em literatura! É isso que nós, benfiquistas, não podemos perder no nosso humanismo».
Fico siderado. Uma vontade doida de rir e não ser capaz. Porque aquilo é mesmo assim. Todos agora nos sentimos campeões do mundo em literatura, todos e não apenas os benfiquistas. Está aí a grandeza so Saramago: dar força ao nosso humanismo».

Algures, José Saramago reflecte que o futebol tem o velho problema: ou é bem, ou mal jogado.

Numa entrevista que deu a Afonso de Melo, e publicada em A Bola Magazine de Novembro 1998, José Saramago fala dos seus desencantos com o futebol.

Eu fui sócio do Benfica com os meus oito ou nove anos, Por influência do meu pai, claro está!, ele era um benfiquista ferrenho, no tempo do Estádio das Amoreiras, com aquelas bancadas e aquele peão de terceiro mundo. Mas depois as mudanças de vida levaram-me por outros caminhos. Não me apetecia estar a sair de casa para ver um jogo. Nunca fui suficientemente entusiasta para andar de bandeira e cachecol e toda essa parafernália que fez com que o espetáculo se tenha deslocado do campo para as bancadas. O que, aliás, está de acordo com os atuais costumes do Mundo. Além do
mais desagradei-me.

Também não quero estar aqui com a conversa saudosista do «antigamente  é que era bom». Mas a verdade é que, nessa época, o jogador tinha o seu clube, e clube e jogador estavam pegados um ao outro. A camisola era uma coisa respeitável. Quase como uma outra bandeira. E o Benfica viveu o orgulho de só ter jogadores portugueses...Num tempo não muito distante. E agora o que é que acontece? Caiu-se num exagero. Onde estão hoje o Benfica, o Sporting, o F.C.Porto? O futebol não passa de um negócio. Desapareceu uma certa solidariedade de grupo. Isso fez-me desinteressar pelo futebol. O futebol converteu-se num espetáculo e já nada tem praticamente de desporto. Apenas isso.

Sobre o Benfica e o futebol, já Saramago andara às voltas na longa conversa que manteve com João Céu e Silva. O jornalista pergunta se um desafio de futebol lhe causa entusiasmo.

Não. O meu pai levava-me e eu gostava mas não me entusiasma. Nunca fui de transferir para onze pessoas que estão ali no campo a dar pontapés numa bola as emoções que eu deixaria sair por outras razões e por outros motivos, Gostava de ver um bom jogo mas mesmo isso também é bastante relativo, o que eu queria sobretudo era que o Benfica ganhasse mesmo que a equipa jogasse mal. Eu deixei de ser sócio do Benfica há uma quantidade de anos. Eu era o sócio 1322 e hoje estaria entre os primeiros e mais antigos, talvez fosse o número três ou quatro. Enfim, as coisas mudam e nesse tempo era um princípio absolutamente radical de que o Benfica só utilizaria jogadores portugueses. E assim foi, durante uma quantidade de anos, depois – isto é um negócio como outros – com a compra e venda de jogadores e as transferências tornou-se num espectáculo um pouco lamentável, às vezes bastante lamentável. E não quer dizer que uma pessoa na vida profissional, que não tenha a ver com o desporto, se encontrar um trabalho melhor e mais bem remunerado não saia de onde estava e vá para outro lado. Portanto, não se pode estranhar que um jogador de futebol o faça, além de que essa coisa de amor à camisola é uma treta.

O meu avô meteu-me, aos 6 anos, o vício do futebol, mais concretamente do Benfica. Anos mais tarde não deixou de me dizer que as coisas mais importantes da vida não se escolhem.

António Mega Ferreira, benfiquista assumido, gosta de ver os jogos sozinho para poder fazer figuras tristes à vontade, porque em matéria de futebol não se pode ser razoável, ou como disse o cineasta João Botelho, outro benfiquista: «a paixão pelo futebol é um dos lados dos comportamentos irracionais das pessoas».

Albert Camus dizia que o melhor que sabia sobre a moral e as obrigações dos homens, devia-o ao futebol.

«Aprendi rapidamente que uma bola nunca nos chega de onde a esperávamos. Isso serviu-me para toda a vida».

