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terça-feira, 30 de junho de 2026

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


  CANÇÕES DE BRUCE SPRINGSTEEN
  NA ESPLANADA DA CINEMATECA
                                                     

«Não é no cinema que pensamos quando se evoca o nome de Bruce Frederick Joseph Springsteen, nascido a 23 de Setembro de 1949 na pequena cidade de Long Branch, no estado de Nova Jérsia, bem perto de Nova Iorque mas do lado “errado”, do lado industrial e operário. Como é evidente, porque foi na música que ele se exprimiu, e foi através da música, dos vinte e um álbuns de estúdio que editou desde 1973 e Greetings from Asbury Park, N.J., que Bruce Springsteen se tornou uma das grandes figuras da cultural popular norte-americana. Hoje, quando já é septuagenário, adquiriu mesmo um estatuto ao alcance de muito poucos, pontuado por uma capacidade de intervenção pública e política que o tornam uma presença relevante dentro da sociedade norte-americana muito para além do domínio estritamente musical. Ou seja, não deve haver ninguém que tenha estado vivo nos últimos 50 anos a precisar que lhe apresentem Bruce Springsteen.
E este ciclo não é para isso, nem é para fazer a história de Springsteen. É para evocar um facto muito simples e muito incontestável: se não é no cinema que se pensa logo quando se fala de Springsteen, isso não quer dizer que Springsteen não pense no cinema, e que o cinema não pense em Springsteen. A cultura popular norte-americana é um sistema de vasos comunicantes, e já o vimos bem a propósito de Bob Dylan, quando (ainda antes do Nobel), dedicámos um vasto ciclo ao tortuoso labirinto da relação de Dylan com o cinema e do cinema com Dylan. É um pouco o mesmo jogo que praticamos agora com Springsteen, um jogo um pouco menos perverso, porque Springsteen, de certo modo, é uma versão franca, quase transparente, de Dylan, e porque bem menos perversa foi a sua relação com o cinema, mas não menos rica.
Porque sabemos a importância que o cinema teve enquanto inspiração de Springsteen, sobretudo no caso clássico do seu disco Nebraska, que começou a tomar uma forma no seu espírito depois de um visionamento do BADLANDS de Terrence Malick (sendo que “Badlands” é, justamente, o título de uma canção desse disco). Ou, no final dos anos 1990, o seu disco The Ghost of Tom Joad, que está perto de ser um “remake” musical do filme que John Ford extraiu ao romance de John Steinbeck.
O ciclo traz as inspirações de Springsteen, mas também traz Springsteen como inspiração. Outro caso clássico: STREETS OF FIRE, de Walter Hill, que em princípio seria um musical construido sobre as canções de Springsteen mas que, depois de um desentendimento entre o artista e a produção, deixou de ser, e ficou só o título. Ou ainda a curiosa obsessão de Peter Bogdanovich, que pretendia que a banda sonora de MASK fosse essencialmente composta por canções de Springsteen e, quando não o conseguiu, se “vingou” disseminando por TEXASVILLE, poucos anos depois, uma quantidade enorme de canções dele.
Investigamos neste ciclo, portanto, o trânsito em dois sentidos da relação Springsteen/cinema e cinema/Springsteen. A que não faltam, também, os paralelismos e os parentescos, os filmes nascidos e criados nos ambientes de Springsteen, que com ele podiam partilhar a sensibilidade, sobretudo os filmes que mostram e falam de Nova Jérsia, do subúrbio, da vida dos operários, dos “blue collars” – como quando, em COPLAND, James Mangold teve a intuição de pôr Sylvester Stallone (o homem do ROCKY ou de PARADISE ALLEY) em escuta das canções de Bruce.
Será um bom mês de esplanada, cinema e música. E como é Verão, nem falta uma piscina, a piscina da PALOMBELLA ROSSA de Nanni Moretti, onde um jogo de pólo aquático era interrompido para se ouvir, em ritual litúrgico, “I’m On Fire”.»

Programação aqui.

sábado, 4 de abril de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ


As gentes que Donald Trump escolheu para a sua governação, é tudo de última gaveta. A tal ponto que, como as coisas, agora, começam a correr mal, tratou de  despedir alguns e outros vão saindo pelo seu pé.

