Um filho da puta de sangue quente
e um filho da puta de sangue frio
distinguem-se instantaneamente:
este tem só tesão de calafrio!
O calor do sentir nada lhe diz:
destruir catedrais sem nada fremir,
por nada ver à frente do nariz,
nada, mas nada lhe faz pressentir.
O filho da puta absoluto simples
destrói cidades e vidas e arte
e cria tragédias dignas de Sófocles.
Invoquemos um raio que o descarte
e o entregue a um feio urubu,
que dele faça infame menu!
Eugénio Lisboa
quarta-feira, 13 de maio de 2026
UM FILHO DA PUTA DE UM SANGUE QUENTE
terça-feira, 21 de abril de 2026
RETRATOS
O humor é uma coisa muito séria.
Penso que é uma das
maiores e mais antigas riquezas nacionais
que devem .ser
preservadas a todo o custo.
James Thurber
A coisa mais negligente, para não dizer a mais feia, que podemos fazer, é descobrirmos um tesouro e não badalarmos logo esta descoberta a amigos e conhecidos, para que dela também possam beneficiar. É tão criminoso como descobrir o chocolate e ficar calado. Não se faz! O que é bom é para repartir.
Dei com a Ana Cristina Leonardo, quando o meu filho João Luís me ofereceu o seu pícaro e fabuloso romance O CENTRO DO MUNDO, que desafia a imaginação do mais pintado. Depois, apareceram as suas crónicas no suplemento ´IPSILON, do PÚBLICO, de tal modo cintilantes de inteligência, verdadeira cultura e humor sonso, fininho e manhoso (os ingleses chamam-lhe humor “sly”, que talvez se possa também traduzir por sacaninha), que achei francamente ranhosa a periodicidade com que eram publicadas. Resmunguei com os meus botões: “Se o PÚBLICO desse conta do valor destas crónicas, publicava-as semanalmente.” Acontece que o PÚBLICO ou deu conta ou ouviu o meu resmungo enviado para o éter.
E passámos a ter, todas as semanas, à sexta feira, o prazer e o privilégio de ler as crónicas de Ana Cristina Leonardo, que são sérias, da maneira mais séria e competente que há de o ser: recheadas daquele humor que os lusíadas cultivam tão pouco, com excepção de gente (pouca) com o talento de um José Sesinando.
Dos humoristas tem-se dito muita coisa, mas o mais frequente – e tem um fundo de verdade – é dizer-se que não são, em geral, uma tribo feliz. O notável crítico e ensaísta literário britânico, Cyril Connolly, autor do muito conhecido ENEMIES OF PROMISE, punha a coisa nestes termos: ” Os humoristas não são homens felizes. Como Beachcomber e Saki e Thurber, eles ardem enquanto Roma toca violino.”
Ser humorista é uma profissão de alto risco, sobretudo se exercida num milieu de gente com pouca vocação para o humor e que mais depressa afina do que ri. É precisa uma grande arte, para gozar fininho, todo o tempo, com o parceiro, e sair incólume desse exercício. Era isso mesmo que avisava George Bernard Shaw, quando dizia: “Mark Twain e eu estamos muito na mesma posição. Temos de pôr as coisas de tal maneira, que levem as pessoas que, normalmente, nos teriam enforcado, a acharem que estamos só a brincar.”
Ana Cristina Leonardo exercita-se, da maneira mais culta e atrevida, nesta arte de ensinar, divertindo-nos com o seu finíssimo senso de humor e pisando galhardamente a fronteira do risco. E quem não gosta de arriscar-se é melhor não se meter nestas andanças.
Se, como
sugere Connolly, ela também pertence à tribo dos infelizes, não sei, porque não
tenho o privilégio de a conhecer pessoalmente. Mas sempre direi que, quando
leio o seu discurso recheado de ensinamentos e humor sacaninha, prefiro pensar
que talvez ela desminta o aforismo do autor de ENEMIES OF PROMISE.
Eugénio Lisboa, Novembro de 2022
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
SOLTAS
«A maior parte da sua obra poética foi escrita em Moçambique, ao mesmo tempo que pintava e dava lições gratuitas a alunos locais, no Núcleo de Arte. Foram seus alunos atentos os hoje famosos Malangatana Valente (pintor) e Chissano (escultor). Quadros era um docente notável, esforçado e admiravelmente sensível às dificuldades dos alunos. Era de uma extrema minúcia em tudo o que fazia. Lembro-me, com grande saudade, de noites prolongadas até de madrugada, na nossa casa, em Lourenço Marques, com o António Quadros a desvendar-nos todos os mistérios da vida e percursos das abelhas. Era assim com tudo: um dedicado e autêntico profissional.
Enquanto escrevia o seu
longo poema satírico – Quybyrycas, prefaciadas por Jorge de Sena –, mais
longo que os Lusíadas, tinha fixado na parede um gráfico em que mostrava o
progresso diário do poema, em estrofes concluídas. Tanto o Quadros, pintor,
como o Grabato Dias, poeta, se consideravam, orgulhosamente, simples operários.
