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quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

SOLTAS


 Jorge de Sena.

Um dos mais extraordinários intelectuais portugueses.

Teve que se exilar, onde passou uma autêntica vida de cão.

A leitura de alguns diários de escritores seus contemporâneos, os seus próprios diários, a correspondência com José Augusto França e Sophia, mostram um Jorge de Sena de uma verticalidade e honestidade intelectual tão pouco existente entre os seus pares. 

Também um homem amargo.
Numa carta a José Augusto França: "eu sempre detestei o convívio de chacha to relax from work. O meu trabalho não é trabalho, é vida - não preciso to relax dele, a não ser falando das tantas coisas que me interessam."
José Gomes Ferreira, num dos seus "Dias Comuns" refere a indignação de Sena com um crítico, manda-lhe o recorte, que fora injusto para com Irene Lisboa. E comenta: "Só me espanta o seguinte: como é que o Jorge de Sena, no meio dos seus versos, das suas lições, dos seus estudos literários, dos seus contos, dos seus romances, das suas leituras, da sua correspondêcia, etc.,etc.,etc., - ainda arranja tempo para esta vigilância infatigável das pequeninas injustiças? (As injustiças, para as sentirmos nos outros, temos de senti-las primeiro em nós, no sangue do nosso espirito insultado!) Sim. Admiro sinceramente Jorge de Sena - até porque impõe como virtudes o que nos outros soaria a defeitos. E de súbito compreendo o motivo dessa autoridade. E de súbito compreendo o motivo dessa autoridadea: o afinco ao trabalho. Jorge de Sena precisa desse trabalho constante como eu preciso de preguiça. (Preguiça para coisa nenhuma)."

É uma pena que este "país de sacanas" teime em não conhecer a sua obra e o seu exemplo. 

1.

«Neste abençoado país, todos os políticos têm imenso talento. A oposição confessa sempre que os ministros, que ela cobre de injúrias, têm, à parte os disparates que fazem, um talento de primeira ordem! Por outro lado, a maioria admite que a oposição, a quem ela constantemente recrimina pelos disparates que fez, está cheia de robustíssimos talentos! De resto, todo o mundo concorda que o país é uma choldra. E resulta, portanto, este facto supracómico: um país governado com imenso talento que é de todos na Europa, segundo o consenso unânime, o mais estupidamente governado! Eu proponho isto, a ver: que, como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os imbecis!»
Eça de Queirós  em Os Maias.

2.

A lista de 37 detidos pela Polícia Judiciária no âmbito da operação que desmantelou as chefias do Grupo 1143 tem, pelo menos, três nomes de militantes do Chega que já foram candidatos pelo partido de André Ventura em eleições. Também um sargento da força aérea, um polícia do comando de Setúbal ,um profissional de saúde, três militantes ou ex-militantes e candidatos do Chega, dois candidatos pelo partido de extrema-direita Ergue-te e PNR, Participantes em mesas de voto em diversas eleições. Um condenado por furto, um jogador de rugby com processos disciplinares por agressões, um membro dos Super Dragões condenado num processo por causa de um plano de intimidação que culminou em agressões  e estão indiciados por crimes de discriminação e incitamento ao ódio e à violência.

3.

No fim de 2025 mais de 1,5 milhões de pessoas não tinham médico de família.

4.

«No autocarro, uma mulher conta a outra que perdeu o marido há pouco tempo. Silêncio. A segunda, para a encorajar, diz: «Mas a vida continua.» A primeira comenta: «A vida continua, mas continua muito mal.»

Rui Manuel Amaral em Bicho Ruim

5.

«Não há destinos adivinhados para as personagens que vivem em solidão. O seu futuro é incerto e a tragédia está sempre à espreita.»

6.

«…é a velha história, demora-se muito tempo a ver bem um filme.»

7.

Disse Ruy Belo: uma casa é a coisa mais séria da vida, e João Miguel Fernandes Jorge: a casa é onde temos o coração, ou como refere Emily Dickinson, a poesia é possibilidade, “uma casa mais justa que a prosa”.

8.

Um mundo sem música, sem livros e sem memória.

Seria o maior pesadelo que me poderia acontecer.

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

NESTE DIA


Havia uma exposição de Pedro Calapez para montar na Gulbenkian. 