Entretanto com as suas leis, as suas guerras está a causar o caos no Mundo.

Trump, desde que se tornou presidente dos Estados Unidos, à custa de uma seita – MAGA - que consta de tudo o que de mau existe no país, entendeu tratar alguns  conflitos com uma meta de resolução apontada para 2 semanas, mas nada aconteceu e as semanas somam-se através dos dias de todas os dias.

Porque, no fundo dos fundos, Donald Trump  é um presidente que apenas quer realizar negociatas, adora bravatas e prémios, despreza o Congresso, o Senado, os Juízes, as Forças Armadas… o povo americano.

Bruce Springsteen não gosta de Trump, e, todos os dias, declara esse ódio.

Começou agora uma nova digressão - Land of Hope & Dreams American Tou que percorrerá as cidades americanas até 27 de Maio -, e começou a exercer o seu direito de crítica ao presidente, acusando a governação de ser corrupta, racista, incompetente, irresponsável e que a guerra contra o Irão é inconstitucional e ilegal.

Em reação, Donald Trump pediu ao eleitorado MAGA o boicote aos concertos de Springsteen e, nas redes sociais, chamou o cantor de medíocre e enfadonho que parece uma ameixa seca e, criticando a aparência física de Bruce, diz que o cantor sofreu as consequências de um cirurgião plástico incompetente, e sofre há muito tempo de uma síndrome de aversão a Trump horrível e incurável.

A música desta manhã não poderia ser outra que não algumas canções de Bruce.




sábado, 14 de fevereiro de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ

A América de Trump é o inferno.

Sabemos o que Trump já fez, está a fazer, irá fazer.

Mas dos infernos não sabemos tudo, apenas o que nos chega pelos jornais, pelas televisões.

Num qualquer recente sábado, Bruce Springsteen compôs, gravou e cantou “Streets of Minneanapolis», uma canção de protesto contra a ICE, a agência anti-imgração, imposta por Donald Trump que está a espalhar o caos e o pânico nas ruas das cidades democratas dos Estados Unidos.

Como dedicatória, escreveu Bruce Springsteen:

«Canção dedicada  ao povo de Minneapolis, aos nossos vizinhos imigrantes inocentes e em memória de Alex Pretti e Renee Good, cidadãos americanos mortos pelos agentes do ICE.

 Fiquem livres.

Bruce Springsteen.»

 

«Através do gelo e do frio do inverno

Pela Avenida Nicollet

Uma cidade em chamas lutou contra o fogo e o gelo

Sob as botas de um ocupante

O exército privado do Rei Trump, do Departamento de Segurança Interna

Armas presas aos casacos

Chegaram a Minneapolis para fazer cumprir a lei

Ou assim dizem


Contra o fumo e as balas de borracha

À luz da aurora

Cidadãos levantaram-se em busca de justiça

As suas vozes ecoando pela noite

E havia pegadas de sangue

Onde deveria haver misericórdia

E dois mortos, deixados a morrer nas ruas cobertas de neve

Alex Pretti e Renée Good

 

Oh, nossa Minneapolis, ouço a tua voz

Cantando através da névoa sangrenta

Nós nos levantaremos por esta terra

E pelo estranho no nosso meio

Aqui em nossa casa, mataram e vaguearam

No inverno de 1926

Lembrar-nos-emos dos nomes daqueles que morreram

Nas ruas de Minneapolis

 

Os capangas federais de Trump espancaram

O seu rosto e o seu peito

Depois ouvimos os tiros

E Alex Pretti jazia morto na neve

A alegação deles foi legítima defesa, Sr.

