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quinta-feira, 16 de maio de 2024

OLHAR AS CAPAS


Arte de Furtar

Anónimo do Séc. XVII
Desenhos de Eduardo Batarda

Comentários de Natália Correia, Armando Castro, Hernâni Cidade, João Bénard da Costa

Capa, arranjo gráfico: Paulo-Guilherme

Edições Afrodite, Lisboa 1970

Todos falam na política, muitos compõem livros dela, e no cabo nenhum a viu, nem sabe de que cor é. E atrevo-me a afirmar isto assim, porque, com eu ter poucos conhecimentos dela, sei que é uma má peça, e que a estimam e aplaudem, como se fora boa; o que não fariam bons entendimentos, se a conheceram de pais e avós, tais, que quem lhos souber, mal poderá ter por bom o fruto que nasceu de tão más plantas. E para que não nos detenhamos em coisa trilhada, é de saber que no tempo em que Herodes matou os inocentes, deu um catarro tão grande no Diabo, que o fez vomitar peçonha; e desta se gerou um monstro, assim como nascem ratos ex materia putridi, ao qual chamaram os críticos Razão de Estado. E esta senhora saiu tão presumida, que tratou de casar, e seu pai a desposou com um mancebo robusto e de más manhas, que havia por nome Amor Próprio, filho bastardo da primeira desobediência. De ambos nasceu uma filha a que chamaram Dona Política. Dotaram-na de sagacidade hereditária e modéstia postiça. Criou-se nas cortes de grandes príncipes, embrulhou-os a todos. Teve por aios a Maquiavel, Pelágio, Calvino, Lutero e outros doutores desta qualidade, com cuja doutrina se fez tão viciosa, que dela nasceram todas as seitas e heresias que hoje abrasam o mundo. E eis aqui quem é a senhora Dona Política.

segunda-feira, 7 de junho de 2021

OLHAR AS CAPAS


 

A Questão Académica de 1907

Natália Correia

Prefácio: Mário Braga

Editorial Minotauro, Lisboa, 1962

Tentámos com o auxílio, tanto quanto possível fiel, da crónica dos acontecimentos reconstituir uma quadra agitada da vida académica nos meses que precederam o regicídio.

Fizemo-lo com a consciência de render à mocidade uma homenagem devida à sua decisiva importância no aceleramento das forças que decompõem e reorganizam as colectividades.

Se a trajectória da questão académica foi mesquinhamente contida pelo jogo de interesses que desencadeou, justo é reconhecer-se que no ímpeto que a lançou e durante o período mais brilhante da sua evolução, dela irradiou essa natural ciência da juventude que intui no lodo das sociedades o impulso do que nelas quer sobreviver.

quarta-feira, 12 de maio de 2021

OLHAR AS CAPAS


O Vinho e a Lira

Natália Correia

Colecção Sagir nº 1

Edição de Fernando Ribeiro de Mello, Lisboa s/d


O Sexto Dia

 

Quando lá na floresta o olhar do licorne

é  a constelação onde estaca o veado

é que a Schekina pede ao luar que a adorne

pois será rei aquele que dormir ao seu lado.

 

Sai nudez desvenda a sagrada colina

onde os flancos do deus vão acender o facho

e o cheiro genital dessa erva divina

entontece o Yod a luz que se fez macho.

 

Depois vem a manhã escondem-se os duendes

e as árvores de dia são sobrenaturais.

É a hora em que os mortos já não são inocentes

e ocupam-se a catar as lesmas nos covais

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

OLHAR AS CAPAS


O Encoberto

Natália Correia
Capa: Correia de Pinho
Galeria Panorama, Lisboa, 1969

É da mais aconselhável prudência.
que o pensar de cada seja
proporcional à sua competência
para fortuna neste mundo fazer.
Mas esta harmoniosa ciência
que é o segredo de uma livre sociedade
onde o magro deixa o gordo engordar
e o gordo deixa o magro emagrecer,
não pode ser o manual da felicidade
da mãe que tem filhos piolhosos.
Enquanto a cabeça destas crianças limpamos,
o crânio enchemos de pensamentos ociosos
que do infeliz azedam a existência.
Ai de nós! Ai de nós! Os parasitas!
que não nos deixam ter ilusões demonstram
que o verdugo continuará a matar
e o insensato a escrever no peito
a obscena palavra liberdade
e a dizer para o verdugo: aponta!
e que nós continuaremos a catar
a cabeça dos nossos filhos fedorentos
quer se chame Filipe ou Sebastião
o rei para quem filhos fizemos.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Mãe Ilha
Bibliografia e Iconografia

Coordenação Técnica e Científica: Ângela Almeida
Capa: Atelier Filipe Costa
Edição Fundação Cultural Natália Correia e Câmara Municipal de Lisboa, 1993

Mãe Ilha
IV

(Sempre que ouço piano)

Por lentas alamedas musicais
Chegam-lhe as tuas mãos ledas e leves
Trazem-me a valsa que enchia de cristais
A casa e eras de louça mãe de Sévres.

Lá nas fajãs partiu-te um sopro a mais
Que a morte é cio de belezas breves,
Mas, ó mistério de dedos siderais!,
Um triz de música e uma azália escreves.

Mãos que me levam lácteas pelos cabelos
(Lembras-te? eram anéis dos teus anelos)
Para a ilha. No teu seio o mar arfava.

Mãos doceiras das flores com que cobrias
O meu sono. Mais música! Para os dias
De opala, mãe de mel, falta uma oitava.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

OLHAR AS CAPAS



Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica
(dos Cancioneiros Medievais à Actualidade)

Selecção, Prefácio e Notas de Natália Correia
Ilustrações de Cruzeiro Seixas
Edição de Fernando Ribeiro de Mello, Lisboa, 1966

Re(li)gata

Quando em lugar de feltro é de barro de Outubro
o calor interior das coxas habitadas
Quando a língua é um barco avançando no escuro
de um canal de Corinto entre pardas escarpas
Quando o cheiro do Mar se desdobra em veludo
Quando rompe na boca o mistério das algas
Quando em baixo o teu pé a triturar-me o surdo
perímetro do sexo encontra a madrugada
Quando mais se aproxima a náutica do culto
Quando mais o altar se mostra navegável
Quando mais eu descubro e    restauro    e misturo
na crista litoral de súbito ampliada
o ritual do grito o ritual do cuspo
e vês que ninguém mais merece esta homenagem
é que enfim te possuo    é que enfim te reduzo
a uma luva    uma esponja    uma deusa    uma nave


David Mourão-Ferreira

segunda-feira, 20 de abril de 2015

OLHAR AS CAPAS


As Maçãs de Orestes

Natália Correia
Capa: Fernando Felgueiras
Cadernos de Poesia nº13
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Julho de 1970

A DEFESA DO POETA

Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
 de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.

segunda-feira, 30 de março de 2015

OLHAR AS CAPAS


Não Percas a Rosa

Natália Correia
Capa: Fernando Felgueiras
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Dezembro de 1978

30 de Março de 1975
Começa a ver-se no escuro. O 11 de Março é um dos patamares da escalada comunista. Recolho informações e vou construindo um quadro que desfez a irracionalidade da estrambótica intentona.
Spínola conspirava. Com ele ou por outras vias conspiravam «todos» os militares que tinham olhos para ver uma influência dominante do PCP no MFA. Spínola retraía-se perante a impaciência dos militares que defendiam a urgência do putsch. Havia que aguardar as eleições. Se os resultados que se previam imponentes na grande área democrática não fossem respeitados, então sim, dariam o golpe militar restaurador das liberdades prometidas pelo 25 de Abril.