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terça-feira, 21 de abril de 2026

RETRATOS


               O humor é uma coisa muito séria.

                Penso que é uma das maiores e mais antigas riquezas nacionais

                que devem .ser preservadas a todo o custo.

                                                    James Thurber

A coisa mais negligente, para não dizer a mais feia, que podemos fazer, é descobrirmos um tesouro e não badalarmos logo esta descoberta a amigos e conhecidos, para que dela também possam beneficiar. É tão criminoso como descobrir o chocolate e ficar calado. Não se faz! O que é bom é para repartir.

Dei com a Ana Cristina Leonardo, quando o meu filho João Luís me ofereceu o seu pícaro e fabuloso romance O CENTRO DO MUNDO, que desafia a imaginação do mais pintado. Depois, apareceram as suas crónicas no suplemento ´IPSILON, do PÚBLICO, de tal modo cintilantes de inteligência, verdadeira cultura e humor sonso, fininho e manhoso (os ingleses chamam-lhe humor “sly”, que talvez se possa também traduzir por sacaninha), que achei francamente ranhosa a periodicidade com que eram publicadas. Resmunguei com os meus botões: “Se o PÚBLICO desse conta do valor destas crónicas, publicava-as semanalmente.” Acontece que o PÚBLICO ou deu conta ou ouviu o meu resmungo enviado para o éter.

E passámos a ter, todas as semanas, à sexta feira, o prazer e o privilégio de ler as crónicas de Ana Cristina Leonardo, que são sérias, da maneira mais séria e competente que há de o ser: recheadas daquele humor que os lusíadas cultivam tão pouco, com excepção de gente (pouca) com o talento de um José Sesinando.

Dos humoristas tem-se dito muita coisa, mas o mais frequente – e tem um fundo de verdade – é dizer-se que não são, em geral, uma tribo feliz. O notável crítico e ensaísta literário britânico, Cyril Connolly, autor do muito conhecido ENEMIES OF PROMISE, punha a coisa nestes termos: ” Os humoristas não são homens felizes. Como Beachcomber e Saki e Thurber, eles ardem enquanto Roma toca violino.” 

Ser humorista é uma profissão de alto risco, sobretudo se exercida num milieu de gente com pouca vocação para o humor e que mais depressa afina do que ri. É precisa uma grande arte, para gozar fininho, todo o tempo, com o parceiro, e sair incólume desse exercício. Era isso mesmo que avisava George Bernard Shaw, quando dizia: “Mark Twain e eu estamos muito na mesma posição. Temos de pôr as coisas de tal maneira, que levem as pessoas que, normalmente, nos teriam enforcado, a acharem que estamos só a brincar.”

Ana Cristina Leonardo exercita-se, da maneira mais culta e atrevida, nesta arte de ensinar, divertindo-nos com o seu finíssimo senso de humor e pisando galhardamente a fronteira do risco. E quem não gosta de arriscar-se é melhor não se meter nestas andanças.

Se, como sugere Connolly, ela também pertence à tribo dos infelizes, não sei, porque não tenho o privilégio de a conhecer pessoalmente. Mas sempre direi que, quando leio o seu discurso recheado de ensinamentos e humor sacaninha, prefiro pensar que talvez ela desminta o aforismo do autor de ENEMIES OF PROMISE.

 

Eugénio Lisboa, Novembro de 2022

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

SOLTAS


 «A maior parte da sua obra poética foi escrita em Moçambique, ao mesmo tempo que pintava e dava lições gratuitas a alunos locais, no Núcleo de Arte. Foram seus alunos atentos os hoje famosos Malangatana Valente (pintor) e Chissano (escultor). Quadros era um docente notável, esforçado e admiravelmente sensível às dificuldades dos alunos. Era de uma extrema minúcia em tudo o que fazia. Lembro-me, com grande saudade, de noites prolongadas até de madrugada, na nossa casa, em Lourenço Marques, com o António Quadros a desvendar-nos todos os mistérios da vida e percursos das abelhas. Era assim com tudo: um dedicado e autêntico profissional.

Enquanto escrevia o seu longo poema satírico – Quybyrycas, prefaciadas por Jorge de Sena –, mais longo que os Lusíadas, tinha fixado na parede um gráfico em que mostrava o progresso diário do poema, em estrofes concluídas. Tanto o Quadros, pintor, como o Grabato Dias, poeta, se consideravam, orgulhosamente, simples operários. O preço dos quadros que vendia nada tinha a ver com a enorme reputação de que já então desfrutava: era rigorosamente calculado em função do número de horas de trabalho investidas na obra. Preços dignos, mas razoáveis.