Mas fechamos os taipais com o escritor Mário de Carvalho:

«A maior alegria que me podiam dar era proibir a porcaria do joga da bola e meter na cadeia essa pardalada.»

Legenda: fotografia de José Saramago em 1933, tirada do catálogo exposição José Saramago: A Consistência dos Sonhos

segunda-feira, 22 de abril de 2019

SARAMAGUEANDO


Inevitavelmente, em Rota de Vida teria de ser abordado o facto de José Saramago, enquanto crítico da Seara Nova, ter escrito da sua admiração pela prosa de Agustina Bessa-Luís.

Aqui no Cais, sobre este assunto, podem ver a etiqueta José Saramago Crítico na Seara Nova.

Mas peguemos, a págs, 140, no que Joaquim Vieira escreve:

«Saramago ousou enaltecer a escritora na crítica que produziu ao livro, escrevendo:

«Algumas das ideias de Agustina Bessa Luís não se limitam a ser conservadoras: são retrógradas. Repugnam a um nosso deliberado amor de claridade, de abertura para o inteligível, de definição e construção de um sistema de relações em que a magia não seja utilizada como meio (entre tantos) de dominação de classe. Mas… como é possível, resistindo e opondo-nos embora no plano das ideias e da sua prática, não ser submergido pela beleza torrencial desta escrita, que não tem igual na literatura portuguesa deste tempo? Como é possível ficar indiferente a certas bruscas iluminações que vão mais longe e mais fundo, no sentido do conhecimento de si e do outro, que todo o material de análise que comumente manuseamos? Como é possível não reconhecer e declarar que se há em Portugal um escritor onde habite o génio (vá esta palavra, ainda que perigosa e equívoca) esse escritor é Agustina Bessa Luís» 

A reacção veio pela pena de José Gomes Ferreira, que, no registo diarístico Dias Comuns, escreveu indisposto, na entrada de 22 de Janeiro de 1968: «Quase todos os críticos têm chamado génio a Agustina Bessa-Luís (verdade seja que alguns depois se arrependem; Gaspar Simões, Óscar Lopes, José Régio, sei lá quantos).
Agora, chegou a vez ao Saramago.» Estava registado o aviso para a hipótese de uma precipitação, e embora os diários de Gomes Ferreira só viessem a ser publicados muito mais tarde, o recado pode ter circulado nas tertúlias da baixa lisboeta, não sendo difícil ter chegado aos ouvidos do crítico. O facto é que, meio ano depois, Saramago seria bem mais comedido, e até distante (quiçá arrependido?), ao escrever sobre a última obra de Bessa-Luís:

«Homens e Mulheres seria um grande romance (digamo-lo assim para simplificar) se não fosse uma repetição, uma glosa de livros anteriores. Bessa-Luís tem no seu universo próprio. Dentro dele, move-se como rainha. Ou deusa, para os seus fanáticos. Sendo ou não sendo o maior escritor de hoje, é certamente o que melhor domina e molda o barro da língua, aquele em cujo estilo há mais profundas ressonâncias (…) Mas Bessa-Luís tem (a frase é velha, mas cabida) os defeitos das suas virtudes. Afoga-se e afoga-nos na sua exuberância, não escolhe, não elimina. Aceita tudo quanto vem, trigo nutriente ou palha miúda. Põe o seu nome no fim, é quanto lhe basta. Perigosa atitude. Porque Agustina Bessa Luís corre o risco muito sério de adormecer ao som da sua própria música.»

E depois haveria ainda a necessidade de conciliar e encaixar tudo isto com a assunção feita no escrito anterior:

«Lemos Agustina Bessa-Luís com prazer (fatigado, às vezes r proveito (malogrado, quando calha), e em paz com a nossa consciência repetimos que «se há em Portugal um escritor onde habite o génio, esse escritor é Agustina Bessa-Luís», mas acabaremos por achar mal aproveitada tanta beleza plástica, tanta profundidade, tão aguda frecha analítica – na dispersão confusa, quando não incoerente e desmanchada, das suas crónicas de família. (…) Agustina Bessa-Luís devia ser menos que os seus livros – ou eles mais do que ela. Não há outra maneira de sair da província. E o génio (se não é confiado dizê-lo), é um meio, não um fim.»

