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sábado, 15 de agosto de 2020

GRAND COULEE DAM


Como se sabe, no seu discurso de tomada de posse do primeiro mandato, em 1933, o Presidente Franklin Delano Roosevelt propôs ao povo americano um “New Deal”, como forma de ultrapassar os efeitos nefastos da Grande Depressão resultante do “crash” de Wall Street, em Outubro de 1929, que por essa altura ainda se faziam muito sentir em todo o país.

Nas semanas que se seguiram muitas iniciativas e medidas foram anunciadas nos diversos domínios da vida económica e social, algumas delas de inspiração “keynesiana”.

Na parte que agora aqui nos interessa, foi anunciada, logo em 1933, a criação de uma nova Agência Federal, a “Public Work Administration”, na dependência do Secretário do Interior, cujo principal objetivo seria a planificação da construção de obras públicas em larga escala, tais como barragens, pontes, estradas, escolas, etc.

Desta forma, melhoravam-se as infraestruturas do país, com impacto esperado na melhoria da produtividade e na criação de riqueza, dava-se emprego a um número muitíssimo significativo de desempregados e lançava-se dinheiro na Economia.

Uma das primeiras obras anunciadas foi a construção de uma rede de barragens que pudesse aproveitar a enorme força motriz proporcionada pelo rio Columbia, no Estado de Washington, para a criação de energia hidroelétrica e para a irrigação de todos os terrenos da grande região do Pacific Northwest.

A primeira barragem a ser construida, de menor dimensão, foi a de Bonneville, inaugurada em 1937.
A construção da segunda barragem, de superior dimensão, a que foi dado o nome de Grand Coulee, iniciou-se em Julho de 1933 e foi concluída em Junho de 1942.

No seu tempo foi considerada a barragem com maior capacidade de geração de energia hidroelétrica em todo o Mundo e ainda hoje, depois de obras de ampliação realizadas na década de 70 do século passado, é a maior hidroelétrica dos Estados Unidos e a sexta mais potente do Mundo.

Voltando atrás no tempo, em 1937 foi criada uma outra Agência Federal, a “Bonneville Power Administration” (BPA), cujo objetivo era a gestão dessa rede de barragens e a instalação das infraestruturas necessárias para a comercialização da eletricidade gerada.


Aproximando-se a data da inauguração da barragem Grand Coulee, a BPA, com óbvias intenções propagandisticas, decidiu realizar um filme que contasse a história da construção da barragem e evidenciasse, junto do povo americano, a importância histórica dessa obra para a vida económica da nação.

A realização desse filme foi entregue a Gunther Von Fritsch, realizador austro-húngaro a trabalhar no Estados Unidos desde 1930, do qual a História do Cinema não se esqueceu, embora o não coloque em lugar de particular relevância.

Consta que Von Fritsch procurava um narrador para o seu documentário e que foi o musicólogo Alan Lomax quem lhe sugeriu o nome de Woody Guthrie, que não só poderia desempenhar esse papel, como também compor e cantar algumas canções alusivas ao evento, como suporte musical do filme.

Von Frisch concordou, a BPA aceitou e foi proposto a Woody Guthrie um contrato de 12 meses.


Mas eis senão quando algumas vozes se deram conta de quem era Woody Guthrie e bramaram que ter um perigoso esquerdista e agitador sindical à solta nos estaleiros e nos diversos locais da construção, talvez não fosse assim uma muito boa ideia…

A BPA caiu em si e o contrato de Guthrie foi reduzido a um só mês e apenas para compor as canções, afastando-se a ideia de o ter como narrador…

Mas talvez tivessem feito mal porque, como hoje se diz, Woody Guthrie acreditou no projeto e levou muito a sério a sua curta missão

Não se poupou a esforços e, como ele próprio escreveu, viu “the Columbia River and the big Grand Coulee Dam from just about every clift, mountain, tree, and post from wich it can be seen”.

