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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

HERBERTIANAS


A Biblioteca da Casa não é apenas depositária de livros e discos, também de uma série numerosa de diversos dossiers respeitantes a escritores e artistas que merecem a nossa atenção.

É o caso de Herberto Helder.

Do dossier de Herberto Helder tiramos, hoje, uma entrevista-relâmpago feita pela escritora Maria Teresa Horta, e publicada no suplemento literário de A Capital de  10 de Abril de 1968.

Maria Teresa Horta foi uma das suas amigas e confidentes.

Na biografia de João Pedro George, pode ler-se na página 309:

«Era uma daquelas noites em que Herberto, depois das suas caminhadas pelas ruas de Lisboa, acabava em casa de Maria Teresa Horta. Passou-se provavelmente no último semestre de 1962 e Herberto apareceu-lhe com um manuscrito, algo que tinha começado a escrever no estrangeiro, entre a Bélgica e a Holanda, passando por França e outros países, e que foi continuando a compor em Lisboa e em Santarém. Luiz Pacheco lembrava-se, inclusive, de o ter ouvido ler alguma partes de Os Passos em Volta.»


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

segunda-feira, 20 de maio de 2024

POSTAIS SEM SELO


A direita continua a gostar de mulheres em casa.

Maria Teresa Horta

Legenda: imagem do Livro da Primeira Classe, capítulo «A Dona de Casa». A mãe a dizer para Emilita que quando for grande há-de ser uma boa dona de casa.

sábado, 13 de abril de 2024

VIAGENS POR ABRIL


 Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                     João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.  

13 de Abril de 1974

As Viagens de Abril podem levar-nos a tempos que, esperávamos que não mais poderiam voltar, mas apareceu por aí uma pandilha, com azáfama demoníca, que exigem, à viva força, que as mulheres voltem para casa porque, como dizia o botas de santa comba, «o trabalho das mulheres fora de casa não deve ser incentivado porque uma boa dona de casa tem sempre muito que fazer», que volteam a ser mulheres-despeja-penicos , que lhes lavem os pés, que lhes cortem as unhas, que tenham o jantar pronto quando eles chegam a casa, no fundo dos fundos, que as donas-de-casa, tenham um estatuto.

Esta gente católica, prufundamente reacionária e ignorante, não tem ponta de vergonha, não entendem que o mundo está sempre a pular e a avançar.

E não se pode exterminar?, tal como ouvi gritar, numa peça de Karl Valentin, encenada por Jorge Silva Melo, em 1979, no saudoso Teatro da Corbucópia, no Bairro Alto.

Mas fechemos a triste viagem de hoje, lembrando partes de outras tristezas.

A censura proibia qualquer notícia relativa ao «Julgamento das Três Marias» em que as escritoras Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno, eram acusadas de «a partir de data ignorada de Outubro de 1971, terem escrito em conjunto, mediante prévia combinação, um livro ao qual deram o título de “Novas Cartas Portuguesas que contém diversas passagens de conteúdo imoral e pornográfico, atentórias da moral pública.”
Como poderiam, aquelas almas penadas-censórias, que mal ouviam falar de cultura puxavam da pistola, ter outros procedimentos que não estes?

Só (?) a MariaTeresa Horta sabe a autoria dessas maravilhosas cartas. Prometeu que nunca as revelará. Estranha atitude, mas enfim!... Que se terá passado na cabeça das moças?

Sabe-se apenas que a primeira carta é de Isabel Barreno.

                                                                                                    

                                                                                               Primeira carta

Pois que toda a literatura é uma longa carta a um interlocutor invisível, presente, possível ou futura paixão que liquidamos, alimentamos ou procuramos. E já foi dito que não interessa tanto o objecto, apenas pretexto, mas antes a paixão; e eu acrescento que não interessa tanto a paixão, apenas pretexto, mas antes o seu exercício.
 
Não será portanto necessário perguntarmo-nos se o que nos junta é paixão comum de exercícios diferentes, ou exercício comum de paixões diferentes. Porque só nos perguntaremos então qual o modo do nosso exercício, se nostalgia, se vingança. Sim, sem dúvida que nostalgia é também uma forma de vingança, e vingança uma forma de nostalgia; em ambos os casos procuramos o que não nos faria recuar; o que não nos faria destruir. Mas não deixa a paixão de ser a força e o exercício do seu sentido.
 
Só de nostalgias faremos uma irmandade e um convento, Soror Mariana das cinco cartas. Só de vinganças, faremos um Outubro, um Maio, e novo mês para cobrir o calendário. E de nós, o que faremos?
 
1/3/71

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

POSTAIS SEM SELO

É este o cântico da mulher amada?

