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sexta-feira, 6 de outubro de 2023

INFERNOS...

«El a odiava a invalidez. Disse muitas vezes que desejava morrer.

- Mas no estado em que estava, não podia ter-se levantado da cama, descer as escadas e tirado o tubo de morfina da maleta da enfermeira.

- Pois não, mas alguém lho podia ter dado – observou Roddy

- Quem?

- Uma das enfermeiras, talvez…

- Não, as enfermeiras não, porque compreenderiam muito bem o perigo que isso representava para elas!

As enfermeiras são as últimas pessoas de quem se deve suspeitar.

- Então… outra pessoa…

Ia para falar mas calou-se.

-Lembrou-se de alguma coisa, não lembrou? – perguntou calmamente Poirot.

- Sim… mas… - Roddu hesitou.

- Não sabe se me há-de dizer ou não?

- Sim…

Com um curioso sorriso aos cantos da boca, Poirot disse:

- Quando é que Miss Carlisle disse isso?

Roddy respirou fundo.

- Co’a breca, adivinhou! Foi no comboio quando íamos para lá. Tínhamos recebido o telegrama a dizer que a tia Laura tinha tido outro ataque. Elinor disse que tinha muita pena dela, que a pobre senhora detestava estar doente e que agora ficaria ainda mais impossibilitada e que seria um verdadeiro inferno para ela. E exclamou por fim: «Tem-se a sensação de que se devia abreviar a morte dessas pessoas se elas próprias realmente o desejam.»

- E o que o senhor disse?

- Concordei.»

Agatha Christie em Poirot Salva o Criminoso

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

DEMORAS TOLAS COM ENFERMEIRAS E MÉDICOS

«A voz de Laura Welman tornou-se subitamente aguda:

-Com que então é isso que Gerrard te anda a meter na cabeça? Não dês ouvidos ao teu pai, Mary. Nunca viveste nem viverás à minha custa! Peço-te que fiques cá um pouco mais somente por minha causa. Isto acabará em breve… Se as coisas acontecessem como devia ser, a minha vida terminava neste momento, e não haveria nada destas demoras tolas com enfermeiras e médicos.

- Não é bem assim, srª Welman. O dr. Lord diz que pode ainda viver muitos anos.

- Obrigada, mas não o desejo! Disse-lhe outro dia que num país devidamente civilizado, o que havia a fazer era eu declara-lhe categoricamente que queria terminar com isto e ele liquidava-me sem dor com qualquer droga apropriada. E disse-lhe mais: Se o doutor tivesse coragem, fazia-o!

- E que disse ele?

- O descarado limitou-se a rir de mim, filha, e disse que não estava para se arriscar a ser enforcado. E acrescentou ainda: «Se me deixasse o seu dinheiro, era um caso diferente, é claro!» Ora vejam o impertinente! Mas eu gosto dele. As suas visitas fazem-me melhor do que os remédios que me receita.»

Agatha Christie em Poirot Salva o Criminoso

quarta-feira, 2 de junho de 2021

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Este livro de Agatha Christie fazia parte da biblioteca do meu pai e ao seu comprador custou 20 escudos, o que em moeda nos dias de hoje seriam 10 cêntimos.

Eu digo o seu comprador porque não foi o meu que o comprou no estado de novo.

Numa esquina da Praça Paiva Couceiro, um velhote vendia livros em 2ª mão. Era aí que o meu pai, já reformado, se abastecia de livros da Colecção Vampiro. Ficava perto de casa e ajudava o velhote a ganhar uns tostões, para além de lhe dar uns cigarritos «Ritz».

Não sei a que preço os livros eram vendidos porque o meu pai, a tal gentileza para com o velhote, pagava-os a cinco escudos cada um.

Saía de casa pela manhã, bebia o café no «Chaimite», duas ou três cigarradas, e depois chegava a casa com um saco de plástico cheio de livros da Vampiro.

quarta-feira, 3 de março de 2021

MISS MAPLE SABE TUDO


É que Miss Marple sabe tudo, como aquelas nossas tias antiquíssimas da província que, quando somos meninos, nos põem a mão na cabeça, nessa velha estação onde está um comboio para regressarmos a casa, e que sabem que chegaremos bem. Fazem pactos com o pressentimento e com a adivinhação, e dizem-nos adeus, quando o comboio arranca, com olhos brilhantes de amor num mapa de pergaminho. É a cara do tempo, de lenço branco na mão.

Talvez o que haja de mais surpreendente em Agatha Christie, escritora que aflora certas facilidades, inclinada ao lugar-comum, seja o conhecimento empírico de que Miss Marple (mais ainda do que a metodologia excêntrica de Poirot) tem da natureza humana. Esse é o seu terreno como o meio-campo adversário foi de Maradona no Mundial do México, ou como os palcos generosos para aa Unicef foram de Danny Kaye.

Como ela diz em Jogo de Espelhos, fui nova há muito tempo. A questão , claro, não é principalmente essa. Coloca-se mais em experiências de carpintaria e de encenação teatral, tendo-lhe sido atribuído, pela dramaturga em estado romanesco, o lugar do ponto. Miss Marple ajuda os actores da vida a esclarecerem, às vezes penosamente, motivos que catapultam horizontes de desastre.

Dinis Machado em O Lugar das Fitas 

domingo, 15 de outubro de 2017

DEUS RÁ


Vistas dali de cima, a casa e as pessoas apressadas que andavam de lado para lado não tinham mais significado e importância do que um formigueiro.
Só o Sol, majestoso e poderoso a brilhar no céu, e a estreita faixa prateada em que o Nilo se transformava àquela hora da manhã – só o Sol e o Nilo eram eternos e permanentes. Khay, Nofret e Satipy tinham morrido, e um dia também ele e Hori morreriam. Mas Rá continuaria a governar o céu e a viajar, de noite, na sua barca, pelo mundo das trevas, até à alvorada do dia seguinte. E o rio continuaria a correr, vindo de além de Elefantina e passando por Tebas, pela aldeia e pelo Baixo Egipto, onde Nofret vivera e fora alegre e despreocupada, e prosseguindo até às grandes águas e para fora do Egipto.

Agatha Christie em Morrer Não é o Fim.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

E EU QUERO SABER


Hori acenou com a cabeça, em silêncio.
- O que gostava realmente de saber era o que sucede depois de morrermos.
- Não te posso responder, Renisend. Devias fazer essas perguntas a um sacerdote.
- Limitar-se-ia a dar-me as respostas do costume… e eu quero saber.
- Não o saberemos enquanto não morrermos – declarou Hori, docemente.

Agatha Christie em Morrer Não é o Fim.

domingo, 23 de abril de 2017

POSTAIS SEM SELO


Se uma pessoa está condenada a viver sempre com medo mais lhe vale morrer.

Agatha Christie em Morrer Não é o Fim

RECADOS


AO PROFESSOR S. R. K. GLANVILLE

Caro Stephen:

Foi você quem primeiro me sugeriu a ideia de uma história de detectives passada no antigo Egipto, e se não fosse a sua ajuda activa e o seu encorajamento este livro nunca teria sido escrito.
Quero testemunhar-lhe quanto apreciei toda a interessante literatura que me emprestou, assim como agradecer-lhe a paciência com que respondeu às minhas perguntas, o tempo que perdeu e os incómodos a que se sujeitou. O prazer e o interesse que experimentei ao escrever este livro já você conhece.
Sua amiga grata e afeiçoada.

AGATHA CHRISTIE

Dedicatória de Morrer Não é o Fim.