Ele sabia que a construção da barragem dava emprego a muita gente que dele precisava, que a eletricidade traria melhores melhores condições de vida à população rural, que um sistema de irrigação mais perfeito iria permitir alargar em muito as áreas de plantação, possibilitando, 
dessa forma, oportunidades de ocupação para os migrantes dos estados do Sul que debandavam Califórnia e os estados do Norte em busca de trabalho nos campos…


Apenas não sabia, porque os Estados Unidos ainda não tinham decidido entrar na II Grande Guerra, que a energia produzida por essa barragem iria permitir o desenvolvimento da indústria do alumínio nessa região, a qual foi fundamental para a construção de barcos, aviões e outros equipamentos de guerra.

Num só mês Woody escreveu 26 canções e, sendo verdade que algumas foram apenas novas letras para músicas já existentes, quatro ou cinco das originais são do melhor que alguma vez escreveu.

Nessas canções, Woody não elogiou o Governo, os seus patrões nem a instituição que o contratou…

Elogiou a força da Natureza e a sua capacidade para ajudar o Homem, e cantou a Terra, o rio e os seus afluentes.

Louvou a capacidade do Homem para conceber e realizar uma Obra dessa dimensão, “the biggest thing that man has ever done”, como ele próprio escreveu numa das canções.

Não se esqueceu daquelas quase 3.000 pessoas que trabalharam arduamente de sol a sol para que a Obra pudesse nascer, para bem de todos.


Woody gravou essas músicas em Portland, em Maio de 1941, e todas as matrizes das gravações, bem como os originais das letras, ficaram em poder da BP A, sua legitima proprietária.


Mas, poucos meses depois, os japoneses atacaram Pearl Harbour, o realizador Von Fritsch alistou-se no “Signal Corps” do exército americano e as filmagens foram suspensas.

O documentário só viria a ser concluído muito tempo depois do final da Guerra, em 1949, contendo, apenas, extratos de três canções de Woody: “Roll Columbia, Roll”, “Pastures of Plenty” e “The Biggest Thing That Man Has Ever Done”.

O filme, com apenas 21 minutos de duração, tem interesse histórico e poderá ser visto no YouTube (“The Columbia”, 1949).

Envio-vos um pequeno resumo desse filme, com cerca de 5 minutos, do qual constam todas as partes que contém música de Woody Guthrie.

Mas se esta experiência de um mês como funcionário público foi produtiva para Guthrie em termos artísticos, já não o foi tanto no que respeita à sua vida pessoal.

Terminado o trabalho manifestou à sua mulher, Mary, o desejo de regressar a Nova Iorque, de onde tinham saído poucos meses antes, mas ela respondeu-lhe que estava cansada de andar com a casa às costas a vagabundear de um lado para o outro e se ele, Woody, queria mesmo regressar a Nova Iorque teria de ir sem ela e sem os três filhos.

Woody foi mesmo e, pouco tempo depois, já estava a cantar com Pete Seeger e outros amigos nos “Almanac Singers”, iniciando-se aí uma nova página na música “Folk” de intervenção.

Na conclusão do pequeno filme que vos envio aparece a informação de que “the 26 ballads Guthrie wrote for BPA in 1941 were compiled and released as a collection known today as “The Columbia River Songs”.

Não é verdade…


O disco é este que vos mostro, mas contém, apenas, 17 das 26 canções iniciais.

A explicação oficial é que a BPA, proprietária das matrizes originais e das letras, perdeu esses arquivos (pelos vistos estas coisas não acontecem apenas em Portugal…).

Embora, posteriormente à data da gravação inicial, a maior parte dessas canções tenha sido gravada de novo por Woody em diversas ocasiões, outras não o foram e a sua memória desvaneceu-se…

Conhecendo-se o hábito de Woody, bem como do seu amigo Pete Seeger, de alterar a letra das suas canções em função das necessidades do momento, também não existirá a certeza absoluta de que as versões constantes desta compilação correspondam, integralmente, às da gravação original.

Para acompanhar o texto que acabaram de ler escolhi-vos duas canções, que documentam bem a expectativa com que Woody encarava a construção da barragem:

- “Pastures of Plenty”, interpretada pelo próprio Woody, que evoca o sonho dessa abundância de pastagens que possibilitaria uma ocupação e uma vida mais digna para todos.