Maria Teresa Horta em Ana

Legenda: ilustração de Leonor Fini em Ana de Maria Teresa Horta.

quarta-feira, 8 de março de 2023

O FECHAR DOS TAIPAIS


 Assim entendia Salazar o papel da mulher na sociedade.

«O trabalho das mulheres fora de casa não deve ser incentivado. Uma boa dona de casa tem sempre muito que fazer.

Salazar em 1936.

A mulher quer-se é em casa. A mulher obesa e estúpida que despeja penicos e põe as refeições na mesa. Nas casas de muitas infâncias podia encontrar-se um quadrinho que dizia: «Cá em casa manda ela e nela mando eu».

Tal como dizia a mãe à Emilita: «Quando fores grande, hás-de ser uma boa de casa.», lia-se no Livro Único da Terceira Classe

«Elas são quatro milhões, o dia nasce, elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café. Elas picam cebolas e descascam batatas. Elas migam sêmeas e restos de comida azeda. Elas chamam ainda escuro os homens e os animais e as crianças. Elas enchem lancheiras e tarros e pastas de escola com latas e buchas e fruta embrulhada num pano limpo. Elas lavam os lençóis e as camisas que hão-de suar-se outra vez. Elas esfregam o chão de joelhos com escova de piaçaba e sabão amarelo e correm com os insectos a que não venham adoecer os seus enquanto dormem. Elas brigam nos mercados e praças por mais barato. Elas contam centavos. Elas costuram e enfiam malhas em agulhas de pau com as lãs que hão-de manter no corpo o calor da comida que elas fazem. Elas vêm com um cântaro de água à cinta e um molho de gravetos na cabeça. Elas limpam as pias e as tinas e as coelheiras e os currais. Elas acendem o lume. Elas migam hortaliça. Elas desencardem o fundo dos tachos. Elas passajam meias e calças e camisas e outra vez, meias. Elas areiam o fogão com palha de aço. Elas calcorreiam a cidade a pé e à chuva porque naquele bairro os fatos-macacos são caros. Elas correm esbaforidas para não perder o comboio, o barco. Elas pousam o cesto e abrem a porta com a mão vermelha. Elas põem a tranca no palheiro. Elas enterram o dedo mínimo na galinha a ver se tem ovo. Elas acendem o lume. Elas mexem o arroz com um garfo de zinco. Elas lambem a ponta do fio de linha para virar a camisa. Elas enchem os pratos. Elas pousam o alguidar na borda da pia para aguentar. Elas arredam a coberta da cama. Elas abrem-se para um homem cansado. Elas também dormem.»

Maria Velho da Costa em Cravo

Em Outubro de 1970, uma reportagem do Diário de Lisboa, referia que a escassez da mão-de-obra masculina – a emigração e a guerra colonial levava os homens do país… - e o pagamento inferior do trabalho feminino tinham feito surgir de mulheres a trabalhar nas estradas nacionais em reparação. Quarenta mulheres em Alcácer do Sal, sob sol escaldante, lançavam e espalhavam o saibro na estrada.

Então, o encarregado da obra soube dizer ao repórter: «Elas são melhores para este trbalho. Dobram-se melhor. Os rins delas aguentam-se mais tempo curvados e são menos insofridas do que os homens».

Faltou-lhe dizer que também ganhavam muito menos do que os homens.

No século XVII, já um tal D. Francisco de Melo se ria dos que julgavam as mulheres intelectualmente aos homens.

«Diz mulher ao teu país como lutaste até hoje o que fizeram de ti o que quiseram que fosses como prenderam teu grito sob a boca amordaçada mas como cantaste assim do teu teu desgosto apertada.»

Maria Teresa Horta em Mulheres de Abril.

terça-feira, 25 de maio de 2021

NOVAS CARTAS PORTUGUESAS


O jornal Público atingiu níveis de ilegibilidade. Pelo menos para os meus olhos. Virou neo-liberal e de direita.

Mas ainda mantém uns certos laivos de outros bons tempos. É o caso de ter iniciado uma colecção, Censura no Feminino, que reúne 10 obras de autoras portuguesas proibidas pela Censura, publicadas em fac-símile, e custam, cada um, 6,50 euros.

O primeiro volume da colecção foi Novas Cartas Portuguesas de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa.

Pelos temas abordados, pela qualidade da escrita, o livro terá de ser, obrigatoriamente, lido por quem nunca o fez e passarão a saber da dimensão política e social que contém. Os tempos eram os da enganosa primavera política de Marcelo Caetano mas ainda hoje retém uma assombrosa actualidade.