Joaquim Vieira regista que Saramago talvez se tenha arrependido do que, inicialmente, escrevera sobre Agustina.

Em Julho de 1994, José Saramago reconhece que, enquanto crítico na Seara Nova, não cometeu erros, nem injustiças, de grande tomo. A excepção é a crítica que fez a O Delfim de José Cardoso Pires: «onde teria eu a cabeça?»

«Agora eis-me perante os fantasmas de opiniões que expandi há quase trinta anos, algumas bastante ousadas para a época, como dizer que Agustina Bessa Luís “corre
o risco muito sério de adormecer ao som da sua própria música”. Apesar da minha inexperiência, e quanto sou capaz de recordar, creio não haver cometido grossos erros de apreciação nem injustiças de maior tomo. Salvo o que escrevi sobre “O Delfim” do José Cardoso Pires: muitas vezes me tenho perguntado onde teria eu nesse momento a cabeça, e não encontro resposta…»

Em Cadernos de Lanzarote, Volume II

Legenda: páginas 244 e 245 da Seara Nova nº  1473, Julho de 1968 onde consta a crítica de José Saramago a Homens e Mulheres de Agustina Bessa-Luís.

sábado, 20 de abril de 2019

SARAMAGUEANDO


A afirmação de que a escritora Isabel da Nóbrega, então companheira de José Saramago, o ensinara a comer de faca e garfo, tal como se pode ler em Rota de Vida, é daquelas que nos levam a pensar em que mundo vive determinado tipo de gente.

 «Se não fosse a Isabel, quem seria o Saramago, que nem sabia comer à mesa?»

O arrepiante depoimento de um tal Carlos Leça da Veiga…

Qual a importância do pormenor?

Que ganho a escrita de Saramago teve pelo facto de ele saber comer à mesa?

Entristeço-me com estas miudezas, dano-me…

Que dirão essas excelsas-pessoas-tão-bem-educadas, quando José Saramago, no 2º volume dos Cadernos de Lanzarote, revela que frequentou a Sopa dos Pobres, na Avenida Almirante Reis, frente à Igreja dos Anjos?

Saberão o que é a Sopa dos Pobres?

Sabem com toda a certeza, mas não conseguem interiorizar que um Nobel da Literatura por lá tenha passado.

Já por aqui reproduzi esse passo dos Cadernos, mas volto a repetir:

«Num artigo de Ângela Caires publicado na Visão, sobre António Champalimaud, leio que o tio Henrique Sommer, em carta com valor testamentário dirigida às manas Albana e Maria Luísa, lhes recomendava que não se esquecessem de distribuir, pelo Natal, dois contos de réis à Sopa dos Pobres da Freguesia dos Anjos, de Lisboa. Naturalmente, o generoso Sommer (que em glória esteja) desejava que não sofresse mudança, depois do seu passamento, a beneficente prática que instituíra.
Quem poderia imaginar que esta informação, escrita ao correr da pena, viria lançar uma luz nova sobre a minha biografia secreta? De facto, não foram poucas as vezes, no tempo da adolescência, que ocupei um envergonhado lugar na fila de aspirantes à sopa e ao quarto de pão que se serviam naquele atarracado e soturno edifício fronteiro à Igreja dos Anjos… Mais ou menos por essa altura devo ter aprendido na aula de Física e Química da Escola Industrial Afonso Domingues o princípio dos vasos comunicantes, mas só hoje é que consegui perceber, sem reservas mentais nem dúvidas formais, como se efectua a transmissão da riqueza e do bem-estar dos que estão em cima para os que estão em baixo, do conto de réis para o quarto de pão, da fartura para falta. Por muitos que fossem os seus pecados, Henrique Sommer nunca ficaria no inferno, sempre haveria uma concha da sopa para o tirar de lá…»

quinta-feira, 18 de abril de 2019

SARAMAGUEANDO


A págs. 80 de Rota de Vida de Joaquim Vieira é-nos revelado um poema, sem título, de José Saramago, datado de 1944, e que pertence ao acervo da Fundação José Saramago.