- “Roll on Columbia”, hino ao rio e à sua força para permitir que a escuridão se transformasse em luz do dia, aqui interpretada por Country Joe McDonald, nesse álbum de 1969 gravado em perfeito estado de graça que se chama “Thinking of Woody Guthrie”.

Deixo-vos, igualmente, as letras, com o alerta de que nem sempre correspondem integralmente ao que se canta já que, se Woody, neste caso, foi fiel ao que escreveu, Country Joe salta, por vezes, algumas estrofes.

PASTURES OF PLENTY

It's a mighty hard row that my poor hands have hoed
My poor feet have traveled a hot dusty road
Out of your Dust Bowl and Westward we rolled
And your deserts were hot and your mountains were cold
I worked in your orchards of peaches and prunes
I slept on the ground in the light of your moon
On the edge of your city you'll see us and then
We come with the dust and we go with the wind

California, Arizona, I harvest your crops
Well its North up to Oregon to gather your hops
Dig the beets from your ground, cut the grapes from your vine
To set on your table your light sparkling wine

Green pastures of plenty from dry desert ground
From the Grand Coulee Dam where the waters run down
Every state in the Union us migrants have been
We'll work in this fight and we'll fight till we win

It's always we rambled, that river and I
All along your green valley, I will work till I die
My land I'll defend with my life if it be
Cause my pastures of plenty must always be free


ROLL ON COLUMBIA

Green Douglas firs where the waters cut throug
Down her wild mountains and canyons she flew
Canadian Northwest to the oceans so blue

Roll on Columbia, roll on
Roll on, Columbia, roll on
Roll on, Columbia, roll on
Your power is turning our darkness to dawn
So roll on, Columbia, roll on

Other great rivers add power to you
Yakima, Snake, and the Klickitat, to
Sandy Willamette and Hood River to
So roll on, Columbia, roll on

Tom Jefferson's vision would not let him rest
An empire he saw in the Pacific Northwest
Sent Lewis and Clark and they did the rest
So roll on, Columbia, roll on

It's there on your banks that we fought many a figh
Sheridan's boys in the blockhouse that night
They saw us in death but never in flight
So roll on Columbia, roll on

At Bonneville now there are ships in the locks
The waters have risen and cleared all the rocks
Shiploads of plenty will steam past the docks
So roll on, Columbia, roll on

And on up the river is Grand Coulee Dam
The mightiest thing ever built by a man
To run the great factories and water the land
So roll on, Columbia, roll on

These mighty men labored by day and by night
Matching their strength 'gainst the river's wild flight
Through rapids and falls, they won the hard fight
So roll on, Columbia, roll on

PS:

A citação de Woody Guthrie foi retirada do curto texto que acompanha o CD.

Texto de Luís Miguel Mira

quarta-feira, 25 de março de 2020

A GRANDE PIRUETA


Quando aqui vos lembrei que Woody Guthrie tinha escrito na sua guitarra “This Machine Kills Fascists”, veio-me de imediato à memória uma outra história, que também será interessante contar. Mas serão duas as histórias, embora intimamente ligadas entre si, como perceberão.

Há muitos, muitos anos atrás, por ocasião do nascimento das minhas duas filhas mais velhas, costumava ir passar largas temporadas a casa dos meus sogros de então. Tanto eu como a minha mulher trabalhávamos relativamente perto e evitávamos, dessa forma, ter de atravessar duas vezes Lisboa de uma ponta a outra no período terminal da gravidez e no pós-parto.
Embora na altura tivesse uma vida sobrecarregada, porque trabalhava de dia e estudava de noite, nunca deixava de, à chegada a casa, dar dois dedos de conversa com o meu sogro, Francisco de Freitas Santos. Da sua vastíssima cultura e experiência de vida, aprendia sempre qualquer coisa.

Um dia, no meio de uma dessas conversas,  desafiei o Freitas Santos a ir comigo ver o “Ninotchka”, do Ernst Lubitsch, não me lembro se à Cinemateca, à Gulbenkian ou a qualquer sessão tardia de fim-de-semana mas, para o caso, também não importa...