«E a minha mãe fartou-se de moer o meu pai com palavras e choros, homem não te metas nestas coisas, olha o resultado que dá, a gente aqui a morrer de fome e os outros de barriga cheia, que o patrão não os castigou mas só a ti que eras o das ideias.

Que uma das tarefas dos patrões é a de castigar os empregados e a tarefa dos empregados é a de trabalhar para os patrões a fim de estes ficarem mais ricos e mais patrões. Talvez eu um dia case com um patrão.

A verdade é que isso não quer dizer nada, pois quando o meu pai vem bêbado e bate na minha mãe, grita: aqui eu é que sou o patrão. E ela cala-se e põe-se a chorar baixinho.»

Segundo Ana Luísa Amaral, foi em Maio de 1971, que Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa decidiram escrever um livro a seis mãos.

Em Janeiro de 1972 dão a obra como concluída e, em Abril, o livro seria publicado  pelas Estúdios Cor, então com direcção literária de Natália Correia que, mesmo tendo sido instada a cortar partes da obra, a publicou na íntegra.

O  pide-censor, a quem a obra foi atribuída para leitura e opinião, não teve dúvidas:

«Sou do parecer que se proíba a circulação no País do livro em referência, enviando-se o mesmo à Polícia Judiciária para efeitos de instrução e processo-crime».

No processo podia ainda ler-se que o livro era pornográfico e a tentório da moral pública.

A Pide invadiu a editora e as livrarias e procedeu à apreensão da obra.

Chamadas à esquadra, as três autoras só não foram imediatamente presas porque Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa pagaram uma caução de quinze contos. Maria Isabel Barreno, por sua vez, provou que não tinha posses para isso e, em contrapartida, teve de comparecer uma vez por mês na polícia, para ofício de corpo presente. Posteriormente, David Mourão-Ferreira emprestou-lhe o valor para que também ela pudesse pagar a caução.

O julgamento começou a 25 de Outubro de 1973 e, nos interrogatórios, a acusação tentou por todos os meios saber quem escrevera o quê. Nunca o souberam e, Maria Teresa Horta, a única das autoras que ainda está entre nós, sobre essa autoria,  já disse que levava com ela o segredo.

O julgamento nunca veio a ter um fim.

Em Abril de 1974, um juiz mandava em paz as três Marias. 

Um livro de coragem dentro do cinzentismo ditatorial daqueles dias tão amargos.

Ana Luísa Amaral, é de opinião que o livro está muito além do seu tempo. Como as grandes obras normalmente estão. Entendo que este livro é uma grande obra, é um grande livro dentro da literatura portuguesa do século XX, dentro da história dos direitos humanos do século XX.

«Nas ancas tenho ainda a marca dos teus dedos; a marca da tua boca, o traço molhado da tua língua, dos teus dentes.

Desço:

macio deve ser o chão que as árvores conservam com a sua seiva.

Não necessàriamente meu amor sem ti a liberdade ou a pressa de morte do meu corpo»

segunda-feira, 8 de abril de 2019

SARAMAGUEANDO


O meu pai dizia que devemos ler alguns maus livros.

João Bénard da Costa era de opinião que devemos ver maus filmes porque podem ter por lá perdido algo que valha a pena ver.

Franz Kafka citado um destes dias pelo Manuel S. Fonseca na sua blogueira Página Negra: «Acho que deve­mos ler o tipo de livros que nos abram feri­das, que nos esfa­queiem».

Quando soube da publicação deste livro de Joaquim Vieira, sabendo de experiências anteriores como as que fez com Francisco Pinto Balsemão e Mário Soares, questionei-me se o iria ler.

Estava nesse mar de dúvidas, quando o meu filho Mário pediu um livro para me colocar no saco do Pai Natal e chutei o do Joaquim Vieira.

Corria ainda Dezembro, uma semana para ler as suas 751 páginas.

Repetir a leitura de algumas páginas pelos dias que se foram seguindo.

Com a chegada da Primavera, o escrever, finalmente!, algumas palavras sobre as diversas leituras.

Começo por sentir excessivas as largas páginas que, ao longo do livro são dedicadas ao facto de José Saramago gostar de mulheres. Há mesmo um capítulo, o 6º, com as suas 30 páginas, que Vieira não resistiu à tentação de titular:  «O Pinga-Amor».

Em 1977, François Truffaut realizou L'Homme qui aimait les femmes.

É do filme que me lembro quando leio o rol de mulheres que andaram com, por, Saramago, mulheres por quem mostrou amor, simpatia ou quaisquer rituais de sedução.

Só ele saberia dizer o porquê, se a tanto achasse útil ou necessário.

Largamente referido é o relacionamento que Saramago manteve com a escritora Isabel da Nóbrega.