João Miguel Fernandes Jorge iniciou um Diário, no primeiro dia em que, juntamente com Maria Helena Freitas, se iniciaram os trabalhos de montagem,

O livro é muito interessante. Volta e meia pego-lhe.

Neste Dia, estamos em 8 de Agosto de 2003, um domingo, Amsterdão: flores, pinturas.

Legenda: Interior em Arcachon de Manet.

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

NESTE DIA

O Próximo Outono é um livro curioso.

João Miguel Jorge explica:

«O Próximo Outono é um diário escrito entra outubro de 2003 e outubro de 2004. Iniciei-o no dia em que, com Maria Helena de Freitas, começámos os trabalhos relativos à exposição Pedro Calapez Obras Escolhidas 1992/2004, na Fundação Calouste Gulbenkian, Cento de Arte Moderna José Azeredo Perdigão. Terminei-o no dia da inauguração.»

Neste Dia, uma sexta-feira, Fernandes Jorge está na Catedral de Amsterdão:

Legenda: gravura de Pedro Calapez

domingo, 13 de julho de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


Sempre aqueles versos dum poema de Ruy Belo: «uma casa é a coisa mais séria da vida»

Ou João Miguel Fernandes Jorge: «a casa é onde temos o coração».

Ou Emily Dickinson, «uma casa mais justa que a prosa».

Também um qualquer vagabundo:

«A rua é a casa de todos».

Por que não Vinicius de Moraes e Toquinho?

«Era uma casa muito engraçada
Não tinha tecto, não tinha nada

Ninguém podia entrar nela, não
Porque na casa não tinha chão

Ninguém podia dormir na rede
Porque na casa não tinha parede

Ninguém podia fazer pipi
Porque penico não tinha ali

Mas era feita com muito esmero
Na rua dos Bobos, número zero»

 

Legenda: ilustração de André Bolino

sexta-feira, 20 de junho de 2025

OLHAR AS CAPAS


O Próximo Outono

João Miguel Fernandes Jorge e Pedro Calapez

Capa: Carlos César Vasconcelos

Relógio D’Água Editores, Lisboa Outubro de 2012

Dia de muito sol. Perto da lua cheia. O melhor autocarro para o atelier do Pedro C. é o 26, em frente ao rapidamente desaparecido Caffè di Roma perto do Saldanha. A exposição será a 14 de outubro de 2004 e terminará a 15 de janeiro de 2005. Teremos em conta somente as obras a partir dos anos 90.

Por vezes fixo uma data, talvez até ao fim da minha vida. E quando chegar um dia antes desse dia, posso lembrar-me sempre de um facto que se lhe prende. Não importa que seja um aniversário. Pode não passar de um gesto, de um rosto que para sempre ficou perdido na distância não só do tempo como de uma rua, de uma sala de museu, de uma loja. Durou segundos, mas traz o traço, a sombra, a luminosidade capaz de se prender pelo que houver de longo na minha vida. Irrompe no exacto dia do aniversário da sua aparição, ou andará próximo desse instante. Nem sempre é um rosto, um corpo, ou um melro morto à beira de um passeio. Um objecto pode ser o senhor desse domínio festivo. Mesmo a morte de um melro ou de alguém amado transporta consigo um sentido de festa, de coisa que se comemora no mais secreto. Neste dia assalta-me sempre o tapete de Samarcanda. Como se descesse no meu pátio vindo dos céus do Uzbequistão.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

MAR DE SETEMBRO/OSTINATO RIGORE

Sobre a mesa os dois livros. Somente um
volume do “Mar de Setembro”, mas do “Ostinato
Rigore”, três exemplares. O meu, o do Manuel, o
do Joaquim. No final do dia ainda se juntaria

um outro, o do José Manuel Bulhão Martins.
Comprados nessa manhã na Guimarães; os três
decidiam-se pelo novo título, eu permaneci fiel,
até hoje, ao mar de setembro. Nenhum deles tinha

a minha relação com o mar, por isso viam no
verso de Eugénio um jovem a trabalhar a terra
vermelha do verão – o seu tronco, o vigor da argila vermelha do verão
mas o mar de setembro dava-me o melhor nadador
de agosto, o que perseguia desde maio até às marés vivas
o apelo absurdo da beleza
o espaço de tempo de um relâmpago

«com o rosto para sempre perdido / com o sorriso e
a sua tez dourada» algum de nós disse, mas nenhum
o chegou a escrever nas folhas que se espalhavam
sobre as mesas de fórmica.