Ao contrário do que era habitual nele, o Freitas, comunista de longa data,  reagiu mal ao convite  e disse-me que não tinha grande pachorra para ir ver filmes reacionários.

Um pequeno parêntesis para recordar, a quem não viu o filme ou já não se recorda, que, a traços muito largos, a história gira à volta de um grupo de adoráveis Camaradas soviéticos  que, primeiro sozinhos e depois  chefiados pela boa da Greta Garbo, vêm a Paris, em missão oficial da URSS,  para tentar vender uma coleção de joias “nacionalizadas” durante o período da Revolução. É escusado dizer que a Chefe se apaixonou perdidamente pelo galã  do filme, Melvin Douglas, e que todos os Camaradas se renderam, incondicionalmente, aos prazeres do “capitalistic  way of live”…

Voltando ao meu sogro, continuei a conversa e, puxando um cordelinho ali e outro acolá, rapidamente me apercebi que o bom do Freitas Santos nunca tinha visto o “Ninotchka” na vida e que a sua reação era consequência de um preconceito que lhe ficara da época da sua exibição em Portugal.

Em boa verdade, tal como o “Casablanca” foi durante muitos meses, no Politeama, pretexto para manifestações anti-fascistas de uma parte da assistência, que se levantava e cantava a “Marselhesa” em coro com o filme, é bem provável que parte da Imprensa portuguesa da época se tenha servido do “Ninotchka” para atacar o regime soviético, provocando aquela reação de repulsa por parte dos comunistas que o Freitas, quarenta anos depois, ainda tinha bem guardada dentro de si.

Para o convencer, lembro-me de lhe ter tentado explicar duas coisas: quem eram os autores do filme e o contexto muito particular em que este tinha sido escrito e realizado.


Em relação a Lubitch, o realizador,  ter-lhe-ei explicado que foi um dos primeiros a emigrar para os EUA, ainda antes da ascensão do Nazismo, tendo obtido enorme êxito e tendo-se distinguido por ter sido, em Hollywood,  um dos que mais se esforçaram por apoiar, na sua integração e obtenção de trabalho nos Estados Unidos,  os refugiados que fugiam do regime Nazi, sem qualquer distinção de nacionalidade, credo político ou religioso. E que era, também (mas isso o Freitas sabia...), o realizador de “To Be Or Not To Be” (1942) de que ele tanto dizia gostar, juntamente com “O Grande Ditador”, de Chaplin, as maiores sátiras ao Nazismo alguma vez saídas dos estúdios americanos...  

De Billy Wilder, responsável pelo cenário do filme em colaboração com Charles Brackett, ter-lhe-ei talvez dito que tinha fugido ao nazismo em 1933, imediatamente após o incêndio do Reishtag, e que , juntamente com Frank Tashlin e Jerry Lewis, terá sido um dos cineastas que, de forma mais caustica e contundente, criticaram o “american way of live” entre os anos 40 e os anos 70. 

Quanto a Charles Brackett, se tivesse nesta matéria uma posição muito distinta da de Wlder, dificilmente teria sido o seu fiel companheiro na escrita dos seus filmes, como o foi até 1950.  Só não lhe disse, porque então ainda não sabia, que Bracket era, na altura da conceção de “Ninotchka”, o Presidente da “Screen Writers Guild”, uma associação que à época era considerada um perigoso ninho de  esquerdistas... 

Esses três homens (para só falar neles…) eram o que na altura se chamava liberais anti-fascistas, e nenhum deles poderia ser considerado um “perigoso reacionário”. E se visto o filme com atenção, o modo de vida “capitalista” também não fica muito bem tratado em “Ninotchka”...

A realidade é muito diferente, e aqui terá de entrar o tal contexto...

Estes homens (e tantos outros como eles, na América daqueles tempos…) estavam muito bem informados acerca do que se passava na Alemanha. Viam familiares, amigos ou simples conhecidos ser humilhados, desprovidos dos seus bens, deportados e tantas vezes assassinados nos campos de concentração e assistiam, com alguma incredulidade e repulsa, à forma passiva e, segundo eles, conivente como os Estados Unidos e a União Soviética toleravam esse estado de coisas.