Corria o ano de 1954, Isabel da Nóbrega, com 31 anos, abandona o marido e os seus três filhos para ir viver com João Gaspar Simões, ao tempo um escândalo.

Pelo ano de 1966 acontece o grande romance entre José Saramago e Isabel da Nóbrega, «o amor da vida dela», no dizer de Maria Velho da Costa.

Em 1977 Saramago conhece Pilar mas a relação com Isabel da Nóbrega já, há algum tempo, esfriara.

Deixo apenas um pormenor curioso: Isabel da Nóbrega sempre acreditou que um dia, José Saramago ganharia o Prémio Nobel.

Numa entrevista à Visão, Joaquim Vieira conta a seguinte história:

 «Quando o pai de Isabel da Nóbrega morreu, em 1985, os irmãos fizeram as partilhas. Na casa, todos estavam à volta das pratas na sala, mas ela só estava preocupada com a roupa no quarto, queria a casaca do pai. A filha perguntou-lhe porquê. Ela respondeu: ‘Porque o José, qualquer dia, vai ser Nobel e eu tenho que levar a casaca para ele receber o prémio.»

Diversos são os depoimentos em que se procura transmitir que Isabel da Nóbrega escrevia, ou largamente emendava, as crónicas que Saramago publicava nos jornais.

De um depoimento de Ana Isabel, filha da escritora:

«A minha mãe escrevia em cima de uma tábua no sofá e ele na mesa de trabalho da minha mãe. Quando ele acabava de escrever as crónicas, levava-as à mãe e ela lia e dizia-lhe: “José, e se experimentasses pôr assim?” E ele sentava-se e tornava a escrever.»

Carlos Leça da Veiga: 

«Ela fez dele, que era um labrego, um senhor. Se não fosse a Isabel, quem seria o Saramago, que nem sabia comer à mesa?

Maria Velho da Costa:

 «Uma mulher que fez tudo por ele, ensinou-o a comer e beber.»

Passo ao lado dos muitos depoimentos de gente que entendeu não dar a cara porque foram amigos de Isabel da Nóbrega e Saramago, amigos ficaram quando Saramago se relacionou com Pilar.

Há depoimentos estranhos, como os de Mário Ventura Henriques, inúteis como os do Sr. Fernando Canhão, filho de um dos patrões da Estúdios Cor onde Saramago trabalhou como encarregado da produção literária, depoimentos de muita gente que desconheço e que outro propósito não têm senão o dum botabaixismo que apenas visa desacreditar a pessoa e o escritor José Saramago.

A dois depoimentos devidamente identificados, terei que dizer que estão no livro por pura inveja, despeito ou algo difícil de catalogar: os de Maria Teresa Horta e o de José Jorge Letria.

Maria Teresa Horta, algo que terá a ver com o relacionamento editorial de Luís de Barros, seu marido, com José Saramago, enquanto ambos estiveram na direcção do Diário de Notícias.

Mas ainda em vida, José Saramago referiu Maria Teresa Horta.

Faz parte da entrevista que Joaquim Vicente teve com José Manuel dos Santos que foi assessor de Mário Soares:

«Fui almoçar com ele ao Farta Brutos, até para combinar várias coisas, nomeadamente a condecoração. E no meio da glória nacional, ele diz-me assim:
«A Maria Teresa Horta disse que, lendo os meus livros, se percebia logo que eu nunca iria ser um grande escritor. Está-se a ver agora.» O que eu achei mais extraordinário foi esta conversa, dois ou três dias depois de o Saramago estar cá. No meio daquele coro de louvores. Fiquei muito impressionado, porque a grande coisa de que ele se lembrava era disso, A Maria Teresa Horta era uma pessoa que o estava a marcar profundamente, e ainda por cima tinha afinidades políticas com ela. Ela, aliás, saltou logo no dia do Prémio, dizendo que o Nobel não devia ter sido dado ao Saramago, devia ter ido para a Agustina ou para Sophia».

Quanto ao que José Jorge Letria diz ao longo do livro, remeto para a mente doentia que o tem acompanhado toda a vida. Um ódio que, certamente, por falta de coragem nunca o diria na cara de Saramago. Seria, simplesmente arrasado. Em 1978 pediu a José Saramago que lhe escrevesse um prefácio para o seu livro Os Dias Contados. Saramago sabendo das não qualidades literárias e intelectuais de Letria disse-lhe que não. Letria não lhe perdoou e Joaquim Vieira escreve que José Jorge Letria não o revelara antes, mas agora disse:

«Ele nunca foi para mim um escritor referencial. Eu teria visto também com satisfação o Nobel ser dado a Agustina Bessa-Luís, por exemplo. Não é por receber o Nobel que ele se transforma numa estátua.»