Termino com uma passagem da homenagem que lhe prestei nas minhas memórias: 

“Como poeta, como pintor, como fazedor, como criador, como intrépido desvendador de territórios ignotos, António Quadros foi um dos raros génios que tive o privilégio de conhecer, em vida. Não me apetece, neste caso, estar com cuidado a medir as palavras: disse “génio” e disse bem”.»

Eugénio Lisboa, JL, 23 de Setembro de 2020.

1.

Segundo a DECO o preço do cabaz alimentar está a aumentar desde o início de 2026, na semana passada bateu o recorde dos últimos quatro anos e é provável que, em consequência dos prejuízos causados pelas tempestades, o valor ainda suba mais.

2.

Bonito, bonito é preparar a festa

Gratificante, gratificante é nela participar.

Claro que depois há a nostalgia do fim da festa, aquela tristeza cinzenta que fica sempre no fundo das garrafas vazias.

3.

A saúde é um estado transitório que não augura nada de bom.

4.

Em qualquer parte do mundo há sempre alguém à espera de um livro, de uma canção, de um filme que cure a violência e a solidão.

5.

Praticamente, durante largas dezenas de anos, fomos governados pelo PSD e pelo PS.

Sabe-se que ambos os partidos não estão puto interessados no país. Ambicionam o poder para poderem dar empregos e mordomias para os jotinhas que vão criando nas suas sedes.

6.

Uma idiossincracia dos miúdos é que só os nossos é que prestam, Os dos outros não passam de pastiches, réplicas ranhosas.

7.

O mundo, esse continuou a girar em volta do sol, tal como Galileu tinha previsto.

domingo, 2 de fevereiro de 2025

HÁ QUEM DE TODO NÃO LEIA

«As relações do homem com o livro vão, desde a indiferença, passando pelo amor e podendo chegar até ao ódio. Por mais estranho que pareça, há pessoas para quem o livro é, de todo, indiferente: há lares onde não se vê um único livro. Sim, há quem de todo não leia.»

Eugénio Lisboa 

terça-feira, 25 de junho de 2024

OLHAR AS CAPAS


 José Rodrigues Miguéis: Uma vida em papéis repartida

Actas do colóquio realizado no Padrão dos Descobrimentos em 8, 9 e 10 De outubro de 2001

Coordenação: Onésimo Teotónio Almeida

e Manuela Rêgo

Intervenções: João Medina, António Reis, Guilherme d’Oliveira Martins, Ernesto Rodrigues, Paula Morão, Eugénio Lisboa, Maria de Sousa, Raúl Hestnes Ferreira, Luísa Ducla Soares, Teresa Martins Marques, Eduardo Lourenço, entre outros.

Capa: Ernesto Matos

Edição: Câmara Municipal de Lisboa, 2001

A edição das obras completas de Miguéis (13 volumes) pelo Círculo de Leitores teve 5000 compradores, pese embora o facto de em não poucos casos se tratar de encadernações que estão simplesmente a adornar estantes em novas-ricas casas.

domingo, 28 de janeiro de 2024

OLHAR AS CAPAS


Jorge de Sena Vinte Anos Depois

Edições Cosmos, Lisboa, Março de 2001

 A Câmara Municipal de Lisboa organizou, através das suas Bibliotecas Municipais, um Colóquio para assinalar os vinte anos da morte de Jorge de Sena. As actas deste Colóquio deram origem ao presente volume. Integrado neste encontro tiveram lugar outras manifestações como o visionamento dos filmes «Os Salteadores» de Abi Feijó, e «Sinais de Fogo», um recital de poesia dita por Luís Lucas, música tocada por Nuno Vieira de Almeida, baseado no livro «A Arte Da Música», livro de Jorge de Sena publicado em 1968 e mais tarde incluído em «Poesia II» editado em 1988.

Colaborações, entre outros:

Joaquim-Francisco Coelho, Almeida Faria, Fernando Guimarães, João Rui de Sousa, Eugénia Vasquies, Luís Francisco Rebello, Jorge Fazenda Lourenço, Eugénio Lisboa, José-Augusto França.