Este, e outros poemas inéditos, são referidos em José Saramago. A Consistência dos Sonhos –Cronobiografia.

Vamos reproduzi-lo:

«O homem diz que sabe o caminho
Mas não acrediteis porque o homem não sabe o caminho.

E o que o homem disse
E o que o homem diz
E o que o homem dirá
Nada tem de comum com o que o homem disse e diz e dirá

E o homem teima que sabe o caminho
Mas o pobre do homem não sabe, não sabe o caminho

E o que o homem disse
E o que o homem diz
E o que o homem dirá
Nada tem de comum com o que o homem disse e diz e dirá

E há sessenta séculos que o homem diz: Eu sei o caminho
Mas nós sabemos que o homem não sabe o caminho

E o que o homem disse
E o que o homem diz
E o que o homem dirá
Nada tem de comum com o que o homem disse e diz e dirá

E outros sessenta séculos ouviremos o homem dizer: Eu sei o caminho
Mas o pobre do homem não soube, não sabe, nem saberá jamais o caminho

E o que o homem disse e diz e dirá
Nada tem de comum com o que o homem disse
Com o que o homem diz
Com o que o homem dirá.»

Dirá José Saramago a João Céu e Silva em Uma Longa Viagem com Saramago:

«Não sei o que poderá acontecer amanhã mas não me vejo a voltar a escrever poesia. A minha poesia é uma poesia de segunda ou terceira calasse, não vale a pena teimar. Não tive ilusões, é o que é, limpa, honesta e em algum momento terá sido algo mais do que isso mas, enfim, não vou ficar na História como poeta. Suponho que se ficar na história será como um romancista que também fez alguns versos.»

Sobre esta afirmação, João Céu e Silva acrescenta uma nota de rodapé:

«Já em 1984, José saramago tinha consciência do valor da sua veia poética e afirma em entrevista a Pedro Correia (O Tempo, 7/12/1984) que «Não acho, realmente, que seja um bom poeta. E talvez tenha sido a consciência desse facto que me fez, a partir de certa altura, abandonar de facto a poesia. Ou melhor: talvez não tenha abandonado inteiramente a poesia. O que abandonei foi a actividade de fazer versos. E não penso voltar. Pela maior liberdade que a prosa me concede, pela maior possibilidade de prolongar o próprio discurso, talvez haja muito mais poesia num romance meu do que toda aquela que eu seria capaz de inserir num livros de poemas.


quarta-feira, 10 de abril de 2019

SARAMAGUEANDO


Nunca me entusiasmei com a atribuição dos prémios Nobel da Literatura.

As atribuições contêm uma vasta lista de erros, gente obsoleta de que a história não mais ouviu falar e de escritores injustamente ausentes.

 O Prémio Nobel, é acima de tudo, dinheiro, uma pipa de massa, como diria o Luiz Pacheco que só vivia de «vintes» em troca das folhecas que escrevia ou editava.

José Saramago no 2º volume dos Cadernos de Lanzarote:

«... deixemo-nos de hipocrisias e tenhamos a franqueza de reconhecer que, nesta comédia, o que verdadeiramente conta é o dinheiro».

Numa carta a José Rodrigues Miguéis, datada de 14 de Maio de 1967, José Saramago revela:

Alguma vez hei-de fazer o que me dá gosto…

José Saramago queria ser escritor, era esse o seu gosto.

Já tinha publicado, em 1947, Terra do Pecado que passou despercebido e em 1953 termina o romance Clarabóia que fica perdido num armazém da Empresa Nacional de Publicidade, em 1966 é editado o seu primeiro livro de poesia, Os Poemas Possíveis.

Não consigo encontrar – tempos antes de Pilar del Rio - qualquer afirmação que revele que José Saramago alguma vez pensasse que um dia seria Nobel da Literatura.

Há aquela frase largamente citada, em que Saramago afirma, sem qualquer indicação específica:

«Aquilo que tiver que ser meu às mãos me há-de vir ter».

É de crer que será com Pilar que a ideia surge com força e determinação.

José Luís Judas, numa conversa revelada no livro de Joaquim Vieira, um dia ficou sem qualquer dúvida de que Pilar del Rio iria batalhar para que Saramago chegasse ao Nobel.

Numa carta de Sophia Mello Breyner Andresen, datada de Março de 1978, escreve a Jorge de Sena:

«Surgiu um facto que quero que fique claro: Por alturas de Dezembro recebi uma carta da Academia Sueca a convidar-me para eu propor um candidato ao Nobel da Literatura. No ano passado propus o teu nome. Depois disso, aqui há tempos surgiu uma comissão propondo o Torga e pediram-me que me associasse à sua proposta. Associei-me pois não me podia negar. Primeiro porque admiro muito o Torga, segundo porque gostaria que houvesse um Nobel português, uma vez que seja um escritor que tenha um nível de qualidade que como pátria me honre. Isto é : eu queria que o voto em ti funcionasse a teu favor, mas não contra o Torga. Para que não fosse diminuída a possibilidade de o Nobel ser atribuído a um português. Em consequência escrevi de novo à Academia Sueca explicando que mantinha o voto em ti mas que também apoiava uma candidatura do Torga dado que ambas eram candidaturas com grande qualidade e dignidade.
Só te digo isto a ti porque a carta da Academia Sueca me pede silêncio sobre o meu voto por isso te peço que não fales disto a ninguém.»

Pela leitura de José Saramago: Rota de Vida fica-se a saber que quatro pessoas acreditavam que um dia Saramago seria Prémio Nobel.

Joaquim Vieira na introdução que faz ao livro revela que, enquanto responsável editorial do Expresso convidou José Saramago em 1993 para escrever uma crónica de jornal todas as semanas.
«Confesso porém, que ao fazer-lhe a proposta, tinha na cabeça outro pensamento que guardei para mim: «Este tipo qualquer dia vai ganhar o Nobel da Literatura, e nesse momento será muito prestigiante para o Expresso tê-lo já como colunista.»

Outra pessoa que acredita no prémio é Isabel da Nóbrega.

Numa entrevista à Visão, Joaquim Vieira conta a seguinte história:

 «Quando o pai de Isabel da Nóbrega morreu, em 1985, os irmãos fizeram as partilhas. Na casa, todos estavam à volta das pratas na sala, mas ela só estava preocupada com a roupa no quarto, queria a casaca do pai. A filha perguntou-lhe porquê. Ela respondeu: ‘Porque o José, qualquer dia, vai ser Nobel e eu tenho que levar a casaca para ele receber o prémio.»

Pilar del Rio também tinha a firme convicção de que um dia Saramago seria Nobel da Literatura.

A páginas 548 de Rota da Vida é referida uma conversa entre o sindicalista José Luís Judas, José Saramago e Pilar del Rio, em que a conversa gira em redor do veto que Sousa Lara impusera ao Evangelho Segundo Jesus Cristo. Saramago desabafou: «Este é um país de vetos».
Pilar pronunciou uma frase que José Luís Judas não mais esqueceu:
«Quando receberes o Prémio Nobel, estes fulanos vão ficar todos cheios de inveja.»
Judas tem a certeza que Saramago corou e disse:
«Esta andaluza dá-me cabo da cabeça da cabeça.»
Conversa rematada por Judas a Joaquim Vieira:
«Mas ela não só acreditou como batalhou por isso. Não tenho dúvidas.»

Joaquim Vieira revela que Natália Correia também acreditava que Saramago seria Nobel da Literatura. Vem na página 549 do livro:

«Até mesmo a intuitiva Natália Correia, em conversa que terá lugar no Botequim a propósito de O Evangelho Segundo Jesus Cristo se alhear da temática nacional, entrevira uma aproximação ao Nobel – no relato de Fernando Da costa como testemunha: «A Natália falva de "desterritorialização” da litearatura em Portugal, de autores que escilhiam temas que não tinham que ver com o país, pois achavam que assim eram mais fáceis de traduzir e editar lá fora. E disse ao saramago, a propósito disso: “E tu também enveredaste por esse processo, porquês queres ganhar o Prémio Nobel. Vais ganhá-lo, mas, como és um tipo sério, vais voltar aos temas portugueses.»