Só não acredite no que os seus olhos vêem

É o nosso sangue e ossos

E estes apitos e telefones

Contra as mentiras sujas de Miller e Noem


Oh, nossa Minneapolis, ouço a tua voz

Chorando através da névoa sangrenta

Lembrar-nos-emos dos nomes daqueles que morreram

Nas ruas de Minneapolis


Agora dizem que estão aqui para fazer cumprir a lei

Mas eles espezinham os nossos direitos

Se a sua pele é preta ou castanha, meu amigo

Pode ser Interrogados ou deportados à vista

Nos nossos cânticos de "ICE fora agora"

O coração e a alma da nossa cidade persistem

Através de vidros partidos e lágrimas de sangue

Nas ruas de Minneapolis


Oh, nossa Minneapolis, ouço a tua voz

Cantando através da névoa sangrenta

Aqui em nossa casa, mataram e vaguearam

No inverno de 1926

Nós posicionar-nos-emos por esta terra

E pelo estrangeiro no nosso meio

Lembrar-nos-emos dos nomes daqueles que morreram

Nas ruas de Minneapolis

Lembrar-nos-emos dos nomes daqueles que morreram

Nas ruas de Minneapolis

ICE fora

ICE fora

ICE fora

ICE fora

ICE fora»

domingo, 7 de dezembro de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


 Tão bom, todos os anos podermos dizer que o Pai Natal está a chegar à cidade.

Colaboraçlão de Aida Santos

sábado, 14 de novembro de 2020

CONVERSANDO

Nasceu cinzento o 1º sábado de confinamento no país-do-quero-lá-saber-quem-vier-atrás-que-feche-a-porta.

Lembra-se que em Vladimir Ilitch leu que quando quisermos nos enforcar, os burgueses perfilar-se-ão para nos venderem a corda.

Mas também não sabe por que se lembrou disto.

Achou melhor encontrar uma musiquinha que sirva para combater o bicho.

Um Bruce Springsteen na abertura do concerto em Dublin, 2007, com os The Session Band.

«Por essa altura, aconteceu outra coisa muito auspiciosa. Um homem em Boston «vira o futuro do rock’n’roll», e esse futuro era… eu. Tocáramos no Harvard Square Theater, na abertura para a Bonnie Rait (Deus a abençoe, pois foi uma das poucas artistas que naquela época, nos deixou abrir para ela mais do que uma vez). O repórter que lá estava em nome do Real Paper, o Jon Landau, perdeu a cabeça na crítica e escreveu um dos maiores salva-vidas de todos os tempos.

Foi uma apreciação de um genuíno fã, escrita de forma muito bonita, sobre o poder e significado do rock’n’roll, da sensação de espaço e continuidade que traz às nossas vidas, a comunidade que não pode deixar de fortalecer e a solidão que mitiga. Nessa noite em Boston, conduzimos a banda com os nossos corações e foi isso que o Jon fez. A famosa citação surgiu em referência aos pensamentos de Jon acerca do passado, do presente e do futuro da música que ele adorava, do poder que tivera outrora sobre ele e da sua capacidade para se renovar e transmitir de novo esse poder à sua vida. Por mais que tenha ajudado e sido um fardo (a longo prazo, diria que foi mais uma ajuda do que um fardo), que fosse a «citação ouvida por todo o mundo», foi sempre tomada um pouco fora do contexto, e as suas adoráveis subtilezas perderem-se… mas, hoje em dia, quem se importa com isso?! E se alguém tinha de ser o futuro, porque não ser seu.»

Bruce Springsteen em Born To Run

1.

Parece que estão fechados os resultados das presidenciais norte-americanas.

Joe Biden tem 78 milhões de votos e 306 grandes eleitores, Donald Trump tem 72,7 milhões de votos e 232 grandes eleitores.

Ontem, Trump esteve quase a dizer que aceita a derrota.

Quase… mas não tardará a chegada do dia em que a realidade lhe entrará pela cabeleira dentro.

Contudo, os apaniguados, gente que não se recomenda, continuam a berrar que roubaram a Trump 2,5 milhões de votos.

Não se sabe onde, nem como.

Coisa para o FBI investigar.

2.

Olhando os dias que Gonçalo M. Tavares coloca em cadernos, verifiquei que falava de um louco que garantia que era por estar descalço que os dias terminavam mais cedo. Falou-lhe no Inverno, ele abanou a cabeça e garantiu que não. Os dias acabavam mais cedo porque ele tinha deixado de usar sapatos.