E, na lógica da então chamada “politica de apaziguamento”, foram dois os acontecimentos históricos que iriam transformar essa animosidade em ódio, sobretudo em relação à União Soviética: o Tratado de Munique, de Setembro de 1938, que traçou o destino da Checoslováquia, que seria invadida seis meses depois, e o Pacto Germano-Soviético, de Agosto de 1939, que estabeleceu o princípio da “não agressão” entre as duas potências e legitimou a invasão, por ambas as partes, da Finlândia e da Polónia.

Ora, gritavam eles então, não só a União Soviética - a grande defensora da Liberdade - não os ajudava, como se aliava ao próprio inimigo, com o beneplácito das restantes grandes potências europeias. E enquanto tudo isto se passava, os Estados Unidos assobiavam para o lado…
“Ninotchka” estreou-se nos Estados Unidos em Novembro de 1939, tinha a Guerra começado há pouco mais de dois meses. Foi um filme pensado,  escrito e realizado neste contexto e só dentro dele conseguirá ser devidamente compreendido.

Não se tratou de um ataque deliberado aos fundamentos do Estado Soviético nem à ideologia Comunista, mas sim de um grito de revolta de alguns homens angustiados e impotentes face à situação que viviam, que não tiveram outra solução senão expressar-se através da sua Arte.
Recordo-me de ter gasto todo o meu “latim” em vão e que esta minha tentativa de explicação não comoveu, na altura, o meu sogro, e muito menos o demoveu da sua ideia de não me acompanhar ao cinema.

Mas também me recordo muito bem, com saudade,  de, uns anos depois, o ter obrigado a ver, finalmente, “Ninotchka” na televisão, comigo ao lado. E parece que ainda o estou a ver, sentado no grande cadeirão ao fundo da pequena sala com o seu roupão azul escuro, a fazer um enorme esforço para conter, a custo,  as suas sonoras gargalhadas.

É que “Ninotchka” é uma melhores comédias de sempre do cinema americano.


E assim se conclui a primeira história.

Passemos à segunda...

Já vimos como estava a situação nos Estados Unidos nas vésperas da eclosão da II Grande Guerra Mundial e quando esta foi, formalmente,  desencadeada  (1 de Setembro de 1939, na sequência da invasão da Polónia).

Embora algumas vozes, sobretudo judeus e uma certa  Esquerda não alinhada com o Partido Comunista Americano, defendessem ser imperativa a participação dos Estados Unidos no conflito, o Congresso e a maioria da população eram contra esta intervenção. O Presidente Roosevelt era a favor, mas tinha de se submeter...

Em coerência com a orientação seguida por todos os Partidos Comunistas na sequência do Pacto Germano-Soviético, a posição assumida pela União Soviética era apoiada e o Partido Comunista Americano era um dos principais defensores da não intervenção.

Como vimos nos dois textos anteriores, a canção era, nesses tempos, um excelente veiculo de propaganda das ideias, e não é de estranhar que um agrupamento Folk fortemente ligado ao Partido Comunista, chamado “The Almanac Singers”, de geometria variável mas constituído, em inícios de 1941, em torno dos suspeitos do costume (Woody Guthrie, Pete Seeger, Josh White, ...), tivesse aproveitado a oportunidade do lançamento do seu primeiros disco (“Songs for John Doe”, Maio de 1941) para fazer passar essa mensagem de pacifismo e de isolacionismo face ao conflito.

Em particular uma das músicas desse disco, “Billy Boy”, iria tornar-se  o verdadeiro manifesto do “não-intervencionismo”. Vale a pena dar a conhecer a sua letra:

“Will you go to the war, Billy boy, Billy boy?
Will you go to the war, charmin’ Billy?
It’s a long ways away, they are dying every day
He’s a young boy and can not leave his mother

Can you use a bayonet, Billy boy, Billy boy?
Can you use a bayonet, charming Billy?
No I haven’t got the skill to murder and to kill...
He’s a young boy …………………………………………..