Nunca se me colocou a ideia, breve que fosse, de que José Saramago poderia um dia ganhar o Prémio Nobel da Literatura.

No ano da atribuição do prémio tinha guardado um recorte do Público de 2 de Outubro em que e hipótese era admitida, e na véspera da atribuição, o jornal 24 horas , no topo direito da 1ª página, revelava que os «americanos apostam em Saramago».

De mim para mim, fui dizendo que esta coisa dos prováveis vencedores é a história do costume, e não vale a pena pensar muito no assunto.

Ao longo dos cinco volumes dos Cadernos de Lanzarote, Saramago foi guardando registos das expectativas de um dia poder vir a ser Nobel da Literatura:

No 1º volume, entrada escrita a 26 de Abril de 1993:

«Entrevista a Plínio Fraga, da “Folha de S. Paulo. Uma das questões era que António Houaiss, aqui há tempos, teria apostado em dois nomes para o Prémio Nobel deste ano: João Cabral de Melo Neto e este servidor. Pedia-se-me que comentasse a declaração de Houaiss e eu lembrei a Plínio o que Graham Greene respondeu a um jornalista que lhe perguntou o que pensava ele da atribuição do Prémio Nobel a François Mauriac. Foi esta a frase histórica: “O Nobel honrar-me-ia a mim, ao passo que Mauriac honra o Nobel.” Aí tem, disse, eu sou o Grahaam Greene desta história, e João Cabral de Melo Neto o Mauriac. Mas, em seguida, esgotada a minha capacidade de abnegação e modéstia, e também para não aparecer aos leitores da “Folha” como um sujeitinho hipócrita, acrescentei, desta maneira me sangrando em saúde: “Em todo o caso, parecer-me-ia justo que o primeiro Nobel de Literatura para a Língua Portuguesa fosse dado a um português, porque, na verdade, vai para novecentos anos que estamos à espera dele, enquanto vocês nem sequer dois séculos de esperanças frustradas levam…”

No 2º volume, entrada escrita a 12 de Outubro:

“Diz-se em Lisboa que o Nobel está no papo de Lobo Antunes. Pelos vistos, o jornalista brasileiro, amigo de Jorge Amado, sabia do que falava. Também me dizem que Lobo Antunes já se encontra na Suécia.”

No mesmo volume, entrada escrita a 13 de Outubro:

“O Nobel foi para um escritor japonês, Kenzaburo Oe. Afinal, o jornalista estava enganado. Nelson de Matos até tinha feito declarações à rádio, ou à televisão, não sei bem, dando como favas contadas a vitória do seu editado. O que vale é que o ridículo, pacientíssimo, continua a não matar, Quanto a mim, tenho de começar a pedir desculpa aos meus amigos por não ganhar o Nobel…»

No 3º volume, entrada escrita a 23 de Maio:

«Uma leitora na Feira: “Para o ano que vem teremos mais “Cadernos”?”. Respondo medievalmente como de costume: “Vida havendo e saúde não faltando…” E ela: “É que quero ver neles a notícia do Prémio Nobel…»

No 5º volume, entrada escrita a 9 de Outubro de 1997:

«Foi muito simples. Encontrávamo-nos na cozinha, Pilar e eu, sós, quando a rádio informou que o Prémio Nobel tinha sido atribuído a Dario Fo. Olhámo-nos tranquilamente (sim, tranquilamente, jurá-lo-ia se fosse necessário) e eu disse: “Pronto. Podemos voltar ao nosso sossego.” Falámos depois sobre o que naquele momento sentíamos, e ambos estivemos de acordo: alívio»

No mesmo volume, entrada escrita a 14 de Outubro de 1997:

«Frankfurt. Pilar telefonou hoje para casa, a saber se havia alguma novidade, e realmente, sim, havia novidade, a mais inesperada de todas as possíveis, aquela que nunca seríamos capazes de imaginar: nada mais nada menos que uma chamada telefónica de Dario Fo e dizer: «Sou um ladrão, roubei-te o prémio. Um dia será a tua vez. Abraço-te.» Mal saído do assombro em que a notícia me tinha deixado, disse a Pilar: «Suponho que uma coisa assim nunca terá acontecido na história deste prémio…», e Pilar, sábia, respondeu-me: «Não há que perder a confiança na generosidade humana.»

segunda-feira, 8 de abril de 2019

SARAMAGUEANDO


O meu pai dizia que devemos ler alguns maus livros.

