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segunda-feira, 29 de junho de 2026

STATUS REPORT

sou comarca onde parou de chover

e quem não se lembra da sanguechuva

que foi em tempos este coração

 

já não tenho a vida toda (faço trinta

o mês que vem) e a verdade é que nem

na morte se pôde alguma vez confiar

 

muito mal contado, isso da morte

 

Miguel-Manso em Resumo: a poesia em 2010

terça-feira, 1 de julho de 2025

ATRÁS DA VELHA SÉ

(não trazer os limoeiros do jardim

de novo para o poema)

 

Lisboa já não é suficiente

faz-me falta um povoado sub-regional onde exista

precisamente este quarto musicado, sumido

entre a cal sobreposta dos séculos

 

lugar despojado, despido, eu tenho

fome de não comer, abater o que em mim arvora

permanecer sentado no sangue que cursa

a ribeira deste corpo e um dia secará

 

para que o gato sujo se aborreça

outra e outra vez sobre o muro, à sombra

dos limoeiros


Miguel-Manso

domingo, 30 de março de 2025

POSTAIS SEM SELO


dedico-me ao poema como um homem velho se dedica a um vaso com flores.

Miguel-Manso

Legenda: fotografia de Luís Eme

terça-feira, 11 de março de 2025

HEI-DE LEMBRAR O TIMBRE DE QUANTAS CASAS

hei-de lembrar o timbre de quantas
casas

esse silêncio electrodoméstico que têm
as divisões quando escurece

o número de degraus a porta comum
do prédio modelando a escura matemática
dos sigilos

hei-de lembrar a luz choca
de cada saguão

o tilintar de copos talheres os gritos
anónimos nas traseiras

a velha nespereira dos quintais
que perde folha e fruto sobre o telhado
das garagens

o desejo turvo em que medram as famílias
colonizadas pela televisão

mas hei-de sobretudo bem-dizer
o exacto momento em que o quadro
eléctrico dispara e extingue o que constitui o serão:
esse brilho plasmado pela narrativa
que entretém

alguma coisa dentro de nós
se levanta põe de pé toca o agora
(morada mais encoberta)

até alguém acender o isqueiro dos sentidos
correr a devolver à casa o tangível

Miguel-Manso em Resumo: a poesia em 2013

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

POSTAIS SEM SELO


Dedico-me ao poema como um homem velho se dedica a um vaso com flores.

Miguel-Manso

Legenda: pintura de Van Gogh