Don’t you want a silver medal, Billy boy, Billy boy?
Don’t you want a silver medal, charmin’ Billy?
No desire to I feel to defent Republic Steel...
He’s a young boy……………………………………………….

Don’t you want to see the world, Billy boy, Billy boy?
Don’t you want to see the world, chamin’ Billy?
No it wouldn’t  be much thrill to die for Dupont in Brazi...l
He’s a young boy………………………………………………….

Girls would like your uniform, Billy boy, Billy boy
Girls would like your uniform, charlin’ Billy
They wouldn’t have much chance to love me with six feet of earth above me...
He’s a young boy………………………………………………………

Are you afraid to fight, Billy boy, Billy boy”?
Are you afraid to fight, charlin’ Billy?
You can come around me when England’s a democracy...
He’s a young boy………………………………………………………

Will they take you from my side, Billy boy, Billy boy?
Will they take you from my side, charming Billy?
Don’t you worry Mother dear, I’m a-satyin’over here...
He’s a young boy.………………………………………………………

Nem é preciso comentar. A letra é bem explícita.

Mas o manifesto não iria resistir muito mais tempo...

Em 22 de Junho de 1941, fazendo tábua rasa do Pacto de Não Agressão, a Alemanha invadiu a União Soviética  e a situação alterou-se radicalmente. Da noite para o dia o Partido Comunista Americano abandonou o isolacionismo e passou a defender, abertamente, a intervenção no conflito.

E poucos meses depois, a 7 de Dezembro de 1941, os japoneses atacaram Pearl Harbour e os Estados Unidos entraram oficialmente na Guerra.

 Os Almanac Singers, claro está, viram-se em muito maus lençóis. Alguns dos possuidores de “Songs For John Doe” destruíram propositadamente as suas cópias e os membros do grupo esforçaram-se por encontrar e destruir também todos os exemplares que ainda se encontravam em vias de distribuição, o que fez com que este disco se tornasse  uma das peças mais raras e mais procuradas pelos colecionadores de Folk Music.  Embora todas as suas sete canções façam parte da maioria das coletâneas dos Almanac que têm sido editadas ao longo dos tempos (deixo-vos um exemplo), o disco em si tornou-se muito difícil de obter.  

Mas os Almanac Singers, embora envergonhados,  não pararam e, num ápice, estavam a lançar um novo disco (“Dear Mr. President”, de Fevereiro de 1942)  e a cantar novas canções anti-Hitler e a favor do esforço de guerra, numa das piruetas mais famosas da história da Música Folk.  A mais célebre dessas músicas, “Round and Round Hitler’s Grave”, com base na música de “Old Joe Clark”, de Woody Guthrie, reza assim (vou abreviar, que o texto já vai longo):

“Now I wished I had a bushel
Wished I had a peck   
Wished I had old Hitler
With a rope around his neck

Hey! round, round Hitler’s grave
Round, round we go
Gonna lay that poor boy down
He won’t get up no more

Mussolini won’t last long
Tell you the reason why
We’re a-gonna salt his beef
And hang it up to dry

Hey! round, round Hitler’s grave
Round, round we go
…………………………………
………………………………….

Ou seja, em poucos meses o nosso “charming Billy”,  que não sabia usar uma baioneta, não ambicionava medalhas, não desejava ver o mundo e apenas queria ficar em casa a tomar conta da mãezinha já se via na Alemanha a enforcar Hitler e  a festejar aos saltos à volta do seu túmulo…!  

Mas não foi apenas esta música. Todo o “Mr. President” surge quase como um pedido de desculpas em relação a “Songs For John Doe”...