O preço dos quadros que vendia nada tinha a ver com a enorme reputação de que
já então desfrutava: era rigorosamente calculado em função do número de horas
de trabalho investidas na obra. Preços dignos, mas razoáveis.
Termino com uma
passagem da homenagem que lhe prestei nas minhas memórias:
“Como poeta, como pintor, como fazedor, como criador, como intrépido desvendador de territórios ignotos, António Quadros foi um dos raros génios que tive o privilégio de conhecer, em vida. Não me apetece, neste caso, estar com cuidado a medir as palavras: disse “génio” e disse bem”.»
Eugénio
Lisboa, JL, 23 de Setembro de 2020.
1.
Segundo a DECO o preço do cabaz alimentar está a aumentar desde o início de
2026, na semana passada bateu o recorde dos últimos quatro anos e é provável
que, em consequência dos prejuízos causados pelas tempestades, o valor ainda
suba mais.
2.
Bonito,
bonito é preparar a festa
Gratificante,
gratificante é nela participar.
Claro
que depois há a nostalgia do fim da festa, aquela tristeza cinzenta que fica
sempre no fundo das garrafas vazias.
3.
A
saúde é um estado transitório que não augura nada de bom.
4.
Em
qualquer parte do mundo há sempre alguém à espera de um livro, de uma canção,
de um filme que cure a violência e a solidão.
5.
Praticamente,
durante largas dezenas de anos, fomos governados pelo PSD e pelo PS.
Sabe-se
que ambos os partidos não estão puto interessados no país. Ambicionam o poder
para poderem dar empregos e mordomias para os jotinhas que vão criando
nas suas sedes.
6.
Uma
idiossincracia dos miúdos é que só os nossos é que prestam, Os dos outros não
passam de pastiches, réplicas ranhosas.
7.
O
mundo, esse continuou a girar em volta do sol, tal como Galileu tinha previsto.
domingo, 2 de fevereiro de 2025
HÁ QUEM DE TODO NÃO LEIA
«As relações do homem
com o livro vão, desde a indiferença, passando pelo amor e podendo chegar até
ao ódio. Por mais estranho que pareça, há pessoas para quem o livro é, de todo,
indiferente: há lares onde não se vê um único livro. Sim, há quem de todo não
leia.»
Eugénio Lisboa
terça-feira, 25 de junho de 2024
OLHAR AS CAPAS
José Rodrigues Miguéis: Uma vida em papéis repartida
Actas do colóquio
realizado no Padrão dos Descobrimentos em 8, 9 e 10 De outubro de 2001
Coordenação: Onésimo
Teotónio Almeida
e Manuela Rêgo
Intervenções: João
Medina, António Reis, Guilherme d’Oliveira Martins, Ernesto Rodrigues, Paula
Morão, Eugénio Lisboa, Maria de Sousa, Raúl Hestnes Ferreira, Luísa Ducla
Soares, Teresa Martins Marques, Eduardo Lourenço, entre outros.
Capa: Ernesto Matos
Edição: Câmara Municipal de Lisboa, 2001
A edição das obras completas de Miguéis (13 volumes) pelo Círculo de Leitores teve 5000 compradores, pese embora o facto de em não poucos casos se tratar de encadernações que estão simplesmente a adornar estantes em novas-ricas casas.domingo, 28 de janeiro de 2024
OLHAR AS CAPAS
Jorge de Sena Vinte Anos Depois
Edições Cosmos, Lisboa, Março de 2001
Colaborações, entre outros:
Joaquim-Francisco Coelho, Almeida Faria, Fernando Guimarães, João Rui de Sousa, Eugénia Vasquies, Luís Francisco Rebello, Jorge Fazenda Lourenço, Eugénio Lisboa, José-Augusto França.
«À morte de Jorge
de Sena, em 1979, fiz uma aula de História da Arte na minha Universidade, com a
leitura deste poemas, uns atrás dos outros, e projecção das obras referidas – e
foi, assim somente, uma lição com certeza
mais útil do que todas as mais que dei
na minha cadeira. Pela emoção intelectual e sensitiva que nenhum outro poeta português
poderia assim provocar, em conhecimento vivido ou convivido, de obras de arte
ao longo de mais de dois mil anos…»
Do texto de José Augusto França.
sexta-feira, 29 de maio de 2020
OLHAR AS CAPAS
na petrificação do sonho do escravo
No passado sempre sucessivamente presente
a gorda larva pertinaz do tempo
somando em cada anel cada presente já
passado, e esquecido passado, irremediável e remoto
mas próximo, pouco antes, inda agora, agora e já
O passado caldeado pela fieira de mil milhões
de milhões de variados cadáveres ligados pela seiva
comum, desta engenhosa e materna árvore que chamamos vida.
O passado que inconscientes transportamos
nos corpúsculos do sangue, e cujo peso,
sem terror aparente, avaliamos em nada.
Com tudo isto se fez uma lágrima. Que sistema
económico nos desculparia se a chorássemos?


.jpg)