João Bénard da Costa era de opinião que devemos ver maus filmes porque podem ter por lá perdido algo que valha a pena ver.

Franz Kafka citado um destes dias pelo Manuel S. Fonseca na sua blogueira Página Negra: «Acho que deve­mos ler o tipo de livros que nos abram feri­das, que nos esfa­queiem».

Quando soube da publicação deste livro de Joaquim Vieira, sabendo de experiências anteriores como as que fez com Francisco Pinto Balsemão e Mário Soares, questionei-me se o iria ler.

Estava nesse mar de dúvidas, quando o meu filho Mário pediu um livro para me colocar no saco do Pai Natal e chutei o do Joaquim Vieira.

Corria ainda Dezembro, uma semana para ler as suas 751 páginas.

Repetir a leitura de algumas páginas pelos dias que se foram seguindo.

Com a chegada da Primavera, o escrever, finalmente!, algumas palavras sobre as diversas leituras.

Começo por sentir excessivas as largas páginas que, ao longo do livro são dedicadas ao facto de José Saramago gostar de mulheres. Há mesmo um capítulo, o 6º, com as suas 30 páginas, que Vieira não resistiu à tentação de titular:  «O Pinga-Amor».

Em 1977, François Truffaut realizou L'Homme qui aimait les femmes.

É do filme que me lembro quando leio o rol de mulheres que andaram com, por, Saramago, mulheres por quem mostrou amor, simpatia ou quaisquer rituais de sedução.

Só ele saberia dizer o porquê, se a tanto achasse útil ou necessário.

Largamente referido é o relacionamento que Saramago manteve com a escritora Isabel da Nóbrega.

Corria o ano de 1954, Isabel da Nóbrega, com 31 anos, abandona o marido e os seus três filhos para ir viver com João Gaspar Simões, ao tempo um escândalo.

Pelo ano de 1966 acontece o grande romance entre José Saramago e Isabel da Nóbrega, «o amor da vida dela», no dizer de Maria Velho da Costa.

Em 1977 Saramago conhece Pilar mas a relação com Isabel da Nóbrega já, há algum tempo, esfriara.

Deixo apenas um pormenor curioso: Isabel da Nóbrega sempre acreditou que um dia, José Saramago ganharia o Prémio Nobel.

Numa entrevista à Visão, Joaquim Vieira conta a seguinte história:

 «Quando o pai de Isabel da Nóbrega morreu, em 1985, os irmãos fizeram as partilhas. Na casa, todos estavam à volta das pratas na sala, mas ela só estava preocupada com a roupa no quarto, queria a casaca do pai. A filha perguntou-lhe porquê. Ela respondeu: ‘Porque o José, qualquer dia, vai ser Nobel e eu tenho que levar a casaca para ele receber o prémio.»

Diversos são os depoimentos em que se procura transmitir que Isabel da Nóbrega escrevia, ou largamente emendava, as crónicas que Saramago publicava nos jornais.

De um depoimento de Ana Isabel, filha da escritora:

«A minha mãe escrevia em cima de uma tábua no sofá e ele na mesa de trabalho da minha mãe. Quando ele acabava de escrever as crónicas, levava-as à mãe e ela lia e dizia-lhe: “José, e se experimentasses pôr assim?” E ele sentava-se e tornava a escrever.»

Carlos Leça da Veiga: 

«Ela fez dele, que era um labrego, um senhor. Se não fosse a Isabel, quem seria o Saramago, que nem sabia comer à mesa?

Maria Velho da Costa:

 «Uma mulher que fez tudo por ele, ensinou-o a comer e beber.»

Passo ao lado dos muitos depoimentos de gente que entendeu não dar a cara porque foram amigos de Isabel da Nóbrega e Saramago, amigos ficaram quando Saramago se relacionou com Pilar.

Há depoimentos estranhos, como os de Mário Ventura Henriques, inúteis como os do Sr. Fernando Canhão, filho de um dos patrões da Estúdios Cor onde Saramago trabalhou como encarregado da produção literária, depoimentos de muita gente que desconheço e que outro propósito não têm senão o dum botabaixismo que apenas visa desacreditar a pessoa e o escritor José Saramago.

A dois depoimentos devidamente identificados, terei que dizer que estão no livro por pura inveja, despeito ou algo difícil de catalogar: os de Maria Teresa Horta e o de José Jorge Letria.

Maria Teresa Horta, algo que terá a ver com o relacionamento editorial de Luís de Barros, seu marido, com José Saramago, enquanto ambos estiveram na direcção do Diário de Notícias.

Mas ainda em vida, José Saramago referiu Maria Teresa Horta.

Faz parte da entrevista que Joaquim Vicente teve com José Manuel dos Santos que foi assessor de Mário Soares:

«Fui almoçar com ele ao Farta Brutos, até para combinar várias coisas, nomeadamente a condecoração. E no meio da glória nacional, ele diz-me assim:
«A Maria Teresa Horta disse que, lendo os meus livros, se percebia logo que eu nunca iria ser um grande escritor. Está-se a ver agora.» O que eu achei mais extraordinário foi esta conversa, dois ou três dias depois de o Saramago estar cá. No meio daquele coro de louvores. Fiquei muito impressionado, porque a grande coisa de que ele se lembrava era disso, A Maria Teresa Horta era uma pessoa que o estava a marcar profundamente, e ainda por cima tinha afinidades políticas com ela. Ela, aliás, saltou logo no dia do Prémio, dizendo que o Nobel não devia ter sido dado ao Saramago, devia ter ido para a Agustina ou para Sophia».

Quanto ao que José Jorge Letria diz ao longo do livro, remeto para a mente doentia que o tem acompanhado toda a vida. Um ódio que, certamente, por falta de coragem nunca o diria na cara de Saramago. Seria, simplesmente arrasado. Em 1978 pediu a José Saramago que lhe escrevesse um prefácio para o seu livro Os Dias Contados. Saramago sabendo das não qualidades literárias e intelectuais de Letria disse-lhe que não. Letria não lhe perdoou e Joaquim Vieira escreve que José Jorge Letria não o revelara antes, mas agora disse:

«Ele nunca foi para mim um escritor referencial. Eu teria visto também com satisfação o Nobel ser dado a Agustina Bessa-Luís, por exemplo. Não é por receber o Nobel que ele se transforma numa estátua.»

O que ressalta em muitos dos depoimentos recolhidos por Joaquim Vieira para o livro,  é que a atribuição do Prémio Nobel da Literatura não agradou aos companheiros de escrita de Saramago. Para muitos – e não são assim tão poucos! - custa a engolir que um pé descalço nascido na pobreza angustiante de uma aldeia ribatejana, um aprendiz de  serralheiro, um autodidacta que, em jovem, não tinha um único livro em casa,  que passava noites nas mais diversas leituras na Biblioteca de Galveias, um comunista confesso, sem vontade alguma de o deixar de ser, apesar de tanto coisa que o poderia ter levado a sair do Partido, tenha conseguido subir a pulso e construir a obra que lhe permitiu  um dia chegar aonde chegou.

Não é difícil perceber que na intelectualidade portuguesa, seja qual for a época, campeia o ciúme e a inveja.

Como observou Luiz Pacheco:

«Aí a raiva de muita gente não foi contra o escritor – que não lêem – nem foi contra o próprio Saramago - que não conhecem de parte nenhuma -, foi contra o comunista que ganhou o Nobel. E também contra o gajo que ganhou cento e tal mil contos! Inveja em estado puro.»

Dando-lhe os devidos descontos, por exemplo, entradas em domínio da vida privada algo desnecessárias, esta Rota de Vida ajudará muitos leitores a perceber o percurso de uma das personagens, doa a quem doer, mais importantes da nossa história recente.

José Saramago: a persistente ideia de morrer idêntico ao que sempre foi.

Durante alguns dias, irei Saramaguear por aqui, transcrevendo algumas passagens do livro de Joaquim Vieira que, por isto ou por aquilo, entendo terem algum interesse.