«À morte de Jorge de Sena, em 1979, fiz uma aula de História da Arte na minha Universidade, com a leitura deste poemas, uns atrás dos outros, e projecção das obras referidas – e foi,  assim somente, uma lição com certeza mais útil do que todas  as mais que dei na minha cadeira. Pela emoção intelectual e sensitiva que nenhum outro poeta português poderia assim provocar, em conhecimento vivido ou convivido, de obras de arte ao longo de mais de dois mil anos…»

 

Do texto de José Augusto França.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

OLHAR AS CAPAS


O Morto

João Pedro Grabato Dias
Introdução: Eugénio Lisboa
Capa: António Quadros (pintor)
Textos Caliban
Edição do Autor, Lourenço Marque, Setembro de 1971

O passado em que o sonho do senhor se produzia
na petrificação do sonho do escravo
No passado sempre sucessivamente presente
a gorda larva pertinaz do tempo
somando em cada anel cada presente já
passado, e esquecido passado, irremediável e remoto
mas próximo, pouco antes, inda agora, agora e já
O passado caldeado pela fieira de mil milhões
de milhões de variados cadáveres ligados pela seiva
comum, desta engenhosa e materna árvore que chamamos vida.
O passado que inconscientes transportamos
nos corpúsculos do sangue, e cujo peso,
sem terror aparente, avaliamos em nada.

Com tudo isto se fez uma lágrima. Que sistema
económico nos desculparia se a chorássemos?

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

OLHAR AS CAPAS

JL

Jornal de Letras, Artes e Ideias

Ano XXXIX – Número 1280
De 3 de Outubro a 5 de Novembro de 2019
Número dedicado ao nascimento de Jorge de Sena
Jorge de Sena nasceu a 2 de Novembro de 1919

Editorial – José Carlos de Vasconcelos
Poesia, Peregrinação e Portugal – António Carlos Cortez
As Ficções de um Poeta – Jorge Vaz de Carvalho
Uma Correspondência Única (com Eugénio de Andrade) – Eugénio Lisboa
Divulgar um Escritor Plural – Luís Ricardo Duarte
Sena e Sophia, Dois Poetas no Princípio do Mundo – Luís Filipe Castro Mendes

Acho que havia muita intuição, mas sobretudo uma atenção constante ao mundo para lá da superfície das coisas.
Sofreu muito com o exílio e com a sensação de nãp ser reconhecido, mesmo depois de uma longa carreira académica,
As cartas servem-lhe para elaborar certas ideias que depois dão origem a poemas, narrativas, ensaios ou críticas.
Uma das suas dimensões mais interessantes é a defesa da liberdade, a fluidez de géneros, comunicando com leitores de todas as idades, tendências, pertenças e opções.

Isabel de Sena

domingo, 10 de setembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


As relações do homem com o livro vão, desde a indiferença, passando pelo amor e podendo chegar até ao ódio. Por mais estranho que pareça, há pessoas para quem o livro é, de todo, indiferente: há lares onde não se vê um único livro. Sim, há quem de todo não leia. A família real inglesa, por exemplo, é notoriamente conhecida como amando imenso os cavalos mas sendo, completamente, indiferente aos livros.

Eugénio Lisboa na revista Ler, Verão 2017

sexta-feira, 27 de abril de 2012

OLHAR AS CAPAS



Jorge de Sena

Selecção e prefácio de Eugénio Lisboa
Capa de Rui Ligeiro
Editorial Presença, Lisboa 1984

Um dia se verá que o mundo não viveu um drama.
 
Todas estas batalhas, todos estes crimes,
todas estas crianças que não chegam a desdobrar-se em carne viva
e de quem, contudo, fizeram carne viva logo morta,
todos estes poetas furados por balas
e todos os outros poetas abandonados pelos que
nem coragem tiveram de matar um homem,
toda esta mocidade enganada e roubada
e a outra que morreu sabendo que a roubavam,
todo este sangue expressamente coalhado
à face integra da terra,
tudo isto é o reverso glorioso do findar dos erros.
 
Um dia nos libertaremos da morte sem deixar de morrer.

Poema de Coroa da Terra, datado de 1942.

Nota do editor:
Durante o mês de Abril, irei apresentando uma série de livros que me acompanharam durante os tempos da ditadura.
Livros que, por isto ou por aquilo, ajudaram a formar uma consciência cultural e política.A sua aparição não obedece a algum critério, e, naturalmente, muitos livros e autores irão ficar de fora.