O que ressalta em muitos dos depoimentos recolhidos por Joaquim Vieira para o livro,  é que a atribuição do Prémio Nobel da Literatura não agradou aos companheiros de escrita de Saramago. Para muitos – e não são assim tão poucos! - custa a engolir que um pé descalço nascido na pobreza angustiante de uma aldeia ribatejana, um aprendiz de  serralheiro, um autodidacta que, em jovem, não tinha um único livro em casa,  que passava noites nas mais diversas leituras na Biblioteca de Galveias, um comunista confesso, sem vontade alguma de o deixar de ser, apesar de tanto coisa que o poderia ter levado a sair do Partido, tenha conseguido subir a pulso e construir a obra que lhe permitiu  um dia chegar aonde chegou.

Não é difícil perceber que na intelectualidade portuguesa, seja qual for a época, campeia o ciúme e a inveja.

Como observou Luiz Pacheco:

«Aí a raiva de muita gente não foi contra o escritor – que não lêem – nem foi contra o próprio Saramago - que não conhecem de parte nenhuma -, foi contra o comunista que ganhou o Nobel. E também contra o gajo que ganhou cento e tal mil contos! Inveja em estado puro.»

Dando-lhe os devidos descontos, por exemplo, entradas em domínio da vida privada algo desnecessárias, esta Rota de Vida ajudará muitos leitores a perceber o percurso de uma das personagens, doa a quem doer, mais importantes da nossa história recente.

José Saramago: a persistente ideia de morrer idêntico ao que sempre foi.

Durante alguns dias, irei Saramaguear por aqui, transcrevendo algumas passagens do livro de Joaquim Vieira que, por isto ou por aquilo, entendo terem algum interesse.

domingo, 28 de janeiro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Sobre as Feiticeiras

Jules Michelet
Tradução: Manuel João Gomes
Prefácio: Roland Barthes
Comentários: Afonso Cautela, Manuel João Gomes, Maria Alzira Seixo,
                         Maria Teresa Horta
Edições Afrodite, Lisboa, Novembro de 1974

O tenebroso tema de que tratei é semelhante ao mar. Quem nele mergulhar muitas vezes acaba por aprender a ver. A necessidade cria sentidos. Assim o testemunha aquele singular peixe de que fala Forbes (Pertica astrolabus), o qual, vivendo no fundo do mar, criou um olho especial capaz de captar e concentrar as luzes que descem até às profundidades. À primeira vista, a feitiçaria tinha, para mim, a unidade da noite. Pouco a pouco verifiquei que era múltipla e muito diversificada.

domingo, 9 de julho de 2017

RELACIONADOS


Cada vez me espanto mais com os recortes que guardei ao longo dos anos sobre as coisas mais variadas e muitas – hoje – inexplicáveis.

Não é o caso do Suplemento Literário de A Capital dos dias 20 e 27 de Agosto de 1969.

Bons tempos em que havia suplementos literários, havia divulgação cultural, havia, boa ou má, crítica literária.

Esta é a apresentação que Maria Teresa Horta escreveu para o suplemento de 20 de Agosto:


Poemas e poetas antologiados:

Identidade – Miguel Torga
A Bicicleta pela Lua Dentro – Herberto Helder
XXVII – José Gomes Ferreira
Renúncia – Florbela Espanca
Fado para a Lua de Lisboa – David Mourão-Ferreira
Noite de Verão – Manuel da Fonseca
Noite Fechada – Cesário Verde
17 – João Apolinário
Apolo – Sebastião da Gama
Quando a Lua Vier Tocar-me o Rosto – Ana Hatherly
Lua – Sophia de Mello Breyner Andersen

Do poema de Manuel da Fonseca os Trovante fizeram uma canção que consta do álbum «Terra Firme» de 1987:



 Esta é a apresentação que Maria Teresa Horta escreveu para os depoimentos que solicitou:


Responderam ao inquérito:

José Gomes Ferreira, João Rui de Sousa, E,M, de Melo e Castro, David Morão-Ferreira, Maria Alberta Meneres, Manuel da Fonseca, Ana Hatherly.

Do depoimento de Maria Alberta Meneres:

«Nunca me preocupei com o lugar que a Lua tem ou não ocupado na minha poesia. Mas hoje, 14 de Agosto de 1969, lembrei-me de me preocupar. E descobri esta coisa espantosa, de perfeitamente inesperada: em vez de me ter sentido atraída, parece que devo ter tido sempre um certo medo da Lua!
Para mim agora a Lua é essencialmente um lugar. Não sei se os poetas continuarão a falar nos seus poemas da Lua de que falavam, ou de outra Lua de nunca falaram, nem sei mesmo se seria da Lua que eles falavam quando falavam da Lua. Eles o saberão ou não.
Eu apenas sei de mim: porque hei-de deixar de falar da Lua nos meus poemas, quando me apetecer, se a Lua sendo um lugar, pode ser meu caminho de passagem para outros lugares?»