Só outro exemplo rápido, para não vos incomodar mais: em “Ballad of October 16th”, de 1941,  Roosevelt era massacrado por ter assinado o “Conscription Bill”, isto é, a Lei que impôs o serviço militar obrigatório aos jovens com idades compreendidas entre os 21 e os 30 anos, a primeira vez que tal acontecera nos Estados Unidos em tempos de paz; em “Dear. Mr. President”,  a “talk-song” lançada alguns meses depois, alguém escreve ao Presidente elogiando e incentivando o seu esforço de guerra  e a confessar que até já parou de discutir com a sogra, porque a ajuda dela também é necessária para se ganhar a guerra…!:

“………………………………………………
………………………………………………..
Now Mr. President, we haven’t always agree in the past, I know
But that ain’t important now
What is important is what we got to do
We got to lick Mr. Hitler, and untill we do
Other things can wait
War means overtime and higher prices
But we’re all willing to make sacrifices
Hell, I’d even stop fithing with my mother-in-aw
‘Cause we need her too to win the war
……………………………………………………………
……………………………………………………………
So Mr. President, we’ve got this one big job to do
That’s lick Mr. Hitler and when we’re through
Let no one else take his place
To trample down the human race
So what I want is you to give a a gun
So we can hurry and get the job done”

Teria esta gente de pedir desculpa por todos estes equívocos e por todas estas “piruetas”...?
Eu julgo que não…. Erros seus, má fortuna, Amor ardente…

Mas Pete Seeger entendeu que sim… Na página 22 de  “Where Have All the Flowers Gone – A Singer’s Stories, Songs, Seeds, Robberies”, uma quase autobiografia através das suas principais canções publicada em 1993, ele confessa-nos o seguinte:  

“At any rate, today I’ll apologize for a number of things, such as thinking  that Staline was simply a “hard driver” and not a supremely cruel misleader”

Moral da(s) história(s), porque há sempre uma em todas as histórias:  nunca vejas uma obra de Arte, seja de que natureza for, com os “óculos” de hoje. Para a compreenderes, terás de a situar no seu espaço, no seu tempo e no seu modo... 

PS: 
Existem muitas coletâneas de música Folk relacionadas com a II Grande Guerra. Deixo-vos aqui uma das melhores, de fácil acesso

Texto de Luís Miguel Mira

Legenda: fotograma de Ninotchka

domingo, 5 de novembro de 2017

SEI QUE POSSO CONTAR CONTIGO


Por cauda das composições do Guthrie, a minha visão do mundo estava a tornar-se profundamente apurada. Disse a mim mesmo que iria ser o maio discípulo. Parecia valer a pena. Eu até parecia parente dele. Mesmo à distância, nunca tendo visto o homem, podia com nitidez discernir a cara dele. Não é diferente do meu pai quando era jovem. Sabia pouco do Woody. Nem sequer tinha a certeza de que ainda estivesse vivo. O livro faz com que ele pareça uma personagem de um passado longínquo. Whittaker, contudo, pôs-me a pare dele. Disse que ele andava doente lá para o este e fiquei a pensar nisso. Nas semanas que se seguiram, voltei algumas vezes a casa d Lyn para ouvir aqueles discos. Um por um, comecei a cantá-los todos, sentia-me ligado a diversos níveis àquelas canções. Eram cósmicas. Uma coisa é verta, Woody Guthrie nunca me tinha visto ou ouvido falar de mim, mas parecia estar a dizer-me «Hei-de ir-me embora, mas deixo esta tarefa nas tuas mãos. Sei que posso contar contigo».

Bob Dylan em Crónicas

domingo, 29 de outubro de 2017

UMA BOMBA DE UM MILHÃO DE MEGATONELADAS


A única canção que me tinha mantido agarrado à Leeds Music, a que convenceu John Hammond a levar-me até lá não era nem por sombras uma canção extraordinária. Era um tributo em letra e melodia ao homem que marcou o ponto de partida da minha identidade e destino – o grande Woody Guthrie. Escrevi a canção com ele na cabeça e usei a melodia de uma das suas antigas canções, não tendo a mínima ideia de que seria a primeira de provavelmente mil canções que eu escreveria. A minha vida nunca mais foi a mesma desde que em Minneapolis, há uns anos, ouvi Woody num gira-discos. Quando o ouvi pela primeira vez foi como se caísse uma bomba de um milhão de megatoneladas.

Bob Dylan em Crónicas

Legenda: Woody Guthrie. Na guitarra pode ler-se: «Esta máquina mata fascistas.»