João Miguel Fernandes Jorge

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

CONVERSANDO

Olhamos lá longe, uma guerra que nos torna pesados os dias.

Começámos a viver com mais dificuldades.

Cabe-me as idas ao supermercado, á loja de frutas e vegetais dos nepaleses no prédio ao lado. A dúzia dos ovos a 2,40 euros, por Agosto ainda me lembro de os pagar a 2,10 euros.

- Como é isto, Chiva?...

- Senhor, faço a mesma pergunta ao fornecedor…

Os poemas de desamor de Pavese:

Para todos a morte tem um olhar.
Virá a morte e terá os teus olhos.
Será como abandonar um vício,
como ver no espelho
ressurgir um rosto morto,
como escutar lábios fechados.
Mudos, desceremos ao abismo.

Um lamento desenhado por João Miguel Fernandes Jorge, no dia 21 de Dezembro de 2012, uma sexta-feira:

 «Quando nos perdemos, resta o passado. O que já não existe é então a porta do caminho. Não porque me tenha perdido de outro, mas somente porque me deixei ficar, esquecido de mim mesmo entre as folhas de um caderno depois de percorridas muitas frases, como se fossem ruas de uma terra estranha, e entre essas páginas permanecesse semelhante a uma cobra em abandono da pele — concha onde a água já não corre para os lábios.»

domingo, 15 de maio de 2022

OLHAR AS CAPAS


Uma Paixão Inocente

João Miguel Fernandes Jorge

Capa: João Botelho

Edições Cotovia, Lisboa Dezembro de 1989

Conheci Ruy Belo em 1989, após ter publicado os meus primeiros poemas. Um dia, durante um almoço na cantina da Cidade Universitária, Ruy Belo apareceu-me à frente com o tabuleiro da sua refeição. Vinha com ele o Manuel Gusmão, seu colega de curso, que tinha sido quem me publicara dois poemas na revista O Tempo e o Modo.

O Manuel Gusmão disse-me: «O Ruy Belo quer conhecer-te, pois gostou dos teus poemas e falou deles para o Km Zero. Tratava-se de uma folha literária do jornal de Castelo Branco, na qual acabaria por publicar alguns poemas.

A partir desse almoço fomos ficando amigos. Uma amizade que acabaria por perdurar. Por sua sugestão, levou o meu primeiro livro para a Moraes Editores e escreveu o prefácio desse livro.

Ruy Belo era um homem justo, profundamente bondosos. E era, sobretudo, um homem de grande saber.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

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Comprei este 5º volume de As Escadas Não Têm Degraus, num vão de escada, perto da Rua Morais Soares, onde um simpático casal de velhotes, vende de tudo: livros, CDs, DVDs, discos de vinil, revistas, plantas e máscaras para a pandemia.

Lamentavelmente não levava a máquina pelo que terei de voltar a passar para fazer o boneco.

Editados pela Cotovia, As Escadas Não Têm Degraus, eram uma publicação não- periódica dirigida por António M. Feijó, João Miguel Fernandes Jorge, Joaquim Manuel Magalhães.

Segundo explicação, que este volume apresenta, não se trata de uma antologia, apenas um conjunto de ficções inéditas e a ordem pela qual os autores aparecem, foi tirada à sorte, papéis dobrados com o nome de cada autor de dentro de uma caixa negra.

Como podem observar os autores convidados são de primeira água.

O 1º número foi publicado em Janeiro de 1988 com textos, entre outros, de Mécia de Sena, António M. Feijó, Fernando Pinto do Amaral, Gil de Carvalho, João Pinharanda, João Miguel Fernandes Jorge, Joaquim Manuel Magalhães, Jorge Fazenda Lourenço, Joaquim Pinto.

O 2º número foi publicado em Fevereiro de 1990 com textos, entre outros, de Gil de Carvalho, Paulo Teixeira, Helena Barbas, Nuno Vidal, João Miguel Fernandes Jorge, José António Almeida, Fernando Pinto do Amaral, Maria Leonor Telles.