Este é o depoimento escrito que José Gomes Ferreira enviou para Maria Teresa Horta:

POR MEDO DE ESTRAGAR O LUAR


 17 de Agosto de 1969

Para uma antologia sobre a Lua que a Maria Teresa Horta vai publicar n’ A Capital escrevi meia dúzia de palavras a respeito da viagem dos três astronautas. Confessei honestamente que não assisti à descida na Lua «por espírito de contradição» e por medo de estragar o luar.
Sempre são homens.
Nunca fiando…

                                                               *

- Afinal – dizia a Maria Teresa Horta pelo telefone, espantada – essa história de os Poetas portugueses fazerem versos à Lua é uma lenda. São pouquíssimos os que a cantam directamente.

                                                               *

Para mim, a Lua é, sobretudo, uma palavra – concluí eu a minha conversa telefónica com a Maria Teresa Horta, feliz de descobrir naquele momento (mas descobrir mesmo) uma banalidade tão velha.

José Gomes Ferreira em Livro das Insónias Sem Mestre VIII volume dos Dias Comuns.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

À CONVERSA


Perguntaram-lhe:

Gostas de futebol?

Respondeu:

Gosto imenso de futebol. Mas ainda gosto mais do Benfica. Sou assim desde que nasci, acho que já nasci do Benfica. Eu sou sócia do Benfica, os meus netos são sócios do Benfica, o meu filho é sócio do Benfica. É tudo. Na minha família, de um lado ou de outro, por acaso era tudo do Benfica. Apaixonadamente. Sou uma apaixonada muito grande.

Maria Teresa Horta, entrevistada por Ana Sousa Dias e publicada no Diário de Notícias

sábado, 3 de setembro de 2016

MARIA ISABEL BARRENO (1939-2016)


Morreu esta tarde Maria Isabel Barreno, investigadora, escritora, e juntamente com Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta, uma das escritoras julgadas no processo conhecido por «Caso das Três Marias».

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

UMA MISSA NEGRA


Tirado da badana de Missa in Albis de Maria Velho da Costa

segunda-feira, 4 de abril de 2016

JOSÉ GOMES FERREIRA, POR ELE PRÓPRIO


No dia 14 de Março de 1969, José Gomes colocou nos seus Dias Comuns:

Telefonaram-me agora da Philips a convidar-me a gravar um disco para vender em Portugal e no Brasil. Aceitei em princípio.

A 18 de Março, volta ao assunto:

A voz dos poetas a dizerem versos nos discos…
Porque não o ranger das penas no papel?...
É talvez a verdadeira voz dos poetas.


Na véspera, não se sabe se a propósito do disco, escreveu uma só frase…

A vaidade entristece o mundo…

Entrada de 19 de Março:

Passei a noite a ler em versos em voz alta… Mas aconteceu uma tragédia. Como tenho dentadura nova, senti na boca uma mistura desagradável de palavras com favas sibilantes. E pedras. Vou fazer uma linfa figura de poeta tatibitates para a eternidade dos meses curtos!
E, sobretudo, não gosto dos meus versos. São do outro.


No dia 2 de Abril volta a falar do disco:

Ontem à noite comecei a gravar o meu disco. Voltei para casa fatigadíssimo e passei toda a noite excitado, sem dormir - com uma insónia de deus tenso.
Odeio a minha voz – solene, cantada, boa para sermões redondos. Lutei toda a noite com ela. Em vão! Não consegui torna-la num chicote rude.

No dia 18 de Abril:

Hoje almoço da gente da Philips com a da Portugália a propósito do meu Disco.
Almoço neo-capitalista no último andar do Hotel Eduardo VII com o panorama de Lisboa a comer connosco à mesa.
Almoço de comida complicada que me suscitou uma enorme sonolência…
- É o neo-capitalismo que conseguiu entrar em mim, para me atacar de dentro para fora… Para me adormecer… - expliquei ao Nikias esta tarde no Palladium.