3.

Dizem que a televisão fez diminuir a convivência. Não será as dificuldades na convivência que introduz o poder da televisão?

4.

É comum dizer-se que não se morre quando se quer, mas quando se pode.


Legenda: fotografia de Edith-Claire Gérin.

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

RELACIONADOS

O Luís Miguel Mira, sei do que falo, tem sobre a folk, a literatura e o cinema americano um conhecimento vastíssimo. Porque se interessa, porque estuda, porque entende que o mais pequeno pormenor merece uma atenção especial para se entender um todo.

Acidentes de percurso, histórias onde o diabo meteu a patorra, não permitiram um encontro atento e demorado com o Ruben Carvalho. Mas esteve quase… esteve quase…

O texto que o Luís Mira hoje trouxe, recorda-nos a canção  My Oklahoma Home.                 

Existe uma versão, ao vivo, de Bruce Springsteen que não resisto a trazê-la para aqui.

Faz parte de um concerto de Bruce e dos Sessions Band gravado em Dublin no dia 17 de Novembro de 2006.

Um gozo danado. É por estas e por outras que terei uma imensa pena de um dia as deixar de poder ouvir.

sábado, 30 de setembro de 2017

COMO UMA LONGA E RUIDOSA ORAÇÃO



No dia 29 de Dezembro do ano passado, Born to Run de Bruce Springsteen entrou no Olhar as Capas.
No terceiro dia do novo ano, começámos a transcrever passagens do livro. 
Chegamos agora ao fim.
Cesare Pavese, com o seu Ofício de Viver, será a próxima proposta de leitura.

Lutei toda a minha vida, estudei, toquei música, trabalhei, porque queria ouvir e conhecer toda a história, a minha história, a nossa história, e compreendê-la o mais possível. Queria compreendê-la de maneira a libertar-me das suas influências mais negativas, das suas forças malévolas, para celebrar e honrar a sua beleza, o seu poder, e ser capaz de contar devidamente aos meus amigos, à minha família e a todos vocês. Não sei se o fiz, e o diabo está sempre à espreita, mas sei que foi esta a minha promessa inicial para mim, para vocês. Tentei concretizá-la como uma questão de honra. Apresentei-a como a minha longa e ruidosa oração, o meu truque de magia. Com a esperança de que abalasse a vossa alma e depois se transmitisse, o seu espírito absolvido, para ser lida, ouvida, cantada e alterada por vocês e pelo vosso sangue, para que vos pudesse fortalecer e ajudar a atribuir um sentido à vossa história. Contem-na.

Bruce Springsteen em Born to Run

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

SOU UMA SOMA DE TODAS AS PARTES


Acerca da minha voz para começar. Não tenho lá grande voz. Tenho a força, a capacidade de alcance e a resistência de um típico cantor de bar, mas não tenho uma grande beleza a nível de timbre, ou sequer categoria. Cinco actuações por noite? Sem problema. Três horas e meia de actuação? É possível. Necessidade de aquecimento? Quase nenhuma. A minha voz cumpre as devidas funções. Mas é o instrumento de um trabalhador a prazo, e por i só, nunca me levaria a voar alto. Preciso de recorrer a todas as minhas capacidades para conseguir comunicar em profundidade. Para conseguir vender o que vocês compram, tenho de escrever, tenho de editar, tocar, dar um grande espectáculo e, sim, cantar o melhor que me é possível. Sou uma soma de todas as partes. Cedo aprendi que isto não é motivo de preocupação. Todos os artistas têm os seus pontos fracos. Parte do sucesso deve-se a saber o que fazer com o que se tem e com o que NÃO se tem. Como disse o Clint Eastwood; «Um homem tem de saber os seus limites.» Depois há os que os esquecer e seguir em frente.

Bruce Springsteen em Born to Run

terça-feira, 12 de setembro de 2017

ESTADO DA NAÇÃO NO TEMPO DE BUSH


Lembro-me de trabalhar numa grande parte do Magic no meu escritório em Ramson, mas, agora, tendia a escrever em qualquer sítio e em qualquer momento. Já não esperava, como no passado, as digressões da composição. Muitas vezes escrevei no meu camarim antes do concerto; ou depois – no meu quarto de hotel. Tornou-se um método de meditação no início de uma noite agitada.
Em silêncio, perdido nos meus pensamentos, viajei até sítios onde nunca estivera, vi através dos olhos de quem nunca conhecera e revivi os sonhos de refugiados e forasteiros. Esses sonhos eram, de algum modo, também os meus. Sentia os seus receios, as suas esperanças, os seus desejos, e, quando estes eram bons, descolava do meu buraco no hotel e dava por mim de volta a uma estrada metafísisca em busca da vida e do rock ‘n’roll. O Magic foi a minha crítica ao estado da nação em tempo de guerra no Iraque e aos anos da presidência de Bush.
Contudo, no Magic apontei em todas as direcções, para que as partes política e pessoal se misturassem. Pode ouvir-se todo o álbum sem nunca se pensar na política actual, ou, em alternativa, pode-se senti-la por entre a costura interna da música, na sua batida mortiça.

Bruce Springsteen em Born to Run

    
 

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Se pusermos o coração na música, esta nunca envelhece.

Bruce Springsteen em Born to Run

O QUE TEM DE ERRADO ESTE CENÁRIO?


Eu já tinha participado em várias cerimónias do novo Museu e Rock and Roll Hall of Fame, em Cleveland. No seu segundo anos de existência, comparecera para homenagear o Roy Orbison e tive depois a honra de homenagear o Bob Dylan. Tratava-se de duas das minhas mais notórias influências. Ser escolhido para os homenagear no Hall of Fame significou muito para mim. Depois das cerimónias, durante o concerto de todas as estrelas, que, à época, incluía todos os músicos presentes, fiquei em palco com o Mick Jagger e o George Harrison, todos nós juntos num único microfone e cantei «I saw her standing there». E pensei: «O que tem de errado este cenário?» Como é que um miúdo de New Jersey acaba, nessa noite, entre dois homens, cujo trabalho influenciara de tal forma a sua alma, que ele tivera de seguir a estrada que eles haviam aberto diante dele, de segui-la com todas as suas forças?

Bruce Springsteen em Born to Run


sábado, 26 de agosto de 2017

SOMOS PRÓXIMOS UNS DOS OUTROS


Honramos os nossos pais quando conservamos na memória o de melhor tinham e faziam e deixamos o resto para trás. Quando combatemos e controlamos os demónios que os deitaram abaixo e que, agora, habitam em nós. É tudo o que podemos fazer se tivermos sorte. Tenho uma mulher que amo, uma bela filha e dois bonitos filhos. Somos próximos uns dos outros. Não sofremos de alienação e da confusão por que passei na minha família. No entanto, as sementes dos problemas do meu pai estão plantadas bem fundo no nosso interior… e, assim, resta-nos manter a vigilância.

Bruce Springsteen em Born to Run

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

SOMOS UMA NAÇÃO DE IMIGRANTES


The Ghost of Tom Joad abordava os efeitos da crescente divisão económica das décadas de 80 e 90, dos tempos difíceis e das consequências sentidas por muitas das pessoas cujo trabalho e sacrifício criaram a América, e cujo esforço é essencial para o nosso dia a dia. Somos uma nação de imigrantes, e ninguém sabe quem são aqueles que passam hoje as nossas fronteiras, pessoas cuja história pode acrescentar uma página importante à história americana. Agora, nos anos iniciais deste século, tal como no virara do último, estamos de novo em guerra com os nossos «novos americanos», Tal como no anterior, as pessoas chegarão, passarão por dificuldades e preconceitos, combaterão as forças mais reacionárias e os corações mais empedernidos do seu lar adotivo e provarão ser resistentes e vencedoras.
Eu sabia que The Ghost of Tom Joad não atrairia o grosso do meu público. No entanto, estava certo de que as canções que dele constavam vinham conformar novamente o melhor que sou capaz de fazer. O álbum trazia algo de novo, mas fazia também uma referência às coisas que eu tentara defender e que ainda desejava ter como meus cavalos de batalha enquanto compositor.


Bruce Springsteen em Born to Run

terça-feira, 8 de agosto de 2017

OS EMPREGOS DESAPARECERAM


«Youngstown» e «The New Timer», foram duas canções inspiradas por um livro chamado Uma Viagem a Nenhures, dos meus amigos Dale Maharidge e Michael Williamson. Ambas as canções narravam os efeitos pós- industrialização nos Estados Unidos e do fardo dos empregos perdidos, do trabalho subcontratado e do desaparecimento da nossa base de produção que recaía sobre os cidadãos cujo trabalho árduo construíra a América. Eu assistira a esta realidade em primeira mão quando a Tecelagem de Tapetes Karagheusian, sediada em Freehold, fechou a fábrica e rumou a sul de forma a obter trabalho mais barato e não sindicalizado, ao invés de resolver uma contenda laboral com os seus trabalhadores: Os empregos desapareceram. O meu pai trabalhara lá quando eu era miúdo, e a minha vida musical e os Castiles tinham nascido a menos de 45 metros das suas chaminés fumarentas e teares barulhentos. (A fábrica fechou em 1964, após 60 anos de laboração.)

Bruce Springsteen em Born to Run


sábado, 5 de agosto de 2017

E EU COMEÇAVA A RECEAR O VENTO


Benmont Tench, um dos músicos da banda do Tom Petty, pediu-me incessantemente, quase implorava que fossem incluídas outras canções nos espectáculos. A «Chimes of Freedom» - achas que podemos tentar? Ou por exemplo a «My Back Pages»? Ou «Spanish Harlem Incident»? E eu dava sempre uma desculpa esfarrapada. Na verdade não sei bem quem estava a desculpar-se porque tinha fechado a porta a mim mesmo. O problema era que, depois de ter confiado tanto tempo no instinto e na intuição, estes tinham-se transformado em abutres e estavam a deixar-me seco. Até a espontaneidade se tinha tornado numa cabra cega. Os meus montes de feno não estavam consistentemente e eu começava a recear o vento.

Bob Dylan em Crónicas




sábado, 22 de julho de 2017

NÃO SOMOS NÓS QUE DECIDIMOS


Nunca controlamos completamente a curvatura da nossa carreira. Os acontecimentos históricos e culturais criam uma oportunidade, determinada canção vem-nos parar às mãos e abre-se uma janela para o impacto, a comunicação, o sucesso, a expansão da nossa visão musical. Pode fechar-se de imediato para nunca se reabrir. Não somos nós que decidimos quando chegou o nosso tempo. Podemos ter trabalhado arduamente, honestamente, visando – de forma consciente ou inconsciente – uma certa posição, mas nunca sabemos mesmo se o nosso «grande» momento vai chegar. E de repente… ele aí está.

Bruce Springsteen em Born to Run

sexta-feira, 14 de julho de 2017

O MAIOR ÁLBUM DA MINHA CARREIRA


Às vezes os discos ditam as suas próprias personalidades e nós temos simplesmente de os deixar ser o que são. Era o caso de Born in the USA. Quando finalmente parei com as minhas hesitações, peguei no melhor daquilo que tinha e avancei para o que seria o maior álbum da minha carreira. Born in the USA mudou a minha vida, deu-me um público alargado, forçou-me a pensar ainda mais sobre a forma como eu apresentava a minha música e pôs-me por um breve instante no centro do mundo da pop.

Bruce Springsteen em Born to Run

terça-feira, 4 de julho de 2017

ENQUANTO O RESTO DO MUNDO DORMIA


Eram os «porquê» e «para quê» fundamentais que me levavam a pegar na guitarra. Sim as raparigas. Sim, o sucesso. Mas as respostas, ou melhor, aquelas pistas, era isso que continuava a acordar-me a meio da noite, para rolar para o lado contrário e desaparecer na caixa de som da minha cifra de seis cordas (que ficava sempre ao lado da minha cama) enquanto o resto do mundo dormia. Sinto-me contente por ter sido principescamente pago pelo meu esforço, mas a verdade é que o teria feito mesmo sem receber nada. Porque tinha de o fazer. Era a única maneira de eu encontrar um alívio momentâneo e o propósito de que andava à procura. Portanto, para mim, não haveria qualquer atalho. É pedir muito a um pedaço de madeira com seis cordas de aço e um par de microfones baratuchos acoplados., mas essa era a «espada» da minha libertação.