0 3º número foi publicado em Março de 1990 com textos, entre outros, de Fátima Maldonado, Armando Silva Carvalho, Nuno Júdice, Fernando Assis Pacheco, Herberto Helder, Helder Moura Pereira, Mário Cesariny, Paul Celan, Samuel Beckett, António Osório. Sophia de Mello Breyner Andresen, Manuel Gusmão.

O 4º número foi publicado em Janeiro de 1991 com textos, entre outros, de João Miguel Fernandes Jorge, Miguel Esteves Cardoso, Miguel Tamen.

Neste 5º volume, anunciavam-se os autores do próximo volume, que seria o 6º, mas isso não veio a acontecer, a colecção ficou-se por cinco números.

OLHAR AS CAPAS


As Escadas Não têm Degraus

5º Volume
 Direcção: António M. Feijó, João Miguel Fernandes Jorge, Joaquim Manuel Magalhães

Teresa Veiga, Mário de Carvalho, Rui Nunes, Luísa Costa Gomes, Nuno Júdice, Agustina Bessa-Luís, Armando Silva Carvalho, João Miguel Fernandes Jorge, Mari de Fátima Borges, Helena Vasconcellos, Sophia de Mello Breyner Andresen, Maria Judite de Carvalho, Miguel Esteves Cardoso, Alberto Pimenta, José Dinis Fidalgo, Pedro Paixão.
Capa: João Botelho
Livros Cotovia, Lisboa, Novembro de 1991

Há uma palmeira no largo da estação, o que justifica que se lhe chame o Largo da Palmeira, e apanha-se aí o autocarro para a cidade. Mas há quem nunca o tenha apanhado, limitando-se a ficar no banco que está no passeio, em frente de um pequeno relvado que o jardineiro traz bem tratado, bem como os canteiros com uma tulipas e uams roseiras, estas raquíticas, parece que do clima – demasiado sol. Ao fim da tarde, o lugar enche-se de velhos e de pássaros, mas só se ouve o barulho dos pássaros. Isto de abril até ao outono, Depois é a chuva: o barulho da chuva e o largo deserto.
Saí da estação e cheguei ao tal jardim com relva e alguns canteiros. Vi a paragem da camioneta, o poste com a tabuleta indicando o sítio do embarque, mas não havia camioneta. Já esperava que acontecesse uma coisa dessas: o comboio chegou demasiado tarde, a última camioneta já tinha saído; poderia apanhar um táxi, mas este não era um meio de transporte que me agradasse. Estava habituado à ligação comboio-camioneta, e agora teria de esperar toda a noite num banco da estação que a primeira camioneta do dia saísse. Como ninguém estava à minha espera, tanto fazia – excepto para as minhas costas, que saíam sempre maltratadas das viagens.

domingo, 1 de setembro de 2019

NEM TODA A GENTE TEM O MAR EM CASA


Nem toda a gente tem o mar em casa
por setembro
no lento alegre dia de setembro. O mar de Peniche
clareando a luz do dia, um fogo azul. Azul
com seu halo de claridade espalha o azul
sob o peso do dia branco
por setembro
pelo espanto azul claro de setembro
arde azul nos muros de Peniche. Um mar assim
areia dividida deste fogo
desta luz ardendo no terraço
cada vez mais azul onde o azul clarece em azul
onde o sol vai do setembro saindo.
Apenas um mar uma luz única
visível cor atravessada de um azul denso
entre o esplendor do fogo azul sobre a noite quase.

João Miguel Fernandes Jorge

Legenda: pintura de Remo Faggi

segunda-feira, 4 de março de 2019

MAR DE SETEMBRO/OSTINATO RIGORE


Sobre a mesa os dois livros. Somente um
volume do “Mar de Setembro”, mas do “Ostinato
Rigore”, três exemplares. O meu, o do Manuel, o
do Joaquim. No final do dia ainda se juntaria

um outro, o do José Manuel Bulhão Martins.
Comprados nessa manhã na Guimarães; os três
decidiam-se pelo novo título, eu permaneci fiel,
até hoje, ao mar de setembro. Nenhum deles tinha

a minha relação com o mar, por isso viam no
verso de Eugénio um jovem a trabalhar a terra
vermelha do verão – o seu tronco, o vigor da argila vermelha do verão
mas o mar de setembro dava-me o melhor nadador
de agosto, o que perseguia desde maio até às marés vivas
o apelo absurdo da beleza
o espaço de tempo de um relâmpago

«com o rosto para sempre perdido / com o sorriso e
a sua tez dourada» algum de nós disse, mas nenhum
o chegou a escrever nas folhas que se espalhavam
sobre as mesas de fórmica.

João Miguel Fernandes Jorge

Legenda: Eugénio de Andrade

terça-feira, 1 de março de 2016

O QU'É Q"UE VAI NO PIOLHO?


O cinema não é uma paixão inocente. Forma-se através de ideias claras, pois só elas conseguem conduzir a treva a lugar seguro. Chega-se à sua imagem por um caminho de excessos e, se estes são a sua autonomia e independência, também constituem o seu pecado.

João Miguel Fernandes Jorge em O Que Resta Amanhã

Legenda: Marilyn Monroe

quinta-feira, 16 de abril de 2015

OLHAR AS CAPAS


Despeço-me da Terra da Alegria

Ruy Belo
Prefácio: João Miguel Fernandes Jorge
Capa: F.C.
Colecção Forma nº 10
Editorial Presença, Lisboa, 1978

Despeço-me da Terra da Alegria

Os pássaros da noite povoavam
 as tílias desta minha solidão
O juízo severo dos seus olhos
de olhar onde cabia o pensamento
a luz e a sombra de uma geração
precariamente iluminavam uma alma
que punha a salvação no mais profundo sono
Um castanheiro filho descuidado do meio-dia
de uma ramagem lenta e ondulante
sorria com sorrisos litorais
em um jardim em flor do meu desejo
Homenageio aquela primavera
primeira primavera da amizade.
Tudo era pensamento para ele mesmo até
caminhos que não levam a qualquer
parte sabida ou sequer desconhecida.
Belo país da arte eu te saúdo
as imagens levantam-se no ar
e um mundo litúrgico somente imaginado repovoa
as sendas dos amantes verdadeiros
onde as palavras só vinham depois
Põe só a tua mão perto de mim sob os
lobos de pedra em cada capitel
Oceanos de olvido na memória
esse país longínquo donde venho
nuvem de vida sobre a minha morte
Apaga o tempo de uma má reputação
anos de inquietação, de espanto, de vergonha
estrela da minha infância ergue-te de novo
tu que eras para mim o sol a lua
deslumbrante, manhã da existência

(excerto)

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

AINDA POR CIMA SE TEM UM LUGAR GARANTIDO NO CÉU



Em Queluz, 1978, morre Ruy Belo – um tipo porreiro que escrevia uns versos e gostava de futebol.

ENTÃO AGORA VAMOS FICAR SEM O RUY BELO

Quando morre um poeta é fatal a ANOP
«sempre em cima do evento» debita o seu telegrama
tantos anos uma «obra ímpar» etc.
foi assim com o Ruy Belo mas o flash
pedia para não se dar a notícia o que me levou
à conclusão irresistível de que mais uma vez este
se entretinha a reinar aos cowboys
ó Ruy tu mascarado de Jesse James o vingador vingando
as malas-artes da retórica idiota
o que me levou à conclusão irresistível
de que
esperaria mais pormenores para «confirmação da informação»

seguiram-se telefonemas de recurso a localizar em férias
o João Miguel Fernandes Jorge não estava
no Bombarral em casa dos pais não estava na Consolação
Lisboa: ele próprio atende e diz
que o Ruy Belo
foi-se em Queluz de não entende o quê
asma ou parecido há o problema do funeral quando
mas certamente para a aldeia «João» e ele
responde baixo «sozinho» «tinha vindo tratar de una papéis»

a porra da a triste da a caca da vida que levamos sacudida sobre os ombros
passa esse dia do telegrama da ANOP os jornais afinal noticiam
redijo setenta linhas que acompanho com uma chamada de primeira página em
      positivo sobre rede pensando muito na hipótese de um dia um colega meu sacar
      da máquina um telex ou ouvir ao bogophone olha o gajo marchou dá lá recados
e o chefe (o meu sucessor de carteira) breve a «duas colunas com foto» havendo
      apesar de tudo um certo cuidado porque era da «malta»
e tu que eras da malta não tive cuidado nenhum fui um coiro devia esmerar-me
devia mesmo esmerar-me