O disco, com a referência 841 402 PY, teve produção de João Martins, reproduz uma fotografia de Nuno Calvet e inclui um encarte com a transcrição dos poemas ditos por José Gomes Ferreira, bem como palavras de Maria Teresa Horta, Carlos de Oliveira e Augusto Abelaira.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

OLHAR AS CAPAS


12 Poemas Para Vasco Gonçalves

António Ramos Rosa, Armando Silva Carvalho, Casimiro de Brito, Eduardo Olímpio, Egito Gonçalves, Eugénio de Andrade, Gastão Cruz, J.J. Letria, José Barreiros, José Ferreira Monte, Maria da Graça Varela Cid, Maria Teresa Horta
Com um cartaz de Armando Alves e um desenho de José Rofrigues
Colecção O Oiro do Dia nº 9
Editorial Inova, Abril de 1976

A tua voz excessiva tornava-os mais pequenos.
Eles exigiam-te palavras untuosas,
as secas flores da jactância,
seu sono e alimento.
A verdade saía da tua boca iluminada
e eles tinham os ouvidos postos na mentira
no bocejo intrigante, na fala camuflada.
A tua voz recuada na origem não se perdia
nos afazeres verbais da litigância
não sabia a ganância.
Era o vento dos pobres sobre os metais do luxo.
Não te punhas a embalar o povo
como à criança que tarda a adormecer.
Atiravas-lhe à cara as palavras abruptas
um rosto incorruptível por marés de ferrugem
e gestos de morrer.

A tua fronte vasta tornava-os mais pequenos.
Nela despertava o susto das mães familiares,
o trigo parco dos homens nas tabernas
que te olhavam ingénuos vendo a seara crescer.
Ao colo dos pais os meninos sorriam
e os velhos viam coisas saltar dos teus cabelos.
Mas eras tu que soltavas a vida
amarrada a um poste como um burro de carga
a vida desavinda que os enraivecia
e que lhes dava um coice na pança saciada.

Aqui perde-se o tempo a trabalhar as lendas.
Mas o teu rosto não pode adormecer
sobre a toalha tépida que tece a tua ausência
onde derramo o choro e os outros vão beber.
Porque o teu pulso não suportava a febre
e erguia-se no ar como um pássaro agudo
que respirasse os ventos antes de partir.

Sobre o ladrar dos cães a tua voz alteia
como a papoula que o tempo não desfolha
a coluna de fogo que cai sobre a alcateia.
És o lagar imenso onde as uvas fermentam
sob os pés descalços e vivos da memória.
És a boca que a História utilizou por boca
o corredor onde o orvalho cresce entre a juventude
e os homens se passeiam com trigo na cintura.
Neste lugar de Inverno lembramo-nos de ti
como quem desperta.
Ninguém aqui precisa de recuar no tempo
nem das sereias que engolem o nevoeiro.
Ninguém aqui suporta que tu voltes
como um Desejado
com o seu cortejo de rotas feiticeiras
que gritem pelo teu nome junto aos becos do mar
com as suas luas gordas de saudade e preguiça.
Teu nome está de pé como um mastro
de cal rubra.
Estás aqui, entre nós, no meio do teu País.
Connosco vais contigo porque o povo assim o quis.


Armando da Silva Carvalho

terça-feira, 24 de março de 2015

HERBERTO HELDER (1930-2015)


Corria o Natal de 1970 e eu encontrava-me na Livraria Portugal à procura de um livro para oferecer a mim mesmo.

Herberto Helder apenas o conhecia de nome, referido nos suplementos literários que, uma vez por semana, os jornais publicavam.

A capa colorida da 3ª edição de Os Passos em Volta de Herberto Helder, publicado pela Editorial Estampa, chamou-me a atenção.

Peguei-lhe e os olhos caíram logo nas palavras iniciais.

Gosto imenso de começos de livros. Nem todos ficam para a minha história.

Este ficou.

- Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade enorme de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio.

Herberto Helder morreu ontem.

Tinha 84 anos.

Fugia de holofotes, multidões, mediatismos.

Em 1994, foi-lhe atribuído o Prémio Pessoa pela sua obra que, segundo o júri, iluminava a língua portuguesa.

Uma pipa de massa para quem tinha uma reforma curta.

Mas Herberto Helder recusou a distinção.

António Alçada Baptista e Clara Ferreira Alves, em nome próprio e do Expresso, tentaram demovê-lo.

Conta o Alçada Baptista:

O Herberto estava na sala. Falou à Clara e depois a mim.

Eu disse, meio a brincar meio a sério:

 - Vimos numa difícil missão...

Ele, com toda a simplicidade dele, disse-me logo que não, calculando que era um prémio.

Não foi possível demovê-lo e sentimos que aquilo era tão fundo e tão importante para ele que não devíamos insistir. Ele disse:

- Vocês não digam a ninguém e dêem o prémio a outro...

- Não pode ser, o júri escolheu-te a ti, a decisão está tomada; respeitamos que digas que não...