Bruce Springsteen em Born to Run

segunda-feira, 26 de junho de 2017

AQUILO É A MINHA VIDA



Os meus discos são sempre o som de alguém que tenta perceber o sítio onde deve pousar a sua mente e o seu coração. Eu imagino uma vida, depois visto-a, e vejo como é que me fica. Visto a pele de outra pessoa, a caminhar pelas ruas escuras e soalheiras que sou compelido a percorrer, mas posso não acabar a querer viver mesmo isso. É um pé na luz, um pé nas trevas, em direcção ao dia seguinte. A canção «The River» foi um marco na minha escrita. A influência da música country demonstrou ser presciente quando numa noite, no meu quarto de hotel, comecei a cantar o tema «My Bucket’s Got a Hole in It», de Hank Williams, e o Well, I went upon the mountain, I looked down in the sea (Bem, subi ao cimo da montanha, olhei para o mar em baixo) acabou por me levar de alguma forma até I’m going down in the sea… (Estou a descer até ao rio). Peguei no carro, regressei à minha casa de New Jersey e sentei-me à pequena mesa de carvalho do meu quarto, a observar o céu da alvorada a transformar-se de negro para azul e imaginei a minha história. Era apenas um tipo num bar a falar com um estranho sentado no banco ao lado. Baseei a canção na crise da indústria da construção civil na Jersey de finais dos anos 70, na recessão e nos tempos muito duros que atingiram a minha irmã Virginia e a família dela. Vi o meu cunhado a perder o seu trabalho bem remunerado e, sem nenhum queixume, a ter de trabalhar arduamente para sobreviver. Quando a minha irmã ouviu a canção pela primeira vez, foi aos bastidores, abraçou-me e disse: «Aquilo é a minha vida.» Essa continua a ser melhor crítica que eu já tive. A minha bela irmã, forte e de pescoço erguido, funcionária do K-Mart, mulher e mãe de três filhos, a segurara-se com força e a viver de que eu fugira o mais depressa que pude.

Bruce Springsteen em Born to Run

sábado, 17 de junho de 2017

ATÉ APAZIGUARMOS A NOSSA ALMA...


Fora da estrada, a vida era uma confusão. Sem aquela dose noturna de adrenalina ministrada pelo espetáculo, eu ficava um bocado perdido, deixando que me viesse bater à porta o que quer que fosse que me andava a corroer. Fora do estúdio e da estrada, eu… não existia. Acabei por ter de enfrentar o facto de que não estou bem a descansar, portanto, não posso descansar para poder estar bem. Os concertos mantinham-me focado e sereno, mas não podiam resolver os meus problemas. Não tinha família, não tinha casa, não tinha uma vida real. Não é nenhuma novidade; muitos artistas vão dizer-vos a mesma coisa. É uma maleita bastante comum, assim uma espécie de perfil típico da minha profissão. Nós somos viajantes, gente que corre estrada fora, e não gente que fica quieta. Mas cada homem e cada mulher acabam por correr ou ficar à sua própria maneira. Eu percebi finalmente que uma das razões de os meus discos levarem tanto a fazer era que eu não tinha mais nada para fazer; não havia mais nada em que me sentisse confortável a afazer. Por isso, porque não fazer como cantava o Sam Cooke, e levar «a noite inteira… a noite inteira… a noite inteira»? As minhas gravações eram como um regresso à caminhada de três quarteirões até à escola, que todas as manhãs eu tentava prolongar até à eternidade. Get in the groove and let the good times roll, we gonna stay here ‘til we soothe our soul. (Entra no ritmo e deixa correr as coisas boas, vamos ficar por aqui até apaziguarmos a nossa alma.)
Até apaziguarmos a nossa alma… isso era capaz de levar algum tempo.

Bruce Springsteen em Born to Run