então agora ficamos sem o Ruy Belo

Fernando Assis Pacheco em Lote de Salvados

PORTUGAL SACRO-POFANO
VILA DO CONDE

O lugar onde o coração se esconde
é onde o vento norte corta luas brancas no azul do mar
e o poeta solitário escolhe igreja pra casar
O lugar onde o coração se esconde
é em dezembro o sol cortado pelo frio
e à noite as luzes a alinhar o rio
O lugar onde o coração se esconde
é onde contra a casa soa o sino
e dia a dia o homem soma o seu destino
O lugar onde o coração se esconde
é sobretudo agosto vendo música raparigas em cabelo
feira das sextas-feiras gado pó e povo
é onde se consente que nasça de novo
àquele que foi jovem e foi belo
mas o tempo a puco e puco arrefeceu
O lugar onde o coração se esconde
é o novo passado a ida pra o liceu
Mas onde fica e como é que se chama
a terra do crepúsculo de algodão em rama
das muitas procissões dos contra-luz no bar
da surpresa violenta desse sempre renovado mar?
O lugar onde o coração se esconde
e a mulher eterna tem a luz na fronte
fica no norte e é vila do conde

Ruy Belo Em Homem de Palavra(s)

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

POSTAIS SEM SELO


A casa é onde temos o coração.

João Miguel Fernandes Jorge

Legenda: pintura de Hendi Malott.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

COMBOIO CORREIO



O comboio correio das 10 da noite partia da
minha terra para Lisboa. Fui tantas vezes
com o meu pai levar as cartas. Esperávamos
na gare. Se havia chuva ouvíamos o apito
quando passava à Granja vindo de Óbidos e

depois de correr o vale de S. Mamede.
O que mais me seduzia era o seu peso o negro
da máquina o movimento do êmbolo a nuvem de vapor
correndo toda a gare. Chegava entre videiras e
pântanos. O chefe da estação de

bandeirinha verde dava o sinal de entrada. Era
o intenso barulho os ferros da travagem
o bater das portas as carruagens verdes
enegrecidas, os castanhos wagons. Máquinas de carvão,
a diesel depois. O degrau de madeira ao

longo da carruagem, o romano nas portas I, II, e III.
Anos depois, já de mim se dizia «um homenzinho»
viajei nesse comboio das 10. Partia de
Coimbra, às cinco horas. Pelos campos do Mondego

a água, a matéria do ferro, confundi
com o caos. Reconheço neste comboio a forma
obscura, a intuição ridícula das imagens. A noite
corria de mistura com a triste lâmpada do
corredor, benefício do mistério, fogo fechado pela

trovoada sobre os campos do arroz, sobre o pinhal de Leiria.
Viajava em segunda. Vinha para casa no natal.
Eu tinha um emblema, vermelho e branco dos suíços,
na lapela do sobretudo. O meu irmão, as mãos
gretadas das frieiras sob umas luvas azuis. No

banco em frente,
uma professora de geografia rezava o terço
atenta à formação do espírito científico nascente.
Descolorido amor humano,
fornalha de comboio, coração das coisas a noite
corria fora e dentro da carruagem verde.

Meu pai estava na gare.
A longa fita de cabedal para fechar, abrir as
janelas. A rede onde pousava as malas.
Os corridos bancos de madeira ficavam na III.
Um guarda republicano cerrava todas as

noites sobre o azul do capote a portinhola.
O traço do comboio separa o céu da terra sob as estrelas
sob o limite da chama
a arte tanta vez a natureza.

João Miguel Fernandes Jorge

Legenda: fotografia tirada daqui. 

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

NUMA CIDADE DISTANTE


Um café onde não entro há vinte
anos. Numa cidade distante o café
ainda existe, mas é um corpo
esboroado e sujo. E desapareceram
os seus antigos clientes.
Um corpo que tive no meu corpo, um
instante  que durou nos meus dias
entre todos os lábios que estiveram
nos meus lábios
e eu não vou de novo descobri-lo
um amarelo que ficou perdido
na poeira do tempo passado e que
nenhum pintor consegue restaurar na
hora presente,
nem pela primavera de um amor futuro.

João Miguel Fernandes Jorge em O Barco Vazio

sábado, 13 de agosto de 2011

POSTAIS SEM SELO


0 que possuo cabe num bolso do casaco e uma viagem
de comboio é sempre tempo de férias.

João Miguel Fernandes Jorge