Ele ainda acrescentou:

- Peço que sejam meus mandatários e digam ao júri que eu agradeço mas não posso aceitar.

Eu queria transmitir bem que não havia aqui nenhuma arrogância: a sua recusa não era contra ninguém. Era uma decisão do seu eu mais íntimo, que logo nos mereceu o maior respeito.
Eu só lhe disse:

- Eu já gostava de ti e vi agora que é possível ainda gostar mais.

Em Julho do ano passado publicou o seu último livro.

O título diz tudo: Morte Sem Mestre.

Um escritor como Herberto não necessita de palavreado encomiástico.

Porque sempre o considerou inútil e perene de hipocrisia.

Não gostava de dar entrevistas, nem de se deixar fotografar.

Foi um Natal feliz aquele de 1970.

Gosto de poetas misteriosos.

Gosto de autores que não consigo entender.

Sempre passos em volta.

Em volta sabe-se lá de quê.

Maria Teresa Horta:

Quantas vezes me prendi eu nas malhas envolventes da poesia de Herberto Helder e senti medo de não ser capaz dos seus poemas.

Luna Levi sobre Photomaton e Vox:

Devorei-o de um fôlego, num acesso de bebedeira deslumbrada.

É suficiente.

O resto é pegar nos seus livros.

Alguns de há muito esgotados.

Mas, certamente, irão ser reeditados.

Não os percam!

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

quinta-feira, 8 de maio de 2014

TRÊS MARIAS DE CRAVO AO PEITO


Há 40 anos, no Tribunal da Boa-Hora, o juiz Acácio Lopes Cardoso, mandava em paz Três-Marias de cravo ao peito.

Interrompido pelo 25 de Abril, o processo tinha em vista a condenação de Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno, o editor da Estúdios Cor, Romeu de Melo, por terem escrito e publicado um livro pornográfico, imoral e obsceno, atentório da moral pública para além de muito mal escrito.

Apreendido pela Pide em 1972, cinco dias depois de ter saído para as livrarias, Novas Cartas Portuguesas é uma escrita a seis mãos, sem qualquer regra pré determinada, mas em que nenhuma das autoras interferiria nos textos de cada uma.

Um livro de coragem dentro do cinzentismo do Estado Novo.

As autoras nunca revelaram quem escreveu o quê.

Maria Teresa Horta já declarou que, muitas vezes, tem dúvidas e pede ajuda às outras duas autoras.

Não será bem assim, mas que fique a lenda.

Elas baralharam e voltaram a dar.

Não deixa se ser um inteligente e divertido passatempo para as noites de Inverno, tentar
descobrir o que escreveu Velho da Costa, Teresa Horta, Isabel Barreno.

Ana Luísa Amaral que, em 1990 preparou para as Publicações Dom Quixote, uma reedição das Novas Cartas Portuguesas, é de opinião que o livro está muito além do seu tempo. Como as grandes obras normalmente estão. Entendo que este livro é uma grande obra, é um grande livro dentro da literatura portuguesa do século XX, dentro da história dos direitos humanos do século XX.







Legenda: recorte do Diário de Lisboa de 8 de Maio de 1974.


A Terceira Carta IV é retirada da edição da Editorial Futura, publicada em Maio de 1974.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

EXPRESSÕES ATENTÓRIAS DA MORAL PÚBLICA



18 de Abril de 1974

No Tribunal Plenário de Lisboa continua o julgamento de cidadãos acusados de pertencerem à Acção Revolucionária Armada (ARA) A censura (recorte retirado de Os Segredos da Censura de César Príncipe) determina que as notícias do julgamento devem ser reduzidas à expressão mais simples.
Proibidas também todas as notícias da homenagem ao professor Óscar Lopes, assim como as notícias sobre um jantar de confraternização de antigos alunos do Colégio Militar.


Qualquer notícia sobre as sessões do julgamento das Três Marias, serão todas CORTADAS.



Maria Velho da Costa, Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta eram acusadas de a partir da data de 1 de Março de 1971 terem escrito em conjunto, mediante prévia combinação, um livro ao qual deram o título de Novas Cartas Portuguesas que contém diversas passagens de conteúdo imoral e pornográfico, atentórias da moral pública.
Para os coronéis-censores pornografia e expressões atentórias da moral pública seria, possivelmente algo como as últimas palavras da última carta do livro:
Nas ancas tenho ainda a marca dos teus dedos; a marca da tua boca, o traço molhado da tua língua, dos teus dedos.
Desço:
Macio deve ser o chão que as árvores conservam com a sua seiva.
Não necessariamente meu amor sem ti a liberdade ou a pressa da morte do meu corpo.

Esta é a primeira carta do livro: